segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Mickey Rourke, the wrestler


Em passo angélico no ar
cair no tapete, era bom nisso
causar problemas à seriedade
de Hollywood, fazia isso naturalmente
foi estúpido dizer
que representar não era trabalho
para um homem a sério
depois de tanta pancada
a minha memória tem muito
espaço.
23/2/2009

Poesias para felídeos, para ler aqui

Do Lat. felis, gato + Gr. eîdos, forma. Com certeza porque é das poucas criaturas que reune em si a cultura greco-romana em uma só forma.

sábado, fevereiro 21, 2009

Condução perigosa

Gregory Corso, um católico tomista intenso, apesar da sua poesia beat.


Na noite passada guiei um carro

Sem conhecer como conduzir
sem possuir um carro
Eu conduzi e atropelei

pessoas que amava
... ia a 120 pela cidade.

Parei ao lado de flores silvestres
e dormi no banco de trás
... excitado com a minha nova vida.

(Trad. J.T.Parreira)


Last night I drove a car

Last night I drove a car
not knowing how to drive
not owning a car
I drove and knocked down

people I loved
...went 120 through one town.

I stopped at Hedgeville
and slept in the back seat

...excited about my new life.

(Gregory Corso)

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Antologia para o fim-de-semana




Se Morrer

Se morrer num dia de chuva
cantai a chuva
Se morrer num dia de sol
cantai o sol
cantai as nuvens as estrelas
cantai cantai
Se morrer e houver luar
fazei do mundo uma planície verdejante
com estrelas penduradas nas árvores
todas as manhãs

(Orlando Jorge Figueiredo, 1996, Presidente do Grupo Poético de Aveiro)

Como destruir uma palavra gira
Free Portugal
Free Port
Freeport
Freepor
Free
F…
…ogo!
(Brissos Lino, 19/2/09)

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Camilo Pessanha

Quem quebrou
a sua mesa de pinho, tosca
e a rasgou
como se fosse um lençol de linho?
Quem arruinou os altos
girassóis
quem os partiu
hastes de um sol exíguo?
Quem dissolveu a neve
no sangue acidulado do seu vinho
e apagou depois
a brancura do caminho?
Quem passeava a sombra
nas janelas, o frio
que no vento começou
quando o lume se extinguiu?

5-2-2008

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Aproximadamente, solidão

Edward Hopper, Stairway at 48, rue de Lille, Paris, 1906

Tudo o que é
ela própria
aqui está, a casa
com suas luzes
e problemas, os velhos
hábitos
a subirem pelas escadas

A hesitante solidão
a partir da noite
Tudo o que é
ela própria
um cubo de cimento, quartos
onde se sonha
num espaço angustiado.

13/2/2009

sábado, fevereiro 14, 2009

O cão de Giacometti

Sou eu. Um dia me vi na rua assim. Um cão.
Alberto Giacometti


O cão da melancolia
procura qualquer coisa, põe o faro
paciente no chão
pescoço longo em baixo como uma tristeza
para pendurar as orelhas

O cão de Giacometti vê
as coisas
de barriga para baixo

O cão cabisbaixo, indiferente
a alegorias
flutua na arquitrave
dos seus ossos

O corpo leva as patas joviais.
14/2/2009

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Diário dos ladrões do Templo


No templo Ele encontrou os homens vendendo
bois, ovelhas e lágrimas
e o brilho súbito
das pombas
aqueles que trocavam perdão
à cotação do dia.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Receita para fazer um soneto

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara
E espere um instante ocasional
Neste curto intervalo Deus prepara
E lhe oferta a palavra inicial

Aí, adote uma atitude avara
Se você preferir a cor local
Não use mais que o sol da sua cara
E um pedaço de fundo de quintal

Se não procure o cinza e esta vagueza
Das lembranças da infância, e não se apresse
Antes, deixe levá-lo a correnteza

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
Dentro da escuridão a vã certeza
Ponha tudo de lado - e então comece.

(Carlos Pena Filho)

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

A Visita


Trazia o corpo
arrastado nos sapatos
gastos, com uma história
de buracos negros sucessivos

Os seus silêncios
eram de incenso, o cheiro divino
do lume

e as suas mãos tinham dedos infrangíveis
para tocar as notas da chuva
que bate nos vidros

Trazia os olhos naturais
neles não havia fundo, vogavam
apenas como se espalhassem um perfume.

9/2/2009

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Haiku

o vento insurrecto
rodopia nas pessoas
quebram-se vaidades.


(Helena F.Monteiro)

in Resist(ir) Assim, Poesia a Doze, Editorial Minerva, 2000

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Assuntos de Família

Gunther Grass, escritor, Nobel da Literatura, enquanto poeta aderiu na década de 40 ao Movimento Expressionista, também andou pelas tertúlias do surrealismo. Depois afastou-se. No entanto, existe um poema que exprime bem ambos os movimentos, sobretudo o Expressionismo. É também um autêntico libelo contra o Aborto. No original, o poema denomina-se Familiär:
No nosso museu - vamos todos os domingos-,
inauguraram uma nova secção.
Nossos filhos abortados, embriões pálidos e sérios,
encolhidos em redomas de cristal,
preocupados com o futuro dos seus pais.
(Trad. do alemão e espanhol, por J.T.Parreira)

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Tempo lento

Fotografia in Rua dos Dias que Voam


Cresci
numa cidade no tempo
em que os homens eram usados
para entregar leite
e pão,

como família
batiam às portas,

alguns cavalos
num bailado equestre
cuidavam da logística
estrumavam as ruas e ninguém
reciclava o vidro, não havia
plástico para sobreviver
ao homem,

as frutas triunfavam
dos cinzentos sacos de papel
nada era eterno
mas quase perfeito
nada
estava perdido.

