quinta-feira, março 26, 2009

Vincent

Vincent, procuras salvar
a cadeira do seu destino do fogo
fazes rodopiar pincéis
nos campos de trigo e nos ângulos
da noite do teu coração
arde Arles na tua casa amarela
Tu logras sempre capturar a luz
espalhada em qualquer coisa
No vento, nas lâminas do sol
dos girassóis, nos teus cabelos fulvos
Na paleta as cores expulsam
a solidão das tuas planícies
como arrepiam nos teus olhos
os dias de verão e as noites estreladas.

quarta-feira, março 25, 2009

Haiku, no Porosidade Etérea

Nenúfares no lago:
uma mesa que Deus põe
a flutuar no vidro.

(a participação de Poeta Salutor)

A Inês Ramos escolheu apenas um haiku por participante para ser gravado em áudio pelo diseur Luís Gaspar.






terça-feira, março 24, 2009

Excerto do poema Tulips, Sylvia Plath

(...)
Perdi-me de mim e estou farta da minha bagagem-
Minha mala de couro aberta toda a noite como caixa de pílulas,
O marido e os filhos sorrindo no retrato de família;
Os seus sorrisos entram na minha pele, pequenos anzóis risonhos.

(Trad. J.T.Parreira)

segunda-feira, março 23, 2009

A poesia do desespero

Via A Ovelha Perdida, o destaque para o suicídio do filho de Sylvia Plath

Now I have lost myself I am sick of baggage-
My patent leather overnight case like a black pillbox,
My husband and child smiling out of the family photo;
Their smiles catch onto my skin, little smiling hooks.

(Sylvia Plath)

domingo, março 22, 2009

sábado, março 21, 2009

Dia Mundial da Poesia

Num dia assim


Num dia assim
Iria para a rua com os bolsos
Preparados para receber as mãos
Sem destinatários da minha simpatia

Num dia assim, iria para a rua
Para estar comigo nos outros, com os dedos
Resolvidos a fazer grandes coisas

Tocar o cabelo das crianças, se isso
Não fosse pedofilia, amar
O próximo como a mim mesmo

Entrar com o jornal do dia
Um bilhete de comboio
Numa Ópera, pisar o chão de uma livraria
Onde toda a gente se acha doutorada

Num dia assim
Talvez passe por entre as esplanadas
Que estendem a primavera
Na cidade.


21-3-2009

Dia Mundial da Poesia

Iremos publicando, ao longo do dia, poemas nossos, inéditos, construídos no momento e inspirados em imagens. Eis o segundo ( escreve no Ovelha Perdida, o poeta Brissos Lino):


O cachimbo de Neruda

O cachimbo de Neruda conhece
por dentro
a voz muda que percorre
o peito do poeta
quando sente a terra e as gentes

conhece o sabor
das palavras que sabem a mar
e sofrimento
conhece até os pensamentos alados
e calmos
de quem vê para lá
das águas.

(Brissos Lino , 21/3/09)

sexta-feira, março 20, 2009

Nécrologie




Van Gogh morreu no outro dia
um tiro
em Auvers estoirou a luz
ondulante das searas, um tiro
na cabeça de Van Gogh
as asas dos corvos
espantaram o azul.




quarta-feira, março 18, 2009

jack kerouac, haikais ocidentais

quatro haikais ocidentais


A chuva pesada
afunda-se no mar
Inútil, inútil.
*

Um imenso floco
de neve
Que desce sozinho.
*

Meio-dia,
as portas da garagem
Crescem sobre os cadeados
*

Aqueles pássaros empoleirados
sobre aquela paliçada
foram todos morrer.
*

(Trad. por Anderson Fonseca)


in Revista Confraria do Vento, nº 24
ver link no título

segunda-feira, março 16, 2009

Ezra Pound na jaula

Only shadows enter my tent
As men pass between me and the sunset
Ezra Pound, Canto 80


O poeta atrás da rede
num cubo de zinco e aço
aperta os seus passos

Conta os passos
e as tiras de metal
contra o céu azul
e a lâmpada ferindo os olhos
e a noite

O poeta tira os seus papéis
do canto da penumbra
na jaula improvisada
o poeta estende em Pisa
os seus Cantos

Entram somente sombras
na sua cela, à volta a erva
cresce golpeando o vento.

2/2009

domingo, março 15, 2009

Escribir, segundo Juan Manuel Bonet

Escribir-como se nada fuera importante-
el sencillo irse de las horas
sentado en la terraza de un café
de una provincia española.
Escribir, como si estuviera escrito
que el ruido de esas tazas sobre el mármol
tuviera que pasar el arroyo claro
de unos versos.
Escribir, como si nada fuera.

(Juan Manuel Bonet)

Escrever

Escreva - como se nada fosse importante -
o simples deslizar das horas
sentado no terraço de um café
provinciano.
Escreva, como se estivesse escrito
que o ruído das chávenas sobre o mármore
passa o regato claro
de uns versos.
Escreva, como se nada fora.

