segunda-feira, novembro 03, 2008

Dámaso Alonso, a Indagação da Poesia


A indagação foi a arma lírica que Dámaso Alonso (Madrid, 1898-1990) incorporou na sua poesia, comprometido com a realidade espanhola, mas também com Deus, no sentido de dizer das suas preocupações filosóficas sobre a natureza e os atributos do Criador.

Poeta de inquirições metafísicas, o autor de Hijos de la Ira soube transpor as mesmas para a linguagem poética, utilizando significantes, díriamos formas comuns tanto urbanas quanto rurais, por exemplo:

Madri; grandes rosales; tristes azucenas; horto; adubo; úberes quentes; vaca; los rebãnos; manso río; el otõnal paisage; polvorienta huella del camino; ou estes versos de magistral ruralidade: y en el reloj del muro el Sol ponía/ la irreparable hora del descanso.

Nem todos os seus poemas, na totalidade da sua obra, indagam. No que o próprio poeta madrileno qualifica de poemas puros existem observações, mas não perguntas.

Oh Dios,
No me atormentes más.
Dime qué significan
Estos espantos que me rodean.


Não aquelas que ao interpelar vão ao fundo da matéria poética e revolvem no magma o cerne da sustentação da compreensibilidade do universo, como os poemas das livros Hijos de la Ira e Oscura noticia, nos quais se coloca a problemática religiosa do querer crer.

Embora em 1921 começasse um poema sob o exordo de Juan Ramón Jimenéz, Cómo era, Dios mío, como era?, que parece ser acerca da memória, qualquer coisa (uma porta?) sem forma e que não cabe numa forma. Esses poemas do princípio estavam distantes das questões metafísicas, também só na aparência pareciam longínquos da existência quotidiana. Ainda eram polidos e rigorosos, sem angústias, e alguns deles pura arte poética, sobre a matéria prima de que se compõe o poema: as palavras. Visões da vida idealizada em conflito com o que era já uma propensão para o realismo.
As suas perguntas resultaram do choque da sua concepção religiosa da vida, por um lado, e, por outro, de um conceito existêncial avant la lettre, sem nada que ver com o conhecido existencialismo da leitura de Jean-Paul Sartre.

Insomnio

(...)
Y paso largas horas preguntándole a Dios, preguntándole
por qué se pudre lentamente mi alma
.

A descrição inicial de Madrid como uma cidade de mais de um milhão de cadáveres - Madri es una ciudad de más de un millón de cadáveres( según las últimas estadísticas) - no poema datado de 1940, quando uma estatística oficial apontava esse número como população madrilena , liga o poeta à cidade no seu exílio interior e fá-lo revolver-se na noite e incorporar-se nesse nicho em que havia 45 anos apodrecia, não dá apenas um local para o homem público da Espanha da guerra civil sofrer as suas perplexidades e seus medos. Vai introduzi-lo como protagonista - e nunca a palavra teve tanto significado a partir da agonia- num espaço mais vasto, o Universo, numa existência em que faz sentido a pergunta angustiada perante a vida.

De resto, Dámaso Alonso pertenceu áquele pequeno grupo de poetas, da Geração de 27 claro, mas, sobretudo, dos poetas a que chamaram do «desarraigo existencial», os desenraizados existencialmente ou do exílio interior a partir da década de 30 e que chegavam desde Unamuno, um dos Mestres modernos da poesia espanhola do Século XX.

Em concreto, o poema Insomnio é um poema que relança imagens e metáforas relacionadas com a morte e a procura de sentido para a vida humana, no meio da catástrofe que se abatia sobre a Europa. E apesar de outras leituras está na linha poética do existencialismo, a alegada ausência de Deus e a solidão do homem na cidade destruída, que é sobremodo toda a linha de conteúdo do livro Hijos de la Ira.
Todavia a despeito da sua dureza, este poema, perfeitamente datado e localizado historicamente, não erradica do ponto de vista da idealidade a procura de visões esperançadas de Deus.

Dime, qué huerto quieres abonar con nuestra podredumbre?
Temes que se te sequen los grandes rosales del día,
las tristes azucenas letales de tus noches?


Esta indagação carrega em si o anseio de compreender, ainda que sobrenade em pessimismo e cepticismo alonsinos. Por seu turno porta também na sua linguagem metafórica e altamente poética (da poesia pura), dentro dos efeitos da linguagem quotidiana, um rasgo de compreensão pelo que o poeta supõe ser de igual maneira a solidão divina.
Dámaso Alonso, contrariamente a outros poetas espanhóis da sua célebre geração ( a de 1927), foi um poeta afinal solidário com Deus, sem que fosse estritamente metafísico. Foi mesmo num ou noutro poema, bíblico. Desde logo pela epígrafe inicial do livro em latim, as palavras do apóstolo Paulo: E éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. Ef, II,3.

sexta-feira, outubro 31, 2008

"É a hora !"



De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo.

(Álvaro de Campos)

quinta-feira, outubro 30, 2008

Pescador


Pela sua própria mão
desenha
uma ponte entre o braço
e o mar

lança a linha com reflexos
de prata
longilínea no ar

não sabe ao que vai
o anzol

desconhece o que virá
das águas

presa a um fio de sol
a mais viva prata
ou nada.

-10-2008

domingo, outubro 26, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (7)


CHOP SUEY

(O doppelgänger de Hopper)

Outras mesas
rodeadas de pernas,

conversas
e um olhar
à procura
de uma palavra
que alimente;

nesta duas mulheres
espelham
uma na outra,
duplicam-se

nos seus lábios
os batons.

sábado, outubro 25, 2008

Desdobramentos (1)