1/2/2009

sábado, janeiro 31, 2009

O poeta no desemprego


(Paráfrase de um poema de Charles Bukowski)


Há muitos portugueses licenciados em literatura
Que sonham ser Andrade
Ou Jorge ou Campos
Quando a melhor coisa a que podem
Chegar é ser óptimos
Caixas nas lojas Pingo Doce.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Metropolitano

(c) Myron Heise, Subway Sonata, painting

Pessoas à espera
há algum tempo
que as linhas tremam

todos pensam nas composições
como, se há lugares
a lotação esgotada

todos pensam apanhar
a porta mais
à mão

ninguém quer perder a luz
que vem do fundo
do tunel.
29/1/2009

quarta-feira, janeiro 28, 2009

O Lirismo da Classe Média americana morre

Ontem, já o NYT noticiava: morreu o romancista e poeta John Updike, 76 anos. O mesmo jornal fazia a classificação do autor de Corre, Coelho, Corre como o escritor lírico do homem da classe média. Um dia descreveu turistas, da classe média?, em visita aos «grandes navios verdes» ( metonímia exuberante) que são as ilhas dos Açores. Há mais de trinta anos, Jorge de Sena traduziu e publicou esse poema.

Açores


Grandes navios verdes
eis que navegam
ancoradas, para sempre;
sob as águas

enormes raízes de lava
prendem-nas firmes
a meio do Atlântico
ao passado.

Os turistas, pasmando
do convés
proclamam aos guinchos lindas
as encostas malhadas

de casinhas
[confettis] e
doces losangos
de chocolate [terra].

(excerto)

in Poesia do Século XX, Editorial Inova, Porto, 1978

terça-feira, janeiro 27, 2009

Hamlet on stage


Hamlet chega ao palco no nevoeiro sonha
Hamlet é um jovem príncipe perturbado
O espectro surge do lado do mar
Passeia a macia talha de lã
Da sua túnica Hamlet muda
De rosto a máscara alegre
Sai do seu lugar e carregado
Agora de nuvens e presságios
De morte surge no palco
Nenhum espelho lhe remete
Respostas ao ser e não ser.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Novo poema da América



*Mapa das estradas de 1961


Para Barack Obama

«América dei-te tudo e agora não sou nada.
América quando serás tu angélica?»
Allen Ginsberg



Mas fica a saber América-
O chão moveu-se debaixo
dos nossos pés, um sismo
de vozes ancestrais turbilhonou
placas teutónicas suavemente
juntaram as nações, as distâncias
emendaram corações próximos
para a ternura, América
fica a saber – o sol vai brilhar
de novo nos quatro cantos do mundo
América, vai ser outra coisa.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Novos Cantares

Gustav Klimt



Os seios da Amada como os templos
comunicam
os mistérios divinos

São duas fontes
de onde já correu o leite
perfumado da primeira aurora

O peito da Amada encerra
tesouros profundos, o coração
é um delta de diamantes

Enriqueceu dias áridos
na espera febril dos lábios
inocentes dos filhos

que dormiram entre luas perfeitas
e beberam, como um sol bebe
as águas que secam sobre a terra.

14-10-2008

terça-feira, janeiro 20, 2009

O primeiro poema expressionista-Jakob van Hoddis


Famoso poema, publicado em revista em 1911. É considerado o primeiro expressionista.
Optamos por uma tradução a partir do inglês, sem usar a rima, mas procurando pelo menos manter a dicção do verso com motivos expressionistas, adequada à visão irónica e grotesca desse movimento artístico da primeira década do Século XX.

O Fim do Mundo (Weltende)

Um chapéu voa destapando um burguês.
Todo o ar ressoa como um grito.
Aterram os telhados e quebram-se em dois.
A costa- lê-se nos jornais-está cheia das marés.

A tempestade aí está, o tropel dos oceanos
desembarca e esmaga os grossos diques.
A constipação de muita gente vê-se no nariz,
e os comboios caem nos túneis.

(Trad. de J.T.Parreira)

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Balanços (II)

3 idiomas para um só poema

Steinway & Sons

Três pernas do Steinway
elevam uma sinfonia
de pássaros nas veias

acima do soalho
esbeltas
pernas do Steinway

como a mulher
escutada lentamente
no seu vestido negro.

2007

domingo, janeiro 18, 2009

A Cidade do Poema


(Arranjo fotográfico de Gustavo Parreira)

A cidade do poema não tem
ruas fechadas
basta soltar a voz
libertar o coração no horizonte

nenhuma palavra é estrangeira
nenhum pensamento bizarro
nenhuma emoção verdadeira
nenhum som queima como cigarro
aceso à soalheira

na cidade do poema
à sombra da árvore das palavras
todo o chão é sagrado
à sua maneira.

16/1/09

(Brissos Lino)

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Dia-D


Homens e peixes esperam
nas pequenas colinas
do mar

mãos carinhosas virão
como vieram as nuvens baixas
e o vento dançando nas águas.

16/1/2009

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Um poema de um Amigo

AMIGO
Ao amigo J. T. Parreira

Um amigo ata as pontas soltas
do tempo
desenleia o novelo
da distância
valoriza as migalhas na mesa
do prazer
protege as costas na esquina
dos desencontros
e tece um sonho comum

um amigo custa caro
o salário da vida toda.

14/1/2009

Poema de Brissos Lino

terça-feira, janeiro 13, 2009

Lição para fazer uma poesia


CANCIÓN 51

En un verso de ocho sílabas
?qué no cabrá,
si es una y tan sólo en ella
cabe el mar?

Ocho sílabas son muchas
para cantar.
Me basta una que tenga
por dentro el mar.

(Rafael Alberti)





CANÇÃO 51

No verso de oito sílabas
o que não caberá?
se em uma e tão só nela
cabe o mar?

