segunda-feira, setembro 29, 2008

Yusef Komunyakaa

Elegy for Thelonious

Damn the snow.
Its senseless beauty
pours a hard light
through the hemlock.
Thelonious is dead. Winter
drifts in the hourglass;
notes pour from the brain cup.
Damn the alley cat
wailing a muted dirge
off Lenox Ave.
Thelonious is dead.
Tonight's a lazy rhapsody of shadows
swaying to blue vertigo
& metaphysical funk.
Black trees in the wind.
Crepuscule with Nellie
plays inside the bowed head.
"Dig the Man Ray of piano!"
O Satisfaction,
hot fingers blur on those white rib keys.
Coming on the Hudson.
Monk's Dream.
The ghost of bebop
from 52nd Street,
footprints in the snow.
Damn February.
Let's go to Minton's
& play "modern malice"
till daybreak. Lord,
there's Thelonious
wearing that old funky hat
pulled down over his eyes.

(Yusef Komunyakaa)


Elegia para Thelonius

Dane-se a neve.
A sua beleza sem sentido
derrama uma luz dura
através da pala dos arbustos.
Thelonius morreu. Inverno
a cair lentamente na ampulheta;
notas derramadas da taça do cérebro.
Dane-se o gato do beco
que geme silenciosos cantos fúnebres
para além da Avenida Lenox.
Thelonius morreu.
É uma vagarosa rapsódia de sombras esta noite
arrepiando até à vertigem um blue
& um funk metafísico.
Tal as árvores negras no vento.
Crepuscule with Nellie
a tocar na cabeça reverente
“Eis o Man Ray do Piano!”
Ó Satisfação,
dedos ardentes ofuscam o marfim nas teclas.
Coming on the Hudson.
Monk’s Dream.
O fantasma do bebop
da Rua 52
deixa pegadas na neve.
Dane-se Fevereiro.
Vamos até ao Minton’s
& tocar "maliciosamente"
até à alvorada. Senhor,
aqui está Thelonious
com aquele velho chapéu discreto
sobre os olhos.

(Trad. J.T.Parreira)

sexta-feira, setembro 26, 2008

Poéticas da Retórica

«Escrevi uma trilogia, 3 poemas sobre os 3 pilares da Retórica no mundo antigo: o Logos, o Ethos e o Pathos. Envio-te estes 3 inéditos para, querendo, usares como achares melhor.
Grande abraço.
Brissos»

Hiéron, Tirano de Siracusa (séc. V a.C), proibiu, como um requinte de crueldade sistémica dos ditadores, o uso da fala. Tornados assim conscientes da importância da fala, os sicilianos terão criado a Retórica. Da lenda manteve-se, desde Platão, a necessidade de persuadir pela excelência da linguagem, da arte de bem dizer.

I - LOGOS

“No princípio era o Verbo.”
(Evangelho de S. João 1:1)


No princípio era a Voz
mais a sua significância
o inteligível romper do silêncio cósmico
sustentado na eternidade

no princípio era o instaurar da Vida
a partir do pó da impossibilidade
harmonia projectada
por um pneuma desconcertante

no princípio era a opção da escolha
a probabilidade da imperfeição
o direito ao erro.


Palmela, Setembro de 2008

(Brissos Lino)

quinta-feira, setembro 25, 2008

Momento em Naim

Quadro antigo, desconhecido

Quando o enterro passou
as lágrimas que estavam
nos olhos da mãe, mais
viúvos ainda
bateram em quem
saudava um filho morto
Os prantos do luto
batiam na vida que circulava
na vida que diante da morte
fica nua
Quando num gesto largo Jesus
o esquife para, é a alma que corre
e sai da sombra
da morte surpreendida.


9/2008

terça-feira, setembro 23, 2008

Intertextualidade no discurso do Poeta

*Intertextualidade: o discurso do poeta não é uma unidade fechada.


OS CORVOS

“Os corvos eram bandeiras
nos mastros da manhã.”
(J. T. Parreira)

Os corvos são bandeiras
[negras
de navios piratas
buscam o seu tesouro
por entre espigas douradas
nas searas
e as ilhas que são
as chaminés do casario

regurgitam um grasnar irritante
uma espécie de uivo roufenho
de mau presságio
que escoa por um bico negro
de viúvo.

22/9/2008

(Brissos Lino)
*Pomar, Edgar Poe, Fernando Pessoa e o Corvo, 1985

segunda-feira, setembro 22, 2008

Conto Curto

A car door slamming in the night
John Ashbery


Os teus ruídos
chegaram a casa

A casa encheu
de luz
as janelas

Uma corrente de ar
nas cortinas

voou o vento
quando tornaste
a sair

do silêncio.



