quarta-feira, agosto 13, 2008

Encontro


Bernini, Apolo e Dafne

Adeus, Dafne, foi tudo tão breve
um olhar retribuído
pela água verde dos teus olhos
um gesto iluminado
por uma conjunção de cristais
uma palavra
desviada no ar pela limpidez
de uma criança, foi tudo
tão branco
como a inocência da música
tão breve, saindo dos teus lábios.

18-5-2008

sábado, agosto 09, 2008

Morte do poeta palestiniano Mahmoud Darwish

Mahmoud Darwish (13/3/1941 -9/8/2008) was a contemporary Palestinian poet and writer of prose. He has published over thirty volumes of poetry, eight books of prose and has served as the editor of several publications, including: Al-Jadid, Al-Fajr, Shu'un Filistiniyya and Al-Karmel. He is recognized internationally for his poetry, which focuses on his strong affection for his lost homeland. His work has won numerous awards, and has been published in at least twenty-two languages. The majority of his work has not been translated into English.

A propósito da guerra civil entre o Hamas e a Fatah, Darwish escrevera recentemente um poema, cujo início é uma auto-crítica:

BlockquoteTínhamos que cair de tal altura tremenda para ver o sangue
em nossas mãos
para compreender que não somos anjos
como pensávamos?
Tínhamos também que expor nossas falhas ao mundo
para que nossa verdade não permanecesse virgem?
Como mentimos quando dissemos: somos a excepção!

terça-feira, agosto 05, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (6)

Room in New York

O sol é o mais alto
sítio de Nova Iorque

Movidas a vazio
as figuras aquecem sofás
bancos de piano
um vestido vermelho lança
para a imaginação o corpo

O interruptor acendeu a solidão.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Soljenitsine morre aos 89

Sem poesia

Não fazer poesia sobre acontecimentos, sobretudo quando a realidade ocupa todo um espaço concentracionário.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Antigamente em Paris

Antigamente em Paris
podia-se beijar o sol
numa esplanada de café
tranquilamente
deixar escorrer qualquer coisa fresca
pelo prazer abaixo
beber um sonho
sem gás

a vida corria líquida e clara
sem pressas
por dentro das veias

no tempo em que havia tempo
em Paris
podia-se tocar o céu
de olhos fechados.

(Brissos Lino)

in A Ovelha Perdida

quinta-feira, julho 31, 2008

Adrienne Rich



Women

My three sisters are sitting
on rocks of black obsidian.
For the first time, in this light, I can see who they are.
*
My first sister is sewing her costume for the procession.
She is going as the Transparent lady
and all her nerves will be visible.
*
My second sister is also sewing,
at the seam over her heart which has never healed entirely,
At last, she hopes, this tightness in her chest will ease.
*
My third sister is gazing
at a dark-red crust spreading westward far out on the sea.
Her stockings are torn but she is beautiful.

1968

Mulheres

As minhas três irmãs estão sentadas
numa rocha de obsidiana preta.
Nesta luz, pela primeira vez, posso ver quem são.
*
Minha primeira irmã costura um traje de procissão.
Vai como uma Senhora Transparente
e todos os seus nervos ficarão visíveis.
*
Minha segunda irmã também cose sobre
a ferida do coração, que nunca cicatrizou inteiramente,
espera, por fim, tornar impermeável o seu peito.
*
A terceira contempla
uma crosta de púrpura que se espalha para fora do mar.
Suas meias estão rasgadas mas é bela.
(Trad. J.T.Parreira)

quarta-feira, julho 30, 2008

terça-feira, julho 29, 2008

Lição de Poesia

Pensando nas relações entre poesia e linguagem, entre paixão, poesia e linguagem, formulei a coisa de que a poesia seria uma manifestação, sobretudo, de paixão pela linguagem, por causa do próprio caráter substantivo da poesia. Um poema não é como um conto, não é como um romance. Um conto, um romance são transparentes, deixam o olhar passar até o sentido. Na poesia, não. O olhar não passa, o olhar pára nas palavras.
(Paulo Leminski, via aqui textos)

sábado, julho 26, 2008

Arte Musical

Rembrandt, David tocando para Saul
Debaixo dos seus dedos a água corre

Pássaros acendem raios
multicolores, sob os dedos de David

Pendem flores da mesa
na presença dos inimigos
e nos lábios os cálices
transbordam

Pastor de cordas no vento
quando os seus dedos tocam
até que à harpa regressem
os silêncios.

terça-feira, julho 22, 2008

Dois Macacos por Brueghel

Poema de Wislawa Szymborska, 1957

Guardo o sonho de minha tese de licenciatura:
numa janela sentam-se dois macacos acorrentados,
atrás da janela o céu flutua,
e o mar espirra.

Estou a fazer um exame sobre a história
da humanidade:
gaguejo e hesito.

Um macaco, lança-me os olhos, escuta
ironicamente,
o outro parece sonolento--
e quando à pergunta segue o silêncio,
ele incita-me
com o macio tinido da corrente.

(Trad. J.T.Parreira)

domingo, julho 20, 2008

Wislawa Szymborska

Two Monkeys by Brueghel #

I keep dreaming of my graduation exam:
in a window sit two chained monkeys,
beyond the window floats the sky,
and the sea splashes.