Oito sílabas são muitas
para cantar.
Chega uma que tenha
dentro o mar.

(Trad.JTP)

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Na Universidade Sénior, Setúbal



Apresentação do livro de poesia “Os Sapatos De Auschwitz”,
em Setúbal, na Universidade Sénior (aula de poesia)
e Palestra no Clube Setubalense, 14 de Janeiro, às 15 horas.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Os olhos de Vincent



Que não havia música nos teus olhos
só dois pontos verdes, azuis, roxos
debaixo da sombra das pálpebras

Era aí que guardavas as telas
que deslumbravas com o trigo
o negro dos corvos

É o que sabemos agora, face aos despojos
da tua vida

Não havia música nos teus olhos
só sombras nos lábios
Era aí que pintavas a cor da tua morte
Rústica sobre as searas.


8/1/2009

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Companheiros da Ilha




Ponhamos uma pedra sobre o assunto
sobre a ilha
Depois de tanto tempo, Companheiros
ainda temos Ítaca nas mãos e sal
nos olhos, façamo-nos ao mar

Ao mar
azul e ferido pelo bico das gaivotas

Carecemos da mente
que está no firmamento
das estrelas estendidas
sobre o mar?

A noite aveludará nosso sono
e o amor será um alvor no horizonte

Contra os ventos de Éolo, o embalo
das vagas nos poisará na praia
aos pés de Ítaca.

21-12-2008

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Kaddish por nós


Quando eles nos mataram
a nossa cinza falou por nós
quando mataram nossos filhos tivemos mais
quando mostraram as nossas mulheres nuas
nossos olhos fecharam para sempre
houve cidades em que o vento
não trazia pássaros
mas cinzas.


5-1-2009

sábado, janeiro 03, 2009

Balanços (I)

Há 2 anos FAMIGERADO, revista electrónica de literatura & adjacências, publicava-nos traduções de Charles Bukowski e Giuseppe Ungaretti.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

El Cante


Por ouvir Camarón de la Isla


Finca os pés no tablado
bate, esparge uma língua de vento
apalpa nas palmas
das mãos com detalhes
o silêncio

A música segura os olhares
e os ouvidos, sobe
o corpo moreno

até à varanda de cravos
mais alta de um pátio
andaluz, alguém triste
nos seus sonhos
rasgará la luna.

20-12-2008

quinta-feira, janeiro 01, 2009

"Carta a Saramago" por causa de ninguém morrer

« México, D.F., 15 de enero de 2008
(Enviada a su domicilio en Lanzarote, Islas Canarias)

Sr. José Saramago:

Por diversos medios he buscado decir mi verdad. Busco justicia ante un atropello.

Yo no sé si a usted le hicieron llegar las ideas o el texto de mi cuento como si fuera anónimo. O quizá a usted le ayudaron a redactar su novela. Quizá nunca se imaginó que detrás de ese texto había un ser humano, un mexicano de carne y hueso que generó originalmente planteamientos, argumentos, expresiones que a la postre aparecieron en su novela. Quizá, quizá, quizá... pero finalmente al firmar esa obra usted se convirtió en el responsable de haber derivado una obra literaria de otra original sin la debida autorización y eso señor constituye un delito.

Es así como su novela Las intermitencias de la muerte se basó en mi cuento ¡Últimas noticias!, el cual dentro de una colección fue debidamente registrado ante las autoridades del derecho de autor desde 1986.

¿Por qué recurrió a este artificio que mancha su reconocida trayectoria?
¿Por qué?

Quisiera una respuesta.

¿Cómo fue todo esto posible? ¿El señor Sealtiel Alatriste le hizo llegar el texto o se lo presentó como una fabulosa idea original? ¿Qué papel cumplió su agente literario?

No permita que el tiempo nos rebase. Lo invito a confesar la verdad.

Es muy posible que a mí me inunde la tristeza y la desazón, mas puedo levantar la frente con orgullo. ¿Usted puede dormir tranquilo?

Teófilo Huerta Moreno »
(Autor do conto "Últimas Notícias")


in saramagoplagiario.blogspot.com

terça-feira, dezembro 30, 2008

Ezra Pound, Pedro e Inês


CANTO XXX (Excerto)

Time is the evil. Evil.
A day, and a day
Walked the young Pedro baffled,
a day, and a day
After Ignez was murdered.
Came the Lords in Lisboa
a day, and a day
In homage. Seated there
dead eyes,
Dead hair under crown,
The King still young there beside her.


CANTO XXX

O tempo é o mal. Mal.
Um dia, e um dia
Andava desorientado o jovem Pedro,
um dia, e um dia
Depois de Inês ser morta.
Chegam de Lisboa os Nobres
um dia, e um dia
Em homenagens. Sentada ali
olhos mortos,
Cabelo morto sob a coroa,
E lá o Rei ainda jovem a seu lado.

(Trad.J.T.Parreira)

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Harold Pinter, 10/10/1930 — 24/12/2008