(Sobre o poema "Regressos", de 2006)

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in Cronópios
A poeta e tradutora Flávia Rocha conta-nos sobre sua experiência com a poesia de Yusef Komunyakaa. Confira na coluna AMERICAN WAY.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Suicídio de Van Gogh

Os corvos eram bandeiras
nos mastros da manhã

Um céu vivo, azul
sem desespero

Já devíamos desconfiar
por não haver um fio de água
e o rio ser uma seara
de trigo
no caudal do vento

Devíamos lembrar Van Gogh
muitas tardes com olhos sozinhos
diante da linha irregular
do céu e da planície rasa.

17-9-2008

terça-feira, setembro 16, 2008

Elos de Poesia II - Lisboa - Academia de Recreio Artístico

AFINAL NÃO HOUVE, SERÁ MAIS TARDE.


No dia 18 de Setembro às 18H00, vai ter lugar na Academia de Recreio Artístico (Rua dos Fanqueiros, 286 - 1.º - Lisboa), o lançamento do livro "Elos da Poesia II", Colectânea de Poemas de Autores de Língua Portuguesa (Coordenação de Manuela Rodrigues e Fernando Oliveira).

Setembro

Well, you can do anything
but lay off of my blue suede shoes
Carl Perkins

Começa Setembro a mudar
de roupa para o Outono

Vamos recordar-nos
e esperar o próximo Verão
dentro de um jarro
de sangria, recuperado
o ânimo que o sol e o mar
sempre trazem nesses dias

Mas ainda estamos longe
desses brilhos e quem sabe
se teremos tempo para
cada vez mais ao sul
os procurar de novo
aos nossos sapatos
esses sapatos de camurça azul.

15/9/2008

sexta-feira, setembro 12, 2008

Intertextualidades

BlockquoteTodo o texto se constrói como mosaico de citações - Julia Kristeva
Poema inédito, recebido ontem do meu velho amigo Brissos Lino:

AS VEIAS

“Os rios não envelhecem
como as nossas veias.”
(João Tomaz Parreira)

As veias são rios internos
que carregam as dores dos homens

enchem e vazam
como as marés
segundo o parecer do coração
os humores do momento
os desvarios da boca
e do corpo

cansam-se na tarefa interminável
e pesada
de manter a vida erecta.


Palmela, Setembro de 2008

(Brissos Lino)

quarta-feira, setembro 10, 2008

Porto de Ponta Delgada

(Infância em 1957)

Na data da chegada dos navios
a saudade
voava no cordame
atava o movimento
do navio à pedra lavrada
de silêncios

no cais cheio de olhos
pousado no oceano

no meio do vozeario
só a espuma, sozinha
vai e vem, e branqueia
os limos e os sonhos

Depois tudo ficava
de novo imerso nas ausências.

8/2008

sábado, setembro 06, 2008

Intratextualidades

A consideração do poema na confissão de Andrade:

Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporaram
Ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus Maiakóvski.

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, setembro 03, 2008

Vilegiatura (I) e (II)

Não posso esquecer.
Um dia me mostraste
as ondas, rajadas de mar
que seca na praia.

14/8/2005


Chegam em revoadas as brumas
a aldeia encerra os rostos
das janelas, fecham os cordeiros
dentro da boca os seus balidos

O dia revê-se nos espelhos
quando chega a noite
quando os olhos se recolhem
de todos os sentidos

É o vento que cerca o lume
nas candeias, mas só as adormece
a infinita mão.

24/7/2005

sábado, agosto 30, 2008

O Tempo que passou

No Centenário
Edição de 1973
BlockquotePoeta
Poeta: uma criança em frente do papel.
Poema: os jogos inocentes,
invenções do menino aborrecido e só.
A pena joga com palavras ocas,
atira-as ao ar a ver se ganha ao jogo.
Os dados caem: são o poema. Ganhou.
(Adolfo Casais Monteiro)

quarta-feira, agosto 27, 2008

Intertextualidade

POEMA PARA UMA RECUSA

Hoje não:
amanhã cantarei
Corsino Fortes


Hoje ainda há uma estrada imóvel
diante de pedras
que é preciso vencer
Por isso, amanhã cantarei

Hoje as palavras são ainda
instáveis e assim
há ainda tropeços que enredam a língua

É preciso hoje ainda
moeda de troca, costumes
para transitar incólume na noite

Hoje não:
amanhã cantarei

Como cantar hoje diante dos grãos
inúteis que caem em pedras
como flutuar com o peso
dos pés sobre os espinhos

Por isso hoje não, amanhã

cantarei amanhã a chuva
sem outro mistério que o da água
o azul sem dúvidas metálicas
o mar como a chave
do horizonte

depois de perceber o rosal puro
do ocaso e o leite da aurora
amanhã cantarei.

