sábado, novembro 03, 2007

A árvore de Mondrian




No dia em que a árvore de Piet Mondrian
ficou do tamanho vermelho
dos seus ramos
o vento
emaranhado nos ramos tranquilos
Mondrian nos mostrou
o interior do nada.

(At day when the Piet Mondrian’s tree
was of the red size of the branches
the wind
entangled in the calm branches
Mondrian shows to us
the interior of nothing.
)

In Literary Kicks and The Literature Network

sexta-feira, novembro 02, 2007

A 5ª frase ("venham mais cinco")

A Linha de Cabotagem (http://www.linhadecabotagem.blogspot.com) passou-me este desafio e a Helena Monteiro é credora de Arte e de Literatura:

As regras:
1.Pegue no livro mais próximo; 2.Abra na página 161 e procure a 5ª frase completa; 3.Transcreva-a na íntegra para o seu blogue; 4.Passe o desafio a mais cinco bloggers.

"Tal vez suponga el lector que ya es hora de que aparezca en el horizonte otra Montaña Deleitosa."

in "La Habitación Enorme", de e.e.cummings, pág.161, Espasa Galpe, 2004

Estava a trabalhar na tradução de um poema de cummings e tinha a meu lado este livro autobiográfico do poeta norte-americano.

www.romadevidro.blogspot.com
www.aluzdovoo.blogspot.com
reading-writing.myblog.it
www.ana-maria-costa.blogspot.com
www.atmo-sphera.blogspot.com

quinta-feira, novembro 01, 2007

Poema xiii


a máquina de escrever de e.e.cummings



platão disse

lhe: ele não podia
crer nisso(jesus

disse-lhe; também
não quis
crer)lao

tsé
certamente disse
lhe, e o general
(sim,

madame)
sherman;
e ainda
(acredite
ou

não) tu
disseste-lhe: eu disse
lhe; nós dissemos-lhe
(ele não acreditou, não

senhor) levou
com um bocado japonês
do antigo viaduto

da avenida
6ª; no topo da sua testa: para

ele crêr

Trad.J.T.Parreira

segunda-feira, outubro 29, 2007

Steinway & Sons




Três pernas do Steinway
elevam uma sinfonia
de pássaros nas veias

acima do soalho
esbeltas
pernas do Steinway

como a mulher
escutada lentamente
no seu vestido negro.


28-10-2007

sexta-feira, outubro 26, 2007

Charles Bukowski




CHARLES BUKOWSKI

O fundo da garrafa
de cerveja aumenta
o colapso das coisas

Desaparecem os olhos
no interior as mãos dizem
adeus desde o fundo

da garrafa nós veremos um
duro branco
corpo

segunda-feira, outubro 22, 2007

O Dono da Tabacaria


Foto de Luís Pavão



O Dono da Tabacaria vem à porta
para espreitar o mundo, seus olhos
procuraram no chão a rota incerta
à porta
como uma prestidigitação
surge e oculta-se
nos olhos de Pessoa
o seu universo reconstrói-se
em algum ponto infinito
pela janela do quarto
correm automóveis, transeuntes
velhos experientes
isoladamente sós cachorros
que fará quando o dia se apagar
nos vestígios do mundo nas janelas?

21/10/2007

quarta-feira, outubro 17, 2007

Expressionismo, uma profecia da bárbarie do Séc.XX


Nosferatu

«Quando Gregor Samsa acordou uma manhã, depois de um sonho agitado, achou-se transformado num gigantesco insecto.» ( para começar com um parágrafo definitivo de Kafka), foi o início de um pesadelo que representa uma alegoria. O escritor checo usou-a na novela A Metamorfose (1912) para explicar o absurdo da humanidade tão cheia de lógica, a dar os seus primeiros passos no idealismo do super-homem para as filosofias existenciais, mas que vê-se repentinamente transformada em qualquer coisa de mal, nos acontecimentos mundiais que a história europeia conhece desse tempo.

