segunda-feira, maio 19, 2008

Truman Capote

Um dia a maldade veio ao seu encontro
quando segurava um dry martini
a maldade existe no fundo
da beleza
e depois de em Taormina
extasiar-se entre gerânios
e de ver Roma a acender-se
em vestidos de noite
e neve
em Saint-Moritz, a nudez do azul
de Capri
e turvas almofadas em Tânger
para reclinar a dança do álcool
na cabeça, até um dia
o Times de Nova Iorque lhe trazer
o sangue fresco dos Clutter.

18-5-2008

sábado, maio 17, 2008

Ezra Pound - Canto XLV (With Usura)

Poema Marítimo

Nasce do mar tanta espuma.

O mar parte os seus cristais
e o ar não é navegável
ao olhar mais profundo,

nasce tanta espuma do mar,
aflora e vem precedida
do veludo das ondas,
do látego do vento,

como uma luz irregular
salpicando o perfil azul da aurora.

4-5-2008

terça-feira, maio 13, 2008

Os Sapatos de Auschwitz

Por estes sapatos que tiveram
dentro da noite os pés
arrastou-se a eternidade.

Aonde vão os pés a flutuar?

Subindo uns pelos outros
os sapatos têm cor de cinza
como a cinza dos corpos
que anoitece o ar.

Estes sapatos traspassam
nossa alma
como um rio de névoa
como um rio de lama.

Junto a um lago

Junto a um lago

Junto a um lago de vidro
a vida parada revela
um pássaro longínquo
que anseia por mim

sem pressas
paira no ar o silêncio
da espera
na frescura do momento

qualquer folha de árvore
a cair devagar
fará mover
a cortina da paisagem.

Palmela, Maio de 2008

(© Brissos Lino)

sábado, maio 10, 2008

Um poema de Juan Larrea

Os poetas Vicente Huidobro e Juan Larrea
T.S.F.
Nas antenas
Caem os bandos de mensagens
E ouço o pio pio dos pássaros tristes

Na noite infinita dos auriculares
Brilha a débil voz das estrelas passageiras

O apito de um comboio fugitivo
Longinquamente
Se despede

América
Assobia em inglês um banjo (*)
Uma voz me chama das estrelas

Eu só ouço a voz da minha estrela

Nos ares
As pombas prendem as asas
Nos cabos invisíveis.
(*)Na versão original, surge o termo Cake Walk, uma dança antiga dos escravos negros norte-americanos. Optamos por uma metonímia que também sugere o ragtime.
(Trad. J.T.Parreira)

quinta-feira, maio 08, 2008

O Livro da detenção da Poesia


A colecção de poemas dos detidos em Guantánamo, originalmente editada em Julho do ano passado pelo advogado de alguns dos presos, Marc Falkoff, sob o titulo de Poetry from Guantánamo: The Detainees Speak, foi traduzida e lançada em Barcelona em Abril.
«Poemas desde Guantánamo. Los detenidos hablam» é a poesia de 18 vozes desde um ponto negro do Ocidente.
Um dos poetas escreve: «As palavras do poeta são a fonte de nossa força;/ seu verso é a salvação de nosso coração afligido».
Cento e quinze páginas ( na edição em castelhano) dão à poesia política um novo significado humano. O que levou o romancista norte-americano Gore Vidal a afirmar que «Guantánamo, finalmente, encontrou a sua voz.»

Desde a poesia que questiona a natureza diante do olhar do poeta:

É verdade que a erva cresce outra vez após a chuva?
É verdade que as flores se levantarão outra vez na Primavera?
É verdade que os pássaros migrarão para casa outra vez?
É verdade que o salmão nadará contra as correntes?

Ao poema intimista e retrospectivo sobre o próprio corpo detido e sob o pathos da morte. Neste sentido vai até ao olhar prospectivo.
Tomem o meu sangue.
Tomem minha mortalha e
Os restos do meu corpo.
E as fotografias do meu cadáver na sepultura, solitário,
Enviem-nas ao mundo,
Para os juízes e
Para a consciência dos povos.
Toda a poesia deste volume antológico é um testemunho vivo, cheira-se e sente-se a existência.

quarta-feira, maio 07, 2008

Território

Do lado de cá vê-se a cidade e a ponte de ferro. Estende-se o rio
de vidro que a manhã vai deformando. Os pássaros voam mais baixo.
Do lado de cá. Deste lado o céu é mais alto e mais azul.
O vento mais frio. Sabe tão bem. Ninguém conhece o gosto do lado de
cá. Deste lado a música compõe-se, descompõe-se em nudez na
mesma pauta. A cor é mais cor, o riso mais brando.
Do lado de cá estou eu. O outro lado não tem luz.
Este é o lado onde as mãos se cruzam, tranquilas.
E os olhos deixam que a noite os trespasse num acto de amor.
Este é o meu lado. Aqui o meu lugar. E deste lado renova-se o
génesis a cada manhã. Haja vida. Ela se faz. Este lado tem o meu
nome. Autografo no chão. A linha traça-se.


