quinta-feira, abril 09, 2009

O Poeta

Inédito do meu caro colega de trabalho de poesia, há 37 anos.


Coração que vê
o silêncio
olhos que sentem
um fogo aceso
mãos que escutam
o improvável
ouvidos que afagam
horas de solidão
alma sensível
a lágrimas alheias

sempre atento a esta condição
nua e humana
a este chão incerto
que não pára de se mover
doloroso e aflito.

9/4/09

(Brissos Lino)

Autógrafos (4)

Virna Teixeira (2006)

segunda-feira, abril 06, 2009

A menina do casaco vermelho


Ninguém baixou os olhos, todos
olham a linha de um horizonte
de lenços, bonés, capacetes
de aço, quase tropeçam
na ave que desliza no chão
com plumagem vermelha.


Tão perto de botas e sapatos
que já pisaram o risco da morte
a menina leva no bolso um mistério
ninguém sabe mas a inocência
da vida desliza como uma menina
de casaco vermelho.

6/4/2009

sexta-feira, abril 03, 2009

HAIKU (4)



1.

Nas folhas do livro
Que se abre no Outono
Reaprende a cidade.

(J.T.Parreira)


3.

A mão nos olhos
protege o coração
do vento do sul.

(Brissos Lino)


quinta-feira, abril 02, 2009

Dia do Livro Infantil, com um poema


CRIANÇAS QUE OLHAM OS DRAGÕES

Como as crianças que olham os dragões
os meus olhos ainda se espantam
quando as nuvens passam
num retrato de família
as cores umas às outras
e são algodão
doce e carrosséis

como as crianças que olham
para os dragões, ainda me surpreendo
com nenúfares que põem a mesa
nos rios

Como as crianças que olham
os dragões, os meus olhos
prendem-se aos gestos
das netas e dos netos, e o tenso coração
é uma sombra do que foi
até isso me admira
por causa das Tuas maravilhas.

2-4-2009

HAIKU (3)

O silêncio pousa
sob a pedra da montanha
onde uma águia morre.

(J.C.Brandão)

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Haiku inédito em http://poetasalutor2.wordpress.com/

quarta-feira, abril 01, 2009

HAIKU (2)

1.

A janela filtra
a colmeia humana
solta na rua.

(Brissos Lino)

2.

O silêncio voa:
Águias por cima dos vales
Onde as presas tremem

(J.T.Parreira)

terça-feira, março 31, 2009

segunda-feira, março 30, 2009

Limpeza feita na Primavera

Quadro de Magritte


Spring is like a perhaps hand

arranging a window,
into which people look

e.e.cummings


Primavera é como a mão
que termina onde começam as flores
(que vêm cuidadosamente
de lado nenhum) e manda
numa janela, antes fechada
e agora espirra sol e pólen
em que as pessoas mudam
os seus olhos e modos
de falar sobre as coisas.

sábado, março 28, 2009

Se a depressão é hereditária ou não, como sabê-lo?


A poeta e o filho Nicholas, em 1962

Se a depressão é hereditária ou não, como sabê-lo? O que é possível, sim, é lamentar o suicídio de Nicholas Hughes, filho dos poetas Ted Hughes e Sylvia Plath que, como recordamos, deprimida pelo rompimento com seu marido tomou a decisão de se suicidar, com gaz, na sua sua casa de Londres.
Nicholas Hughes era um conhecido ambientalista e investigador da fauna marinha no Alaska. Diz-se que durante muitos anos foi injuriado – sobretudo por organizações feministas- por ter alegadamente contribuido com as suas infidelidades para o suicídio de sua mulher.

Quando Sylvia Plath se suicidou tomou a precaução de tapar com toalhas molhadas as frinchas da porta da cozinha, para não afectar os seus pequenos filhos Nicholas e Frieda, de um e dois anos de idade, respectivamente, os quais deixou aconchegados e a dormir no quarto ao lado, com bolachas e um copo de leite para cada um. Apesar de toda a atenção mediática que o caso recebeu, o marido Ted Hughes manteve oculta a verdade aos seus filhos até à adolescência de ambos.
Seis anos depois de Fevereiro de 1963, como se se tratasse de um pesadelo recorrente, a companheira do escritor, Assia Wevill, também se matou da mesma forma que Sylvia: intoxicando-se com gaz, só que nessa ocasião também morreu a filha de Ted e Assia, Shura.

Por causa do dramatismo desta história familiar – que foi inclusivamente transportada para o cinema, com o filme Sylvia, interpretada pela actriz Gwyneth Paltrow -, muitos dos comentários giram mais em torno dos suicídios do que em volta do talento literário de Sylvia e de Ted, que morreu de cancro em 1998.

( Magda Díaz Morales, in Blog Apostillas Literarias)
Trad. de Poeta Salutor

quinta-feira, março 26, 2009

Vincent

Vincent, procuras salvar
a cadeira do seu destino do fogo
fazes rodopiar pincéis
nos campos de trigo e nos ângulos
da noite do teu coração
arde Arles na tua casa amarela
Tu logras sempre capturar a luz
espalhada em qualquer coisa
No vento, nas lâminas do sol
dos girassóis, nos teus cabelos fulvos
Na paleta as cores expulsam
a solidão das tuas planícies
como arrepiam nos teus olhos
os dias de verão e as noites estreladas.

quarta-feira, março 25, 2009

Haiku, no Porosidade Etérea

Nenúfares no lago:
uma mesa que Deus põe
a flutuar no vidro.

(a participação de Poeta Salutor)

A Inês Ramos escolheu apenas um haiku por participante para ser gravado em áudio pelo diseur Luís Gaspar.






terça-feira, março 24, 2009

Excerto do poema Tulips, Sylvia Plath

(...)
Perdi-me de mim e estou farta da minha bagagem-
Minha mala de couro aberta toda a noite como caixa de pílulas,
O marido e os filhos sorrindo no retrato de família;
Os seus sorrisos entram na minha pele, pequenos anzóis risonhos.

(Trad. J.T.Parreira)

segunda-feira, março 23, 2009

A poesia do desespero

Via A Ovelha Perdida, o destaque para o suicídio do filho de Sylvia Plath

Now I have lost myself I am sick of baggage-
My patent leather overnight case like a black pillbox,
My husband and child smiling out of the family photo;
Their smiles catch onto my skin, little smiling hooks.

(Sylvia Plath)