I am taking an exam on the history of
mankind:
I stammer and flounder.

One monkey, eyes fixed upon me, listens
ironically,
the other seems to be dozing--
and when silence follows a question,
he prompts me
with a soft jingling of the chain.

(trans. from the Polish by Magnus Kryski)

# Amanhã ( hoje é domingo), a versão em português.

sábado, julho 19, 2008

sexta-feira, julho 18, 2008

Testemunho

BlockquoteLê-lo é sempre um desafio. A sua poesia remete-nos para o Universo do não dito, do oculto. E todavia, as imagens são palpáveis, verificáveis.Gosto de o ler. Bem haja por partilhar.Cordiais saudações.

Mel de Carvalho ("Escrita Criativa")

quinta-feira, julho 17, 2008

Os Escritores

Michael Horovitz e Allen Ginsberg, Londres, verão de 1965


Peça em dois quadros num Acto.

Personagens:
Arlen, um americano, contista conhecido nos meios da revista Literay Kicks, cerca de 40 anos.Specter, perto dos 60. Crítico literário avulso.

Uma mesa de café com dois bules, um com café outro com leite, duas chávenas. Uma espécie de Starbucks de bairro da parte baixa da cidade, meia dúzia de frequentadores, já conhecidos. Os últimos. Algumas cadeiras já arrumadas, umas sobre as outras, como uma torre de Babel. Duas horas da manhã.

Arlen - Bela noite para dar um tiro no ouvido! (Olhou para o seu interlocutor, movimentou a mão direita para os lados, sobre o tampo da mesa e, depois, levou-a à têmpora direita, e com dois dedos em ângulo)- Puff!Pausa. - A personagem parece estar a pedi-lo.

Specter ( olha para Arlen e franze os sobrolhos) - Depois dos diálogos que já lhes ouvi, Arlen, não sei se daria certo. Pausa.-É que há correspondência de estados e de sentimentos entre os diálogos das tuas personagens, Mikhail Baktin não iria gostar. Risos na mesa.

Arlen - Polifonia nos discursos que nem sempre são contradições. Afinal o dialogismo para Baktin vai muito mais além…Pausa

Specter ( interrompendo)- …de textos dentro do texto. Eu sei, mesmo assim, para além do entrecruzar de várias vozes, as tuas personagens parece que estão de acordo.

Arlen - Perante os factos criados no enredo, gostava de poder dizer isso. O tema, contudo, não me parece propício. Às dialogias .

Specter - Óbvio, precisas criar um ambiente pós-traumático às tuas personagens, sendo que cada uma teria a sua maneira de verbalizar o conflito.

Arlen- A recorrente história próxima da América com a Guerra do Vietname, não me deixou outro recurso.

Specter ( emenda-o, com um gesto) - Não, outra fonte. Os teus trabalhos sobre isso, sempre foram muito históricos. É uma fonte a que vais beber.Pausa-Li Chomski, sabes.

Arlen- O Noam fez a crítica da guerra pelo lado do Poder Americano. (Levanta-se, sai fora da luz, como se fosse ao balcão e vem com uma chávena)-Está vazia. (Agarra no bule com leite e verte na chávena). Não quero mais café forte, hoje.
Saem ambos, depois de Arlen beber a mistura e deixar 2 dólares sobre a mesa.
Dia seguinte. Manhã. Esquina de uma Rua com a 6ª, na Village, com vapor a sair de uma grelha no chão.

Specter (com ar lavado, cabelo comprido humedecido) - Estive a reler um poema que escreveste há uns anos para o Departamento de Poesia da New Yorker. Lembras-te?

Arlen ( fazendo um esforço, fala vagamente) - É aquele do cigarro abortado antes da última cinza?

Specter (diz que sim com a cabeça) - Esse, no qual fazes um esforço para contradizeres tudo o que Bakhtin ensinou sobre a presença de outros textos dentro do texto…

Arlen ( interrompe-o de chofre) - Dialogias, não. Logo de manhã. Esse poema é um único texto e sou eu mesmo, do princípio ao fim.

Specter (com ar desconfiado, tira um folha de papel que parece ser de revista do bolso, pára, lê um excerto com ar dramático). - Quando a noite chega e meus olhos / são uma sala vazia, quando a noite chega / e olho meus livros, os meus utensílios /com palavras na penumbra, é a hora da luz / iluminar com a sua água sobre a mesa...

Arlen ( puxando-lhe o braço, interrompe-o) - Esse poema podia hoje aplicá-lo à minha personagem…anda às voltas com a noite.

Specter ( com ironia) - Cá está, outro texto, não apenas uma personagem e um diálogo, mas duas pelo menos: a noite e tu.

Arlen (vitorioso) - Aí está, digo eu agora. A noite é pura e simplesmente antagonista.Ela não responde nada, é alheia ao sujeito poético desse poema. (Tira-lhe da mão a folha de revista.) Deixa-me ler. “Quando chega a noite / estou cercado de perguntas, algumas / respondo, outras cingem-me os ombros “ (Lê em voz bem audível, de uma forma neutral)

Specter ( retoma o passo e arrasta o amigo) - Se incluíres esse poema no conto, em forma de prosa, ou seja como for, terás o caminho aberto para o que disseste ontem à noite.