(Clélia Inácio Mendes)

segunda-feira, maio 05, 2008

Pietà

de Paula Rego, Pieta, 2002, da série The Virgin Mary


Espera por uma razão
que lhe caiba nas pupilas

e
lhe regresse aos olhos
se não a alegria, a planície
vã sob o sol em chamas

Espera entender tudo
mesmo o céu fechado
aos pássaros

Por um momento as mãos
batem no lugar do silêncio
onde
morre o coração.

5-5-2008

terça-feira, abril 29, 2008

Solitude


Poema de um homem sozinho

Queria um anjo como esse que enviaste
com as pernas flexíveis
como os juncos no Jaboque
nossos riscos no ar e na água
seriam a dança sobre a música
da torrente
Estou só com o peso dos retalhos
da minha memória, sozinho
apenas acompanhado de dois olhos
e um coração apressado
É noite, mas o medo não
resolveria nada, sequer
acrescentaria um palmo
à minha sombra
Só na luta plena o nome
muda, o nome
novo se alcança
Enfim a manhã virá
rompendo
o novelo do sol
Estou sozinho, em pé
mas fincado na terra
como a lança.
7-5-2005

segunda-feira, abril 28, 2008

La mia traduzione

Poesia traduzida por Alessandra S.Banti
in alexandra3


LA DEMOLIZIONE

È crollata a terra
la vecchia casa
su sé stessa
ieri esisteva ancora
un ritratto di piastrelle
del suo passato, è caduta
giù in silenzio
la facciata che resisteva
al tempo.
Sono crollate le finestre
con le vecchie cortine
abbassate. L’ombra
mai spargerà
la casa sul selciato.


IL SORRISO DELLA GIOCONDA

Il sorriso della Gioconda
è il gioiello del museo, nessuno
lo incornicerà di nuovo, il sorriso
ingannatore della Gioconda
è la porta
sul nulla
anima? paesaggio? il silenzio
nell’ombelico dell’anima
sorride dentro di sé.

sábado, abril 26, 2008

O Salmo

O Senhor é o meu pastor: poucas coisas
me são necessárias

Ele tem a cartografia dos bons pastos
conhece até das águas tranquilas
o seu cantar nocturno
mesmo o cântico de inverno
impetuoso dos ribeiros

Conforta o centro da minha alma
onde não há carne
nem a palavra vem

O vale das sombras estremece
a cada passo dos meus ossos
e ali a morte é inútil
como uma nuvem.

sexta-feira, abril 25, 2008

A Indiferença




Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.

(Bertolt Brecht)
Poema enviado pelo meu amigo, o poeta Orlando Figueiredo

quinta-feira, abril 24, 2008

As suicidas ( I )


Uma das mais expressivas poetas da geração dos anos 70, Ana Cristina Cesar (1952-1983) exerceu intensa atividade jornalística e editorial, como tradutora de importantes autores estrangeiros, entre os quais a poeta inglesa Sylvia Plath.

Psicografia
Tambem eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto

sábado, abril 19, 2008

Nocturno, do "Manual de Espumas"

Están todas

También las que se encienden en las noches de moda

Nace del cielo tanto humo
que ha oxidado mis ojos

Son sensibles al tacto las estrellas
No sé escribir a máquina sin ellas

Ellas lo saben todo
Graduar el mar febril
y refrescar mi sangre com su nieve infantil

La noche ha abierto el piano
y yo las digo adiós com la mano.

(Gerardo Diego, 1924)


Estão todas

Até as estilistas das noites de moda

Do céu nasce tanto fumo
que tem manchado os meus olhos

São ao tacto sensíveis as estrelas
Não sei digitar metáforas sem elas

Elas sabem-na toda
Graduar o mar febril
e refrescar meu sangue com sua frieza infantil

A noite abriu ao piano
e eu digo-lhes adeus com a mão.

(Trad.J.T.Parreira, 2008)

quinta-feira, abril 17, 2008

Nuvens

Olas tibias del cielo
Gerardo Diego

Eu pensava nas nuvens que se deixam
iluminar por dentro, pelo sol

Nas nuvens que não param
na mesma forma, as nuvens
que estão sempre
a ser intérpretes do vento

Eu pensava na mais simples
nuvem
que vai do novelo branco
ao cúmulo onde o raio nasce

Eu pensava
nas ondas que se encavalitam pelo céu.