(Trad. J.T.Parreira)

&&&&&&&&&&&&&&&

POEMA INÉDITO ( SALA DE LEITURA)
Aqui: http://poetasalutor2.wordpress.com/

sexta-feira, março 13, 2009

Jacob


Um anjo forçou-lhe as coxas
no ribeiro, prendeu nas mãos
num dédalo perfeito
sem saída, o corpo de Jacob

Buscavam-se os dois
olhos nos corpos
à procura de uma porta para o céu
anjo e homem, sentidos em vigília

Buscavam-se os dois
certamente em círculo
espiaram a aurora
na água que corria.

quinta-feira, março 12, 2009

A noite fez das suas

“A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos.”
(António Ramos Rosa, Poema dum funcionário cansado)

A noite fez das suas
baralhou de novo os dados
da situação
comprometeu a clareza lógica
do excesso solar
os sonhos arredondaram-me as mãos
e o rosto
a noite fez-me ver para lá
do espelho
das vaidades.

11/3/09

(Brissos Lino)

terça-feira, março 10, 2009

Waltz



“Não há muito a dizer de uma valsa”
Maria Pragana


Não há muito a dizer sobre uma valsa
e tanta coisa se liga
a um corpo dançando com o outro

Os dançarinos passeiam por campos vazios
na sua cabeça, mãos nas mãos
atirando para longe o frio

No vento
o vestido é uma chama
queimando.

8/3/2009

segunda-feira, março 09, 2009

Poeta Salutor 2

Iniciei em Word Press nova aventura na publicação de poemas inéditos, datados a partir de 2009. Também inserirei textos de crítica literária e traduções.

Ver aqui http://poetasalutor2.wordpress.com/

domingo, março 08, 2009

Os Limites

hay un espejo que me ha visto por última vez
Jorge Luis Borges

Há um espelho que não sabe
onde estará teu rosto
há a lâmpada com que feriste
pela última vez teus olhos
há a música que não tardará
a encontrar outros ouvidos
há uma última noite em que os sonhos
ficarão nas galerias, solitários
Pela última vez
há um pássaro que parte
o silêncio que há no ar
Há um dia que se fecha na morte.

1985

quinta-feira, março 05, 2009

Ambigüedad de la catástrofe: Ángel González

Lo había perdido todo:
amor, familia, bienes, esperanza.
Y se decía casi sin tristeza:
?no es hermoso, por fin, vivir sin miedo?

(Ángel González, "Nada Grave", livro póstumo, 2008)


Ele havia perdido tudo:
amor, família, haveres, esperança.
E ele disse quase sem tristeza:
não é bonito, por fim, viver sem medo?

(Trad. J.T.Parreira)

quarta-feira, março 04, 2009

O Grupo Poético de Aveiro e José Régio

Parte do GPA, sob os olhares da máquina fotográfica e do Régio. Alguns intérpretes e poetas, Rosa Maria Oliveira, Aida Viegas, Orlando Figueiredo e o editor do Poeta Salutor.

terça-feira, março 03, 2009

Mostrar o coração

I showed my heart to the doctor: he said I just have to quit.
Leonard Cohen


Abri o meu coração para o médico, gráficos
atropelando as batidas do sangue- o médico disse
que embora os exames
não mostrassem indícios
havia solidão, ele mostrou o perigo
de se ter um amor maior do que a idade
a que podemos chegar Por fim
mostrou-me como trabalha
ainda o sopro divino.

segunda-feira, março 02, 2009

The Desolate Field /Vasto e Cinzento, o céu

Vast and grey, the sky
is a simulacrum
to all but him whose days
are vast and grey and --
In the tall, dried grasses
a goat stirs with nozzle searching the ground.
My head is in the air
but who am I . . . ?
-- and my heart stops amazed
at the thought of love
vast and grey
yearning silently over me.
(William Carlos Williams)


Vasto e cinzento, o céu
é uma imagem
para todos menos para ele cujos dias
são vastos e cinzentos e –
Nas ervas altas, ressequidas
uma cabra agita-se
com o focinho procurando o chão.
Minha cabeça está no ar
mas quem sou eu...?
-- e meu coração maravilhado pára
num pensamento de amor
vasto e cinzento
saudoso em silêncio sobre mim.

(Tradução de J.T.Parreira)

sábado, fevereiro 28, 2009

Despertar precoce no campo

All wished to leave this drying crust
Robert Lowell


Desejam todos deixar esta crosta terrestre
ressequida, nas asas delicadas
como de abelha, como um dardo de mel
lançar um voo sensual
capaz de haurir o doce
infinito de uma flor.

28/2/2009

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Segurar um manuscrito


Minhas mãos agora adormecem
sobre a beleza
do que descrevo

parece que a morte
as quer apertar
num punho

o meu toque já foi soberano
sobre o papel, já vi o afã
do aparo frágil sobre a folha

e o rápido movimento dos olhos
apanhar as palavras
antes da queda final.

21-2-2009

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Mickey Rourke, the wrestler


Em passo angélico no ar
cair no tapete, era bom nisso
causar problemas à seriedade
de Hollywood, fazia isso naturalmente
foi estúpido dizer
que representar não era trabalho
para um homem a sério
depois de tanta pancada
a minha memória tem muito
espaço.
23/2/2009

Poesias para felídeos, para ler aqui

Do Lat. felis, gato + Gr. eîdos, forma. Com certeza porque é das poucas criaturas que reune em si a cultura greco-romana em uma só forma.

sábado, fevereiro 21, 2009

Condução perigosa

Gregory Corso, um católico tomista intenso, apesar da sua poesia beat.


Na noite passada guiei um carro

Sem conhecer como conduzir
sem possuir um carro
Eu conduzi e atropelei

pessoas que amava
... ia a 120 pela cidade.

Parei ao lado de flores silvestres
e dormi no banco de trás
... excitado com a minha nova vida.