25/8/2008

segunda-feira, agosto 25, 2008

Mitologias*

O FILHO DE APOLO

Orgulhoso de se saber filho de Apolo
o imberbe Faetonte insistiu em guiar
o carro do Sol do pai
logo que Eos afastou as cortinas
do Oriente

mas os cavalos indomáveis soltaram-se
loucos pelos ares
queimaram bosques
abriram desertos de areia
estalaram a terra nua
consumiram cidades
ferveram lagos
fizeram negros os africanos
e só pararam quando Faetonte
se precipitou nas águas
como estrela cadente
com o cabelo em chamas

hoje há um cisne negro no rio Erídano
um jovem amigo
que recolheu o corpo
do rapaz presunçoso.


Palmela, Maio de 2008

(Brissos Lino)

* Mitologias é série de poemas que este meu querido amigo está a escrever, ao ceder-me o primeiro veio honrar o Poeta Salutor.

sábado, agosto 23, 2008

(Suicídio é comunicação)

A mulher atirou-se do último andar
e ficou suspensa
nos fios do enredo dos postes
— a comunicar telegraficamente ao mundo
a sua beleza
que a angústia
tornava os cabelos mais livres
ao luto do vento...

(José Gomes Ferreira)

sexta-feira, agosto 22, 2008

O Tempo que passou


BlockquoteFernando Pessoa foi sempre movido pela consciência de ser o intermediário entre o divino e a humanidade e que uma missão, recebida, lhe cumpria desempenhar. Esta consciência move-o no seu percurso literário e culmina, amadurecida e trabalhada, na publicação, em 1934, da sua obra Mensagem. (...) Fernando Pessoa concorreu em Outubro de 1934, com esta obra, ao prémio Antero de Quental, do Secretariado da Propaganda Nacional, destindado a premiar uma obra de índole nacionalista. O primeiro prémio foi atribuído a Vasco Reis, mas o júri, presidido por António Ferro, decidiu elevar a quantia atribuída ao segundo prémio. Esta obra, que é geralmente considerada como a expressão do nacionalismo português é lida como uma obra universalista, tal como quase toda a obra pessoana, por estudiosos de inúmeros países. O seu carácter universalista, que o próprio Fernando Pessoa lhe atribuia, não tardou, pois, a ser-lhe reconhecido.
(Texto da responsabilidade da Universidade Fernando Pessoa)
No livro «Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação»(pg. 433), Pessoa afirma que pôs à venda «Mensagem», "propositadamente em 1 de Dezembro" de 1934.

segunda-feira, agosto 18, 2008

O que viu a mulher de Lot

A terra não acolheu
o repouso da mulher de Lot: de pé
ficou de pé a emergir
das ínfimas moléculas de sal
o sonho branco
afundado no silêncio
não houve manhã seguinte, nem
o emergir da alva.

4-8-2007

quarta-feira, agosto 13, 2008

Encontro


Bernini, Apolo e Dafne

Adeus, Dafne, foi tudo tão breve
um olhar retribuído
pela água verde dos teus olhos
um gesto iluminado
por uma conjunção de cristais
uma palavra
desviada no ar pela limpidez
de uma criança, foi tudo
tão branco
como a inocência da música
tão breve, saindo dos teus lábios.

18-5-2008

sábado, agosto 09, 2008

Morte do poeta palestiniano Mahmoud Darwish

Mahmoud Darwish (13/3/1941 -9/8/2008) was a contemporary Palestinian poet and writer of prose. He has published over thirty volumes of poetry, eight books of prose and has served as the editor of several publications, including: Al-Jadid, Al-Fajr, Shu'un Filistiniyya and Al-Karmel. He is recognized internationally for his poetry, which focuses on his strong affection for his lost homeland. His work has won numerous awards, and has been published in at least twenty-two languages. The majority of his work has not been translated into English.

A propósito da guerra civil entre o Hamas e a Fatah, Darwish escrevera recentemente um poema, cujo início é uma auto-crítica:

BlockquoteTínhamos que cair de tal altura tremenda para ver o sangue
em nossas mãos
para compreender que não somos anjos
como pensávamos?
Tínhamos também que expor nossas falhas ao mundo
para que nossa verdade não permanecesse virgem?
Como mentimos quando dissemos: somos a excepção!

terça-feira, agosto 05, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (6)

Room in New York

O sol é o mais alto
sítio de Nova Iorque

Movidas a vazio
as figuras aquecem sofás
bancos de piano
um vestido vermelho lança
para a imaginação o corpo

O interruptor acendeu a solidão.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Soljenitsine morre aos 89

Sem poesia

Não fazer poesia sobre acontecimentos, sobretudo quando a realidade ocupa todo um espaço concentracionário.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Antigamente em Paris

Antigamente em Paris
podia-se beijar o sol
numa esplanada de café
tranquilamente
deixar escorrer qualquer coisa fresca
pelo prazer abaixo
beber um sonho
sem gás

a vida corria líquida e clara
sem pressas
por dentro das veias

no tempo em que havia tempo
em Paris
podia-se tocar o céu
de olhos fechados.