Fernando Pessoa não só se desdobrou, diria intratextualizou em poetas, com os heterónimos, como se desdobrou também tanto quanto se sabe em leituras várias. Numa designada lista bibliográfica -livros citados ou detidos pelo Poeta- ficamos a saber desse pormenor. António Pina Coelho que estuda e divulga os livros lidos pelo Poeta em «Os Fundamentos Filosóficos de Obra de Fernando Pessoa », introduz-nos nesse universo.
Sabe-se, portanto, que terá lido Platão e Aristóteles, Kant e Nietzche.
Ainda que seguindo um impulso de subjectividade quanto a alguns poemas do Pessoa ortónimo e heterónimo, o conteúdo e a própria forma de alguns deles levam-nos a pensar em outros textos de outros poetas. O pensamento lírico, sobretudo, com que os textos se relacionam.
Existe de facto uma intertextualidade em Pessoa. Referências (subjectivas), alusões, paráfrases, epígrafes são algumas das formas de intertextualidade, que cruzam os textos de muitos autores. É um diálogo, por vezes não procurado, outras será o resultado da natureza universal da poesia, enunciado há quase três séculos por Shelley, no seu clássico Defesa da Poesia: «O grande poema que todos os poetas (...) têm vindo construir desde o começo do mundo».
Fragmentos ou bocados isolados - no dizer de Shelley- criam vasos comunicantes culturais, produzem um sentido dialógico segundo o qual estamos a ler um autor-outro dentro do autor escolhido. Este recurso vale-se de poder ser, na literatura e não só, consciente ou inconsciente.
Julia Kristeva, que divulga os estudos de Bakhtin, tem um clássico conceito de intertextualidade, que é «todo o texto se constrói como mosaico de citações, todo o texto é absorção e transformação de outro texto.» (Kristeva, 1974, pág.64).

Pessoa e Sartre

Náusea. Vontade de nada.
Existir por não morrer.

Poesias Inéditas, 1930-1935, Ática, 1978

Aqui em sentido estricto, a palavra de Pessoa, escrita em 1933, remete para o pensamento existencialista de Sartre, contido numa palavra: Náusea. Contudo, FP não foi um existencialista, embora tivesse penetrado fundo nos mistérios do existir, sentisse nesse clima do mistério do ser, o transcendentalismo tanto quanto o cepticismo e o niilismo. A vontade de Nada.
Na lista de documentos inéditos que deixou, que inclui livros e leituras, até onde sabemos não constam os nomes de Kierkegaard e Heidegger; o que não quer dizer que os não tenha lido, pelo menos, o primeiro. Mas leu Nietzsche, terá andado perto de Husserl? Todavia, naturalmente, não pôde ler Sartre.
O sentimento do Nada em Pessoa, sobretudo no Ricardo Reis, vem da ideia da morte: «Tudo que cessa é morte» (pág. 114)
Em Jean-Paul Sartre vem de existir. E aqui está o diálogo entre ambos os textos:

«A Náusea não está dentro de mim: sinto-a além, na parede, nos suspensórios, em toda a parte à minha volta. Constitui um todo com o café; sou eu que estou dentro dela.» ( pág.41).

Mais adiante Roquentin afirma que a Náusea não o abandonou, e não crê que o abandone tão cedo. «A Náusea sou eu» - assevera. (pág. 216)

Basta, se é que basta hoje com tanta «literatura light», isotérica e de auto-ajuda por esse país fora, basta ler - dizia- o romance A Náusea escrito em 1938.
Só por este aspecto «existencial» e cronológico da existência, Fernando Pessoa não o leu.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Poemas ditos por Luis Gaspar

A Mão Direita do Poeta
A Tarefa do Poeta

Os dois jogadores



A luz anda devagar, em um café de aldeia.
Então dois jogadores inventam lances,
os braços são os êmbolos da noite.

É o silêncio como o ar
em movimento, às vezes os dois
jogadores baixam os gestos,

refazem os gestos, seus olhos nadam,
de fora vê-se o vidro
das suas mãos discretas.

Vão de uma hora a outra hora,
na rua as névoas descem
sobre as luzes,

a luz ondula dentro como um líquido.

Os dois jogadores entram
na sua própria sombra,
sentados à mesa que importa a morte?

Que importa o mundo contínuo
como a passagem da vida?

Se os dois jogadores fitando
o seu jogo conduzem a sorte.

14-10-2008

quarta-feira, outubro 22, 2008

Os Sapatos de Auschwitz



Os sapatos de Auschwitz
J.T. Parreira
ES 7,49 € / RP 9,10 €
69 páginas
Poesía
135 grs.
ISBN 978-84-92410-34-7
Edição de Fernando Luis Pérez Poza
El Taller del Poeta
Pontevedra

terça-feira, outubro 21, 2008

El Taller del Poeta. Pontevedra. Ver Aqui.

A Editora do poeta galego Fernando Luis Pérez Poza, de Pontevedra, editou o nosso último livro OS SAPATOS DE AUSCHWITZ , um conjunto de 61 poemas, que traduz a cosmovisão poética do autor.
Lançado hoje ao público através do site El Taller del Poeta.

Detalhes amanhã aqui.

A poética da semelhança, de Pablo e Paul




Guernica, de Picasso e A Alegoria da Deflagração da Guerra, de Rubens

sábado, outubro 18, 2008

Telas de Hopper na Cronópios

Telas de Hopper

O poeta e jornalista português João Tomaz Parreira envia-nos poemas concebidos para Edward Hopper.

Confira!

quinta-feira, outubro 16, 2008

Sylvia Pl(de)ath



Quando meteu a cabeça no forno de gaz
como um leão caindo sobre a presa
todos os poemas estavam prontos
dirigidos
para a morte sobre a mesa
Ela fê-lo de novo, e de novo
toda a manhã escureceu
a sua pele brilhante e o cabelo
como um sol loiro.

(Texto reescrito, em 15/10/2008)

Salmo, Op.137

Nenhum ramo dos salgueiros
está vazio, nenhum acena
suas folhas, o que toca o vento
são as harpas penduradas

Mas nos salgueiros não acontece
nada, ninguém sabe o que fazer
ao silêncio que espera
sob as cordas

Ninguém sabe o que fazer
da rosa que está ao meio do peito
de todos que olhamos os salgueiros

Sim ninguém pode trazer o coração
à luz do dia, à luz que sobe
de entre as margens destes rios.

terça-feira, outubro 14, 2008

Le Clézio: o ruído da água




Descobriu um. Conhecia dois títulos, por visitar com assiduidade livrarias e alfarrabistas. O nome do escritor também. Mas não era o seu autor francês, tinha outros desde muito novo, este não. Pronto. Mas acabou por ir à procura dele, tinha por norma ler sempre o Nobel.
Na Antiqualha, em Aveiro, estava um, na literatura francesa. J.M.G Le Clézio, Estrela Errante, e seus olhos iluminaram-se.