(Trad. J.T.Parreira)


Last night I drove a car

Last night I drove a car
not knowing how to drive
not owning a car
I drove and knocked down

people I loved
...went 120 through one town.

I stopped at Hedgeville
and slept in the back seat

...excited about my new life.

(Gregory Corso)

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Antologia para o fim-de-semana




Se Morrer

Se morrer num dia de chuva
cantai a chuva
Se morrer num dia de sol
cantai o sol
cantai as nuvens as estrelas
cantai cantai
Se morrer e houver luar
fazei do mundo uma planície verdejante
com estrelas penduradas nas árvores
todas as manhãs

(Orlando Jorge Figueiredo, 1996, Presidente do Grupo Poético de Aveiro)

Como destruir uma palavra gira
Free Portugal
Free Port
Freeport
Freepor
Free
F…
…ogo!
(Brissos Lino, 19/2/09)

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Camilo Pessanha

Quem quebrou
a sua mesa de pinho, tosca
e a rasgou
como se fosse um lençol de linho?
Quem arruinou os altos
girassóis
quem os partiu
hastes de um sol exíguo?
Quem dissolveu a neve
no sangue acidulado do seu vinho
e apagou depois
a brancura do caminho?
Quem passeava a sombra
nas janelas, o frio
que no vento começou
quando o lume se extinguiu?

5-2-2008

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Aproximadamente, solidão

Edward Hopper, Stairway at 48, rue de Lille, Paris, 1906

Tudo o que é
ela própria
aqui está, a casa
com suas luzes
e problemas, os velhos
hábitos
a subirem pelas escadas

A hesitante solidão
a partir da noite
Tudo o que é
ela própria
um cubo de cimento, quartos
onde se sonha
num espaço angustiado.

13/2/2009

sábado, fevereiro 14, 2009

O cão de Giacometti

Sou eu. Um dia me vi na rua assim. Um cão.
Alberto Giacometti


O cão da melancolia
procura qualquer coisa, põe o faro
paciente no chão
pescoço longo em baixo como uma tristeza
para pendurar as orelhas

O cão de Giacometti vê
as coisas
de barriga para baixo

O cão cabisbaixo, indiferente
a alegorias
flutua na arquitrave
dos seus ossos

O corpo leva as patas joviais.
14/2/2009

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Diário dos ladrões do Templo


No templo Ele encontrou os homens vendendo
bois, ovelhas e lágrimas
e o brilho súbito
das pombas
aqueles que trocavam perdão
à cotação do dia.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Receita para fazer um soneto

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara
E espere um instante ocasional
Neste curto intervalo Deus prepara
E lhe oferta a palavra inicial

Aí, adote uma atitude avara
Se você preferir a cor local
Não use mais que o sol da sua cara
E um pedaço de fundo de quintal

Se não procure o cinza e esta vagueza
Das lembranças da infância, e não se apresse
Antes, deixe levá-lo a correnteza

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
Dentro da escuridão a vã certeza
Ponha tudo de lado - e então comece.

(Carlos Pena Filho)

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

A Visita


Trazia o corpo
arrastado nos sapatos
gastos, com uma história
de buracos negros sucessivos

Os seus silêncios
eram de incenso, o cheiro divino
do lume

e as suas mãos tinham dedos infrangíveis
para tocar as notas da chuva
que bate nos vidros

Trazia os olhos naturais
neles não havia fundo, vogavam
apenas como se espalhassem um perfume.

9/2/2009

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Haiku

o vento insurrecto
rodopia nas pessoas
quebram-se vaidades.


(Helena F.Monteiro)

in Resist(ir) Assim, Poesia a Doze, Editorial Minerva, 2000

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Assuntos de Família

Gunther Grass, escritor, Nobel da Literatura, enquanto poeta aderiu na década de 40 ao Movimento Expressionista, também andou pelas tertúlias do surrealismo. Depois afastou-se. No entanto, existe um poema que exprime bem ambos os movimentos, sobretudo o Expressionismo. É também um autêntico libelo contra o Aborto. No original, o poema denomina-se Familiär:
No nosso museu - vamos todos os domingos-,
inauguraram uma nova secção.
Nossos filhos abortados, embriões pálidos e sérios,
encolhidos em redomas de cristal,
preocupados com o futuro dos seus pais.
(Trad. do alemão e espanhol, por J.T.Parreira)

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Tempo lento

Fotografia in Rua dos Dias que Voam


Cresci
numa cidade no tempo
em que os homens eram usados
para entregar leite
e pão,

como família
batiam às portas,

alguns cavalos
num bailado equestre
cuidavam da logística
estrumavam as ruas e ninguém
reciclava o vidro, não havia
plástico para sobreviver
ao homem,

as frutas triunfavam
dos cinzentos sacos de papel
nada era eterno
mas quase perfeito
nada
estava perdido.