Remigio Adares (1923/2001) - Poeta de Salamanca


Salamanca abria a sua Plaza Mayor ao sol ainda jovem dos meados da Primavera de 1993.
O dia 1 de Maio era um dia de trabalho para a Cultura, em Salamanca. Uma Feira do Livro, uma Homenagem ao poeta Miguel Hernandez, e, no seu habitual feudo, o poeta salmantino Remígio Adares, 70 anos, quase sempre vividos aqui e ali, mas especialmente ali, na entrada do Café El Corrillo.
Foi aí que nos conhecemos, naquela manhã do primeiro de Maio de 1993.
O Café El Corrillo tem tertúlias, jazz, outras músicas, poesia, mas tinha, como atalaia, esse velho poeta, que me disse, entre outras conversas: «Yo soy el poeta, y por eso paso ».
Falamos também de pássaros, porque eu editara recentemente, em Lisboa, «Pássaros Aprendendo Para Sempre e Outros Poemas », e Remigio Adares afirmou-me algo que jamais esquecerei: «Os pássaros parecem-me sempre fumos saindo das chaminés dos “pueblos”».
Este poeta de aspecto campesino, por causa do inseparável boné, constituia-se «tão-somente» como um dos grandes difusores da cultura salmantina no mundo, a sua obra estava e está, com certeza, repartida por muitos confins e latitudes onde é estudada. Soube, muito tempo depois, que havia falecido em 2001.
Agora jamais voltarei à Plaza del Corrillo, perto da Mayor, porque Remigio Adares já não pára a rua e as escadarias breves da entrada do Café com os seus livros expostos. Posso voltar, claro, mas o lugar como o rio de Heraclito já não é o mesmo.

segunda-feira, abril 14, 2008

O Grito


para Edvard Munch

Passos atrás das costas
Sentia como se fosse a noite
Atrás das costas
Como um punho
A empurrar o grito
Um pulmão inteiro
Numa ponte que corta
Ao meio o universo.
14/4/2008

domingo, abril 06, 2008

A morte ambígua de Ofélia

O corpo toca como as nuvens
a beira do abismo, cai
o corpo de Ofélia
para a transparência do vidro

O rio dorme com ela
e as estrelas
começam a sentir o frio celeste

Como um corpo na água morto
vão seu perfume e seu riso.

4/4/2008

quarta-feira, abril 02, 2008

Peregrino, Luis Cernuda


Voltar? Volte o que esteja,
Após longos anos e longa viagem,
Exausto do caminho e cobiçoso
De sua terra, sua casa, seus amigos,
Do amor fiel que no regresso o espere.

Mas, tu? Voltar? Regressar não penses,
Senão seguir em frente, livre,
Livre para sempre, moço ou velho,
Sem filho que te busque, como a Ulisses,
Sem Ítaca que espera e sem Penélope.

Segue, continua e não regresses,
Fiel até ao fim da estrada e tua vida,
Não sintas falta do destino fácil,
Teus pés sobre uma terra virgem,
Teus olhos perante o nunca visto.

In Antologia del Grupo Poético de 1927


(Trad. J.T.Parreira)

segunda-feira, março 31, 2008

Arrival/Chegada

Your face, the
gaze you
returned -

words in your
eyes, mirrors.

Where did we
stop

last time

I saw you.

(Virna Teixeira)



Teu rosto, o
olhar que você
retornou -

palavras nos teus
olhos, espelhos.

Onde nós
paramos

a última vez

que te vi.

(Trad. J.T.Parreira)

sexta-feira, março 28, 2008

A Saída

Tout s'éteignit
Le jour, la lumière interieure
René Char


Tudo se apaga
as janelas, os espelhos interiores
depois os silêncios
são varridos, gestos lentos
no tempo repetido
na sala o dia apaga-se

Fogos da alma interior
apagam-se, paixões
cadeiras, mesas regressam
à sua solidão, a sala
não respira senão a humidade
que fica nas janelas.

26-3-2008

quinta-feira, março 27, 2008

O Tempo que passou

Edição de 1965

BlockquoteA Arte, como disse Goethe, está na limitação: e um grande poeta é aquele que usa melhor a língua que lhe foi dada. O verdadeiro grande poeta faz da sua língua uma grande língua.

(T.S.Eliot)

quarta-feira, março 26, 2008

Duna ( Inédito)

A mão escorrega no cetim e alisa
A pele, a paz, o sono, o sopro
De espuma os dedos molha e enxuga
Na pele o cetim da mão no sono
Sopro na espuma ao de leve – e espalha
Espuma que desliza na minha paz.