(Brissos Lino)

in A Ovelha Perdida

quinta-feira, julho 31, 2008

Adrienne Rich



Women

My three sisters are sitting
on rocks of black obsidian.
For the first time, in this light, I can see who they are.
*
My first sister is sewing her costume for the procession.
She is going as the Transparent lady
and all her nerves will be visible.
*
My second sister is also sewing,
at the seam over her heart which has never healed entirely,
At last, she hopes, this tightness in her chest will ease.
*
My third sister is gazing
at a dark-red crust spreading westward far out on the sea.
Her stockings are torn but she is beautiful.

1968

Mulheres

As minhas três irmãs estão sentadas
numa rocha de obsidiana preta.
Nesta luz, pela primeira vez, posso ver quem são.
*
Minha primeira irmã costura um traje de procissão.
Vai como uma Senhora Transparente
e todos os seus nervos ficarão visíveis.
*
Minha segunda irmã também cose sobre
a ferida do coração, que nunca cicatrizou inteiramente,
espera, por fim, tornar impermeável o seu peito.
*
A terceira contempla
uma crosta de púrpura que se espalha para fora do mar.
Suas meias estão rasgadas mas é bela.
(Trad. J.T.Parreira)

quarta-feira, julho 30, 2008

terça-feira, julho 29, 2008

Lição de Poesia

Pensando nas relações entre poesia e linguagem, entre paixão, poesia e linguagem, formulei a coisa de que a poesia seria uma manifestação, sobretudo, de paixão pela linguagem, por causa do próprio caráter substantivo da poesia. Um poema não é como um conto, não é como um romance. Um conto, um romance são transparentes, deixam o olhar passar até o sentido. Na poesia, não. O olhar não passa, o olhar pára nas palavras.
(Paulo Leminski, via aqui textos)

sábado, julho 26, 2008

Arte Musical

Rembrandt, David tocando para Saul
Debaixo dos seus dedos a água corre

Pássaros acendem raios
multicolores, sob os dedos de David

Pendem flores da mesa
na presença dos inimigos
e nos lábios os cálices
transbordam

Pastor de cordas no vento
quando os seus dedos tocam
até que à harpa regressem
os silêncios.

terça-feira, julho 22, 2008

Dois Macacos por Brueghel

Poema de Wislawa Szymborska, 1957

Guardo o sonho de minha tese de licenciatura:
numa janela sentam-se dois macacos acorrentados,
atrás da janela o céu flutua,
e o mar espirra.

Estou a fazer um exame sobre a história
da humanidade:
gaguejo e hesito.

Um macaco, lança-me os olhos, escuta
ironicamente,
o outro parece sonolento--
e quando à pergunta segue o silêncio,
ele incita-me
com o macio tinido da corrente.

(Trad. J.T.Parreira)

domingo, julho 20, 2008

Wislawa Szymborska

Two Monkeys by Brueghel #

I keep dreaming of my graduation exam:
in a window sit two chained monkeys,
beyond the window floats the sky,
and the sea splashes.

I am taking an exam on the history of
mankind:
I stammer and flounder.

One monkey, eyes fixed upon me, listens
ironically,
the other seems to be dozing--
and when silence follows a question,
he prompts me
with a soft jingling of the chain.

(trans. from the Polish by Magnus Kryski)

# Amanhã ( hoje é domingo), a versão em português.

sábado, julho 19, 2008

sexta-feira, julho 18, 2008

Testemunho

BlockquoteLê-lo é sempre um desafio. A sua poesia remete-nos para o Universo do não dito, do oculto. E todavia, as imagens são palpáveis, verificáveis.Gosto de o ler. Bem haja por partilhar.Cordiais saudações.

Mel de Carvalho ("Escrita Criativa")

quinta-feira, julho 17, 2008

Os Escritores

Michael Horovitz e Allen Ginsberg, Londres, verão de 1965


Peça em dois quadros num Acto.

Personagens:
Arlen, um americano, contista conhecido nos meios da revista Literay Kicks, cerca de 40 anos.Specter, perto dos 60. Crítico literário avulso.

Uma mesa de café com dois bules, um com café outro com leite, duas chávenas. Uma espécie de Starbucks de bairro da parte baixa da cidade, meia dúzia de frequentadores, já conhecidos. Os últimos. Algumas cadeiras já arrumadas, umas sobre as outras, como uma torre de Babel. Duas horas da manhã.

Arlen - Bela noite para dar um tiro no ouvido! (Olhou para o seu interlocutor, movimentou a mão direita para os lados, sobre o tampo da mesa e, depois, levou-a à têmpora direita, e com dois dedos em ângulo)- Puff!Pausa. - A personagem parece estar a pedi-lo.