Nas primeiras duas décadas do Século XX, a angústia, a inquietude e a morbidez apoderaram-se da humanidade. E foi o Expressionismo Alemão que revelou esse estado de espírito, «profetizando» o mal que se iria abater sobre a Europa em particular e o Mundo de um modo geral.

Nas artes plásticas, como reacção à fase derradeira do Impressionismo (chamaram-lhe pós-Impressionismo), ergue-se na Alemanha uma ponte (Die Brucke) que liga aquele às novas correntes estéticas, mas que ao atingir o outro lado dessa ponte - o Expressionismo- corta quaisquer veleidades de um regresso. O novo movimento seria a arte do instinto, substituiria a impressão do momento causada de fora pelo sentimento nascido no interior, expressando-se patética, trágica e sombriamente, com uma técnica violenta.

A tela mais impressionante que antecipava esse período, pela angústia que demonstra, é, sem dúvida, O Grito (1906) do norueguês Edvard Munch. A violência profética do que haveria de ser o grito lancinante da Europa dos guetos e dos campos de concentração e extermínio nazis, dos bombardeamentos em massa, e - não o esqueçamos- dos Gulag estalinistas. Sobretudo, impossível de englobar em um só grito e de olvidar pela História, o trágico Holocausto, que aplicou a dizimação de milhões de judeus da Europa e explorou antes sua mão-de-obra escrava.

Mas, de um ponto de vista profético, o Expressionismo influenciou muito mais a poesia. Como sinal dessa identificação, havia sobretudo a crueza do verso, do verso militante que não procurava sustentar-se no lirismo, mas no descarnamento da realidade, uma poesia até ao osso.

Como nas obras de arte, o aspecto da deformação da realidade e a angústia existêncial do homem moderno estão patentes na poesia expressionista.

Poetas como Gottfried Benn, August Stramm, Georg Trakl, e uma poetisa Else Lasker-Schuler, para só citar os mais conhecidos, descreveram o caos de uma forma nua e crua, as palavras carregaram-se de angústia e no lugar das emoções expressaram as tensões e os tumultos da alma humana. Foram, de certa maneira, como alguém lhes chamou, «os poetas do grotesco».

Mas um dos poemas ardentemente radicais e proféticos, extravassando o desespero perante os indícios da realidade, que viria a chamar-se barbárie, veio de um poeta não tão notável quanto aqueles; Albert Ehrenstein -« Conservadas pelo frio, amontoam-se à volta do charco,\ Do lago do mundo dos mortos, \ As torres de cadáveres.». Nestes versos, o campo semântico remete para a guerra e prepara com a metáfora da mitografia da Barca de Caronte (o barco que transporta os mortos), o ambiente da catástrofe que seria a II Guerra Mundial e todo o horror dos campos de extermínio nazi. Este mesmo poeta descreveria, porventura sem nenhuma ligação ao quadro de Munch, o grito do Homem em versos como «Nós, os amordaçados, estamos envolvidos \ Por demónios, e brutalmente oprimidos», dum poema intitulado «Grito humano».

Todavia os grandes poetas desse movimento chamado Expressionismo, fariam associações mais grotescas da realidade com a metáfora, abrindo o tom lírico do verso à sensação selvagem, para que o verso sangrasse e provocasse até à dor.

Um excerto de um poema premonitório, «Berlim», pobre de metáforas, mas tão irónico como só Gottfried Been poderia escrever, é exemplar: «Quando arcos, pontes, erguidos,\ forem da estepe engolidos \ e o burgo areia escura \ e as casas desabitadas \ e as hordas e as armadas \ pisem nossa sepultura... \ hão-de as ruinas falar \ da grandeza do Ocidente ».

O futuro iria reservar à Europa uma reacção nova sobre a morte, a banalização da mesma. E assim o mesmo poeta, com uma morbidez irónica, anteciparia o que as SS e a Gestapo fariam perante a morte dos outros, ironizariam e comparariam seres humanos com piolhos. Um breve excerto do poema «Bela Infância» bastará: « A boca de uma rapariga que passara muito tempo no canavial estava tão roída.\ Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado \ Finalmente...\ encontrou-se um ninho de ratinhos. \ (...) \ Mas depressa tiveram também uma bela morte: \ Deitaram-nos todos à água. \ Ah, como os pequenos focinhos chiavam.»