A Poesia de Pôr em Cena de Harold Pinter

A obra poética de Pinter, de reduzida dimensão, mistura a dramaticidade com a fala coloquial, quase sem importância, mas com amplos e profundos significados. Diria, quase que esticando um pouco a corda da análise pessoal, que alguns dos seus poemas são em si mesmos trechos de material que se pode encenar. Alguém comentou já que a sua poesia não é poesia, no sentido que atribuímos a esse artefacto literário que é o poema. Essa afirmação não poderá ser tida como definitiva.
A poesia de Harold Pinter carrega em si a mensagem que reflecte um mundo ameaçador e violento, feito das contradições da nossa sociedade e da natureza humana. Como afinal acontece na sua obra dramatúrgica, fazendo da mesma uma das mais importantes do século XX, a meio caminho entre o teatro poético, na poesia da vida quotidiana, e o teatro do absurdo. Pinter não teve de facto as suas personagens à espera de Godot, as suas personagens não esperam nada, o fundamental das mesmas, são as falas sem nenhum significado dos actores. O que nos parece poder intuir-se, salvo melhor opinião, na mediatizada fala de duas personagens, marido e mulher, de uma das suas peças. O marido que pergunta à mulher o que toma, que bebida quer tomar:
-Somos casados há dez anos- responde ela, e apenas isso.
A poesia, alguma poesia de Pinter, também abre várias perspectivas para outros tantos caminhos, apesar de algum laconismo. São poemas para descobrir também os ambientes fechados. Pinter faz com que os poucos poemas que escreveu, comparativamente às suas peças, e tal como estas, revelem o abismo que existe nas conversas ôcas das personagens, nos espaços mais variados das relações humanas em sociedade ou no interior da home. A sua poesia é também «pinteresque», aparentemente usa a língua sem nada comunicar. Mas é o que nos parece... É paradigmático, este já nosso conhecido poema:

Restaurante


Não, você está errado.

Todos são tão belos
como podem possivelmente ser

Particularmente ao almoço
no restaurante que ri

Todos são tão belos
como podem possivelmente ser

e são movidos
pela sua própria beleza

e derramam lágrimas por isso
no fundo do taxi para casa.

(Textos já publicados aqui em Dezº 2006)


To My Wife

I was dead and now I live
You took my hand

I blindly died
You took my hand

You watched me die
And found my life

You were my life
When I was dead

You are my life
And so I live

Harold Pinter
June 2004

quinta-feira, dezembro 25, 2008

A Festa


Só o boi e o jumento comparecem.
E os anjos em multidão
já não desferem o cântico
- que é o céu caindo na noite.

Na grande hospedaria do azul,
no mundo, ou apenas em metade
do mundo, as manjedouras dormem
vazias.

As mãos dos homens sentem
o que faz o coração, fecham
as janelas de Belém
uma vez mais sobre os ruídos.
Sobre quem passa preso à vida.

1992

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Uma poesia de Adrian Mitchell

Beatriz tem três anos
No alto da escada
Peço-lhe a mão. Sim.
Dá-me a mão.
Escondo-a até ao pulso
Com a minha palma,
Um pequeno volume consolador.
Tomamos todo o tempo
Para descer a íngreme
escada alcatifada
Desejando eu em silêncio
Que a escada não tenha fim.

(Traduzida da Revista Prometeo, Medellín, 2001, por JTP)

domingo, dezembro 21, 2008

Morreu o poeta inglês Adrian Mitchell


O poeta Adrian Mitchell, cujas obras sobre guerra nuclear, Vietname e racismo eram cantadas em manifestações da esquerda, morreu aos 76 anos de idade, informou a AP.


To Whom It May Concern

I was run over by the truth one day.
Ever since the accident I've walked this way
So stick my legs in plaster
Tell me lies about Vietnam.

Heard the alarm clock screaming with pain,
Couldn't find myself so I went back to sleep again
So fill my ears with silver
Stick my legs in plaster
Tell me lies about Vietnam.

(Excerto)

quinta-feira, dezembro 18, 2008

O Cão de Ulisses




E agora alguém chega
dá por si
a desatar os longos laços
da memória, sombras
que foram passando no sol
do relógio, e olha
à sua volta
um cão ergue a cabeça e as orelhas
sobre o estrume, um cão
que morde no silêncio
nos olhos de Ulisses.

18/12/2008

terça-feira, dezembro 16, 2008

Colored


O, yes,
I say it plain,
America never was America to me,
And yet I swear this oath—
America will be!

(Langston Hughes)

Oh sim,
Eu que o diga com clareza,
A América nunca foi América para mim,
E, não obstante, prometo sob juramento-
A América vai ser!

(Trad. J.T.Parreira)

domingo, dezembro 14, 2008

O Salmo dos Degraus


Eu vejo-os pelos ombros, cordeiros
atados nas cordas da mudez.
Aguardam a sonolência da morte.
Vão pelas sombras, curvando
a solidão nas suas costas,
sobem não tendo horizontes
senão as nuvens,
não têm poços, nem estrelas
como orvalho que entretece o céu.
Os caminhantes percorrendo os montes
tenho-os visto, pequenos
orifícios nos sapatos
que pisam caminhos sem regresso.

12/12/2008

quinta-feira, dezembro 11, 2008

1922 do nascimento da Literatura da Existência

A segunda década do século XX começaria fragmentada. «Quais são as raízes que estão presas, que ramos crescem\ Neste amontoado de pedras?» perguntava o poeta T.S.Eliot no poema dramático «TERRA SEM VIDA», que, dizem alguns, teria sido originalmente pensado como obra teatral e acabou por ser escrito como uma collage poética; e outros que se trata do mais famoso dos poemas modernos, editado em 1922.
A Primeira Guerra Mundial terminara em 11 de Novembro de 1918, as ruínas da velha Europa foram herdadas e entraram pela nova ainda algum tempo depois.
O grande poema de 433 versos de Eliot é a visão do mítico Tirésias, um velho cego, que vê e nos ensina a ver o passado e o futuro no pensamento, na imaginação, misturando memória e desejo.
Era «Um monte de imagens quebradas, onde o sol bate », a imagem que a Europa oferecia ao filho do homem do fim da primeira década do século XX.
Multidões caminhando em círculo, diz o poeta no verso 55º, é bem a imagem da desorientação do homem num mundo em ruínas, ruínas da moral, do que é suposto ser verdade, das relações, ruínas que são o amálgama religioso com os seus sincretismos, de ontem e de hoje. O poeta precisa a visão dessa multidão de homens: «Uma multidão fluia sobre a Ponte de Londres, tantos, \ Eu não pensava que a morte tivesse destruído tantos.» A Bíblia Sagrada desde a Queda apontou esse tipo de morte na humanidade, homens mortos espiritual e psicologicamente. E tanto o pós-guerra da I como o da II Guerra Mundial, nos apresenta no quotidiano essa humanidade sobrevivente, solitária e «demente» à procura de razões e de valores, em demanda de si própria.
Passadas já mais de oito décadas, causas e feitos continuam as mesmas, sendo que hoje a recusa ao divino e aos valores espirituais, éticos e morais, assumiram moderníssimas e sofisticadas formas.