Specter ( olha para Arlen e franze os sobrolhos) - Depois dos diálogos que já lhes ouvi, Arlen, não sei se daria certo. Pausa.-É que há correspondência de estados e de sentimentos entre os diálogos das tuas personagens, Mikhail Baktin não iria gostar. Risos na mesa.

Arlen - Polifonia nos discursos que nem sempre são contradições. Afinal o dialogismo para Baktin vai muito mais além…Pausa

Specter ( interrompendo)- …de textos dentro do texto. Eu sei, mesmo assim, para além do entrecruzar de várias vozes, as tuas personagens parece que estão de acordo.

Arlen - Perante os factos criados no enredo, gostava de poder dizer isso. O tema, contudo, não me parece propício. Às dialogias .

Specter - Óbvio, precisas criar um ambiente pós-traumático às tuas personagens, sendo que cada uma teria a sua maneira de verbalizar o conflito.

Arlen- A recorrente história próxima da América com a Guerra do Vietname, não me deixou outro recurso.

Specter ( emenda-o, com um gesto) - Não, outra fonte. Os teus trabalhos sobre isso, sempre foram muito históricos. É uma fonte a que vais beber.Pausa-Li Chomski, sabes.

Arlen- O Noam fez a crítica da guerra pelo lado do Poder Americano. (Levanta-se, sai fora da luz, como se fosse ao balcão e vem com uma chávena)-Está vazia. (Agarra no bule com leite e verte na chávena). Não quero mais café forte, hoje.
Saem ambos, depois de Arlen beber a mistura e deixar 2 dólares sobre a mesa.
Dia seguinte. Manhã. Esquina de uma Rua com a 6ª, na Village, com vapor a sair de uma grelha no chão.

Specter (com ar lavado, cabelo comprido humedecido) - Estive a reler um poema que escreveste há uns anos para o Departamento de Poesia da New Yorker. Lembras-te?

Arlen ( fazendo um esforço, fala vagamente) - É aquele do cigarro abortado antes da última cinza?

Specter (diz que sim com a cabeça) - Esse, no qual fazes um esforço para contradizeres tudo o que Bakhtin ensinou sobre a presença de outros textos dentro do texto…

Arlen ( interrompe-o de chofre) - Dialogias, não. Logo de manhã. Esse poema é um único texto e sou eu mesmo, do princípio ao fim.

Specter (com ar desconfiado, tira um folha de papel que parece ser de revista do bolso, pára, lê um excerto com ar dramático). - Quando a noite chega e meus olhos / são uma sala vazia, quando a noite chega / e olho meus livros, os meus utensílios /com palavras na penumbra, é a hora da luz / iluminar com a sua água sobre a mesa...

Arlen ( puxando-lhe o braço, interrompe-o) - Esse poema podia hoje aplicá-lo à minha personagem…anda às voltas com a noite.

Specter ( com ironia) - Cá está, outro texto, não apenas uma personagem e um diálogo, mas duas pelo menos: a noite e tu.

Arlen (vitorioso) - Aí está, digo eu agora. A noite é pura e simplesmente antagonista.Ela não responde nada, é alheia ao sujeito poético desse poema. (Tira-lhe da mão a folha de revista.) Deixa-me ler. “Quando chega a noite / estou cercado de perguntas, algumas / respondo, outras cingem-me os ombros “ (Lê em voz bem audível, de uma forma neutral)

Specter ( retoma o passo e arrasta o amigo) - Se incluíres esse poema no conto, em forma de prosa, ou seja como for, terás o caminho aberto para o que disseste ontem à noite.

Arlen ( pára, pensa um pouco, abre ligeiramente os braços) - Matar a personagem com um tiro no ouvido? ( leva a mão direita à têmpora e abre em ângulo dois dedos).
Specter (sibilinamente) - Puff!

(J.T.Parreira)

terça-feira, julho 15, 2008

Pontes de Paris, Nadir Afonso


As águas do Sena
são um manual
de arquitectura

de pontes
rectilíneas em arco
no espelho
do rio, esculpindo
as águas, as pontes
multiplicam-se


sob o céu de vidro
pardo, parado.


11-7-2008

sexta-feira, julho 11, 2008

À espera dos Bárbaros

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! Eles eram uma solução.
Kaváfis
Sonhávamos com os bárbaros
com suas barbas
carregadas de presságios
As nossas terras férteis e o ameno mar
diziam que chegavam hoje
Os seus costumes já não chocam
a nossa sisudez de pedra e cal
já não são as nossas obras
nem a fronteira
entre o bem e o mal
Dizem que os bárbaros
chegam hoje, ou talvez
mais tarde, para continuar
o estudo do silêncio que os precede.

quarta-feira, julho 09, 2008

Partida

When you go,
if you go
and I should want to die
Edwin Morgan

Marcados para o amor, para a resistência
do amor
pensam quando um deles partir
o que o outro deseja
como morrer
também às mesmas mãos infinitas
ir no mesmo abraço
transparente, sem corpo
só com o olhar alegre do olvido
posto no Altíssimo.
Quando um deles partir
se partir
o outro ficará acordado, quase
estremecendo pela morte.