(Clélia Mendes)

segunda-feira, março 24, 2008

Luis Gaspar, re+dizer:

053 - J.T. Parreira e Jorge Sousa Braga

Neste programa, voltamos, a pedido, às lendas de povos antigos e recordamos palavras de ouro de dois poetas: J.T. Parreira e Jorge Sousa Braga.A música que acompanha a lenda é, como sempre, de Luís Pedro Fonseca e a que ilustra a poesia do “magnatune.com”
Standard Podcast [21:51m]: Hide Player Download

sábado, março 22, 2008

Os Andaimes das Ruínas

Joyce, James. Ulysses. Paris: Shakespeare and Co., 1922. Quarto, original blue-green wrappers. Custom half-leather box. $60,000. First edition, one of 750 printed on handmade paper (out of a total edition of 1000).

O escritor irlandês, o James Joyce ortónimo, e o Stephen Dédalus protagonista e alter-ego, construiu entre andaimes o romance que faz regressar o moderno Ulisses. Esse romance é «uma ruína magnífica», como escreveu depois um historiador literário, Walter Allen (O Romance Inglês, Pelicano) . Mas que não dispensou andaimes, sendo esta a palavra que é usada por Ezra Pound para significar toda a estrutura do célebre romance joyceano.
Lendo (aqueles que conseguem fazê-lo!), paciente e longamente, o livro, entender-se-á necessariamente o sentido daquela substantivação de Pound . Mais do que uma obra sobre as ruínas de um dia na vida de Leopold Bloom, estruturada entre andaimes, o que temos são as ruínas do próprio Ulisses, a figura patronímica e tutelar do romance.
As figuras arquetípicas do ancestral Homero, passaram para o moderno Joyce. Da mítica Odisseia passaram para o Odisseu. O mesmo é dizer que passaram do universal para o particular. Do arquétipo mais longínquo para a experiência consolidada de um dia como o 16 de Junho de 1904.
Da arquiescrita anterior, que em Homero consolida a língua, para um jogo de linguagem que em James Joyce já apontava para descodificar um mito.
De um modelo cosmogónico para uns quantos personagens que não deixam de estar, como comuns pessoas urbanas, na crítica à vida do início do passado século XX. Em duas simples palavras, do padrão para a cópia recriadora com os elementos da vida moderna.
Em relação à obra do aedo cego, Homero, pai da Odisseia, o século passado teve no romance de Joyce, Ulisses, a sua explanação concentrada, uma década em um dia de 18 horas.

O princípio:
Ó Musa, fala-me do solerte varão, que, depois, de ter destruído a cidade sagrada de Tróia, andou errante por muitas terras(...), e por sobre o mar.

A viagem de Bloom, o Ulisses de Joyce, teve um início menos acidentado:
Leopold Bloom comia com gosto os órgãos internos de quadrúpedes e aves.(...) Mais do que tudo gostava de rins de carneiro grelhados... (...) -Vou dar um pulo na esquina. De volta num minuto. E depois de ouvir a própria voz acrescentou: -Quer alguma coisa para agora?

Mesmo que uma pessoa não seja leitora assídua do Ulisses, é sabido que Leopld Bloom saiu no dia 16 de Junho a fim de ir ao talho comprar um rim. O célebre esquema de Gilbert ( que interpreta paralelamente as situações da Odisseia e do Ulisses), refere que «Leopold Bloom has breakfast before saying goodbye to his wife Molloy, still in bed.»
Na comparação esquemática elaborada pelo designado «The Gilbert Schema», seguindo a ordem disposta no próprio romance, na II parte da Odisseia, temos a ninfa Calypso e Leopld Bloom. A relação de ambos é oposta. Enquanto na obra clássica de Homero, Calypso, filha de Atlas, guarda languidamente Odisseu em cativeiro durante város anos, Leopold Bloom, a personagem central de Joyce, mantém com sua mulher uma situação de submissão servil, quase invertebrada, levando-lhe à cama o pequeno-almoço, antes de sair.
E nesse dia, que mais tarde se chamou o Bloomsday, disse adeus à sua mulher Molly, que continuava deitada às 8 horas da manhã.
No final da jornada diária, no Ulysses, Leopold entra em casa regenerado, os acontecimentos fizeram-no renascer. Embora a sua «Ithaca», a residência no 7 Eccles Street aonde retorna, continue a ser a rotina e a sua «Penélope» tenha dificuldade em ser uma esposa fiel, não resistindo aos amantes.
Ao contrário, na Odisseia homérica, a esposa de Odisseu resiste aos seus pretendentes, que ao longo dos dez anos de ausência do marido a tentam requestar.