"Sabia que o Inverno tinha acabado quando ouvia o ruído da água". A frase inicial do romance abria todos os caminhos à Poesia, mesmo que depois o terrível começasse a desenhar-se naquele Verão de 1943. Como sabia, por experiência própria Rilke: o Belo não é senão o começo do terrível.

sábado, outubro 11, 2008

Concerto para violino e orquestra, Op. 35, na vitrola



O violino erra
cegamente pela sala
esgueira-se por baixo da porta
Toda a casa
começa a encher-se
de um dilúvio
dentro dos olhos.

2/10/2008

sexta-feira, outubro 10, 2008

Os Anestesistas

A vida retêm
e dão de novo:
não esperam,
nunca esperaram
pelo juízo final.

(António Osório)

quinta-feira, outubro 09, 2008

The 2008 Nobel Prize in Literature

NEWS
The 2008 Nobel Prize in Literature
The Nobel Prize in Literature goes to Jean-Marie Gustave Le Clézio, "author of new departures, poetic adventure and sensual ecstasy, explorer of a humanity beyond and below the reigning civilization".
in Nobelprize.Org

Entretanto, na sondagem interactiva que está a realizar(e continua), o site da Academia exibe que 87% dos inquiridos num universo de 7209 respostas, nunca leram nenhuma obra de Le Clézio. Só 13% dizem tê-lo lido.
Terá vencido assim a opinião do secretário permanente da Academia Sueca Horace Engdahl, que em declarações recentes chamava de "insular" a literatura dos EUA e denunciava seu papel "marginal" nas letras universais.
É conhecido que Engdahl é especialista em literatura francesa e tradutor para o sueco de escritores como Maurice Blanchot e Jacques Derrida.

terça-feira, outubro 07, 2008

O pássaro da Rua 52


Os fantasmas do Bebop
da Rua 52
marcam compassos na neve.
Um taxi passava, amarelando a noite,
um bêbado volátil
num passo de ganso, quase
dava um pontapé nas estrelas.
Esgueirava-se por baixo da porta
do Three Deuces um blues.
A rua era um espelho frio
quando chovia, agora lembra
um manto de arminho
ao colo de Lady Day.

2/10/2008

segunda-feira, outubro 06, 2008

O último da trilogia: Pathos


III - PATHOS

“Todos nós somos mais ou menos selvagens.”
(George Bernard Shaw)



A paixão cavalga à solta
nas veias da existência

senão a vida desértica
atava uma pedra ao pescoço
todos os dias
punha uma névoa nos olhos
um sabor amargo na boca
um coração
entre sombras

mesmo quando o rio selvagem
do excesso
nos galga as margens
mais vale morrer de paixão
que de mesmice.


Palmela, Setembro de 2008

(Brissos Lino)

domingo, outubro 05, 2008

Homeless

meu ninho. o teci-
do d'avenida Epitácio. fi-
o de pára-choques.
paralele-
pí-
pedos. pedaços de
papel e placas.

(Daniel Sampaio de Azevedo, 1983-)

in Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio

sábado, outubro 04, 2008

Uma menina cega na paragem do autocarro

Dentro da pedra de obsidiana preta
tudo se ilumina

O autocarro – dizem as vozes simples-
vem
do fundo da avenida

As vozes dentro de cristais
chegam à menina ternamente
com medo de partir
a sua noite de pedra.

3/10/2008

quinta-feira, outubro 02, 2008

Obituary

Blockquote Literary Kicks Opinions, Observations and Research :
Obituary by JTParreira

(Obituário

Fernando Pessoa morreu
no Bairro Alto, colocou os óculos sobre a mesa
para sempre, três dias antes
ainda era visto a dobrar uma esquina
da Baixa de Lisboa
gargalhadas soltas, uma tosse
a curvar o corpo para a frente.

2008)

quarta-feira, outubro 01, 2008

Uma Ria a que chamaram Aveiro

Esa agua de alma única,
Por la que te conocem por Carlos

Dâmaso Alonso



Como o espanhol também tenho o meu Carlos
a minha ria que chamaram Aveiro
os seus reflexos vêm de repente
de uma esquina verde
dos esteiros

Como o rio em Boston a que chamam Carlos
que passa
entre os edifícios de Harvard
a minha ria tem a sua linguagem
acompanha a sabedoria
de pés descalços e de gaivotas
que riscam reflexos no ar

Sentado na margem desta ria
a que chamaram Aveiro, meus olhos
não perguntam nada
meus pensamentos, esses, correm
dentro no leito da memória.

9/2008

terça-feira, setembro 30, 2008

Poéticas da Retórica (2)




II - ETHOS

“(…) estava nu e escondi-me”
(Génesis 3:10)


Despido pela culpa
há um medo sólido
e denso
a sufocar a garganta
do ser pensante

o trauma da falha
a consciência do mal
procuraram as árvores do jardim
mais cerradas
impenetráveis

a não ser para os olhos longos
com que a Ternura
ainda hoje me envolve.


Palmela, Setembro de 2008



(Brissos Lino)

segunda-feira, setembro 29, 2008

Yusef Komunyakaa

Elegy for Thelonious

Damn the snow.
Its senseless beauty
pours a hard light
through the hemlock.
Thelonious is dead. Winter
drifts in the hourglass;
notes pour from the brain cup.
Damn the alley cat
wailing a muted dirge
off Lenox Ave.
Thelonious is dead.
Tonight's a lazy rhapsody of shadows
swaying to blue vertigo
& metaphysical funk.
Black trees in the wind.
Crepuscule with Nellie
plays inside the bowed head.
"Dig the Man Ray of piano!"
O Satisfaction,
hot fingers blur on those white rib keys.
Coming on the Hudson.
Monk's Dream.
The ghost of bebop
from 52nd Street,
footprints in the snow.
Damn February.
Let's go to Minton's
& play "modern malice"
till daybreak. Lord,
there's Thelonious
wearing that old funky hat
pulled down over his eyes.