O SEGUNDO TÍTULO, «ANABASE»

O título desta obra poética de Saint-John Perse, publicada em 1922, é uma palavra grega que em síntese significa «expedição para o interior», ou que se associa a escalada até ao imo de algum lugar.
Este poema inteiriço e disposto em 10 partes é uma peregrinação a partir do mar, das origens, para dentro do próprio homem, do seu entendimento como humanidade. É a arquitectura do ser humano a partir do chão, do solo, onde se fundou. «Estabelecendo-me com honra sobre três grandes estações, auguro bem do solo onde fundei a minha lei », desde o início nos confere, quanto a nós, a dimensão dos primeiros passos do homem na terra, até à sublimidade do projecto para que o homem fora criado, em qualquer circunstância, para viver e se espalhar:
«Homens, gente de poeira e de qualquer figura, gente de negócio e de lazer (...) gente dos vales e dos planaltos e dos mais altos declives deste mundo(...) farejam indícios, sementes e confessam desalentos a oeste; seguem pistas, estações, erguem tendas no vento leve da aurora; ó prospectores de pontos d|água na crosta do mundo(...).
O mundo e a peregrinação do homem, a sua escalada da base de uma solidão afastada do divino por incorrer na desobediência e no primeiro pecado, no Éden, para onde? O início das primeiras ruínas a partir do assassínio de Abel, é o que podemos entrever neste poema como o lugar atingido. Tal peregrinção é, contudo, uma belíssima tentativa não lograda de alcançar um lugar onde o sol esteja mais perto. «Depois de tanto tempo a caminharmos para oeste » o que é que o homem do século XX conseguiu?

ELEGIAS DE DUINO, RAINER MARIA RILKE

Os motivos condutores, como se diz, da obra poética de Rilke, «o último dos poetas imortais», são Deus e a Morte. Estas duas matrizes continuam a revelar-se nas Elegias, que o poeta de expressão alemã compôs no castelo de Duíno, perto de Trieste, sobre o mar Adriático, e revelam-se como em imagens presas que trazia em si há muito, e que a hecatombe da I Guerra Mundial, principalmente, terá feito eclodir em poesia que atingiu o estatuto de mítica. Iniciado em 1910 e completado também em 1922, o conjunto das Elegias repete o canto preocupado do escritor. Publica as suas elegias três anos antes de morrer com leucemia, em 1926.
«Que fazes tu, poeta? Diz! - Eu canto | Mas o mortal e monstruoso espanto | Como o suportas, como aceitas? - Canto.» (Trad. Jorge de Sena )
Clamor solitário ante a hecatombe, como alguém escreveu, os seus poemas a partir daquela data afastam-se, perceptivelmente, do Deus da Bíblia Sagrada, sobre o Qual tão bem canta nos poemas de anos muito anteriores, de antes da Guerra.
Estes são meditações religiosas nas quais se harmonizam um catolicismo do sul, por ser de cultura austríaca, e um protestantismo de Alemanha do Norte, ambos no entanto com uma visão sobre Deus. «Só quando desdobram as asas| é que despertam qualquer vento: | Como se Deus, com as suas largas | mãos de estatuário, passasse | as folhas do escuro Livro do Princípio ». (do poema Os Anjos, trad. Prof.Paulo Quintela) ou do «Livro de Horas» (1902): «ETERNO, a mim vieste revelar-Te.|(...)| Leio então novas de ti: o Evangelista | escreve por toda a parte da tua eternidade.»
As Elegias são, na verdade, de outro lugar, são um espelho interior partido porque reflecte a realidade que o poeta observou. Pedaços de espelho que reflectem, afinal, com estética e com alguma crueza, todos os momentos do real, espaços, mulheres, homens, anjos. Um dos versos mais profundos da primeira elegia, exprime isso, e torna-se mesmo uma dicotomia ligando o belo e o terrível: «o belo apenas é o começo do terrível ».