Arlen ( pára, pensa um pouco, abre ligeiramente os braços) - Matar a personagem com um tiro no ouvido? ( leva a mão direita à têmpora e abre em ângulo dois dedos).
Specter (sibilinamente) - Puff!

(J.T.Parreira)

terça-feira, julho 15, 2008

Pontes de Paris, Nadir Afonso


As águas do Sena
são um manual
de arquitectura

de pontes
rectilíneas em arco
no espelho
do rio, esculpindo
as águas, as pontes
multiplicam-se


sob o céu de vidro
pardo, parado.


11-7-2008

sexta-feira, julho 11, 2008

À espera dos Bárbaros

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! Eles eram uma solução.
Kaváfis
Sonhávamos com os bárbaros
com suas barbas
carregadas de presságios
As nossas terras férteis e o ameno mar
diziam que chegavam hoje
Os seus costumes já não chocam
a nossa sisudez de pedra e cal
já não são as nossas obras
nem a fronteira
entre o bem e o mal
Dizem que os bárbaros
chegam hoje, ou talvez
mais tarde, para continuar
o estudo do silêncio que os precede.

quarta-feira, julho 09, 2008

Partida

When you go,
if you go
and I should want to die
Edwin Morgan

Marcados para o amor, para a resistência
do amor
pensam quando um deles partir
o que o outro deseja
como morrer
também às mesmas mãos infinitas
ir no mesmo abraço
transparente, sem corpo
só com o olhar alegre do olvido
posto no Altíssimo.
Quando um deles partir
se partir
o outro ficará acordado, quase
estremecendo pela morte.

6/2008

segunda-feira, julho 07, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (5)

A Casa ao lado do caminho de ferro

Out here in the exact middle of the day
Edward Hirsch

No meio do dia, nada
lá para diante

a estranha casa escuta
os carris
dentro de si

Quatro janelas
com as cortinas do sol
expostas num lado
como um lua quadrada

do outro lado
sempre a sombra

e o telhado
burlesco
de mansarda.

1º Aniversário

BlockquoteEste é o blogue pessoal de Brissos Lino. O "Ovelha Perdida" constitui uma reflexão sobre a vida nas suas diferentes dimensões. A Arte, o Belo, as ciências e os saberes têm aqui tanto cabimento como o humor, o desporto, a crítica social, a política, ou a espiritualidade. Sobretudo muita poesia.»
Parabéns do Poeta Salutor ao querido amigo de há mais de 35 anos anos, Poeta e Médico dos melhores.

sábado, julho 05, 2008

The Last Supper

Catálogo da exposição
"A Última Ceia" que é também a derradeira exposição que esta Galeria faz em Aveiro, sob o nome Galeria Sacramento, é inaugurada hoje, pelas 22 horas, na Rua do Gravito, 22.
Os quadros, as esculturas e a fotografia de 33 criadores ( onde se inclui, e.g. Cruzeiro Seixas) estarão acessíveis ao público até 26 de Julho.
O texto de apresentação crítica, no catálogo de 23 páginas, é nosso.

BlockquoteA Última Ceia explica algumas coisas, conceitos e práticas religiosas, da nossa Cultura judaico-cristã. (...)
No campo das artes plásticas até Leonardo da Vinci poucos se atreveram a pintá-la propondo uma leitura teológica, abrindo as portas a uma hermeneutica. Limitaram-se a figurar com volumes e cores uma narrativa evangélica e um preconceito universal contra Judas. (...)
Agora o objectivo desta Colectiva é propor leituras com linhas diversas e mesmo contraditórias, próximas da teologia, ou contíguas até do ateísmo em algumas propostas metonímicas. (...)
Os olhares sobre a temática proposta e a estética manifestada são multifacetados e polissémicos.

sexta-feira, julho 04, 2008

Um livro sobre Edward Hopper

Blockquote Hopper, de Mark Strand
Traducción de J. A. Montiel. Lumen. Barcelona, 2008. 115 páginas, 14’50 euros
(...) Un libro de 1994 dedicado a Edward Hopper por el poeta canadiense Mark Strand.
Strand quiso también ser pintor. Llegó, además, a realizar estudios de arte en Yale, y este bagaje aflora aquí a lo largo de los breves capítulos que dedica a una treintena de cuadros de Hopper, desde el famoso Casa junto a las vías del tren, que es de 1925, hasta Coche de asientos, su última obra pintada en 1965.
Apreciamos, así, ciertos principios de análisis formalista en los comentarios a cada uno de los óleos seleccionados, que a veces van al alimón cuando su temática o su textura lo aconsejan, como sucede con Gasolina y Autovía de cuatro carriles, Sol matutino y Una mujer al sol, o Ventana de hotel y Habitación de hotel.
Tras una breve descripción de la anécdota reflejada, Strand se demora en identificar la composición en términos geométricos, sobre todo triángulos y trapecios isósceles, o en determinar el punto de fuga y el tratamiento específico que en cada caso se le da a la luz, tan distinto del modo impresionista.
Pero enseguida cambia el registro a favor de una puesta en palabras de la identificación del observador con el lienzo. Aparte de que, como americano del norte que es, coetáneo del artista, Strand crea observar en sus obras “escenas de mi propio pasado”, le seduce algo a lo que es difícil hurtarse y Updike denominó “la tentación narrativa” del creador de Aves nocturnas, Anochecer en Cape Cod, Automat, Digresión filosófica o Habitación en Nueva York. En este sentido, el poeta trasciende al crítico, y las páginas de Strand se convierten en verdaderas écfrasis de los cuadros de Hopper.
(Darío Villanueva)
in El Cultural, suplemento do diário El Mundo, de 3-7-2008

quinta-feira, julho 03, 2008

No Entry

Não entres por essa porta,
ou então entra. Se acaso
é o mesmo que entrar
num dia de nuvens,
sem o tédio do guarda-chuva.