1/2/2009

sábado, janeiro 31, 2009

O poeta no desemprego


(Paráfrase de um poema de Charles Bukowski)


Há muitos portugueses licenciados em literatura
Que sonham ser Andrade
Ou Jorge ou Campos
Quando a melhor coisa a que podem
Chegar é ser óptimos
Caixas nas lojas Pingo Doce.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Metropolitano

(c) Myron Heise, Subway Sonata, painting

Pessoas à espera
há algum tempo
que as linhas tremam

todos pensam nas composições
como, se há lugares
a lotação esgotada

todos pensam apanhar
a porta mais
à mão

ninguém quer perder a luz
que vem do fundo
do tunel.
29/1/2009

quarta-feira, janeiro 28, 2009

O Lirismo da Classe Média americana morre

Ontem, já o NYT noticiava: morreu o romancista e poeta John Updike, 76 anos. O mesmo jornal fazia a classificação do autor de Corre, Coelho, Corre como o escritor lírico do homem da classe média. Um dia descreveu turistas, da classe média?, em visita aos «grandes navios verdes» ( metonímia exuberante) que são as ilhas dos Açores. Há mais de trinta anos, Jorge de Sena traduziu e publicou esse poema.

Açores


Grandes navios verdes
eis que navegam
ancoradas, para sempre;
sob as águas

enormes raízes de lava
prendem-nas firmes
a meio do Atlântico
ao passado.

Os turistas, pasmando
do convés
proclamam aos guinchos lindas
as encostas malhadas

de casinhas
[confettis] e
doces losangos
de chocolate [terra].

(excerto)

in Poesia do Século XX, Editorial Inova, Porto, 1978

terça-feira, janeiro 27, 2009

Hamlet on stage


Hamlet chega ao palco no nevoeiro sonha
Hamlet é um jovem príncipe perturbado
O espectro surge do lado do mar
Passeia a macia talha de lã
Da sua túnica Hamlet muda
De rosto a máscara alegre
Sai do seu lugar e carregado
Agora de nuvens e presságios
De morte surge no palco
Nenhum espelho lhe remete
Respostas ao ser e não ser.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Novo poema da América



*Mapa das estradas de 1961


Para Barack Obama

«América dei-te tudo e agora não sou nada.
América quando serás tu angélica?»
Allen Ginsberg



Mas fica a saber América-
O chão moveu-se debaixo
dos nossos pés, um sismo
de vozes ancestrais turbilhonou
placas teutónicas suavemente
juntaram as nações, as distâncias
emendaram corações próximos
para a ternura, América
fica a saber – o sol vai brilhar
de novo nos quatro cantos do mundo
América, vai ser outra coisa.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Novos Cantares

Gustav Klimt



Os seios da Amada como os templos
comunicam
os mistérios divinos

São duas fontes
de onde já correu o leite
perfumado da primeira aurora

O peito da Amada encerra
tesouros profundos, o coração
é um delta de diamantes

Enriqueceu dias áridos
na espera febril dos lábios
inocentes dos filhos

que dormiram entre luas perfeitas
e beberam, como um sol bebe
as águas que secam sobre a terra.

14-10-2008

terça-feira, janeiro 20, 2009

O primeiro poema expressionista-Jakob van Hoddis


Famoso poema, publicado em revista em 1911. É considerado o primeiro expressionista.
Optamos por uma tradução a partir do inglês, sem usar a rima, mas procurando pelo menos manter a dicção do verso com motivos expressionistas, adequada à visão irónica e grotesca desse movimento artístico da primeira década do Século XX.

O Fim do Mundo (Weltende)

Um chapéu voa destapando um burguês.
Todo o ar ressoa como um grito.
Aterram os telhados e quebram-se em dois.
A costa- lê-se nos jornais-está cheia das marés.

A tempestade aí está, o tropel dos oceanos
desembarca e esmaga os grossos diques.
A constipação de muita gente vê-se no nariz,
e os comboios caem nos túneis.

(Trad. de J.T.Parreira)

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Balanços (II)

3 idiomas para um só poema

Steinway & Sons

Três pernas do Steinway
elevam uma sinfonia
de pássaros nas veias

acima do soalho
esbeltas
pernas do Steinway

como a mulher
escutada lentamente
no seu vestido negro.

2007

domingo, janeiro 18, 2009

A Cidade do Poema


(Arranjo fotográfico de Gustavo Parreira)

A cidade do poema não tem
ruas fechadas
basta soltar a voz
libertar o coração no horizonte

nenhuma palavra é estrangeira
nenhum pensamento bizarro
nenhuma emoção verdadeira
nenhum som queima como cigarro
aceso à soalheira

na cidade do poema
à sombra da árvore das palavras
todo o chão é sagrado
à sua maneira.

16/1/09

(Brissos Lino)

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Dia-D


Homens e peixes esperam
nas pequenas colinas
do mar

mãos carinhosas virão
como vieram as nuvens baixas
e o vento dançando nas águas.

16/1/2009

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Um poema de um Amigo

AMIGO
Ao amigo J. T. Parreira

Um amigo ata as pontas soltas
do tempo
desenleia o novelo
da distância
valoriza as migalhas na mesa
do prazer
protege as costas na esquina
dos desencontros
e tece um sonho comum

um amigo custa caro
o salário da vida toda.

14/1/2009

Poema de Brissos Lino

terça-feira, janeiro 13, 2009

Lição para fazer uma poesia


CANCIÓN 51

En un verso de ocho sílabas
?qué no cabrá,
si es una y tan sólo en ella
cabe el mar?

Ocho sílabas son muchas
para cantar.
Me basta una que tenga
por dentro el mar.

(Rafael Alberti)





CANÇÃO 51

No verso de oito sílabas
o que não caberá?
se em uma e tão só nela
cabe o mar?

Oito sílabas são muitas
para cantar.
Chega uma que tenha
dentro o mar.