«ULYSSES», DE JAMES JOYCE, 8OO PÁGINAS DE UMA VISÃO

Escorado numa ficção que recorre aos dias e trabalhos de Ulisses e de outras personagens da Odisseia, de Homero, em pé sobre as mesmas ruínas dos primeiros vinte anos do século XX, James Joyce escreve uma admirável, polémica e, por vezes, impenetrável obra literária, que o ano de 1922 vê à luz enevoada e fria de Fevereiro em Paris, onde o escritor então se radicou. Ulysses é, talvez, a única e verdadeira obra total do século passado, pois abarca o poema, o drama, a comédia, o ensaio, o sermão, a ópera. O mundo pôde ver-se aí retratado, desde as ruínas da I Guerra que deixou a Europa viúva (1917) até ao começo dos anos vinte frivolos e fáceis (1921), datas entre as quais o livro foi escrito.
No entanto, Ulysses nada tem a ver com essa terrível guerra, o seu leitmotiv e suas alusões às ruínas da Europa são outras.
Desde logo as ruínas da hipocrisia anglo-saxónica - o livro foi proibido por ser alegadamente pornográfico. Depois, uma alusão a ruínas de um relacionamento, o do confronto de duas raças que já prosseguia na Europa, a raça judia ( do protagonista Leopold Bloom ) e os europeus. Finalmente, ruinas ocultas na aparente inocência de um dia como outro qualquer dia, um dia vulgar - o dia 16 de Junho de... 1904; o jornal de Dublin, The Irish Times, desse dia anunciava, na realidade, coisas diversas: notícias sobre a guerra Rússia-Japão; a agitação do mercado bolsista na América por causa do aumento de capital de uma grande empresa, a Southern Pacific; 500 pessoas, principalmente crianças, que morreram num incêndio a bordo de um barco a vapor nas águas do East River, no porto de Nova Iorque; um julgamento mediático do crime de adulteração de leite; etc.
Mas é no decurso de um dia semelhante ao mais vulgar dos dias, que a vida de um homem e de uma cidade se desenrola, sem desgraças nem eventos excepcionais, numa profecia dos tempos cinzentos, da apatia e do tédio com a Europa entorpecida a preparar as verdadeiras ruínas da I Guerra e, depois, os anos em que os ovos da serpente do bolchevismo, do fascismo e do nazismo iriam ser postos a chocar. No entanto a volumosa e invulgar obra, do ponto de vista da narrativa convencional, foi escrita na Europa Continental entre 1914 e 1921. James Joyce agarrou a Odisseia de Homero e modernizou-a e deu às suas personagens uma cidade do mundo real, Dublin, que está, como se sabe, numa ilha.

EPÍLOGO

Vastos territórios da literatura da existência, como alguém lhes chamou, estas quatro obras publicadas entre os despojos do mundo saído de uma grande guerra terrível, em 1922 lançaram as bases para o homem se pensar a si próprio, mas não desligado do divino, ainda que a gramática da escrita e do pensamento pudesse indiciar o contrário, isto é, um ateísmo por princípio, que não foi o caso, felizmente para a grande literatura do século XX.
Ano de publicações-chave para a literatura mundial com a qual se contribuiu para uma análise do homem e visão do mundo, do ano de 1922 bem se pode dizer, fazendo côro com T.S.Eliot, que com estes fragmentos de beleza escoramos nossas ruínas. Ainda que para novas ruínas.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Equivocou-se a pomba


Se equivocó la paloma.
Por ir al norte, fue al sur.
Rafael Alberti



Em círculos brancos,
reflectiu-se na água, voava
a pomba equivocada ,

o seu beiral , o seu balcão,
são agora
o largo mar,

entre o sul e o norte,
no círculo de lume, o sol
a ofuscava.

Se equivocava a pomba
de girassol, voava perto
aquecendo as asas.

8/12/2008

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Exercício de escrita

Devo rever os versos
pede-me o mar no corpo
a morrer.
Porque são pobres
os livros junto à boca
nada dizem sobre a árvore
que dentro de mim avança.

Este dia é preciso, como exercício
de paciência,
de outro modo não acharei o voo
certeiro
límpido e veloz
que falta para o som
da mudança.

(Rosa Maria Oliveira)

Poema do livro da autora, O Voo da Enxada, edição da Junta de Freguesia de Vera-Cruz, Aveiro, 2004, pp. 12.

domingo, dezembro 07, 2008

Penélope


Não embarcaste nas naus
de sólida madeira.

Nem foste à fortaleza
de Tróia,
ficaste em casa a dobar
o tempo e a fiar
a malha suave que teu corpo
guarda,
virtuosa rocha de Ítaca.

E puseste véus brilhantes
para esconder nos olhos
a lágrima brilhante
das saudades,
pensavas que em Tróia perdeu
Ulisses
a nave do regresso.

terça-feira, dezembro 02, 2008

A Casa no deserto


A casa estava assim, anos
a fio como o deserto, dançava
nas miragens do sol derramado
às vezes brancura, outras vezes
areia, alguém chamava de longe
depois de meses ao sabor das dunas
alguém erguia os olhos
entre véus de vento, a casa
estava no meio das tempestades
das estrelas, assim nua
e desejada.


(Depois de ler Le Clézio, 11/2008)

domingo, novembro 30, 2008

sábado, novembro 29, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (8)



MORNING SUN

Se um dia partires
de Ítaca, que seja por romperes
o manto que fizeste nos teus olhos
Sobre os telhados o ar
será mais leve
Nem Lestrigões nem Ciclopes
estarão à espreita nos degraus
do sonho
Se um dia partires de Ítaca
que não seja pelo desânimo,
que não seja
mais que pela riqueza do caminho.

28-11-2008

quinta-feira, novembro 27, 2008

Mulheres da Índia

Na Índia as mulheres escondem sempre
a esperança e a boca

por detrás do sari colorido
ornamentam as horas
com pechisbeques
em forma de pulseira
e os olhos negros, sofredores
estranham qualquer outro olhar
até mesmo o beijo solar

na testa o pequeno tilak
na alma o ferrete
da sua condição.

(Brissos Lino)

in A Ovelha Perdida

terça-feira, novembro 25, 2008

O que não se sabe


O Espelho, Magritte


El viento no lo sabe
Dámaso Alonso


A onda não o sabe.
O coração do mar
que não aconchega o amor
pelas terras doloridas,
e o vento,
que arma ciladas à vela do navio
nas noites sem ternura.
Nada sabem. O raio
que força os arcanos
da floresta, não o sabe
como beijo de um céu em fogo.
E o trovão, que ensurdece
por completo o silêncio,
não o sabe também.
E a roda do sol
que ofusca o céu vazio,
e o deserto que modela a noite
no dorso das suas dunas,
não o sabem. Nem as chuvas
que tinem nas cordas invisíveis
das vidraças.

1-11-2008

sábado, novembro 22, 2008

Haiku de Jack Kerouac


DOIS HAIKU DE KEROUAC


Haiku (Birds singing...)