Então entra. Se a porta
é um mistério
por fora da parede da casa,
mas evita bater
no nó visível da madeira,
tocar campainha, desencadear
o processo mecânico
da abertura, ou mesmo
encostar o silêncio ao ouvido.

Não entres por essa
ou outra porta
dissimulada no alto muro
que já deixou de ser o sonho,
que te apresentam.
Ou então entra. Acaso sabes
tudo do limiar do outro lado?
Se há chão, um tunel
ao fundo do qual a luz?
Um abismo apesar de azul?


26/6/2008

sexta-feira, junho 27, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (4)


Janelas à noite

O comboio elevado passa
olhares rápidos

O calor do quarto atrai
os olhares

Janelas a espreitar
na noite
uma mulher arredondada
numa combinação vermelha

e
o andar abaixo,
apagado.

The Creative Pen

Congratulations To Al June 2008 Poetry Award WinnersThe Creative Pen - Poetry Forum Members may also view winnersThis link - http://www.freewebs.com/poetrynews/

Author - jtparreira - For Poem Entry - Picasso

quarta-feira, junho 25, 2008

Convite/Apresentação, DiVersos 13

Apresentação de Duas Colecções de Poesia, Quinta-Feira, 3 de Julho, às 18:00

As Edições Sempre-em-Pé e a Casa Fernando Pessoa têm o prazer de convidar V. Exa para uma sessão em que serão apresentadas as duas séries de poesia actualmente publicadas pela editora referida: a série DiVersos - Poesia e Tradução, que se publica desde 1996, e a colecção de poesia UniVersos, iniciada em 2005.

Além de outros números recentes, estará disponível o n.º 13 da DiVersos, acabado de publicar em Junho. Serão lidos poemas por alguns poetas (Cristino Cortes, João Miguel Henriques, J. T. Parreira e Ruy Ventura) e tradutores (Ana Maria Carvalho, José Lima e Manuel Resende) que já colaboraram com a DiVersos.

Dos quatro títulos publicados na colecção UniVersos, os dois últimos serão abordados com mais vagar: Rio Abaixo, Rio Acima, do poeta alemão Tobias Burghardt, numa edição bilingue com tradução portuguesa de Maria de Nazaré Sanches, e Gloria Victis, do poeta Carlos Garcia de Castro, com a presença e apresentação pelo Autor e comentário crítico do Dr. Rui Cardoso Martins, do Jornal Público.

A sessão será coordenada por José Carlos Costa Marques, um dos coordenadores de DiVersos e editor de ambas as séries. A entrada é livre.

terça-feira, junho 24, 2008

O Tempo que passou

3 Poemas de William Carlos Williams
Tradução e apresentação de José Palla e Carmo.
in "Companha", Suplemento do nº271 do jornal "Litoral", Dezembro 1959, Ano I, Nº 4

segunda-feira, junho 23, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (3)


EARLY SUNDAY MORNING

Espreitam o sol
as janelas pachorrentas

amarelo-rosa

para o nosso lado
esquerdo
as sombras deslizam

na rua,uma rua
de Hopper

é paciente, espera
logo virão pessoas
dentro de si, vazias
remotas.

Belas, 22-6-2008

sexta-feira, junho 20, 2008

Que pássaros cantam no Paraíso?

"Satan watching the caresses of Adam and Eve", William Blake, in Paraíso Perdido, 1808

Que pássaros cantam
no paraíso que perdi?

Que estrelas, nunca
definitivas, riscaram
num buraco do céu
a sua passagem?

Em que ramo
esqueci o fruto da vida?

Habito as alternâncias do tédio
e do ânimo, às vezes
uma casa de areia
onde mesmo assim existe
um trilho de flores silvestres.

Em que mina de ouro perdi
o olhar, que já foi um brilho
na noite?

Como é difícil ser bêbado
de silêncios.

20-6-2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (2)

Estaçãozinha no Pôr do Sol
a estaçãozinha evita
cair na noite
e espreita
para lá do silêncio
os caminhos de ferro
os sonhos que hão chegar
as malas, a vida
urbana sonâmbula.

segunda-feira, junho 16, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper (1)

New York Movie
A arrumadora divide
pelas filas
os olhos,
faz sentar
fantasias,

depois
comparte seus
pensamentos
com os dedos,

espera
mais ninguém
nas escadas

Move-se a cena
enquanto
na atmosfera escura
do cinema

as estrelas tremem
por trás
de lágrimas.

16/6/2008

domingo, junho 15, 2008

Gasolina, inéditos sobre Hopper

Gasolina

Mobil Gas no alto
três colunas
num velódromo grego,

espera em
um fundo
a gasolina

e ao longe
a vegetação
é uma
linha sinuosa
do horizonte,

de ninguém.