(Trad.JTP)

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Na Universidade Sénior, Setúbal



Apresentação do livro de poesia “Os Sapatos De Auschwitz”,
em Setúbal, na Universidade Sénior (aula de poesia)
e Palestra no Clube Setubalense, 14 de Janeiro, às 15 horas.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Os olhos de Vincent



Que não havia música nos teus olhos
só dois pontos verdes, azuis, roxos
debaixo da sombra das pálpebras

Era aí que guardavas as telas
que deslumbravas com o trigo
o negro dos corvos

É o que sabemos agora, face aos despojos
da tua vida

Não havia música nos teus olhos
só sombras nos lábios
Era aí que pintavas a cor da tua morte
Rústica sobre as searas.


8/1/2009

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Companheiros da Ilha




Ponhamos uma pedra sobre o assunto
sobre a ilha
Depois de tanto tempo, Companheiros
ainda temos Ítaca nas mãos e sal
nos olhos, façamo-nos ao mar

Ao mar
azul e ferido pelo bico das gaivotas

Carecemos da mente
que está no firmamento
das estrelas estendidas
sobre o mar?

A noite aveludará nosso sono
e o amor será um alvor no horizonte

Contra os ventos de Éolo, o embalo
das vagas nos poisará na praia
aos pés de Ítaca.

21-12-2008

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Kaddish por nós


Quando eles nos mataram
a nossa cinza falou por nós
quando mataram nossos filhos tivemos mais
quando mostraram as nossas mulheres nuas
nossos olhos fecharam para sempre
houve cidades em que o vento
não trazia pássaros
mas cinzas.


5-1-2009

sábado, janeiro 03, 2009

Balanços (I)

Há 2 anos FAMIGERADO, revista electrónica de literatura & adjacências, publicava-nos traduções de Charles Bukowski e Giuseppe Ungaretti.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

El Cante


Por ouvir Camarón de la Isla


Finca os pés no tablado
bate, esparge uma língua de vento
apalpa nas palmas
das mãos com detalhes
o silêncio

A música segura os olhares
e os ouvidos, sobe
o corpo moreno

até à varanda de cravos
mais alta de um pátio
andaluz, alguém triste
nos seus sonhos
rasgará la luna.

20-12-2008

quinta-feira, janeiro 01, 2009

"Carta a Saramago" por causa de ninguém morrer

« México, D.F., 15 de enero de 2008
(Enviada a su domicilio en Lanzarote, Islas Canarias)

Sr. José Saramago:

Por diversos medios he buscado decir mi verdad. Busco justicia ante un atropello.

Yo no sé si a usted le hicieron llegar las ideas o el texto de mi cuento como si fuera anónimo. O quizá a usted le ayudaron a redactar su novela. Quizá nunca se imaginó que detrás de ese texto había un ser humano, un mexicano de carne y hueso que generó originalmente planteamientos, argumentos, expresiones que a la postre aparecieron en su novela. Quizá, quizá, quizá... pero finalmente al firmar esa obra usted se convirtió en el responsable de haber derivado una obra literaria de otra original sin la debida autorización y eso señor constituye un delito.

Es así como su novela Las intermitencias de la muerte se basó en mi cuento ¡Últimas noticias!, el cual dentro de una colección fue debidamente registrado ante las autoridades del derecho de autor desde 1986.

¿Por qué recurrió a este artificio que mancha su reconocida trayectoria?
¿Por qué?

Quisiera una respuesta.

¿Cómo fue todo esto posible? ¿El señor Sealtiel Alatriste le hizo llegar el texto o se lo presentó como una fabulosa idea original? ¿Qué papel cumplió su agente literario?

No permita que el tiempo nos rebase. Lo invito a confesar la verdad.

Es muy posible que a mí me inunde la tristeza y la desazón, mas puedo levantar la frente con orgullo. ¿Usted puede dormir tranquilo?

Teófilo Huerta Moreno »
(Autor do conto "Últimas Notícias")


in saramagoplagiario.blogspot.com

terça-feira, dezembro 30, 2008

Ezra Pound, Pedro e Inês


CANTO XXX (Excerto)

Time is the evil. Evil.
A day, and a day
Walked the young Pedro baffled,
a day, and a day
After Ignez was murdered.
Came the Lords in Lisboa
a day, and a day
In homage. Seated there
dead eyes,
Dead hair under crown,
The King still young there beside her.


CANTO XXX

O tempo é o mal. Mal.
Um dia, e um dia
Andava desorientado o jovem Pedro,
um dia, e um dia
Depois de Inês ser morta.
Chegam de Lisboa os Nobres
um dia, e um dia
Em homenagens. Sentada ali
olhos mortos,
Cabelo morto sob a coroa,
E lá o Rei ainda jovem a seu lado.