O chamado «apocalipse alegre » da Europa de Strauss e Wagner, de Goethe e Heidegger, da primeira década, e da segunda e depois da terceira, foi vaticinado por outros poetas, como Georg Trakl, que não assistiu à «revelação» dos seus poemas sobre o desvario niilista do mundo, a hecatombe e a morte ( cometeria suicídio em 1914). «Vi-me num sonho de estrelas caindo,\ De preces chorosas num olhar ferido, \ De um sorriso que vinha ecoando - \ Mas não sabia entender-lhe o sentido. » Ou «Vi cidades pelo fogo consumidas \ E o cortejo de horrores pelo tempo fora, \ E muitos povos a pó ser reduzidos, \ Perder-se tudo nos fundos da memória » (do poema «Três sonhos»).

Tremendo entre estrelas e violinos, a nossa Europa das primeiras quatros décadas, foi-se afundando numa noite escura, que só o Julgamento de Nuremberga procurou, apenas com êxito judiciário, explicar.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Como é teu nome

Ó mulher incompleta, amiga
Gioconda, teu sorriso estrangeiro
riscado nos lábios
nos desloca para o centro
do teu universo

Tuas mãos cruzadas
fora de ti, iluminam
a noite

Ó rosto pálido da aurora
onde os teus olhos já estão longe
de repente e o silêncio
como é teu nome esconde
e não diz nada.



11/10/2007

quinta-feira, outubro 11, 2007

The Announcement of the 2007 Nobel Prize in Literature



DORIS LESSING(1919)

Aristóteles definiu a Poesia(contra a História) como a narrativa do que poderia acontecer. A Academia Sueca do Nobel privilegiou(?!), este ano, uma espécie de poética do Espaço, a ficção científica. Mas também coisas aqui debaixo:tensões inter-raciais, a violência contra as crianças, os movimentos feministas...

quarta-feira, outubro 10, 2007

Senhor Lázaro

Dying / Is an art, like everything else.
Sylvia Plath



Está sentado na porta ancestral
De onde seus olhos
Comem os sonhos de pobre

Não podem saltar
No mundo
As suas pernas

Os seus olhos
Cansados
Lêem o Livro de Job.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Um cigarro

No smoke without you, my fire.
Edwin Morgan


Não fumarei contigo
o meu pulmão.

Nem deixarei que parta
dos meus lábios
para a fadiga
interior, a morte.

Não há fogo sem ti,
obscura cinza.

Não fumarei contigo
o meu fogo,
que se esvairá
em fumo.

Não somarei as cinzas
ao meu corpo.

6/10/2007

quinta-feira, outubro 04, 2007

Jackson Pollock no soalho



Assim que o pintor se instalar
no branco de sua tela
o linóleo no soalho
para algum sonho
como um poeta na página
estéril e branca, com seus olhos
de profundidade
pisa somente no deserto.

quarta-feira, outubro 03, 2007

Museo del Prado



Os nossos olhos dão o alarme
seria útil ter no bolso
a quarta dimensão

para ouvir tudo o que dizem
através dos séculos
as estátuas e os quadros

as Meninas fechadas
por Velázquez, em vão
esperamos a forquilha

do vento
na carroça de feno
de Hieronymus

alheios a nós próprios
isso passa
reflectido nos espelhos

e enterramo-nos
no Museu até à sonolência
que desce às nossas pernas.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Escrita fonética? Alfabeto fonético?



Caldo brasileiro segundo Oswald

Entre indiferente e devoto
devoras a fala Mantiqueira
em pratos franceses.

Le pied de la lettre:

Sissou brrasileiro nulô
Como feijom tropeirrô:
Sissou preto como prreto
Sissou branco como brranco
Sissou branco como prreto.