(Yusef Komunyakaa)


Elegia para Thelonius

Dane-se a neve.
A sua beleza sem sentido
derrama uma luz dura
através da pala dos arbustos.
Thelonius morreu. Inverno
a cair lentamente na ampulheta;
notas derramadas da taça do cérebro.
Dane-se o gato do beco
que geme silenciosos cantos fúnebres
para além da Avenida Lenox.
Thelonius morreu.
É uma vagarosa rapsódia de sombras esta noite
arrepiando até à vertigem um blue
& um funk metafísico.
Tal as árvores negras no vento.
Crepuscule with Nellie
a tocar na cabeça reverente
“Eis o Man Ray do Piano!”
Ó Satisfação,
dedos ardentes ofuscam o marfim nas teclas.
Coming on the Hudson.
Monk’s Dream.
O fantasma do bebop
da Rua 52
deixa pegadas na neve.
Dane-se Fevereiro.
Vamos até ao Minton’s
& tocar "maliciosamente"
até à alvorada. Senhor,
aqui está Thelonious
com aquele velho chapéu discreto
sobre os olhos.

(Trad. J.T.Parreira)

sexta-feira, setembro 26, 2008

Poéticas da Retórica

«Escrevi uma trilogia, 3 poemas sobre os 3 pilares da Retórica no mundo antigo: o Logos, o Ethos e o Pathos. Envio-te estes 3 inéditos para, querendo, usares como achares melhor.
Grande abraço.
Brissos»

Hiéron, Tirano de Siracusa (séc. V a.C), proibiu, como um requinte de crueldade sistémica dos ditadores, o uso da fala. Tornados assim conscientes da importância da fala, os sicilianos terão criado a Retórica. Da lenda manteve-se, desde Platão, a necessidade de persuadir pela excelência da linguagem, da arte de bem dizer.

I - LOGOS

“No princípio era o Verbo.”
(Evangelho de S. João 1:1)


No princípio era a Voz
mais a sua significância
o inteligível romper do silêncio cósmico
sustentado na eternidade

no princípio era o instaurar da Vida
a partir do pó da impossibilidade
harmonia projectada
por um pneuma desconcertante

no princípio era a opção da escolha
a probabilidade da imperfeição
o direito ao erro.


Palmela, Setembro de 2008

(Brissos Lino)

quinta-feira, setembro 25, 2008

Momento em Naim

Quadro antigo, desconhecido

Quando o enterro passou
as lágrimas que estavam
nos olhos da mãe, mais
viúvos ainda
bateram em quem
saudava um filho morto
Os prantos do luto
batiam na vida que circulava
na vida que diante da morte
fica nua
Quando num gesto largo Jesus
o esquife para, é a alma que corre
e sai da sombra
da morte surpreendida.


9/2008

terça-feira, setembro 23, 2008

Intertextualidade no discurso do Poeta

*Intertextualidade: o discurso do poeta não é uma unidade fechada.


OS CORVOS

“Os corvos eram bandeiras
nos mastros da manhã.”
(J. T. Parreira)

Os corvos são bandeiras
[negras
de navios piratas
buscam o seu tesouro
por entre espigas douradas
nas searas
e as ilhas que são
as chaminés do casario

regurgitam um grasnar irritante
uma espécie de uivo roufenho
de mau presságio
que escoa por um bico negro
de viúvo.

22/9/2008

(Brissos Lino)
*Pomar, Edgar Poe, Fernando Pessoa e o Corvo, 1985

segunda-feira, setembro 22, 2008

Conto Curto

A car door slamming in the night
John Ashbery


Os teus ruídos
chegaram a casa

A casa encheu
de luz
as janelas

Uma corrente de ar
nas cortinas

voou o vento
quando tornaste
a sair

do silêncio.



(Sobre o poema "Regressos", de 2006)

_________________________________________
_________________________________________

in Cronópios
A poeta e tradutora Flávia Rocha conta-nos sobre sua experiência com a poesia de Yusef Komunyakaa. Confira na coluna AMERICAN WAY.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Suicídio de Van Gogh

Os corvos eram bandeiras
nos mastros da manhã

Um céu vivo, azul
sem desespero

Já devíamos desconfiar
por não haver um fio de água
e o rio ser uma seara
de trigo
no caudal do vento

Devíamos lembrar Van Gogh
muitas tardes com olhos sozinhos
diante da linha irregular
do céu e da planície rasa.

17-9-2008

terça-feira, setembro 16, 2008

Elos de Poesia II - Lisboa - Academia de Recreio Artístico

AFINAL NÃO HOUVE, SERÁ MAIS TARDE.


No dia 18 de Setembro às 18H00, vai ter lugar na Academia de Recreio Artístico (Rua dos Fanqueiros, 286 - 1.º - Lisboa), o lançamento do livro "Elos da Poesia II", Colectânea de Poemas de Autores de Língua Portuguesa (Coordenação de Manuela Rodrigues e Fernando Oliveira).

Setembro

Well, you can do anything
but lay off of my blue suede shoes
Carl Perkins

Começa Setembro a mudar
de roupa para o Outono

Vamos recordar-nos
e esperar o próximo Verão
dentro de um jarro
de sangria, recuperado
o ânimo que o sol e o mar
sempre trazem nesses dias

Mas ainda estamos longe
desses brilhos e quem sabe
se teremos tempo para
cada vez mais ao sul
os procurar de novo
aos nossos sapatos
esses sapatos de camurça azul.

15/9/2008

sexta-feira, setembro 12, 2008

Intertextualidades

BlockquoteTodo o texto se constrói como mosaico de citações - Julia Kristeva
Poema inédito, recebido ontem do meu velho amigo Brissos Lino:

AS VEIAS

“Os rios não envelhecem
como as nossas veias.”
(João Tomaz Parreira)

As veias são rios internos
que carregam as dores dos homens

enchem e vazam
como as marés
segundo o parecer do coração
os humores do momento
os desvarios da boca
e do corpo

cansam-se na tarefa interminável
e pesada
de manter a vida erecta.