6/2008

segunda-feira, julho 07, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (5)

A Casa ao lado do caminho de ferro

Out here in the exact middle of the day
Edward Hirsch

No meio do dia, nada
lá para diante

a estranha casa escuta
os carris
dentro de si

Quatro janelas
com as cortinas do sol
expostas num lado
como um lua quadrada

do outro lado
sempre a sombra

e o telhado
burlesco
de mansarda.

1º Aniversário

BlockquoteEste é o blogue pessoal de Brissos Lino. O "Ovelha Perdida" constitui uma reflexão sobre a vida nas suas diferentes dimensões. A Arte, o Belo, as ciências e os saberes têm aqui tanto cabimento como o humor, o desporto, a crítica social, a política, ou a espiritualidade. Sobretudo muita poesia.»
Parabéns do Poeta Salutor ao querido amigo de há mais de 35 anos anos, Poeta e Médico dos melhores.

sábado, julho 05, 2008

The Last Supper

Catálogo da exposição
"A Última Ceia" que é também a derradeira exposição que esta Galeria faz em Aveiro, sob o nome Galeria Sacramento, é inaugurada hoje, pelas 22 horas, na Rua do Gravito, 22.
Os quadros, as esculturas e a fotografia de 33 criadores ( onde se inclui, e.g. Cruzeiro Seixas) estarão acessíveis ao público até 26 de Julho.
O texto de apresentação crítica, no catálogo de 23 páginas, é nosso.

BlockquoteA Última Ceia explica algumas coisas, conceitos e práticas religiosas, da nossa Cultura judaico-cristã. (...)
No campo das artes plásticas até Leonardo da Vinci poucos se atreveram a pintá-la propondo uma leitura teológica, abrindo as portas a uma hermeneutica. Limitaram-se a figurar com volumes e cores uma narrativa evangélica e um preconceito universal contra Judas. (...)
Agora o objectivo desta Colectiva é propor leituras com linhas diversas e mesmo contraditórias, próximas da teologia, ou contíguas até do ateísmo em algumas propostas metonímicas. (...)
Os olhares sobre a temática proposta e a estética manifestada são multifacetados e polissémicos.

sexta-feira, julho 04, 2008

Um livro sobre Edward Hopper

Blockquote Hopper, de Mark Strand
Traducción de J. A. Montiel. Lumen. Barcelona, 2008. 115 páginas, 14’50 euros
(...) Un libro de 1994 dedicado a Edward Hopper por el poeta canadiense Mark Strand.
Strand quiso también ser pintor. Llegó, además, a realizar estudios de arte en Yale, y este bagaje aflora aquí a lo largo de los breves capítulos que dedica a una treintena de cuadros de Hopper, desde el famoso Casa junto a las vías del tren, que es de 1925, hasta Coche de asientos, su última obra pintada en 1965.
Apreciamos, así, ciertos principios de análisis formalista en los comentarios a cada uno de los óleos seleccionados, que a veces van al alimón cuando su temática o su textura lo aconsejan, como sucede con Gasolina y Autovía de cuatro carriles, Sol matutino y Una mujer al sol, o Ventana de hotel y Habitación de hotel.
Tras una breve descripción de la anécdota reflejada, Strand se demora en identificar la composición en términos geométricos, sobre todo triángulos y trapecios isósceles, o en determinar el punto de fuga y el tratamiento específico que en cada caso se le da a la luz, tan distinto del modo impresionista.
Pero enseguida cambia el registro a favor de una puesta en palabras de la identificación del observador con el lienzo. Aparte de que, como americano del norte que es, coetáneo del artista, Strand crea observar en sus obras “escenas de mi propio pasado”, le seduce algo a lo que es difícil hurtarse y Updike denominó “la tentación narrativa” del creador de Aves nocturnas, Anochecer en Cape Cod, Automat, Digresión filosófica o Habitación en Nueva York. En este sentido, el poeta trasciende al crítico, y las páginas de Strand se convierten en verdaderas écfrasis de los cuadros de Hopper.
(Darío Villanueva)
in El Cultural, suplemento do diário El Mundo, de 3-7-2008

quinta-feira, julho 03, 2008

No Entry

Não entres por essa porta,
ou então entra. Se acaso
é o mesmo que entrar
num dia de nuvens,
sem o tédio do guarda-chuva.

Então entra. Se a porta
é um mistério
por fora da parede da casa,
mas evita bater
no nó visível da madeira,
tocar campainha, desencadear
o processo mecânico
da abertura, ou mesmo
encostar o silêncio ao ouvido.