E o porquinho, coitado,
Espedaça-se no caldo...

(André Merez)

quinta-feira, setembro 27, 2007

Babel



Em todas as palavras havia
somente uma língua
Peter Bruegel, o Velho, pintou
Babel
Construída entre palavras
e homens de braços armados
A confusão
que Bruegel não viu
na sua pirâmide inacabada
com um golpe de nuvens
Agora tinha o mundo inteiro uma linguagem.

25/9/2007

terça-feira, setembro 25, 2007

Ópera na Rua em Nova Iorque



A Grande Noite na Ópera

«Opera fans took seats in Times Square on Monday night to watch a live transmission as the Metropolitan Opera opened its season with “Lucia di Lammermoor.”»
in The New York Times

quinta-feira, setembro 20, 2007

Esquecimento

Um dia esquecerão o queixo
submerso na barba,
outro dia a distância
entre as lentes sujas
dos óculos e os olhos,
mais tarde
os olhos sem ninguém.
A seguir a um dia de sol
falarão do vento,
que já não arrasava os cabelos;
depois, que os poemas
devem estar por aí, desiguais
silenciados,
noutro dia
um perfume alheio
fará dúvidas se era esse.
Ao nome, num dia já distante,
começará a faltar um apelido,
nenhum morfema
tomará nosso lugar.

20/9/2007

quarta-feira, setembro 19, 2007

Desaparecido

Sempre que leio nos jornais:
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas, desprezasse, consciente e forte,
O porto do arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
-Livre o instinto, em vez de coagido.
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Eu, o feliz desapar'cido!

(Carlos Queiroz)

terça-feira, setembro 18, 2007

O Tempo que passou



3ªEdição, 1957

«OPINIÃO SOBRE «DESAPARECIDO», DE CARLOS QUEIROZ»

«Não se pode dizer deste livro o que é vulgar dizer-se, elogiosamente, de um primeiro livro, sobretudo de um jovem:- que é uma bela promessa.O livro de Carlos Queiroz não é uma promessa, porque é uma realização.(...)Pertence ao mais íntimo da probidade literária e artística o não se apresentar ao público sem ter plena consciência de que na obra apresentada está tudo quanto em nós haja de forte.»

Fernando Pessoa

# Amanhã, publica-se aqui o poema-chave deste livro: Desaparecido

sexta-feira, setembro 14, 2007

Edmond Jabès, poeta egípcio-judeu



Poema

Deixei uma terra que não era a minha
por outra à qual também não pertenço.
Refugiei-me num vocábulo de nanquim,
e tenho o livro como espaço;
palavra de lugar nenhum, obscura fala do
deserto.
Não me cobri durante a noite.
Nem mesmo tentei me proteger do sol.
Andei nu.
De onde eu vinha, não fazia mais sentido;
Aonde eu ia não incomodava ninguém.
Vento, digo-lhes, vento.
E um pouco de areia no vento.

(Tradução de C.M)

sábado, setembro 08, 2007

As raparigas da Calle d'Avignon




Tal como Picasso o fez, os olhos
maiores do que a cabeça, estendendo
os corpos primitivos,
as Demoiselles para o espectador,
eu vi isso com minha mulher
no verão de 1991,
em Nova Iorque suspensa
na humidade do calor,
animada e intacta numa sucessiva onda
de ar, a alma
das raparigas da Calle d’Avignon
a fundar-se a si mesma.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Alberto de Lacerda( 1928-2007)



Edição de 1963

Exílio

O exílio é isto e nada mais
Na sua forma mais perfeita:
Hoje na terra de meus pais
Sòmente a luz não é suspeita.

domingo, setembro 02, 2007

O Tempo que passou



Edição de 1970


Poema do Beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
-O que eu vejo é o beco.