Birds singing
in the dark
—Rainy dawn.

Pássaros cantando
no escuro
–Chuvoso despontar.


Haiku (The low yellow...)

The low yellow
moon above the
Quiet lamplit house.

A palidez
da lua sobre a
Quietude da casa iluminada.

(Trad.J.T.Parreira)


E UM ESPÚRIO

Sob a palidez
da luz da lua
a iluminação pública.

22/11/2008

terça-feira, novembro 18, 2008

Anjos sobre os ombros

Vestido como en el mundo,
ya no se me ven las alas.
Rafael Alberti



Anjos sobre os seus ombros
uma pluma de cisne a vogar
no sol-posto sobre a água

No cabide dos seus ossos
como o peso das nuvens
ou sandálias de algodão

Leva anjos sobre os seus ombros
não quer o desequilíbrio de nenhum
quando passa, sobre o fio do mundo.

17/11/2008

segunda-feira, novembro 17, 2008

Passagens de nível na imaginação


A pintura de Rob Gonsalves, a poética da criação de vários níveis de imagem,imagismo, surrealismo, a realidade simples.
Passagens de nível na imaginação, neste caso, com um Edward Hopper ao fundo, na parede.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Há tardes

Despe-se a tarde da chuva intensa caída toda a manhã e eu sento-me num improvisado banco comprido, debaixo dum improvisado hangar, postado ao lado da rua, enquanto me lavam o carro. Por trás de mim um ritmo africano estridente ribomba-me aos ouvidos enquanto eu penetro na minha leitura. Faz algum tempo que comecei a ler este livro mas tenho dificuldade em chegar ao fim... O empregado da lavagem de carros quase se deita dentro do meu, talvez em busca da moeda perdida. Aparece depois com um velho aspirador e inicia a aspiração lenta e calmamente. Na rua passa uma mulher ajoujada pelo pesa da bacia repleta de garrafas cheias de sumo encarnado, o bissap. Por trás de uma velha mesa onde duas camadas de velhos papéis, alinhados simetricamente descansam, um rapaz vai marcando o ritmo da estridente música africana, com os nós dos dedos. Na outra extremidade da lavage de voitures um homem balança-se entre o telemóvel e o seu Mercedes que outro funcionário começa a lavar. Veste uma camisa verde clara muito bem cuidada sobre a qual se encavalitam uns enormes suspensórios que suportam as calças verdes. Tem um ar feliz do tipo daquele que tem as pessoas que estão bem na vida. Retiro o olhar da rua e do homem vestido de verde, impecavelmente vestido, tento abstrair-me da música ensurdecedora, e volto a deslizar os olhos para a minha leitura. Volto ao conde Bezukhov que parece estar no bom caminho para acreditar na existência de Deus e abandonar o impiedoso caminho do ateísmo.

(Florentino Lavrador, Abidjan, Côte d'Ivoire)

quinta-feira, novembro 13, 2008

O original, a tradução e o make it new

UM RIO CHAMADO TRISTEZA

Na margem sentado, molho os pés
na tristeza

as águas turvam
o meu reflexo

-eu impresso
na seda das águas?,reuno
com o copo
das mãos

a espuma
do meu rosto.

__________________________________________
A river called sadness
by JTParreira
2008 November 12


Remember? We sat on a border, wetting
the feet in sadness
The troubled waters
shaking our reflexes

We are printed
in water's silk inside? Let's reunite
on the hands of glass

the foam
of our face.

in Literary Kicks


________________________________________

UM RIO A QUE CHAMAM TRISTEZA

Lembras-te? Estavamos sentados na margem, molhando
os pés na tristeza
as águas tumultuosas
agitavam o nosso reflexo

Nós impressos
dentro da seda das águas? Reunamos
no copo das mãos
a espuma
do nosso rosto.

12/11/2008

terça-feira, novembro 11, 2008

Na mesa do Shabbath


Há aconchego na mesa
do Shabbath
entre os pães asmos e a luz do Menorah
uma devoção suave habita
entre o vinho da comunhão
o azeite kosher
e as orações da família
dos adoradores

na mesa do Shabbath
cultiva-se o favor do Senhor
Shamah, Israel.


(Brissos Lino)
11/08

Poema inédito que o Poeta, meu velho amigo, fez chegar ao Blog. Reflecte uma relação intimamente religiosa, mas também quer recordar um tempo da história contemporânea que não deve ser esquecido, sobretudo na Europa.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Um poema de Barack Obama


Em 1981, Barack Obama publicou dois poemas na revista literária do Occidental College, Feast; a revista The New Yorker recuperou-os e veio a publicá-los em 2007. Com a devida vénia, publicamos um.

Underground

Under water grottos, caverns
Filled with apes
That eat figs.
Stepping on the figs
That the apes
Eat, they crunch.
The apes howl, bare
Their fangs, dance,
Tumble in the
Rushing water,
Musty, wet pelts
Glistening in the blue.

(Barack Obama, Presidente eleito dos E.U.A)

quinta-feira, novembro 06, 2008

Na ausência de espelhos



Havia já muito tempo que ninguém
em Auschwitz tinha um espelho
não reconheceriam a sageza
no rosto, nem as covas
onde lançaram os olhos
nem os lábios, como uma linha
de medos
ninguém tinha pensado nisso antes
nos espelhos.
Sem os espelhos qualquer um
era igual ao outro, via-se
no outro, os espelhos
poderiam ser usados contra o próprio.
Em Auschwitz, por falta de espelhos
ninguém continuou a ser pessoa.

4/11/2008

quarta-feira, novembro 05, 2008

A América muda de pele.



"Barack Obama nosso próximo Presidente"- afirma o Chicago Tribune.