14/6/2008








Blockquotea poetas e a pintores igualmente se concedeu, desde sempre, a faculdade de tudo ousar.

(Horácio)

sexta-feira, junho 13, 2008

13 de Junho de 1888


Há 120 anos nasceria o Fernando e as suas Pessoas


Brincava a criança
Com um carro de bois.
Sentiu-se brincando
E disse, eu sou dois!

Há um a brincar
E há outro a saber,
Um vê-me a brincar
E outro vê-me a ver.

Estou por trás de mim
Mas se volto a cabeça
Não era o que eu qu'ria
A volta só é essa...

O outro menino
Não tem pés nem mãos
Nem é pequenino
Não tem mãe ou irmãos.

(Fernando Pessoa)

quinta-feira, junho 12, 2008

Prémio da Confraria Camoniana de Ílhavo

J.T.Parreira: 1º prémio de poesia da Confraria Camoniana, 2008, aqui no «Ovelha Perdida», pela mão do meu querido amigo e Poeta, Brissos Lino.

Viagens (3)

Cabo Verde:
Morna

Flor no cabelo areia
Senta na praia onde se enrolam
Vagas à solta de tanta saudade
Calor e sede. Demais
Água nos dedos e tanta saudade
Flor no cabelo na areia e esquece
Senta na praia. Assustam-se as vagas

Vagas nos olhos de tanta saudade
Calor e sede. Mindelo deserto.

(Clélia Inácio Mendes)

quarta-feira, junho 11, 2008

À maneira de e.e.cummings


Thank you for the exquisite jam
Th
an
k you
too
) or also(
for the
71
Cumm
ings’
po? e! ms!!
An
d now –
get into this brazilian hammock and
let me sing for you:
“Lullaby
“Sleep on and on…”

Xaire, Elisabeth.

(Manuel Bandeira)


Obrigado pela rara compota
Obri
ga
do
demais
)ou também(
pelos
71
Poemas
de Cumm
ings !!
E
agora –
metido na minha rede brasileira
deixe-me cantar-lhe:
“Um acalanto
“Dorme, dorme, que a manhã já vem…”

Adeus, Elisabeth


(Trad. J.T.Parreira)

domingo, junho 08, 2008

Os Confinamentos do Poeta (5)


Arte Poética

Uma boa parte dos meus versos
é escrita perto da água
passa-se perto
da água, das águas de duvidosa
validade dos esteiros.

sábado, junho 07, 2008

Os confinamentos do Poeta (4)

Desconheço a famosa angústia do papel branco
as emoções são a cores (o sangue é vermelho!)
mesmo as mais escuras
implicam rugosidades, texturas.

(Brissos Lino)

sexta-feira, junho 06, 2008

quinta-feira, junho 05, 2008

e.e. cummings

Viagens (2)


Buenos Aires
Tango

O corpo de outro corpo atropela avança
Recua, recusa, acusa, rejeita
Lábios e olhos de outros olhos beijam
Os cabelos, a curva do braço. Pausa
Recomeçam no laço as pernas
Arquejo do peito de outro peito. Desmaio
Desenho de tronco partido ao meio de outro meio
Vitrola, piazola geme
Encontro noutro encontro sossega
E cai.

(Clélia Inácio Mendes)

Viagens (1)

Serena Praha, aqui um modo de viajar sobre um território lírico, como Praga. Pelo poeta Brissos Lino.

quarta-feira, junho 04, 2008

Os confinamentos do Poeta (2)

Fica na Rua Moraes e Valle, escondido num canto da Lapa. É um beco que nasceu à sombra das sagradas paredes do Convento do Carmo, da secular Ordem dos Carmelitas.

Poema do Beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.

(Manuel Bandeira)

terça-feira, junho 03, 2008

segunda-feira, junho 02, 2008

Obituary


«I know not what tomorrow will bring».

Pessoa morreu no Bairro Alto
os óculos encostados
para sempre, passeava
já à tona
das ondas do lençol;
três dias antes ainda
o viram
a dobrar as esquinas
da Baixa lisboeta,
em gargalhadas soltas
como o riso, uma tosse
a dobrar o corpo para a frente.

quarta-feira, maio 28, 2008

a morte de Ghandi tem quase a minha vida


+30-1-1948

Três tiros
no peito da India
cantaram

e floriram
na brancura

da toga,
três botões
de sangue,

as rosas,

alastraram
num oblíquo
rumo, o calor
do lume.

Pelas ruas da Baixa lisboeta


Nesta altura em que parece inevitável que haja um leilão de manuscritos e outras pessoalidades do autor de «Tabacaria», é bom continuar a ter visões inéditas sobre Pessoa. Aqui um interessante poema de Brissos Lino.

segunda-feira, maio 26, 2008

Folies Bergère Mai 68







Os nossos seios estão em greve
nossas pernas
não voam mais até aos sonhos do homem
Mesmo a nossa alegria
da brancura dos dentes
está em greve

Não cobrem pelos nossos sorrisos
nossos lábios
não serão mais cosméticos

Até as plumas não voarão
na transparência dos corpos

E, quando as luzes fecharem a noite
nos espelhos, como no quadro de Manet,
o nosso corpo acenderá
a beleza da alma.