(Manuel Bandeira)

quinta-feira, agosto 23, 2007

Movimento Literário


You send me your poems,
I’ll send you mine

Robert Creeley



Vamos trocar nossos poemas
Como quem troca os olhos

Com cumplicidades
Uma veloz palavra

Tenderá a sair do círculo
Deixará para trás

Ângulos obtusos e a tautologia
Das quatro paredes

Trocaremos nossos silêncios, ínfimos
Nadas com profundidades

Mandem vossos poemas
Em especial os que rimam

Contra a corrente
Mandarei os meus.

segunda-feira, agosto 20, 2007

A Bicicleta Verde

«They said, you have a blue guitar,
you do not play things as they are.»
Wallace Stevens

A menina curvou o olhar sobre a bicicleta,
Uma menina com imaginação, nos seus olhos
O verde pintou a Terra.
A menina aproveitou o vento
Que brandia as folhas e disse
-Vou pintar de verde a bicicleta,
Terei uma bicicleta verde
Para ser inteira com a natureza,
Se passar pelas folhas
Serei um vento mais
-Não será um raio azul, nem uma estrela
Amarela, nem sequer uma sombra vermelha,
Será um riso verde quando passar rolando.

18-8-2007

sábado, agosto 18, 2007

«On the Road», 1957




Edições portuguesa, de 1960, e ucraniana, 1995


Jack Kerouac disse um dia a propósito das várias edições estrangeiras da sua obra «On the Road»: «Quando for velho, sabem o que vou fazer? Vou estudar línguas para ler todas as traduções do meu «Pela Estrada Fora».
Mas Kerouac não chegou à velhice – morreu em 1969 com 47 anos. Mas as edições traduzidas , especialmente do seu romance ícone, continuam a multiplicar-se.
Quando da edição original do livro, em 1957,o «The New York Times » de 5 de Setembro desse ano, publicava um texto na secção «Os Livros do Times», cujo autor dizia de «On The Road», em síntese, o seguinte: « É a segunda novela de Jack Kerouac e a sua publicação é um histórico momento não distante da exposição de uma autêntica obra de arte.
Absorvente, intrigante, picaresca.
É uma obra que requer uma exegese, porque é uma grande ocasião para se entender este tempo (finais da década de 50) em que as atenções estão fragmentadas e as sensibilidades embotadas pelos superlativos da moda.»

quinta-feira, agosto 16, 2007

Paris, Janeiro 1994



Paris nessa noite tinha a luz
distribuída pelas gotas da chuva.

Sartre e Beauvoir não estavam lá.

No Café de Flore, três ou quatro
colheres de açúcar afogavam
o amargo do café. Beberam-no
primeiro os meus olhos
como um ritual, os lábios
depois, na minha língua
mais tarde escreveria
um poema previsível.

Outras vezes, Paris era um bocado
de ar azulado.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Um diálogo com o Narciso

Tens um rosto na memória
o teu rosto no fundo da água

Entorna os olhos
sobre o lago, como duas contas
de vidro

Como o poeta, eu Narciso
indago em mim mesmo
na transparência das águas

os versos e os dias
à flor da melancolia.

1-8-2007

sábado, agosto 04, 2007

Recomendações para o Exílio




Poema de Adam Zagajewski


Viajar sem equipagem, dormir no comboio,
num duro banco de madeira,
esquecer o país natal,
emergir de pequenas estações
à primeira luz do dia.

(Trad.J.T.Parreira)


Boas Férias!

quinta-feira, agosto 02, 2007

Oásis

do poeta sevilhano Manuel Machado(irmão de Antonio Machado)

Sonha o leão.
Junto às três palmeiras
amansa-se o sol. Existe
a água. E Deus deixa um momento
que os pobres camelos se ajoelhem...
Junto às três palmeiras,
o árabe, estendido, por fim, sorri
e suspira... Damasco
distante ainda o espera. Os confins
do horizonte acesos brilham.
Um silêncio terrível
enche o ar... Na areia
treme a sombra elástica de um tigre.