(Trad.J.T.Parreira)

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Harold Pinter, 10/10/1930 — 24/12/2008

A Poesia de Pôr em Cena de Harold Pinter

A obra poética de Pinter, de reduzida dimensão, mistura a dramaticidade com a fala coloquial, quase sem importância, mas com amplos e profundos significados. Diria, quase que esticando um pouco a corda da análise pessoal, que alguns dos seus poemas são em si mesmos trechos de material que se pode encenar. Alguém comentou já que a sua poesia não é poesia, no sentido que atribuímos a esse artefacto literário que é o poema. Essa afirmação não poderá ser tida como definitiva.
A poesia de Harold Pinter carrega em si a mensagem que reflecte um mundo ameaçador e violento, feito das contradições da nossa sociedade e da natureza humana. Como afinal acontece na sua obra dramatúrgica, fazendo da mesma uma das mais importantes do século XX, a meio caminho entre o teatro poético, na poesia da vida quotidiana, e o teatro do absurdo. Pinter não teve de facto as suas personagens à espera de Godot, as suas personagens não esperam nada, o fundamental das mesmas, são as falas sem nenhum significado dos actores. O que nos parece poder intuir-se, salvo melhor opinião, na mediatizada fala de duas personagens, marido e mulher, de uma das suas peças. O marido que pergunta à mulher o que toma, que bebida quer tomar:
-Somos casados há dez anos- responde ela, e apenas isso.
A poesia, alguma poesia de Pinter, também abre várias perspectivas para outros tantos caminhos, apesar de algum laconismo. São poemas para descobrir também os ambientes fechados. Pinter faz com que os poucos poemas que escreveu, comparativamente às suas peças, e tal como estas, revelem o abismo que existe nas conversas ôcas das personagens, nos espaços mais variados das relações humanas em sociedade ou no interior da home. A sua poesia é também «pinteresque», aparentemente usa a língua sem nada comunicar. Mas é o que nos parece... É paradigmático, este já nosso conhecido poema:

Restaurante


Não, você está errado.

Todos são tão belos
como podem possivelmente ser

Particularmente ao almoço
no restaurante que ri

Todos são tão belos
como podem possivelmente ser

e são movidos
pela sua própria beleza

e derramam lágrimas por isso
no fundo do taxi para casa.

(Textos já publicados aqui em Dezº 2006)


To My Wife

I was dead and now I live
You took my hand

I blindly died
You took my hand

You watched me die
And found my life

You were my life
When I was dead

You are my life
And so I live

Harold Pinter
June 2004

quinta-feira, dezembro 25, 2008

A Festa


Só o boi e o jumento comparecem.
E os anjos em multidão
já não desferem o cântico
- que é o céu caindo na noite.

Na grande hospedaria do azul,
no mundo, ou apenas em metade
do mundo, as manjedouras dormem
vazias.

As mãos dos homens sentem
o que faz o coração, fecham
as janelas de Belém
uma vez mais sobre os ruídos.
Sobre quem passa preso à vida.

1992

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Uma poesia de Adrian Mitchell

Beatriz tem três anos
No alto da escada
Peço-lhe a mão. Sim.
Dá-me a mão.
Escondo-a até ao pulso
Com a minha palma,
Um pequeno volume consolador.
Tomamos todo o tempo
Para descer a íngreme
escada alcatifada
Desejando eu em silêncio
Que a escada não tenha fim.

(Traduzida da Revista Prometeo, Medellín, 2001, por JTP)

domingo, dezembro 21, 2008

Morreu o poeta inglês Adrian Mitchell


O poeta Adrian Mitchell, cujas obras sobre guerra nuclear, Vietname e racismo eram cantadas em manifestações da esquerda, morreu aos 76 anos de idade, informou a AP.


To Whom It May Concern

I was run over by the truth one day.
Ever since the accident I've walked this way
So stick my legs in plaster
Tell me lies about Vietnam.

Heard the alarm clock screaming with pain,
Couldn't find myself so I went back to sleep again
So fill my ears with silver
Stick my legs in plaster
Tell me lies about Vietnam.

(Excerto)

quinta-feira, dezembro 18, 2008

O Cão de Ulisses




E agora alguém chega
dá por si
a desatar os longos laços
da memória, sombras
que foram passando no sol
do relógio, e olha
à sua volta
um cão ergue a cabeça e as orelhas
sobre o estrume, um cão
que morde no silêncio
nos olhos de Ulisses.

18/12/2008

terça-feira, dezembro 16, 2008

Colored


O, yes,
I say it plain,
America never was America to me,
And yet I swear this oath—
America will be!

(Langston Hughes)

Oh sim,
Eu que o diga com clareza,
A América nunca foi América para mim,
E, não obstante, prometo sob juramento-
A América vai ser!

(Trad. J.T.Parreira)

domingo, dezembro 14, 2008

O Salmo dos Degraus


Eu vejo-os pelos ombros, cordeiros
atados nas cordas da mudez.
Aguardam a sonolência da morte.
Vão pelas sombras, curvando
a solidão nas suas costas,
sobem não tendo horizontes
senão as nuvens,
não têm poços, nem estrelas
como orvalho que entretece o céu.
Os caminhantes percorrendo os montes
tenho-os visto, pequenos
orifícios nos sapatos
que pisam caminhos sem regresso.