Não entres por essa
ou outra porta
dissimulada no alto muro
que já deixou de ser o sonho,
que te apresentam.
Ou então entra. Acaso sabes
tudo do limiar do outro lado?
Se há chão, um tunel
ao fundo do qual a luz?
Um abismo apesar de azul?


26/6/2008

sexta-feira, junho 27, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (4)


Janelas à noite

O comboio elevado passa
olhares rápidos

O calor do quarto atrai
os olhares

Janelas a espreitar
na noite
uma mulher arredondada
numa combinação vermelha

e
o andar abaixo,
apagado.

The Creative Pen

Congratulations To Al June 2008 Poetry Award WinnersThe Creative Pen - Poetry Forum Members may also view winnersThis link - http://www.freewebs.com/poetrynews/

Author - jtparreira - For Poem Entry - Picasso

quarta-feira, junho 25, 2008

Convite/Apresentação, DiVersos 13

Apresentação de Duas Colecções de Poesia, Quinta-Feira, 3 de Julho, às 18:00

As Edições Sempre-em-Pé e a Casa Fernando Pessoa têm o prazer de convidar V. Exa para uma sessão em que serão apresentadas as duas séries de poesia actualmente publicadas pela editora referida: a série DiVersos - Poesia e Tradução, que se publica desde 1996, e a colecção de poesia UniVersos, iniciada em 2005.

Além de outros números recentes, estará disponível o n.º 13 da DiVersos, acabado de publicar em Junho. Serão lidos poemas por alguns poetas (Cristino Cortes, João Miguel Henriques, J. T. Parreira e Ruy Ventura) e tradutores (Ana Maria Carvalho, José Lima e Manuel Resende) que já colaboraram com a DiVersos.

Dos quatro títulos publicados na colecção UniVersos, os dois últimos serão abordados com mais vagar: Rio Abaixo, Rio Acima, do poeta alemão Tobias Burghardt, numa edição bilingue com tradução portuguesa de Maria de Nazaré Sanches, e Gloria Victis, do poeta Carlos Garcia de Castro, com a presença e apresentação pelo Autor e comentário crítico do Dr. Rui Cardoso Martins, do Jornal Público.

A sessão será coordenada por José Carlos Costa Marques, um dos coordenadores de DiVersos e editor de ambas as séries. A entrada é livre.

terça-feira, junho 24, 2008

O Tempo que passou

3 Poemas de William Carlos Williams
Tradução e apresentação de José Palla e Carmo.
in "Companha", Suplemento do nº271 do jornal "Litoral", Dezembro 1959, Ano I, Nº 4

segunda-feira, junho 23, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (3)


EARLY SUNDAY MORNING

Espreitam o sol
as janelas pachorrentas

amarelo-rosa

para o nosso lado
esquerdo
as sombras deslizam

na rua,uma rua
de Hopper

é paciente, espera
logo virão pessoas
dentro de si, vazias
remotas.

Belas, 22-6-2008

sexta-feira, junho 20, 2008

Que pássaros cantam no Paraíso?

"Satan watching the caresses of Adam and Eve", William Blake, in Paraíso Perdido, 1808

Que pássaros cantam
no paraíso que perdi?

Que estrelas, nunca
definitivas, riscaram
num buraco do céu
a sua passagem?

Em que ramo
esqueci o fruto da vida?

Habito as alternâncias do tédio
e do ânimo, às vezes
uma casa de areia
onde mesmo assim existe
um trilho de flores silvestres.

Em que mina de ouro perdi
o olhar, que já foi um brilho
na noite?

Como é difícil ser bêbado
de silêncios.

20-6-2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (2)

Estaçãozinha no Pôr do Sol
a estaçãozinha evita
cair na noite
e espreita
para lá do silêncio
os caminhos de ferro
os sonhos que hão chegar
as malas, a vida
urbana sonâmbula.

segunda-feira, junho 16, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (1)

New York Movie
A arrumadora divide
pelas filas
os olhos,
faz sentar
fantasias,

depois
comparte seus
pensamentos
com os dedos,

espera
mais ninguém
nas escadas

Move-se a cena
enquanto
na atmosfera escura
do cinema

as estrelas tremem
por trás
de lágrimas.

16/6/2008

domingo, junho 15, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper

Gasolina

Mobil Gas no alto
três colunas
num velódromo grego,

espera em
um fundo
a gasolina

e ao longe
a vegetação
é uma
linha sinuosa
do horizonte,

de ninguém.

14/6/2008








Blockquotea poetas e a pintores igualmente se concedeu, desde sempre, a faculdade de tudo ousar.

(Horácio)

sexta-feira, junho 13, 2008

13 de Junho de 1888


Há 120 anos nasceria o Fernando e as suas Pessoas


Brincava a criança
Com um carro de bois.
Sentiu-se brincando
E disse, eu sou dois!