(Trad. J.T.Parreira)

segunda-feira, julho 30, 2007

domingo, julho 29, 2007

O Sorriso de Gioconda

O sorriso de Gioconda ornamenta
o museu, ninguém o moldará
de novo, o sorriso burocrático
de Gioconda é a porta
atrás da qual não há nada
alma? paisagens? o silêncio
um umbigo da alma
a sorrir para dentro.



terça-feira, julho 24, 2007

O Galo e Marc Chagall




O GALO

Un gallo
cantò; altri risposero qua e lá.
Umberto Saba


Um galo
cantou e outro respondeu
que está lá
no seu posto móvel
no vento
qualquer coisa negra
começa a desfazer-se
em claridade, a noite
repassa as outras latitudes
qualquer coisa começa
a restaurar-se nas janelas
as casas respondem
outros animais
retomam nos quintais
a domesticada vida
numa repetição sem tédio
nem deleite, um galo
avançou com a rotina
em todo o seu canto
que procede
do silêncio.

sexta-feira, julho 20, 2007

A Demolição


Gabriel Orozco, México, Instalação


Ruiu a casa velha para o fundo
para dentro de si própria
ontem era ainda
um retrato de azulejos
do passado, caiu
abaixo do silêncio
contra o qual a fachada
ao longo destes anos resistiu.
Silenciou as cortinas pobres
das vidraças, que mal se sustinham
já de pé. A sua sombra
jamais espalhará
toda a casa na calçada.

quarta-feira, julho 11, 2007

Gostaria de dizer

Gostaria de dizer
que nasci numa cidade pequena
na casa do largo principal

num universo
com paredes
ancestrais

Gostaria de dizer
que nasci numa casa de província
com o cheiro do fogo

a sair com o frio pelas janelas
mas não
e numa cidadezinha com um rio

como um espelho em frente
de cada porta, plano
e macio?

terça-feira, julho 10, 2007

SÍSIFO



Ilustração de Julio Saens


Antes que a montanha volte
a inclinar-se, se torne móvel
pelo rolar da rocha e o chão
repita a sua distância
do azul

Antes que teu rosto junto
à rocha, tão perto do magma
apagado do interior do nada,
olhe o píncaro
ao fundo do céu,
antes que esse céu imobilize
o voo dos pássaros

e encostes da pele
a intimidade
ao coração da pedra
sabe que há olhares enternecidos
que estão ainda à tua espera
e da estrela inacessível.

18-3-2007

quinta-feira, julho 05, 2007

Rua suja

A rua deixa adormecer o canto
dos seus heróis, aqui os sonhos
não se dão nos quartos, nem as rosas
respiram as gotas de água
num boquet


De dia turistas aumentam o medo
do olho atrás da lente
tudo se foca nesta rua
sufoca-se no verão
entre roupa acenando nos varais

Depois
que os moradores saem
para as rotinas
das pequenas colinas
de frente para o rio.

segunda-feira, julho 02, 2007

A tarefa do poeta

« Le poète a fini sa tâche »
Paul Verlaine




O poeta acabou a sua tarefa.
A época não foi de rosas
nem de sonetos que batem
como o coração das amadas
nem de salmos que são a língua
instrumental dos anjos.

A tarefa do poeta não é o desenho
de uma harpa no vento
de uma rosa no papel
irrespirável.

O poeta acabou o seu tempo.
Cansaço dos sonhos que irrigam
o cérebro, com as alegrias
alguns desencontros? o poeta
acolhe o fim com as mãos lentas
da tranquilidade.

O poeta pousou as armas.
Embora o dia continue a subir
na revolução ardente do sol
embora a poesia
continue a nascer, o poeta
cansado, pousou as palavras.

sábado, junho 30, 2007

Morte da Poeta da «Poesia Livre» em Árabe


NAZIK AL-MALAIKA

"Súplicas, salmos, ex-votos brindámos nessa hora
Pão, vinho e tâmaras da Babel embriagante
E de rosa o encanto
Logo aos teus olhos orando, oferenda imolámos
Da lágrima ardente em dilúvio as gotas juntámos –
Um rosário de pranto." – Cânticos à Dor, de Nazik Al-Malaika