Palmela, Setembro de 2008

(Brissos Lino)

quarta-feira, setembro 10, 2008

Porto de Ponta Delgada

(Infância em 1957)

Na data da chegada dos navios
a saudade
voava no cordame
atava o movimento
do navio à pedra lavrada
de silêncios

no cais cheio de olhos
pousado no oceano

no meio do vozeario
só a espuma, sozinha
vai e vem, e branqueia
os limos e os sonhos

Depois tudo ficava
de novo imerso nas ausências.

8/2008

sábado, setembro 06, 2008

Intratextualidades

A consideração do poema na confissão de Andrade:

Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporaram
Ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus Maiakóvski.

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, setembro 03, 2008

Vilegiatura (I) e (II)

Não posso esquecer.
Um dia me mostraste
as ondas, rajadas de mar
que seca na praia.

14/8/2005


Chegam em revoadas as brumas
a aldeia encerra os rostos
das janelas, fecham os cordeiros
dentro da boca os seus balidos

O dia revê-se nos espelhos
quando chega a noite
quando os olhos se recolhem
de todos os sentidos

É o vento que cerca o lume
nas candeias, mas só as adormece
a infinita mão.

24/7/2005

sábado, agosto 30, 2008

O Tempo que passou

No Centenário
Edição de 1973
BlockquotePoeta
Poeta: uma criança em frente do papel.
Poema: os jogos inocentes,
invenções do menino aborrecido e só.
A pena joga com palavras ocas,
atira-as ao ar a ver se ganha ao jogo.
Os dados caem: são o poema. Ganhou.
(Adolfo Casais Monteiro)

quarta-feira, agosto 27, 2008

Intertextualidade

POEMA PARA UMA RECUSA

Hoje não:
amanhã cantarei
Corsino Fortes


Hoje ainda há uma estrada imóvel
diante de pedras
que é preciso vencer
Por isso, amanhã cantarei

Hoje as palavras são ainda
instáveis e assim
há ainda tropeços que enredam a língua

É preciso hoje ainda
moeda de troca, costumes
para transitar incólume na noite

Hoje não:
amanhã cantarei

Como cantar hoje diante dos grãos
inúteis que caem em pedras
como flutuar com o peso
dos pés sobre os espinhos

Por isso hoje não, amanhã

cantarei amanhã a chuva
sem outro mistério que o da água
o azul sem dúvidas metálicas
o mar como a chave
do horizonte

depois de perceber o rosal puro
do ocaso e o leite da aurora
amanhã cantarei.

25/8/2008

segunda-feira, agosto 25, 2008

Mitologias*

O FILHO DE APOLO

Orgulhoso de se saber filho de Apolo
o imberbe Faetonte insistiu em guiar
o carro do Sol do pai
logo que Eos afastou as cortinas
do Oriente

mas os cavalos indomáveis soltaram-se
loucos pelos ares
queimaram bosques
abriram desertos de areia
estalaram a terra nua
consumiram cidades
ferveram lagos
fizeram negros os africanos
e só pararam quando Faetonte
se precipitou nas águas
como estrela cadente
com o cabelo em chamas

hoje há um cisne negro no rio Erídano
um jovem amigo
que recolheu o corpo
do rapaz presunçoso.


Palmela, Maio de 2008

(Brissos Lino)

* Mitologias é série de poemas que este meu querido amigo está a escrever, ao ceder-me o primeiro veio honrar o Poeta Salutor.

sábado, agosto 23, 2008

(Suicídio é comunicação)

A mulher atirou-se do último andar
e ficou suspensa
nos fios do enredo dos postes
— a comunicar telegraficamente ao mundo
a sua beleza
que a angústia
tornava os cabelos mais livres
ao luto do vento...

(José Gomes Ferreira)

sexta-feira, agosto 22, 2008

O Tempo que passou


BlockquoteFernando Pessoa foi sempre movido pela consciência de ser o intermediário entre o divino e a humanidade e que uma missão, recebida, lhe cumpria desempenhar. Esta consciência move-o no seu percurso literário e culmina, amadurecida e trabalhada, na publicação, em 1934, da sua obra Mensagem. (...) Fernando Pessoa concorreu em Outubro de 1934, com esta obra, ao prémio Antero de Quental, do Secretariado da Propaganda Nacional, destindado a premiar uma obra de índole nacionalista. O primeiro prémio foi atribuído a Vasco Reis, mas o júri, presidido por António Ferro, decidiu elevar a quantia atribuída ao segundo prémio. Esta obra, que é geralmente considerada como a expressão do nacionalismo português é lida como uma obra universalista, tal como quase toda a obra pessoana, por estudiosos de inúmeros países. O seu carácter universalista, que o próprio Fernando Pessoa lhe atribuia, não tardou, pois, a ser-lhe reconhecido.
(Texto da responsabilidade da Universidade Fernando Pessoa)
No livro «Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação»(pg. 433), Pessoa afirma que pôs à venda «Mensagem», "propositadamente em 1 de Dezembro" de 1934.

segunda-feira, agosto 18, 2008

O que viu a mulher de Lot

A terra não acolheu
o repouso da mulher de Lot: de pé
ficou de pé a emergir
das ínfimas moléculas de sal
o sonho branco
afundado no silêncio
não houve manhã seguinte, nem
o emergir da alva.

4-8-2007

quarta-feira, agosto 13, 2008

Encontro


Bernini, Apolo e Dafne

Adeus, Dafne, foi tudo tão breve
um olhar retribuído
pela água verde dos teus olhos
um gesto iluminado
por uma conjunção de cristais
uma palavra
desviada no ar pela limpidez
de uma criança, foi tudo
tão branco
como a inocência da música
tão breve, saindo dos teus lábios.

18-5-2008

sábado, agosto 09, 2008

Morte do poeta palestiniano Mahmoud Darwish

Mahmoud Darwish (13/3/1941 -9/8/2008) was a contemporary Palestinian poet and writer of prose. He has published over thirty volumes of poetry, eight books of prose and has served as the editor of several publications, including: Al-Jadid, Al-Fajr, Shu'un Filistiniyya and Al-Karmel. He is recognized internationally for his poetry, which focuses on his strong affection for his lost homeland. His work has won numerous awards, and has been published in at least twenty-two languages. The majority of his work has not been translated into English.