Há um a brincar
E há outro a saber,
Um vê-me a brincar
E outro vê-me a ver.

Estou por trás de mim
Mas se volto a cabeça
Não era o que eu qu'ria
A volta só é essa...

O outro menino
Não tem pés nem mãos
Nem é pequenino
Não tem mãe ou irmãos.

(Fernando Pessoa)

quinta-feira, junho 12, 2008

Prémio da Confraria Camoniana de Ílhavo

J.T.Parreira: 1º prémio de poesia da Confraria Camoniana, 2008, aqui no «Ovelha Perdida», pela mão do meu querido amigo e Poeta, Brissos Lino.

Viagens (3)

Cabo Verde:
Morna

Flor no cabelo areia
Senta na praia onde se enrolam
Vagas à solta de tanta saudade
Calor e sede. Demais
Água nos dedos e tanta saudade
Flor no cabelo na areia e esquece
Senta na praia. Assustam-se as vagas

Vagas nos olhos de tanta saudade
Calor e sede. Mindelo deserto.

(Clélia Inácio Mendes)

quarta-feira, junho 11, 2008

À maneira de e.e.cummings


Thank you for the exquisite jam
Th
an
k you
too
) or also(
for the
71
Cumm
ings’
po? e! ms!!
An
d now –
get into this brazilian hammock and
let me sing for you:
“Lullaby
“Sleep on and on…”

Xaire, Elisabeth.

(Manuel Bandeira)


Obrigado pela rara compota
Obri
ga
do
demais
)ou também(
pelos
71
Poemas
de Cumm
ings !!
E
agora –
metido na minha rede brasileira
deixe-me cantar-lhe:
“Um acalanto
“Dorme, dorme, que a manhã já vem…”

Adeus, Elisabeth


(Trad. J.T.Parreira)

domingo, junho 08, 2008

Os Confinamentos do Poeta (5)


Arte Poética

Uma boa parte dos meus versos
é escrita perto da água
passa-se perto
da água, das águas de duvidosa
validade dos esteiros.

sábado, junho 07, 2008

Os confinamentos do Poeta (4)

Desconheço a famosa angústia do papel branco
as emoções são a cores (o sangue é vermelho!)
mesmo as mais escuras
implicam rugosidades, texturas.

(Brissos Lino)

sexta-feira, junho 06, 2008

quinta-feira, junho 05, 2008

e.e. cummings

Viagens (2)


Buenos Aires
Tango

O corpo de outro corpo atropela avança
Recua, recusa, acusa, rejeita
Lábios e olhos de outros olhos beijam
Os cabelos, a curva do braço. Pausa
Recomeçam no laço as pernas
Arquejo do peito de outro peito. Desmaio
Desenho de tronco partido ao meio de outro meio
Vitrola, piazola geme
Encontro noutro encontro sossega
E cai.

(Clélia Inácio Mendes)

Viagens (1)

Serena Praha, aqui um modo de viajar sobre um território lírico, como Praga. Pelo poeta Brissos Lino.

quarta-feira, junho 04, 2008

Os confinamentos do Poeta (2)

Fica na Rua Moraes e Valle, escondido num canto da Lapa. É um beco que nasceu à sombra das sagradas paredes do Convento do Carmo, da secular Ordem dos Carmelitas.

Poema do Beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.

(Manuel Bandeira)

terça-feira, junho 03, 2008

segunda-feira, junho 02, 2008

Obituary


«I know not what tomorrow will bring».

Pessoa morreu no Bairro Alto
os óculos encostados
para sempre, passeava
já à tona
das ondas do lençol;
três dias antes ainda
o viram
a dobrar as esquinas
da Baixa lisboeta,
em gargalhadas soltas
como o riso, uma tosse
a dobrar o corpo para a frente.

quarta-feira, maio 28, 2008

a morte de Ghandi tem quase a minha vida


+30-1-1948

Três tiros
no peito da India
cantaram

e floriram
na brancura

da toga,
três botões
de sangue,

as rosas,

alastraram
num oblíquo
rumo, o calor
do lume.

Pelas ruas da Baixa lisboeta


Nesta altura em que parece inevitável que haja um leilão de manuscritos e outras pessoalidades do autor de «Tabacaria», é bom continuar a ter visões inéditas sobre Pessoa. Aqui um interessante poema de Brissos Lino.

segunda-feira, maio 26, 2008

Folies Bergère Mai 68







Os nossos seios estão em greve
nossas pernas
não voam mais até aos sonhos do homem
Mesmo a nossa alegria
da brancura dos dentes
está em greve

Não cobrem pelos nossos sorrisos
nossos lábios
não serão mais cosméticos

Até as plumas não voarão
na transparência dos corpos

E, quando as luzes fecharem a noite
nos espelhos, como no quadro de Manet,
o nosso corpo acenderá
a beleza da alma.

26-5-2008