12/12/2008

quinta-feira, dezembro 11, 2008

1922 do nascimento da Literatura da Existência

A segunda década do século XX começaria fragmentada. «Quais são as raízes que estão presas, que ramos crescem\ Neste amontoado de pedras?» perguntava o poeta T.S.Eliot no poema dramático «TERRA SEM VIDA», que, dizem alguns, teria sido originalmente pensado como obra teatral e acabou por ser escrito como uma collage poética; e outros que se trata do mais famoso dos poemas modernos, editado em 1922.
A Primeira Guerra Mundial terminara em 11 de Novembro de 1918, as ruínas da velha Europa foram herdadas e entraram pela nova ainda algum tempo depois.
O grande poema de 433 versos de Eliot é a visão do mítico Tirésias, um velho cego, que vê e nos ensina a ver o passado e o futuro no pensamento, na imaginação, misturando memória e desejo.
Era «Um monte de imagens quebradas, onde o sol bate », a imagem que a Europa oferecia ao filho do homem do fim da primeira década do século XX.
Multidões caminhando em círculo, diz o poeta no verso 55º, é bem a imagem da desorientação do homem num mundo em ruínas, ruínas da moral, do que é suposto ser verdade, das relações, ruínas que são o amálgama religioso com os seus sincretismos, de ontem e de hoje. O poeta precisa a visão dessa multidão de homens: «Uma multidão fluia sobre a Ponte de Londres, tantos, \ Eu não pensava que a morte tivesse destruído tantos.» A Bíblia Sagrada desde a Queda apontou esse tipo de morte na humanidade, homens mortos espiritual e psicologicamente. E tanto o pós-guerra da I como o da II Guerra Mundial, nos apresenta no quotidiano essa humanidade sobrevivente, solitária e «demente» à procura de razões e de valores, em demanda de si própria.
Passadas já mais de oito décadas, causas e feitos continuam as mesmas, sendo que hoje a recusa ao divino e aos valores espirituais, éticos e morais, assumiram moderníssimas e sofisticadas formas.

O SEGUNDO TÍTULO, «ANABASE»

O título desta obra poética de Saint-John Perse, publicada em 1922, é uma palavra grega que em síntese significa «expedição para o interior», ou que se associa a escalada até ao imo de algum lugar.
Este poema inteiriço e disposto em 10 partes é uma peregrinação a partir do mar, das origens, para dentro do próprio homem, do seu entendimento como humanidade. É a arquitectura do ser humano a partir do chão, do solo, onde se fundou. «Estabelecendo-me com honra sobre três grandes estações, auguro bem do solo onde fundei a minha lei », desde o início nos confere, quanto a nós, a dimensão dos primeiros passos do homem na terra, até à sublimidade do projecto para que o homem fora criado, em qualquer circunstância, para viver e se espalhar:
«Homens, gente de poeira e de qualquer figura, gente de negócio e de lazer (...) gente dos vales e dos planaltos e dos mais altos declives deste mundo(...) farejam indícios, sementes e confessam desalentos a oeste; seguem pistas, estações, erguem tendas no vento leve da aurora; ó prospectores de pontos d|água na crosta do mundo(...).
O mundo e a peregrinação do homem, a sua escalada da base de uma solidão afastada do divino por incorrer na desobediência e no primeiro pecado, no Éden, para onde? O início das primeiras ruínas a partir do assassínio de Abel, é o que podemos entrever neste poema como o lugar atingido. Tal peregrinção é, contudo, uma belíssima tentativa não lograda de alcançar um lugar onde o sol esteja mais perto. «Depois de tanto tempo a caminharmos para oeste » o que é que o homem do século XX conseguiu?

ELEGIAS DE DUINO, RAINER MARIA RILKE

Os motivos condutores, como se diz, da obra poética de Rilke, «o último dos poetas imortais», são Deus e a Morte. Estas duas matrizes continuam a revelar-se nas Elegias, que o poeta de expressão alemã compôs no castelo de Duíno, perto de Trieste, sobre o mar Adriático, e revelam-se como em imagens presas que trazia em si há muito, e que a hecatombe da I Guerra Mundial, principalmente, terá feito eclodir em poesia que atingiu o estatuto de mítica. Iniciado em 1910 e completado também em 1922, o conjunto das Elegias repete o canto preocupado do escritor. Publica as suas elegias três anos antes de morrer com leucemia, em 1926.
«Que fazes tu, poeta? Diz! - Eu canto | Mas o mortal e monstruoso espanto | Como o suportas, como aceitas? - Canto.» (Trad. Jorge de Sena )
Clamor solitário ante a hecatombe, como alguém escreveu, os seus poemas a partir daquela data afastam-se, perceptivelmente, do Deus da Bíblia Sagrada, sobre o Qual tão bem canta nos poemas de anos muito anteriores, de antes da Guerra.
Estes são meditações religiosas nas quais se harmonizam um catolicismo do sul, por ser de cultura austríaca, e um protestantismo de Alemanha do Norte, ambos no entanto com uma visão sobre Deus. «Só quando desdobram as asas| é que despertam qualquer vento: | Como se Deus, com as suas largas | mãos de estatuário, passasse | as folhas do escuro Livro do Princípio ». (do poema Os Anjos, trad. Prof.Paulo Quintela) ou do «Livro de Horas» (1902): «ETERNO, a mim vieste revelar-Te.|(...)| Leio então novas de ti: o Evangelista | escreve por toda a parte da tua eternidade.»
As Elegias são, na verdade, de outro lugar, são um espelho interior partido porque reflecte a realidade que o poeta observou. Pedaços de espelho que reflectem, afinal, com estética e com alguma crueza, todos os momentos do real, espaços, mulheres, homens, anjos. Um dos versos mais profundos da primeira elegia, exprime isso, e torna-se mesmo uma dicotomia ligando o belo e o terrível: «o belo apenas é o começo do terrível ».