A propósito da guerra civil entre o Hamas e a Fatah, Darwish escrevera recentemente um poema, cujo início é uma auto-crítica:

BlockquoteTínhamos que cair de tal altura tremenda para ver o sangue
em nossas mãos
para compreender que não somos anjos
como pensávamos?
Tínhamos também que expor nossas falhas ao mundo
para que nossa verdade não permanecesse virgem?
Como mentimos quando dissemos: somos a excepção!

terça-feira, agosto 05, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (6)

Room in New York

O sol é o mais alto
sítio de Nova Iorque

Movidas a vazio
as figuras aquecem sofás
bancos de piano
um vestido vermelho lança
para a imaginação o corpo

O interruptor acendeu a solidão.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Soljenitsine morre aos 89

Sem poesia

Não fazer poesia sobre acontecimentos, sobretudo quando a realidade ocupa todo um espaço concentracionário.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Antigamente em Paris

Antigamente em Paris
podia-se beijar o sol
numa esplanada de café
tranquilamente
deixar escorrer qualquer coisa fresca
pelo prazer abaixo
beber um sonho
sem gás

a vida corria líquida e clara
sem pressas
por dentro das veias

no tempo em que havia tempo
em Paris
podia-se tocar o céu
de olhos fechados.

(Brissos Lino)

in A Ovelha Perdida

quinta-feira, julho 31, 2008

Adrienne Rich



Women

My three sisters are sitting
on rocks of black obsidian.
For the first time, in this light, I can see who they are.
*
My first sister is sewing her costume for the procession.
She is going as the Transparent lady
and all her nerves will be visible.
*
My second sister is also sewing,
at the seam over her heart which has never healed entirely,
At last, she hopes, this tightness in her chest will ease.
*
My third sister is gazing
at a dark-red crust spreading westward far out on the sea.
Her stockings are torn but she is beautiful.

1968

Mulheres

As minhas três irmãs estão sentadas
numa rocha de obsidiana preta.
Nesta luz, pela primeira vez, posso ver quem são.
*
Minha primeira irmã costura um traje de procissão.
Vai como uma Senhora Transparente
e todos os seus nervos ficarão visíveis.
*
Minha segunda irmã também cose sobre
a ferida do coração, que nunca cicatrizou inteiramente,
espera, por fim, tornar impermeável o seu peito.
*
A terceira contempla
uma crosta de púrpura que se espalha para fora do mar.
Suas meias estão rasgadas mas é bela.
(Trad. J.T.Parreira)

quarta-feira, julho 30, 2008

terça-feira, julho 29, 2008

Lição de Poesia

Pensando nas relações entre poesia e linguagem, entre paixão, poesia e linguagem, formulei a coisa de que a poesia seria uma manifestação, sobretudo, de paixão pela linguagem, por causa do próprio caráter substantivo da poesia. Um poema não é como um conto, não é como um romance. Um conto, um romance são transparentes, deixam o olhar passar até o sentido. Na poesia, não. O olhar não passa, o olhar pára nas palavras.
(Paulo Leminski, via aqui textos)

sábado, julho 26, 2008

Arte Musical

Rembrandt, David tocando para Saul
Debaixo dos seus dedos a água corre

Pássaros acendem raios
multicolores, sob os dedos de David

Pendem flores da mesa
na presença dos inimigos
e nos lábios os cálices
transbordam

Pastor de cordas no vento
quando os seus dedos tocam
até que à harpa regressem
os silêncios.

terça-feira, julho 22, 2008

Dois Macacos por Brueghel

Poema de Wislawa Szymborska, 1957

Guardo o sonho de minha tese de licenciatura:
numa janela sentam-se dois macacos acorrentados,
atrás da janela o céu flutua,
e o mar espirra.

Estou a fazer um exame sobre a história
da humanidade:
gaguejo e hesito.

Um macaco, lança-me os olhos, escuta
ironicamente,
o outro parece sonolento--
e quando à pergunta segue o silêncio,
ele incita-me
com o macio tinido da corrente.

(Trad. J.T.Parreira)

domingo, julho 20, 2008

Wislawa Szymborska

Two Monkeys by Brueghel #

I keep dreaming of my graduation exam:
in a window sit two chained monkeys,
beyond the window floats the sky,
and the sea splashes.

I am taking an exam on the history of
mankind:
I stammer and flounder.

One monkey, eyes fixed upon me, listens
ironically,
the other seems to be dozing--
and when silence follows a question,
he prompts me
with a soft jingling of the chain.

(trans. from the Polish by Magnus Kryski)

# Amanhã ( hoje é domingo), a versão em português.

sábado, julho 19, 2008

sexta-feira, julho 18, 2008

Testemunho

BlockquoteLê-lo é sempre um desafio. A sua poesia remete-nos para o Universo do não dito, do oculto. E todavia, as imagens são palpáveis, verificáveis.Gosto de o ler. Bem haja por partilhar.Cordiais saudações.

Mel de Carvalho ("Escrita Criativa")

quinta-feira, julho 17, 2008

Os Escritores

Michael Horovitz e Allen Ginsberg, Londres, verão de 1965


Peça em dois quadros num Acto.

Personagens:
Arlen, um americano, contista conhecido nos meios da revista Literay Kicks, cerca de 40 anos.Specter, perto dos 60. Crítico literário avulso.

Uma mesa de café com dois bules, um com café outro com leite, duas chávenas. Uma espécie de Starbucks de bairro da parte baixa da cidade, meia dúzia de frequentadores, já conhecidos. Os últimos. Algumas cadeiras já arrumadas, umas sobre as outras, como uma torre de Babel. Duas horas da manhã.

Arlen - Bela noite para dar um tiro no ouvido! (Olhou para o seu interlocutor, movimentou a mão direita para os lados, sobre o tampo da mesa e, depois, levou-a à têmpora direita, e com dois dedos em ângulo)- Puff!Pausa. - A personagem parece estar a pedi-lo.

Specter ( olha para Arlen e franze os sobrolhos) - Depois dos diálogos que já lhes ouvi, Arlen, não sei se daria certo. Pausa.-É que há correspondência de estados e de sentimentos entre os diálogos das tuas personagens, Mikhail Baktin não iria gostar. Risos na mesa.