26-5-2008









domingo, maio 25, 2008

John Mbiti

Teólogo anglicano e eminente filósofo cristão e poeta africano, Kenya, 1931-



Arranha-Céus de Nova-Iorque

Os raios fracos e difusos do sol amarelo
Espiavam pelos confusos tecidos
Que os cobriam com cera transparente;
E quando os enrugados raios fechavam o dia,
As chaminés fumarentas de Nova Iorque tossiam
Olhando as suas torres inclinadas
E vomitavam lágrimas tristes de fumo negro.

(Trad. de Manuel de Seabra)

sexta-feira, maio 23, 2008

Encontro Poético Luso-Espanhol

Na sequência do intercâmbio cultural iniciado em 1993, o Grupo Poético de Aveiro vai realizar, nos próximos dias 30 e 31 de Maio, um Encontro Poético Luso-Espanhol.
Assim:
Dia 30 de Maio, pelas 21h30m, no Navio Stº André (junto ao Porto de Aveiro -Forte da Barra).
Dia 31de Maio, pelas 21h30m, na Feira do Livro de Aveiro.
Além de poetas da nossa Associação, estarão presentes representantes da Academia Castelhano-Leonesa da Poesia, Grupo Literário e Artístico Sarmiento de Valladolid, Revista poética hablada de Juan de Baños-Palência e, um editor e poeta de Pontevedra: Fernando Luis Poza.

Letras : Um naturalismo à maneira de Hemingway

A disposição dos dois assassinos no terreno é minimalista. Al e Max, ao entrarem no restaurante do Harry, nem sequer o fazem com a eficaz estratégia exigida às mentes preparadas para o mal. A encenação da sua entrada foi para dar nas vistas, na pacata e quente Summit, no Ilinóis.
Com «Os Assassinos», ou «Matadores» (1), no original «The Killers», Ernest Hemingway tem entre mãos os ingredientes para a violência dos subterrâneos urbanos, mas rejeita assim inscrever-se, avant la lettre, na escrita americana dos hard boiled ( Os Duros de Roer ), aos quais a sua sombra se estendeu por toda uma geração, atingindo até o romance dos chamados profissonais, a literatura negra dos incontornáveis Dashiell Hamett e Raymond Chandlers.
A simplicidade dos recursos estético-literários a que Hemingway recorreu, a vivacidade jornalística da sua linguagem (2), colocam essa short story, inicialmente publicada na revista Scribners, em 1927, no topo das obras-primas do conto moderno. Geralmente, o autor de «Por Quem os Sinos Dobram» prefere o discurso directo, com recurso a uma dialogia curta e simples, quase banalizada em função dos protagonistas, como é o caso paradigmático de «Os Assassinos».
Hemingway foi um escritor que viu as suas ficções; um dos seus vários prefaciadores, Philip Young, escreveria que «como sucede a muitos ficcionistas, a relação entre a obra de Hemingway e os acontecimentos da sua própria vida é imediata e complexa.»
O naturalismo à maneira de Hemingway, isto é, a narração do que ele conhecia, do que tinha observado, abre ao leitor a porta de uma «reportagem», iniciada num estilo jornalístico, de um clima de suspense, de mistério, que faz o transporte da ironia para a expectativa, do peso volátil da incerteza para a força do que se chamaria fate ou o destino.
A breve representação em um acto de índole satírica que existe nos discursos directos dos assassinos profissionais, contratados para matar um boxeur que acaba por quebrar a sua própria rotina não indo ao restaurante por volta das seis horas, sustenta-nos nesse clima de suspense, porquanto os actores principais são verdadeiros comediantes, com um estranho non-sense que raia o absurdo.
São inimitáveis as suas frases espirituosas que levaram alguns críticos literários académicos a classificar o conto como uma soberba peça de vaudeville.«-Que é que se faz aqui, à noite? - perguntou Al », quando se refere ironicamente à pacatez da cidade.«-Janta-se - mofou o amigo. - Reúne-se aqui tudo a mastigar a jantarada.»«-Porque é vocês vão matar Ole Andreson? Que é que ele lhes fez? – Pergunta George, o empregado do restaurante que logra manter um discurso temerário perante os assassinos.«-Nunca teve oportunidade de nos fazer nada. Nem nunca nos viu, sequer.», afirma com a ironia que se adivinha, o gangster Max.«-E só vai ver-nos uma única vez- disse Al », o outro gangster.
Estas e outras falas, sobretudo dos matadores, oferecem, na sua ingenuidade de diálogo de comédia, uma «amostra do mal sob a forma de uma conversa aparentemente banal» - segundo o escritor cubano Cabrera Infante -, em que a simples conversa conduz à violência que está escondida em toda a narrativa.
Mas o conto tem sobretudo uma estrutura psicológica. Induz ao medo. E exprime também uma filosofia, cujos contornos escondem a relação dramática do ser humano com o Bem e o Mal, com o destino religioso e existêncial do homem, o tal ser-para-morte de que Heidegger escreveu, e que está bem representado no protagonista que motiva a short story mas só aparece no final da mesma, quase sem rosto, resignado, sem poder alterar seu destino.
Esse par de criminosos inicia a sua jornada vespertina mais pela conversa, do que pela acção, a fim de liquidar o boxeur sueco. E a causa dessa sentença de morte? Só o próprio sabia qual era e o que motivara a sua sentença, segundo as regras do sub-mundo do crime organizado. -«A questão é que eu não procedi bem.- Falava num tom monocórdico.- Não há mesmo nada a fazer.»
Não se conhecendo assim a identificação da causa, estava preparado o campo para o castigo incontrolado pelo homem, que só poderia aguardar a morte. O candidato a ser assassinado exprime em bom rigor filosófico o drama da condição humana, no que concerne à espera da morte e como por ora logra burlá-la. A sua não reacção ao seu destino, sendo atípica, é no entanto o paradigma do protagonista resignado à fatalidade, que pode fugir, mas já se não interessa por fazê-lo.«-Não. Não há nada a fazer. Daqui a bocadinho, levanto-me e vou para o meio da rua.»
Tanto ele como os seus assassinos, já alguém o afirmou num ensaio crítico, podem ser uma representação da teoria de Einstein e o princípio de Walter Heisemberg, respectivamente a da relatividade e o das incertezas.
Neste conto, de facto, o que parece ser irreversível, repleto de certezas, porquanto o enredo assim exige a sua realização, e o leitor assim espera, afinal vem a verificar-se estar à mercê de um simples acaso do tempo e do espaço. E o desfecho é relativo. E o que se previa como comportamento futuro da intriga do conto, o seu desfecho, não acontece pelo princípio da indeterminação.«- Vamos, Al - disse Max - É melhor irmos embora. Ele já não vem.»«- O melhor é dar-lhe mais cinco minutos - disse Al da cozinha.» (3)