Esta ideia de um renascimento não nos pareceu de todo despicienda. Em um dos três livros raros de poesia de James Joyce, Pomes Penyeach, podemos achar mesmo que estamos a ser devolvidos ao conteúdo de Ulysses.
Designadamente no poema «O Santo Ofício», iconoclasta, anticlerical, irritado contra o catolicismo romano, o qual é, como toda a obra joyceana, uma purga e ao mesmo tempo uma farsa crítica da Irlanda, contra todas as instituições, e uma sátira a W.B.Yeats e a outros intelectuais da sua geração.
Esse poema traz-nos um texto metalinguístico e satírico, construído sobre referências literárias, usadas ad hominem mais do que em louvor, havendo até quem não resista a comparar o seu dizer com as frases de Quevedo, ou recordando outros escritores medievais pela sua irreverência, designadamente contra as indulgências que «tiravam» as almas do Purgatório.
Alguns versos, finalmente, como prova:
«Para entrar no céu, viajar no inferno,\ ser piedoso ou terrível,\ uma pessoa precisa positivamente do alívio\ das indulgências plenárias.»

sexta-feira, março 21, 2008

A pedra a tapar a evidência

Uma pedra a tapar
a evidência, apenas uma pedra
bloco uníssono
de silêncio
Feia, indomada
a pedra a fechar a morte
perante a qual
toda a dúvida se acaba

E no entanto nada há
mais simples
do que a pedra, símbolo
do que queda irresolúvel
Uma pedra branca, granito
não mármore, nem
impossível esmeralda
a pedra a tapar a evidência

Pedra desviada pela música
toque de rosa ou
da imensa Mão celeste
Então a pedra abre-se
ao interior da morte
de onde ao sol passou
o Princípe da Vida.

quinta-feira, março 20, 2008

O Tempo que passou

"O Século Ilustrado", 21 de Abril de 1973

Dia Mundial da Poesia, 21

BlockquoteIntegrado nas Comemorações do Dia Mundial da Poesia, o Grupo Poético de Aveiro irá realizar um recital de poesia na Biblioteca Municipal de Ílhavo no dia 21 de Março pelas 21h30m.
Tema: A poesia de José Régio
Organização: Confraria Camoniana de Ílhavo
GRUPO POÉTICO DE AVEIRO

domingo, março 16, 2008

The Red Wheelbarrow


so much depends
upon

a red wheel
barrow

glazed with rain
water

beside the white
chickens

(William Carlos Williams)




O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa se liga
a um

carrinho de mão
vermelho

envernizado com água
de chuva

junto às galinhas
brancas

(Trad. J.T.Parreira)

sábado, março 15, 2008

Despejos

COHRE.ORG


Para onde vamos agora, sem um vaso...
Ralph Ellison


Atirados para a rua
como tralha miúda
no passeio
utensílios domésticos, móveis
que deixaram um espaço
um buraco negro no tempo

Um monte de haveres
e sem coragem para os escalar
uma gaveta que demorou anos a encher
espalha as raízes
de uma vida, uma moldura
oval com sorrisos.

Cadeiras sem outro orgulho
senão o de ficarem de pé
entre as chamas, um fogão
de esmalte, uma mesa
que descansa em quatro pernas
uma cama, um espelho atónito
todos perdidos, entre estranha gente.

7-3-2008

terça-feira, março 11, 2008

Um Epitáfio


“Aquí yace el poeta Vicente Huidobro
Abrid la tumba
Al fondo de esta tumba se ve el mar.”
(Vicente Huidobro)
Aqui repousa o poeta Huidobro
abrir a tumba
para o ver ao fundo a olhar o mar
(Trad. livre J.T.Parreira)

segunda-feira, março 10, 2008

Ulisses entrando em Ítaca


Odisseu o que caminhou em círculos no mar
E prendeu seu corpo e seus ouvidos
No mastro principal
Que não deu orelhas às sereias
E sustentava o leme
Sob as ondas
E com um saco de ventos
Nas velas enfunadas
Entrou em Ítaca
Onde Penélope esperava
Uma vida.
10-3-2008

sábado, março 08, 2008

Dia 8 de Março no Mundo

Luis García Montero:

"Nadie besa dos veces / a la misma mujer"

('Mi futuro y Heráclito') in Vista cansada, Madrid, Visor, 2008

Quando um poeta escreve:

A última carta, Blockquotemas se não voltar a escrever
é porque já me arrumei por dentro.

Ler aqui do meu amigo Brissos Lino

sexta-feira, março 07, 2008

O assalto

Deixaram um pássaro morto
insustentável no ar
morto, na casa devassada
o silêncio que no pássaro
se aninha

O que levaram foi o ouro
dinheiro algumas joías
de família alguns jarrões
da China que pareciam
com a sombra deslizar
à mesma hora sobre os móveis

Era a moradia mais a jeito
com persianas
atrás das quais havia tempo
e não havia nenhuns olhos.