Arlen - Polifonia nos discursos que nem sempre são contradições. Afinal o dialogismo para Baktin vai muito mais além…Pausa

Specter ( interrompendo)- …de textos dentro do texto. Eu sei, mesmo assim, para além do entrecruzar de várias vozes, as tuas personagens parece que estão de acordo.

Arlen - Perante os factos criados no enredo, gostava de poder dizer isso. O tema, contudo, não me parece propício. Às dialogias .

Specter - Óbvio, precisas criar um ambiente pós-traumático às tuas personagens, sendo que cada uma teria a sua maneira de verbalizar o conflito.

Arlen- A recorrente história próxima da América com a Guerra do Vietname, não me deixou outro recurso.

Specter ( emenda-o, com um gesto) - Não, outra fonte. Os teus trabalhos sobre isso, sempre foram muito históricos. É uma fonte a que vais beber.Pausa-Li Chomski, sabes.

Arlen- O Noam fez a crítica da guerra pelo lado do Poder Americano. (Levanta-se, sai fora da luz, como se fosse ao balcão e vem com uma chávena)-Está vazia. (Agarra no bule com leite e verte na chávena). Não quero mais café forte, hoje.
Saem ambos, depois de Arlen beber a mistura e deixar 2 dólares sobre a mesa.
Dia seguinte. Manhã. Esquina de uma Rua com a 6ª, na Village, com vapor a sair de uma grelha no chão.

Specter (com ar lavado, cabelo comprido humedecido) - Estive a reler um poema que escreveste há uns anos para o Departamento de Poesia da New Yorker. Lembras-te?

Arlen ( fazendo um esforço, fala vagamente) - É aquele do cigarro abortado antes da última cinza?

Specter (diz que sim com a cabeça) - Esse, no qual fazes um esforço para contradizeres tudo o que Bakhtin ensinou sobre a presença de outros textos dentro do texto…

Arlen ( interrompe-o de chofre) - Dialogias, não. Logo de manhã. Esse poema é um único texto e sou eu mesmo, do princípio ao fim.

Specter (com ar desconfiado, tira um folha de papel que parece ser de revista do bolso, pára, lê um excerto com ar dramático). - Quando a noite chega e meus olhos / são uma sala vazia, quando a noite chega / e olho meus livros, os meus utensílios /com palavras na penumbra, é a hora da luz / iluminar com a sua água sobre a mesa...

Arlen ( puxando-lhe o braço, interrompe-o) - Esse poema podia hoje aplicá-lo à minha personagem…anda às voltas com a noite.

Specter ( com ironia) - Cá está, outro texto, não apenas uma personagem e um diálogo, mas duas pelo menos: a noite e tu.

Arlen (vitorioso) - Aí está, digo eu agora. A noite é pura e simplesmente antagonista.Ela não responde nada, é alheia ao sujeito poético desse poema. (Tira-lhe da mão a folha de revista.) Deixa-me ler. “Quando chega a noite / estou cercado de perguntas, algumas / respondo, outras cingem-me os ombros “ (Lê em voz bem audível, de uma forma neutral)

Specter ( retoma o passo e arrasta o amigo) - Se incluíres esse poema no conto, em forma de prosa, ou seja como for, terás o caminho aberto para o que disseste ontem à noite.

Arlen ( pára, pensa um pouco, abre ligeiramente os braços) - Matar a personagem com um tiro no ouvido? ( leva a mão direita à têmpora e abre em ângulo dois dedos).
Specter (sibilinamente) - Puff!

(J.T.Parreira)

terça-feira, julho 15, 2008

Pontes de Paris, Nadir Afonso


As águas do Sena
são um manual
de arquitectura

de pontes
rectilíneas em arco
no espelho
do rio, esculpindo
as águas, as pontes
multiplicam-se


sob o céu de vidro
pardo, parado.


11-7-2008

sexta-feira, julho 11, 2008

À espera dos Bárbaros

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! Eles eram uma solução.
Kaváfis
Sonhávamos com os bárbaros
com suas barbas
carregadas de presságios
As nossas terras férteis e o ameno mar
diziam que chegavam hoje
Os seus costumes já não chocam
a nossa sisudez de pedra e cal
já não são as nossas obras
nem a fronteira
entre o bem e o mal
Dizem que os bárbaros
chegam hoje, ou talvez
mais tarde, para continuar
o estudo do silêncio que os precede.

quarta-feira, julho 09, 2008

Partida

When you go,
if you go
and I should want to die
Edwin Morgan

Marcados para o amor, para a resistência
do amor
pensam quando um deles partir
o que o outro deseja
como morrer
também às mesmas mãos infinitas
ir no mesmo abraço
transparente, sem corpo
só com o olhar alegre do olvido
posto no Altíssimo.
Quando um deles partir
se partir
o outro ficará acordado, quase
estremecendo pela morte.

6/2008

segunda-feira, julho 07, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (5)

A Casa ao lado do caminho de ferro

Out here in the exact middle of the day
Edward Hirsch

No meio do dia, nada
lá para diante

a estranha casa escuta
os carris
dentro de si

Quatro janelas
com as cortinas do sol
expostas num lado
como um lua quadrada

do outro lado
sempre a sombra

e o telhado
burlesco
de mansarda.

1º Aniversário

BlockquoteEste é o blogue pessoal de Brissos Lino. O "Ovelha Perdida" constitui uma reflexão sobre a vida nas suas diferentes dimensões. A Arte, o Belo, as ciências e os saberes têm aqui tanto cabimento como o humor, o desporto, a crítica social, a política, ou a espiritualidade. Sobretudo muita poesia.»
Parabéns do Poeta Salutor ao querido amigo de há mais de 35 anos anos, Poeta e Médico dos melhores.

sábado, julho 05, 2008

The Last Supper

Catálogo da exposição
"A Última Ceia" que é também a derradeira exposição que esta Galeria faz em Aveiro, sob o nome Galeria Sacramento, é inaugurada hoje, pelas 22 horas, na Rua do Gravito, 22.
Os quadros, as esculturas e a fotografia de 33 criadores ( onde se inclui, e.g. Cruzeiro Seixas) estarão acessíveis ao público até 26 de Julho.
O texto de apresentação crítica, no catálogo de 23 páginas, é nosso.