(1) Vd. «Matadores», in Bestiário-Revista de Contos, nº 10, Dezº 2004
(2) José Guilherme Merquior, in Formalismo & Tradição Moderena, Editora Forense-Universitária, S.Paulo, 1974
(3) Contos de Nick Adams, Edição Livros do Brasil, Lisboa, pág. 62

in Bestiário, Revista de Contos, Brasil.

quinta-feira, maio 22, 2008

A Lua de 1969


Do lado de cá estou eu. O outro lado não tem luz.
Clélia Mendes


Do outro lado há ventos
em silêncio, a noite
é uma espessura, corta-se
quase à faca. Do lado de lá qualquer
pequena luz seria um céu.
Do outro lado o relógio
não é uma luz. Do outro lado
as estrelas escondem a oxidação
das humidades e quebraram
já as suas pontas
há gerações
estelares. Ali o homem
seria demasiado. Do outro
lado os cometas sustentam
visões na sua cabeleira.
22-5-2008

segunda-feira, maio 19, 2008

A Bailarina de Flamenco

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Truman Capote

Um dia a maldade veio ao seu encontro
quando segurava um dry martini
a maldade existe no fundo
da beleza
e depois de em Taormina
extasiar-se entre gerânios
e de ver Roma a acender-se
em vestidos de noite
e neve
em Saint-Moritz, a nudez do azul
de Capri
e turvas almofadas em Tânger
para reclinar a dança do álcool
na cabeça, até um dia
o Times de Nova Iorque lhe trazer
o sangue fresco dos Clutter.

18-5-2008

sábado, maio 17, 2008

Ezra Pound - Canto XLV (With Usura)

Poema Marítimo

Nasce do mar tanta espuma.

O mar parte os seus cristais
e o ar não é navegável
ao olhar mais profundo,

nasce tanta espuma do mar,
aflora e vem precedida
do veludo das ondas,
do látego do vento,

como uma luz irregular
salpicando o perfil azul da aurora.

4-5-2008

terça-feira, maio 13, 2008

Os Sapatos de Auschwitz

Por estes sapatos que tiveram
dentro da noite os pés
arrastou-se a eternidade.

Aonde vão os pés a flutuar?

Subindo uns pelos outros
os sapatos têm cor de cinza
como a cinza dos corpos
que anoitece o ar.

Estes sapatos traspassam
nossa alma
como um rio de névoa
como um rio de lama.

Junto a um lago

Junto a um lago

Junto a um lago de vidro
a vida parada revela
um pássaro longínquo
que anseia por mim

sem pressas
paira no ar o silêncio
da espera
na frescura do momento

qualquer folha de árvore
a cair devagar
fará mover
a cortina da paisagem.

Palmela, Maio de 2008

(© Brissos Lino)

sábado, maio 10, 2008

Um poema de Juan Larrea

Os poetas Vicente Huidobro e Juan Larrea
T.S.F.
Nas antenas
Caem os bandos de mensagens
E ouço o pio pio dos pássaros tristes

Na noite infinita dos auriculares
Brilha a débil voz das estrelas passageiras

O apito de um comboio fugitivo
Longinquamente
Se despede

América
Assobia em inglês um banjo (*)
Uma voz me chama das estrelas

Eu só ouço a voz da minha estrela

Nos ares
As pombas prendem as asas
Nos cabos invisíveis.
(*)Na versão original, surge o termo Cake Walk, uma dança antiga dos escravos negros norte-americanos. Optamos por uma metonímia que também sugere o ragtime.
(Trad. J.T.Parreira)

quinta-feira, maio 08, 2008

O Livro da detenção da Poesia


A colecção de poemas dos detidos em Guantánamo, originalmente editada em Julho do ano passado pelo advogado de alguns dos presos, Marc Falkoff, sob o titulo de Poetry from Guantánamo: The Detainees Speak, foi traduzida e lançada em Barcelona em Abril.
«Poemas desde Guantánamo. Los detenidos hablam» é a poesia de 18 vozes desde um ponto negro do Ocidente.
Um dos poetas escreve: «As palavras do poeta são a fonte de nossa força;/ seu verso é a salvação de nosso coração afligido».
Cento e quinze páginas ( na edição em castelhano) dão à poesia política um novo significado humano. O que levou o romancista norte-americano Gore Vidal a afirmar que «Guantánamo, finalmente, encontrou a sua voz.»