1-2-2008

quarta-feira, março 05, 2008

Papel de Rascunho

papel de rascunho » 2007 » November
... latas do lixo não escondem o mau cheiro. Subo ao primeiro andar; Orelhas sujas dirige-me a navalha… Eu apalpo-lhe todos os relógios furtados. GREGORY CORSO. Tradução: J.T.Parreira

segunda-feira, março 03, 2008

João Cabral de Melo Neto - A Paisagem Zero na Escrita Poética

Letras :

João Cabral de Melo Neto (1920-1999), poeta do Brasil e diplomata, figura representativa e polémica - sempre indisposto contra coisas do seu tempo e da literatura - da Geração de 45, foi, sem dúvida, na quase totalidade da sua obra poética, um desconstrutor de paisagens.
Depois do conhecidíssimo poema “Morte e Vida Severina” e dos cemitérios nordestinos reduziu a paisagem brasileira, social e humana, ao grau zero da existência.
Ele próprio afirmou, pouco antes de morrer, num canal de televisão brasileiro, em entrevista concedida já às escuras - estava quase cego - que fazia poesia com linguagem irónica, sem pena ou lágrimas, que iriam favorecer os cruéis.
Com efeito, J C M N assumiu o compromisso poético social com os excluídos, os deserdados do tecido sócio-económico brasileiro, aqueles homens, mulheres e crianças do Nordeste que sofreram a seca e deram azo a que se escrevesse sobre a geopolítica da fome. Desequilibrou - embora a ideia fosse ao contrário da sua Geração de 45 - os excessos literários do Modernismo brasileiro, enriquecendo no entanto o processo criador juntamente com outro grande poeta social, o autor de Rosa do Povo, Carlos Drummond de Andrade.
Nesta linha de procurar fazer os leitores reflectirem sobre as paisagens da morte, com rostos humanos sofredores - só com um paralelo em algumas grandes telas de Portinari -, criou com certeza inimizades literárias, rarefez o ar social de Pernambuco ao descrever, recriando pela desconstrução do símbolo, da imagem e do referente, os cemitérios nordestinos, por exemplo, neste poema em que ironiza com a morte :
“ Nenhum dos mortos daqui / vem vestido de caixão. / Portanto, eles não se enterram, / são derramados no chão.”
E causou obviamente polémicas, por vezes derivadas da sua tendência para a teorização, mal aceita pelos seus companheiros da Geração de 45, segundo os quais Melo Neto “era um teórico de formação anémica”. Em certo momento, as reacções foram de tal forma deselegantes que, na Revista de Poesia e Crítica, nº 7, de 1981, um dos articulistas afirmou “melhor mesmo é deixar Cabral com o seu realejo de repetir Severinos, ovos de galinha, engenhos, engenhos, ovos de galinha, Severinos.”
Sem dúvida que a grande poesia de ´João Cabral de Melo Neto é formada da repetição até à descontrutividade de um certo Brasil humano que foi tão dramático nos anos 40-60, o dos retirantes em que só o suor não secou, como agora são dramáticas também as realidades das Favelas, dos meninos da rua, dos massacres da Candelária. As paisagens, geofísicas e sociais, reduzidas a zero, pela visão do poeta autor de O Engenheiro, estão, de facto, patentes nos seus versos maiores, como o já referido Morte e Vida…, mas não apenas. Também surgem com enorme força em poemas do livro generalista Educação pela Pedra, ou em poemas dos livros que obedecem ao mesmo compromisso social, como Dois Parlamentos ou O Cão sem Plumas. Exactamente porque a plasticidade dos poemas de Melo Neto é toda nordestina, é a descrição de uma “paisagem zero”, que é no dizer do poeta a terra varrida de defuntos.

domingo, março 02, 2008

Aniversário em Manhattan

Abril 1999


A poucas horas
para os 52,
a sair para a rua que treme
no chão, com sinais de fumo
para o futuro,
com uma esquina que dobra
os pés para a Lexington Avenue,

52 anos cheios
e atrás de mim uma história.

Adiante o futuro e os meus olhos
que vão atrás dos óculos e nuvens
indo e vindo entre o oceano
e Albany.


quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Tomas Tranströmer


17 DIKTER (POEMAS)

Tradução para o espanhol

1.
Paredes de penas:
Pombas vão e vêm...
não têm rostos.

2.
Os pensamentos
na calma dos mosaicos
no palácio.

3.
De pé na varanda,
essa jaula de sol:
como um arco-íris.
(Trad. J.T.Parreira)


segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Ausência

Enfrento-me no espelho
e o rosto
não está lá
cada olho se reveza
em procurar-me.

25-2-2008

domingo, fevereiro 24, 2008

Sozinho Todavia Muitos


Se pudesse eleger uma solidão
elegeria, a solidão
de uma cidade, de Lisboa
às primeiras horas matinais
uma arcada ainda cinzenta
mesas encerradas
de pé sobre a cinza
dos cigarros, a névoa
sobre o Tejo
sozinho todavia muitos
elegeria da solidão
Pessoa a sentar-se à mesa
a escrever Tejo como
um rio de ode
a falar com o eco
da sua voz nos outros.
22/2/2008

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Di Versos – Poesia e Tradução.




Saiu já o n.º 12 da revista Di Versos – Poesia e Tradução. A revista é coordenada por Jorge Vilhena Mesquita e José Carlos Marques. Neste número poderão encontrar poemas de António José Borges, António Salvado, Avelino de Sousa, César Vallejo e Juan Ramón Jiménez (traduzidos por Nicolau Saião), Claudio Rodríguez e Ricardo Paseyro (traduzidos por António Salvado), Cláudio Willer, Cristino Cortes, Dante (traduzido por Avelino de Sousa), e. e. cummings e Seamus Heaney (traduzidos por João Tomaz Parreira), Giannis Ritsos e René Char (traduzidos por José Carlos Marques), João Miguel Henriques, J. T. Parreira, Nicolau Saião, Rafael Rocha Daud, Rui Tinoco e Tomas Tranströmer (traduzido por José Carlos Marques, Anna Olsson e Sérgio Lopes).

Pedidos pelo telefax 229759592 e/ou contacto@sempreempe.pt

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Madrugadas

Levanta-se na ponta da cidade
depois por ela corre
primeiro os becos, que visita
por cima, abrindo a luz
nos rectângulos das janelas
há uma viela
logo ali que volta a acordar
as cercas dos quintais
o guardam
O sol entre silêncios e espasmos
das portas que se abrem
inunda depois as avenidas
desde as frestas às grandes
varandas de cristal.

19/2/2008

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

El poeta es un fingidor


Todas las cartas de amor son
ridículas.

No serían cartas de amor si no fuesen
ridículas.

También escribi en mis tiempos cartas de amor,
como las demás,
ridículas.

Las cartas de amor, si hay amor,
tienen que ser
ridículas.

Pero, al final,
sólo las criaturas que nunca han escrito
cartas de amor
son las que son
ridículas.

(Álvaro de Campos)

domingo, fevereiro 10, 2008

Nº 1 da revista literária Abrelatas


Lançamento da Revista Abrelatas.

A edição número 01, contém textos dos seguintes autores: Adriano Esturilho, Ana Guimarães, Andrei Vasquez (México), Andréia Donadon Leal, Antonio Carlos Floriano, Beatriz Bajo, Benjamin Marchi, Candido Rolim, Carlos Emilio C Lima, Claudinei Damasceno Romão, Cláudio B Carlos, Eduardo Lacerda, Fabrício Marques, Fernando Aguiar, Geruza Zelnys,Giovana Bonifácio, J T Parreira (Portugal), James W Holloway, Jocelyn Pantoja (México), Joel Flores (México), Juan Fiorini, Karen Villeda (México), Leonardo Meimes,Luis Serguilha (Portugal), Mario Mariones, Me Morte, Nelson Marzullo Tangerini, Raimundo de Souza, Raul Koliev, Ricardo Araújo, Rogério Santos e Thiago Ponce de Moraes.

sábado, fevereiro 09, 2008

Aniversário


Quando fizer 61 envia-me
um postal roubado
num impulso adolescente

da mesma papelaria
que já não existe ninguém
dá por nada

um postal com música
frágil como todas as asas
de libélula

escrito com palavras
debruçadas para fora
a sairem das margens

manda-me um postal
com o teu cheiro
abrindo caminho entre as outras
cartas banais

um postal roubado às cores
dos lírios de um jardim nas dunas.

8-2-2008

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Poema 24

LE FEU QUI DORT, Mário Dionísio

24

Falar a uma pedra que nos olha sem nos ver
Tocar a pele de um vidro que sem saber deslumbra
apalpar a suave terra que do seu poder não sabe nada
Cantar uma ária d’amor num céu oco que a repete
sem a escutar nem comover-se

Procurar o sorriso terno da lâmina

Andar sempre andar sempre esperar
o que não nasce nem surge apenas do acaso
do calor que flutua pela casa na procela

Conhecer
o fundo sem fim dos velhos espelhos

(Trad.J.T.Parreira)

Paulo Freire, Poeta da Educação


Paulo Freire, Marx e Cristo, para ou-ver aqui, no Ovelha Perdida

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Sylvia Plath

Blockquote
Sylvia Plath, publicado aqui também.

Alta Velocidade

(Já em 1992( data da foto) tínhamos.)

CANÇÃO DA PARADA DO LUCAS

Parada do Lucas
-O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
minha alma incendiada
Pediria à Noite
Dois seios intactos.

Parada do Lucas.
-O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
Eu iria aos mangues
Dormir na escureza
Das águas defuntas.

Parada do Lucas.
-O trem não parou.

Nada aconteceu
Senão a lembrança
Do crime espantoso
Que o tempo engoliu.

(Manuel Bandeira)

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Literary Kicks

Action Poetry is in effect.

For On the Waterfront by JTParreira

Há Lodo no Cais



Nos últimos anos procurei ver
Há Lodo no Cais
o audível Brando
com olhos deprimidos a vaguear
na face
a sua elegia contra a Máfia
Contudo realmente eu queria ouvir
acerca de Joey
Joey que costumava treinar pombos
mas caiu do telhado.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Rapariga com brinco de pérola


Vermeer toca na luz
onde põe um brinco de pérola
a carne virgem pálida
da face teve o leite da aurora
exposta em Delft
à janela
os seus lábios
entreabrem o carmim
a rosa do silêncio.

2/2/2008

Poema do Poema do Bandeira

Diz o Manuel Bandeira
em poema bem gizado
que um tal João Gostoso
"bebeu
cantou
dançou
depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas
e morreu afogado"

E que belo lugar para um filho do Rio
morrer afogado
sem frio
direi eu
em especial depois de
beber
cantar
dançar
nada mais pode ser perigoso
sentiu o João Gostoso.

(Brissos Lino)

sábado, fevereiro 02, 2008

Tradução para Turco

Mevsimsiz Forum >

STAYNVEY & OĞULLARI
Joao Tomaz Parreira (1947-)

Üç bacağı Staynvey’in
yerin üstündeki damarların içersinde
kuşlardan bir senfoniyi havaya kaldırır

zarif bacakları
Staynvey’in
bir kadın gibi

dinlediğimiz
aheste beste
siyah elbisesinin içersinde.

(Çeviren: Vehbi Taşar)


STEINWAY & SONS
by Joao Tomaz Parreira (1947-)

Three legs of the Steinway
raise a symphony of birds
in the veins above of the floor

the elegant legs
of the Steinway
as a woman

whom we listened
slowly
in its black dress.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Como Abraão

Ora mordo
Come un bambino la mammella
lo spazio

Giuseppe Ungaretti


Morde
como um menino os seios
da Via Láctea
Na boca aberta um espanto
sorve o leite matinal
que vai nascer
da aurora
Enquanto isso procura
entre as distâncias
das estrelas
os nebulosos mares
Tudo o que está velado
procura
perde o inacabado número
das estrelas
e regressa ao zero
e recomeça do que sobra
do coração
cansado.


30/1/2008

terça-feira, janeiro 29, 2008

A Imobiliária

A casa vende-se assim, imóvel
no chão, os objectos na penumbra
deixados na dimensão do natural
sobre um móvel e também
ao fundo da memória
A mesa de que tanta boca dependeu
a um canto um sofá disciplinado
fazem parte do recheio
A porta verde à frente, que não abre
a luz para os insectos
a colcha amarelada sobre a cama
cinco almofadas melancólicas
ficarão no reflexo do espelho
que abre na parede o infinito.

22-11-2007

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Delmore Schwartz, um poema

Na cama nua, na Caverna de Platão
(In the Naked Bed, in Plato's Cave)

Na caverna de Platão, nua
A cama com as luzes reflectidas
A deslizarem na parede,
E carpinteiros que martelam na sombra
Debaixo da janela,
O vento agitou as cortinas toda a noite,
Uma frota de camiões rua acima, relinchando,
Com a carga coberta, como de costume.
O tecto acendeu-se outra vez, um quadrado
Deslizando para as paredes.
Ao escutar os passos do leiteiro,
Seu esforço pelas escadas, o tilintar das garrafas,
Levantei-me da cama, acendi um cigarro,
e andei para a janela. A rua empedrada
Estendia a quietude que vinha das casas,
A vigília dos postes de luz e a paciência do cavalo.
O puro capital que temos num céu de inverno
Fez-me voltar para a cama de olhos exaustos.

(Trad. J.T.Parreira)

sábado, janeiro 26, 2008

Dobrada à moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...

(Álvaro de Campos)