BlockquoteA Última Ceia explica algumas coisas, conceitos e práticas religiosas, da nossa Cultura judaico-cristã. (...)
No campo das artes plásticas até Leonardo da Vinci poucos se atreveram a pintá-la propondo uma leitura teológica, abrindo as portas a uma hermeneutica. Limitaram-se a figurar com volumes e cores uma narrativa evangélica e um preconceito universal contra Judas. (...)
Agora o objectivo desta Colectiva é propor leituras com linhas diversas e mesmo contraditórias, próximas da teologia, ou contíguas até do ateísmo em algumas propostas metonímicas. (...)
Os olhares sobre a temática proposta e a estética manifestada são multifacetados e polissémicos.

sexta-feira, julho 04, 2008

Um livro sobre Edward Hopper

Blockquote Hopper, de Mark Strand
Traducción de J. A. Montiel. Lumen. Barcelona, 2008. 115 páginas, 14’50 euros
(...) Un libro de 1994 dedicado a Edward Hopper por el poeta canadiense Mark Strand.
Strand quiso también ser pintor. Llegó, además, a realizar estudios de arte en Yale, y este bagaje aflora aquí a lo largo de los breves capítulos que dedica a una treintena de cuadros de Hopper, desde el famoso Casa junto a las vías del tren, que es de 1925, hasta Coche de asientos, su última obra pintada en 1965.
Apreciamos, así, ciertos principios de análisis formalista en los comentarios a cada uno de los óleos seleccionados, que a veces van al alimón cuando su temática o su textura lo aconsejan, como sucede con Gasolina y Autovía de cuatro carriles, Sol matutino y Una mujer al sol, o Ventana de hotel y Habitación de hotel.
Tras una breve descripción de la anécdota reflejada, Strand se demora en identificar la composición en términos geométricos, sobre todo triángulos y trapecios isósceles, o en determinar el punto de fuga y el tratamiento específico que en cada caso se le da a la luz, tan distinto del modo impresionista.
Pero enseguida cambia el registro a favor de una puesta en palabras de la identificación del observador con el lienzo. Aparte de que, como americano del norte que es, coetáneo del artista, Strand crea observar en sus obras “escenas de mi propio pasado”, le seduce algo a lo que es difícil hurtarse y Updike denominó “la tentación narrativa” del creador de Aves nocturnas, Anochecer en Cape Cod, Automat, Digresión filosófica o Habitación en Nueva York. En este sentido, el poeta trasciende al crítico, y las páginas de Strand se convierten en verdaderas écfrasis de los cuadros de Hopper.
(Darío Villanueva)
in El Cultural, suplemento do diário El Mundo, de 3-7-2008

quinta-feira, julho 03, 2008

No Entry

Não entres por essa porta,
ou então entra. Se acaso
é o mesmo que entrar
num dia de nuvens,
sem o tédio do guarda-chuva.

Então entra. Se a porta
é um mistério
por fora da parede da casa,
mas evita bater
no nó visível da madeira,
tocar campainha, desencadear
o processo mecânico
da abertura, ou mesmo
encostar o silêncio ao ouvido.

Não entres por essa
ou outra porta
dissimulada no alto muro
que já deixou de ser o sonho,
que te apresentam.
Ou então entra. Acaso sabes
tudo do limiar do outro lado?
Se há chão, um tunel
ao fundo do qual a luz?
Um abismo apesar de azul?


26/6/2008

sexta-feira, junho 27, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (4)


Janelas à noite

O comboio elevado passa
olhares rápidos

O calor do quarto atrai
os olhares

Janelas a espreitar
na noite
uma mulher arredondada
numa combinação vermelha

e
o andar abaixo,
apagado.

The Creative Pen

Congratulations To Al June 2008 Poetry Award WinnersThe Creative Pen - Poetry Forum Members may also view winnersThis link - http://www.freewebs.com/poetrynews/

Author - jtparreira - For Poem Entry - Picasso

quarta-feira, junho 25, 2008

Convite/Apresentação, DiVersos 13

Apresentação de Duas Colecções de Poesia, Quinta-Feira, 3 de Julho, às 18:00

As Edições Sempre-em-Pé e a Casa Fernando Pessoa têm o prazer de convidar V. Exa para uma sessão em que serão apresentadas as duas séries de poesia actualmente publicadas pela editora referida: a série DiVersos - Poesia e Tradução, que se publica desde 1996, e a colecção de poesia UniVersos, iniciada em 2005.

Além de outros números recentes, estará disponível o n.º 13 da DiVersos, acabado de publicar em Junho. Serão lidos poemas por alguns poetas (Cristino Cortes, João Miguel Henriques, J. T. Parreira e Ruy Ventura) e tradutores (Ana Maria Carvalho, José Lima e Manuel Resende) que já colaboraram com a DiVersos.

Dos quatro títulos publicados na colecção UniVersos, os dois últimos serão abordados com mais vagar: Rio Abaixo, Rio Acima, do poeta alemão Tobias Burghardt, numa edição bilingue com tradução portuguesa de Maria de Nazaré Sanches, e Gloria Victis, do poeta Carlos Garcia de Castro, com a presença e apresentação pelo Autor e comentário crítico do Dr. Rui Cardoso Martins, do Jornal Público.

A sessão será coordenada por José Carlos Costa Marques, um dos coordenadores de DiVersos e editor de ambas as séries. A entrada é livre.

terça-feira, junho 24, 2008

O Tempo que passou

3 Poemas de William Carlos Williams
Tradução e apresentação de José Palla e Carmo.
in "Companha", Suplemento do nº271 do jornal "Litoral", Dezembro 1959, Ano I, Nº 4

segunda-feira, junho 23, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (3)


EARLY SUNDAY MORNING

Espreitam o sol
as janelas pachorrentas

amarelo-rosa

para o nosso lado
esquerdo
as sombras deslizam

na rua,uma rua
de Hopper

é paciente, espera
logo virão pessoas
dentro de si, vazias
remotas.

Belas, 22-6-2008