Desde a poesia que questiona a natureza diante do olhar do poeta:

É verdade que a erva cresce outra vez após a chuva?
É verdade que as flores se levantarão outra vez na Primavera?
É verdade que os pássaros migrarão para casa outra vez?
É verdade que o salmão nadará contra as correntes?

Ao poema intimista e retrospectivo sobre o próprio corpo detido e sob o pathos da morte. Neste sentido vai até ao olhar prospectivo.
Tomem o meu sangue.
Tomem minha mortalha e
Os restos do meu corpo.
E as fotografias do meu cadáver na sepultura, solitário,
Enviem-nas ao mundo,
Para os juízes e
Para a consciência dos povos.
Toda a poesia deste volume antológico é um testemunho vivo, cheira-se e sente-se a existência.

quarta-feira, maio 07, 2008

Território

Do lado de cá vê-se a cidade e a ponte de ferro. Estende-se o rio
de vidro que a manhã vai deformando. Os pássaros voam mais baixo.
Do lado de cá. Deste lado o céu é mais alto e mais azul.
O vento mais frio. Sabe tão bem. Ninguém conhece o gosto do lado de
cá. Deste lado a música compõe-se, descompõe-se em nudez na
mesma pauta. A cor é mais cor, o riso mais brando.
Do lado de cá estou eu. O outro lado não tem luz.
Este é o lado onde as mãos se cruzam, tranquilas.
E os olhos deixam que a noite os trespasse num acto de amor.
Este é o meu lado. Aqui o meu lugar. E deste lado renova-se o
génesis a cada manhã. Haja vida. Ela se faz. Este lado tem o meu
nome. Autografo no chão. A linha traça-se.


(Clélia Inácio Mendes)

segunda-feira, maio 05, 2008

Pietà

de Paula Rego, Pieta, 2002, da série The Virgin Mary


Espera por uma razão
que lhe caiba nas pupilas

e
lhe regresse aos olhos
se não a alegria, a planície
vã sob o sol em chamas

Espera entender tudo
mesmo o céu fechado
aos pássaros

Por um momento as mãos
batem no lugar do silêncio
onde
morre o coração.

5-5-2008

terça-feira, abril 29, 2008

Solitude


Poema de um homem sozinho

Queria um anjo como esse que enviaste
com as pernas flexíveis
como os juncos no Jaboque
nossos riscos no ar e na água
seriam a dança sobre a música
da torrente
Estou só com o peso dos retalhos
da minha memória, sozinho
apenas acompanhado de dois olhos
e um coração apressado
É noite, mas o medo não
resolveria nada, sequer
acrescentaria um palmo
à minha sombra
Só na luta plena o nome
muda, o nome
novo se alcança
Enfim a manhã virá
rompendo
o novelo do sol
Estou sozinho, em pé
mas fincado na terra
como a lança.
7-5-2005

segunda-feira, abril 28, 2008

La mia traduzione

Poesia traduzida por Alessandra S.Banti
in alexandra3


LA DEMOLIZIONE

È crollata a terra
la vecchia casa
su sé stessa
ieri esisteva ancora
un ritratto di piastrelle
del suo passato, è caduta
giù in silenzio
la facciata che resisteva
al tempo.
Sono crollate le finestre
con le vecchie cortine
abbassate. L’ombra
mai spargerà
la casa sul selciato.


IL SORRISO DELLA GIOCONDA

Il sorriso della Gioconda
è il gioiello del museo, nessuno
lo incornicerà di nuovo, il sorriso
ingannatore della Gioconda
è la porta
sul nulla
anima? paesaggio? il silenzio
nell’ombelico dell’anima
sorride dentro di sé.

sábado, abril 26, 2008

O Salmo

O Senhor é o meu pastor: poucas coisas
me são necessárias

Ele tem a cartografia dos bons pastos
conhece até das águas tranquilas
o seu cantar nocturno
mesmo o cântico de inverno
impetuoso dos ribeiros

Conforta o centro da minha alma
onde não há carne
nem a palavra vem

O vale das sombras estremece
a cada passo dos meus ossos
e ali a morte é inútil
como uma nuvem.

sexta-feira, abril 25, 2008

A Indiferença




Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.

(Bertolt Brecht)
Poema enviado pelo meu amigo, o poeta Orlando Figueiredo

quinta-feira, abril 24, 2008

As suicidas ( I )


Uma das mais expressivas poetas da geração dos anos 70, Ana Cristina Cesar (1952-1983) exerceu intensa atividade jornalística e editorial, como tradutora de importantes autores estrangeiros, entre os quais a poeta inglesa Sylvia Plath.

Psicografia
Tambem eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto