segunda-feira, março 03, 2008

João Cabral de Melo Neto - A Paisagem Zero na Escrita Poética

Letras :

João Cabral de Melo Neto (1920-1999), poeta do Brasil e diplomata, figura representativa e polémica - sempre indisposto contra coisas do seu tempo e da literatura - da Geração de 45, foi, sem dúvida, na quase totalidade da sua obra poética, um desconstrutor de paisagens.
Depois do conhecidíssimo poema “Morte e Vida Severina” e dos cemitérios nordestinos reduziu a paisagem brasileira, social e humana, ao grau zero da existência.
Ele próprio afirmou, pouco antes de morrer, num canal de televisão brasileiro, em entrevista concedida já às escuras - estava quase cego - que fazia poesia com linguagem irónica, sem pena ou lágrimas, que iriam favorecer os cruéis.
Com efeito, J C M N assumiu o compromisso poético social com os excluídos, os deserdados do tecido sócio-económico brasileiro, aqueles homens, mulheres e crianças do Nordeste que sofreram a seca e deram azo a que se escrevesse sobre a geopolítica da fome. Desequilibrou - embora a ideia fosse ao contrário da sua Geração de 45 - os excessos literários do Modernismo brasileiro, enriquecendo no entanto o processo criador juntamente com outro grande poeta social, o autor de Rosa do Povo, Carlos Drummond de Andrade.
Nesta linha de procurar fazer os leitores reflectirem sobre as paisagens da morte, com rostos humanos sofredores - só com um paralelo em algumas grandes telas de Portinari -, criou com certeza inimizades literárias, rarefez o ar social de Pernambuco ao descrever, recriando pela desconstrução do símbolo, da imagem e do referente, os cemitérios nordestinos, por exemplo, neste poema em que ironiza com a morte :
“ Nenhum dos mortos daqui / vem vestido de caixão. / Portanto, eles não se enterram, / são derramados no chão.”
E causou obviamente polémicas, por vezes derivadas da sua tendência para a teorização, mal aceita pelos seus companheiros da Geração de 45, segundo os quais Melo Neto “era um teórico de formação anémica”. Em certo momento, as reacções foram de tal forma deselegantes que, na Revista de Poesia e Crítica, nº 7, de 1981, um dos articulistas afirmou “melhor mesmo é deixar Cabral com o seu realejo de repetir Severinos, ovos de galinha, engenhos, engenhos, ovos de galinha, Severinos.”
Sem dúvida que a grande poesia de ´João Cabral de Melo Neto é formada da repetição até à descontrutividade de um certo Brasil humano que foi tão dramático nos anos 40-60, o dos retirantes em que só o suor não secou, como agora são dramáticas também as realidades das Favelas, dos meninos da rua, dos massacres da Candelária. As paisagens, geofísicas e sociais, reduzidas a zero, pela visão do poeta autor de O Engenheiro, estão, de facto, patentes nos seus versos maiores, como o já referido Morte e Vida…, mas não apenas. Também surgem com enorme força em poemas do livro generalista Educação pela Pedra, ou em poemas dos livros que obedecem ao mesmo compromisso social, como Dois Parlamentos ou O Cão sem Plumas. Exactamente porque a plasticidade dos poemas de Melo Neto é toda nordestina, é a descrição de uma “paisagem zero”, que é no dizer do poeta a terra varrida de defuntos.

domingo, março 02, 2008

Aniversário em Manhattan

Abril 1999


A poucas horas
para os 52,
a sair para a rua que treme
no chão, com sinais de fumo
para o futuro,
com uma esquina que dobra
os pés para a Lexington Avenue,

52 anos cheios
e atrás de mim uma história.

Adiante o futuro e os meus olhos
que vão atrás dos óculos e nuvens
indo e vindo entre o oceano
e Albany.


quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Tomas Tranströmer


17 DIKTER (POEMAS)

Tradução para o espanhol

1.
Paredes de penas:
Pombas vão e vêm...
não têm rostos.

2.
Os pensamentos
na calma dos mosaicos
no palácio.

3.
De pé na varanda,
essa jaula de sol:
como um arco-íris.
(Trad. J.T.Parreira)


segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Ausência

Enfrento-me no espelho
e o rosto
não está lá
cada olho se reveza
em procurar-me.

25-2-2008

domingo, fevereiro 24, 2008

Sozinho Todavia Muitos


Se pudesse eleger uma solidão
elegeria, a solidão
de uma cidade, de Lisboa
às primeiras horas matinais
uma arcada ainda cinzenta
mesas encerradas
de pé sobre a cinza
dos cigarros, a névoa
sobre o Tejo
sozinho todavia muitos
elegeria da solidão
Pessoa a sentar-se à mesa
a escrever Tejo como
um rio de ode
a falar com o eco
da sua voz nos outros.
22/2/2008

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Di Versos – Poesia e Tradução.




Saiu já o n.º 12 da revista Di Versos – Poesia e Tradução. A revista é coordenada por Jorge Vilhena Mesquita e José Carlos Marques. Neste número poderão encontrar poemas de António José Borges, António Salvado, Avelino de Sousa, César Vallejo e Juan Ramón Jiménez (traduzidos por Nicolau Saião), Claudio Rodríguez e Ricardo Paseyro (traduzidos por António Salvado), Cláudio Willer, Cristino Cortes, Dante (traduzido por Avelino de Sousa), e. e. cummings e Seamus Heaney (traduzidos por João Tomaz Parreira), Giannis Ritsos e René Char (traduzidos por José Carlos Marques), João Miguel Henriques, J. T. Parreira, Nicolau Saião, Rafael Rocha Daud, Rui Tinoco e Tomas Tranströmer (traduzido por José Carlos Marques, Anna Olsson e Sérgio Lopes).

Pedidos pelo telefax 229759592 e/ou contacto@sempreempe.pt

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Madrugadas

Levanta-se na ponta da cidade
depois por ela corre
primeiro os becos, que visita
por cima, abrindo a luz
nos rectângulos das janelas
há uma viela
logo ali que volta a acordar
as cercas dos quintais
o guardam
O sol entre silêncios e espasmos
das portas que se abrem
inunda depois as avenidas
desde as frestas às grandes
varandas de cristal.

19/2/2008

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

El poeta es un fingidor


Todas las cartas de amor son
ridículas.

No serían cartas de amor si no fuesen
ridículas.

También escribi en mis tiempos cartas de amor,
como las demás,
ridículas.

Las cartas de amor, si hay amor,
tienen que ser
ridículas.

Pero, al final,
sólo las criaturas que nunca han escrito
cartas de amor
son las que son
ridículas.

(Álvaro de Campos)

domingo, fevereiro 10, 2008

Nº 1 da revista literária Abrelatas


Lançamento da Revista Abrelatas.

A edição número 01, contém textos dos seguintes autores: Adriano Esturilho, Ana Guimarães, Andrei Vasquez (México), Andréia Donadon Leal, Antonio Carlos Floriano, Beatriz Bajo, Benjamin Marchi, Candido Rolim, Carlos Emilio C Lima, Claudinei Damasceno Romão, Cláudio B Carlos, Eduardo Lacerda, Fabrício Marques, Fernando Aguiar, Geruza Zelnys,Giovana Bonifácio, J T Parreira (Portugal), James W Holloway, Jocelyn Pantoja (México), Joel Flores (México), Juan Fiorini, Karen Villeda (México), Leonardo Meimes,Luis Serguilha (Portugal), Mario Mariones, Me Morte, Nelson Marzullo Tangerini, Raimundo de Souza, Raul Koliev, Ricardo Araújo, Rogério Santos e Thiago Ponce de Moraes.

sábado, fevereiro 09, 2008

Aniversário


Quando fizer 61 envia-me
um postal roubado
num impulso adolescente

da mesma papelaria
que já não existe ninguém
dá por nada

um postal com música
frágil como todas as asas
de libélula

escrito com palavras
debruçadas para fora
a sairem das margens

manda-me um postal
com o teu cheiro
abrindo caminho entre as outras
cartas banais

um postal roubado às cores
dos lírios de um jardim nas dunas.

8-2-2008

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Poema 24

LE FEU QUI DORT, Mário Dionísio

24

Falar a uma pedra que nos olha sem nos ver
Tocar a pele de um vidro que sem saber deslumbra
apalpar a suave terra que do seu poder não sabe nada
Cantar uma ária d’amor num céu oco que a repete
sem a escutar nem comover-se

Procurar o sorriso terno da lâmina

Andar sempre andar sempre esperar
o que não nasce nem surge apenas do acaso
do calor que flutua pela casa na procela

Conhecer
o fundo sem fim dos velhos espelhos

(Trad.J.T.Parreira)

Paulo Freire, Poeta da Educação


Paulo Freire, Marx e Cristo, para ou-ver aqui, no Ovelha Perdida

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Sylvia Plath

Blockquote
Sylvia Plath, publicado aqui também.

Alta Velocidade

(Já em 1992( data da foto) tínhamos.)

CANÇÃO DA PARADA DO LUCAS

Parada do Lucas
-O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
minha alma incendiada
Pediria à Noite
Dois seios intactos.

Parada do Lucas.
-O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
Eu iria aos mangues
Dormir na escureza
Das águas defuntas.

Parada do Lucas.
-O trem não parou.

Nada aconteceu
Senão a lembrança
Do crime espantoso
Que o tempo engoliu.

(Manuel Bandeira)