Em 1961, a América mudou de rosto, com John Kennedy; hoje muda de pele com Obama, está a caminho de se tornar Bela, mas ainda falta muito para, como desejava Allen Ginsberg, poder entrar no supermercado e comprar tudo o que precisa com a sua beleza.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Dámaso Alonso, a Indagação da Poesia


A indagação foi a arma lírica que Dámaso Alonso (Madrid, 1898-1990) incorporou na sua poesia, comprometido com a realidade espanhola, mas também com Deus, no sentido de dizer das suas preocupações filosóficas sobre a natureza e os atributos do Criador.

Poeta de inquirições metafísicas, o autor de Hijos de la Ira soube transpor as mesmas para a linguagem poética, utilizando significantes, díriamos formas comuns tanto urbanas quanto rurais, por exemplo:

Madri; grandes rosales; tristes azucenas; horto; adubo; úberes quentes; vaca; los rebãnos; manso río; el otõnal paisage; polvorienta huella del camino; ou estes versos de magistral ruralidade: y en el reloj del muro el Sol ponía/ la irreparable hora del descanso.

Nem todos os seus poemas, na totalidade da sua obra, indagam. No que o próprio poeta madrileno qualifica de poemas puros existem observações, mas não perguntas.

Oh Dios,
No me atormentes más.
Dime qué significan
Estos espantos que me rodean.


Não aquelas que ao interpelar vão ao fundo da matéria poética e revolvem no magma o cerne da sustentação da compreensibilidade do universo, como os poemas das livros Hijos de la Ira e Oscura noticia, nos quais se coloca a problemática religiosa do querer crer.

Embora em 1921 começasse um poema sob o exordo de Juan Ramón Jimenéz, Cómo era, Dios mío, como era?, que parece ser acerca da memória, qualquer coisa (uma porta?) sem forma e que não cabe numa forma. Esses poemas do princípio estavam distantes das questões metafísicas, também só na aparência pareciam longínquos da existência quotidiana. Ainda eram polidos e rigorosos, sem angústias, e alguns deles pura arte poética, sobre a matéria prima de que se compõe o poema: as palavras. Visões da vida idealizada em conflito com o que era já uma propensão para o realismo.
As suas perguntas resultaram do choque da sua concepção religiosa da vida, por um lado, e, por outro, de um conceito existêncial avant la lettre, sem nada que ver com o conhecido existencialismo da leitura de Jean-Paul Sartre.

Insomnio

(...)
Y paso largas horas preguntándole a Dios, preguntándole
por qué se pudre lentamente mi alma
.

A descrição inicial de Madrid como uma cidade de mais de um milhão de cadáveres - Madri es una ciudad de más de un millón de cadáveres( según las últimas estadísticas) - no poema datado de 1940, quando uma estatística oficial apontava esse número como população madrilena , liga o poeta à cidade no seu exílio interior e fá-lo revolver-se na noite e incorporar-se nesse nicho em que havia 45 anos apodrecia, não dá apenas um local para o homem público da Espanha da guerra civil sofrer as suas perplexidades e seus medos. Vai introduzi-lo como protagonista - e nunca a palavra teve tanto significado a partir da agonia- num espaço mais vasto, o Universo, numa existência em que faz sentido a pergunta angustiada perante a vida.

De resto, Dámaso Alonso pertenceu áquele pequeno grupo de poetas, da Geração de 27 claro, mas, sobretudo, dos poetas a que chamaram do «desarraigo existencial», os desenraizados existencialmente ou do exílio interior a partir da década de 30 e que chegavam desde Unamuno, um dos Mestres modernos da poesia espanhola do Século XX.

Em concreto, o poema Insomnio é um poema que relança imagens e metáforas relacionadas com a morte e a procura de sentido para a vida humana, no meio da catástrofe que se abatia sobre a Europa. E apesar de outras leituras está na linha poética do existencialismo, a alegada ausência de Deus e a solidão do homem na cidade destruída, que é sobremodo toda a linha de conteúdo do livro Hijos de la Ira.
Todavia a despeito da sua dureza, este poema, perfeitamente datado e localizado historicamente, não erradica do ponto de vista da idealidade a procura de visões esperançadas de Deus.

Dime, qué huerto quieres abonar con nuestra podredumbre?
Temes que se te sequen los grandes rosales del día,
las tristes azucenas letales de tus noches?


Esta indagação carrega em si o anseio de compreender, ainda que sobrenade em pessimismo e cepticismo alonsinos. Por seu turno porta também na sua linguagem metafórica e altamente poética (da poesia pura), dentro dos efeitos da linguagem quotidiana, um rasgo de compreensão pelo que o poeta supõe ser de igual maneira a solidão divina.
Dámaso Alonso, contrariamente a outros poetas espanhóis da sua célebre geração ( a de 1927), foi um poeta afinal solidário com Deus, sem que fosse estritamente metafísico. Foi mesmo num ou noutro poema, bíblico. Desde logo pela epígrafe inicial do livro em latim, as palavras do apóstolo Paulo: E éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. Ef, II,3.

sexta-feira, outubro 31, 2008

"É a hora !"



De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo.

(Álvaro de Campos)

quinta-feira, outubro 30, 2008

Pescador


Pela sua própria mão
desenha
uma ponte entre o braço
e o mar

lança a linha com reflexos
de prata
longilínea no ar

não sabe ao que vai
o anzol

desconhece o que virá
das águas

presa a um fio de sol
a mais viva prata
ou nada.

-10-2008

domingo, outubro 26, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (7)


CHOP SUEY

(O doppelgänger de Hopper)

Outras mesas
rodeadas de pernas,

conversas
e um olhar
à procura
de uma palavra
que alimente;

nesta duas mulheres
espelham
uma na outra,
duplicam-se

nos seus lábios
os batons.