«ULYSSES», DE JAMES JOYCE, 8OO PÁGINAS DE UMA VISÃO

Escorado numa ficção que recorre aos dias e trabalhos de Ulisses e de outras personagens da Odisseia, de Homero, em pé sobre as mesmas ruínas dos primeiros vinte anos do século XX, James Joyce escreve uma admirável, polémica e, por vezes, impenetrável obra literária, que o ano de 1922 vê à luz enevoada e fria de Fevereiro em Paris, onde o escritor então se radicou. Ulysses é, talvez, a única e verdadeira obra total do século passado, pois abarca o poema, o drama, a comédia, o ensaio, o sermão, a ópera. O mundo pôde ver-se aí retratado, desde as ruínas da I Guerra que deixou a Europa viúva (1917) até ao começo dos anos vinte frivolos e fáceis (1921), datas entre as quais o livro foi escrito.
No entanto, Ulysses nada tem a ver com essa terrível guerra, o seu leitmotiv e suas alusões às ruínas da Europa são outras.
Desde logo as ruínas da hipocrisia anglo-saxónica - o livro foi proibido por ser alegadamente pornográfico. Depois, uma alusão a ruínas de um relacionamento, o do confronto de duas raças que já prosseguia na Europa, a raça judia ( do protagonista Leopold Bloom ) e os europeus. Finalmente, ruinas ocultas na aparente inocência de um dia como outro qualquer dia, um dia vulgar - o dia 16 de Junho de... 1904; o jornal de Dublin, The Irish Times, desse dia anunciava, na realidade, coisas diversas: notícias sobre a guerra Rússia-Japão; a agitação do mercado bolsista na América por causa do aumento de capital de uma grande empresa, a Southern Pacific; 500 pessoas, principalmente crianças, que morreram num incêndio a bordo de um barco a vapor nas águas do East River, no porto de Nova Iorque; um julgamento mediático do crime de adulteração de leite; etc.
Mas é no decurso de um dia semelhante ao mais vulgar dos dias, que a vida de um homem e de uma cidade se desenrola, sem desgraças nem eventos excepcionais, numa profecia dos tempos cinzentos, da apatia e do tédio com a Europa entorpecida a preparar as verdadeiras ruínas da I Guerra e, depois, os anos em que os ovos da serpente do bolchevismo, do fascismo e do nazismo iriam ser postos a chocar. No entanto a volumosa e invulgar obra, do ponto de vista da narrativa convencional, foi escrita na Europa Continental entre 1914 e 1921. James Joyce agarrou a Odisseia de Homero e modernizou-a e deu às suas personagens uma cidade do mundo real, Dublin, que está, como se sabe, numa ilha.

EPÍLOGO

Vastos territórios da literatura da existência, como alguém lhes chamou, estas quatro obras publicadas entre os despojos do mundo saído de uma grande guerra terrível, em 1922 lançaram as bases para o homem se pensar a si próprio, mas não desligado do divino, ainda que a gramática da escrita e do pensamento pudesse indiciar o contrário, isto é, um ateísmo por princípio, que não foi o caso, felizmente para a grande literatura do século XX.
Ano de publicações-chave para a literatura mundial com a qual se contribuiu para uma análise do homem e visão do mundo, do ano de 1922 bem se pode dizer, fazendo côro com T.S.Eliot, que com estes fragmentos de beleza escoramos nossas ruínas. Ainda que para novas ruínas.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Equivocou-se a pomba


Se equivocó la paloma.
Por ir al norte, fue al sur.
Rafael Alberti



Em círculos brancos,
reflectiu-se na água, voava
a pomba equivocada ,

o seu beiral , o seu balcão,
são agora
o largo mar,

entre o sul e o norte,
no círculo de lume, o sol
a ofuscava.

Se equivocava a pomba
de girassol, voava perto
aquecendo as asas.

8/12/2008

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Exercício de escrita

Devo rever os versos
pede-me o mar no corpo
a morrer.
Porque são pobres
os livros junto à boca
nada dizem sobre a árvore
que dentro de mim avança.

Este dia é preciso, como exercício
de paciência,
de outro modo não acharei o voo
certeiro
límpido e veloz
que falta para o som
da mudança.

(Rosa Maria Oliveira)

Poema do livro da autora, O Voo da Enxada, edição da Junta de Freguesia de Vera-Cruz, Aveiro, 2004, pp. 12.

domingo, dezembro 07, 2008

Penélope


Não embarcaste nas naus
de sólida madeira.

Nem foste à fortaleza
de Tróia,
ficaste em casa a dobar
o tempo e a fiar
a malha suave que teu corpo
guarda,
virtuosa rocha de Ítaca.

E puseste véus brilhantes
para esconder nos olhos
a lágrima brilhante
das saudades,
pensavas que em Tróia perdeu
Ulisses
a nave do regresso.

terça-feira, dezembro 02, 2008

A Casa no deserto


A casa estava assim, anos
a fio como o deserto, dançava
nas miragens do sol derramado
às vezes brancura, outras vezes
areia, alguém chamava de longe
depois de meses ao sabor das dunas
alguém erguia os olhos
entre véus de vento, a casa
estava no meio das tempestades
das estrelas, assim nua
e desejada.


(Depois de ler Le Clézio, 11/2008)

domingo, novembro 30, 2008

sábado, novembro 29, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (8)



MORNING SUN

Se um dia partires
de Ítaca, que seja por romperes
o manto que fizeste nos teus olhos
Sobre os telhados o ar
será mais leve
Nem Lestrigões nem Ciclopes
estarão à espreita nos degraus
do sonho
Se um dia partires de Ítaca
que não seja pelo desânimo,
que não seja
mais que pela riqueza do caminho.

28-11-2008