Aos 84 anos, morreu Nazik Al-Malaika, uma das mais solitárias vozes poéticas iraquianas e do conjunto da literatura árabe. No Cairo, a 20 de Junho de 2007.
Desta poetisa, nascida em Bagdade em 1923, a poesia tomou o rumo dos caminhos da introspecção ontológica, levando o pessimismo poético quase ao limite de uma linguagem filosoficamente estóica, de suporte de uma dor intensa, mas também intensamente lírica.
Nazik era a poetisa da tragédia da vida. No entanto, quando publicou a sua primeira antologia há mais de 50 anos, ao utilizar o vocábulo "noite", tornou-o símbolo de poesia, imaginação, sonho, beleza das estrelas, do prodígio do luar sobre o bruxuleante Tigre.
Nazil Al-Malaika representou uma nova tendência como poeta, expressando-a, defendendo-a e auto-analisando-a firme e solitariamente, como pioneira, fosse na crítica literária, na arte poética ou mesmo na sua condição de Mulher, num mundo eminentemente masculino, de supremacia do género.
Por esta razão, podemos afirmar que a sua obra influenciou gerações de poetas. Outros poetas do Iraque, a maioria vivendo no exílio – diz-se que na década de 90 ficaram apenas cinco a residir no país – contudo escrevem uma poesia que caracterizou o estilo poético iraquiano, o qual é classificado desde o tradicional ao moderno, passando pelos limites do experimental, com temas que cobrem territórios comunicacionais como o amor, a guerra, as antigas sanções da ONU, o fascismo, a tortura, a prisão, o exílio, etc. E agora a orfandade da sua Poeta maior, Nazil Al-Malaika, que publicou a última obra em 1997 no Cairo, um conjunto de relatos em que fala do Sol abaixo do seu próprio apogeu. Uma premonição para o estado a que chegou a sua terra, outrora fértil e agora devastada.

sexta-feira, junho 22, 2007

Nocturno de Mim

Quando a noite chega e meus olhos
são uma sala vazia, quando a noite chega
e olho meus livros, os meus utensílios
com palavras na penumbra, é a hora da luz
iluminar com a sua água sobre a mesa
quando a noite chega
quando chega num cigarro abortado
antes da última cinza, quando a noite chega
e as janelas transparentes no escuro
quando chega a noite
estou cercado de perguntas, algumas
respondo, outras cingem-me os ombros
quando a noite chega sou como nuvens
que procuram casa sem parar seu rumo.

Setembro de 1998

quarta-feira, junho 20, 2007

A morte nunca foi uma coisa gloriosa

A morte nunca foi uma coisa gloriosa
quando a vi pela primeira vez

Mais tarde
vi-a de outro modo

Outras mortes cheias de olhos grandes
eram olhos desmedidos

como se abertos para
a beleza escondida.

domingo, junho 17, 2007

Arabescos do Vento



ARABESCOS DO VENTO

Eu gosto do que estás a tentar fazer-
isto é

algum esboço longe de
estar terminado, digo eu.

O salgueiro fica pálido
a cada toque

eu estou sentado a observar-te
tomas as folhas

como se teus dedos
andassem pelo chão.

17/6/2007

domingo, junho 10, 2007

Os Livros




Desarrumados da estante
esticam suas folhas
como pernas, os volumes
folheados tomam ar
respiram
entre sílabas as palavras
e os autores sacodem
a penumbra, tossem
os poetas novelos de poeira.
Desarrumado o verbo, vem à luz
e diz o quê? o inesperado.

8-6-2007

segunda-feira, junho 04, 2007

2 Haikus



A Serra da Estrela-
no inverno dorme cedo
sob alvo lençol.


Moinhos no céu.
Um Quixote vai partindo
uma a uma as nuvens.

(J.T.Parreira)

sábado, junho 02, 2007

As Ceifeiras de Pessoa e Wordsworth

Um século com as suas crises de romantismo, simbolismo e futurismo se entrepõe entre a romantizada ceifeira de William Wordsworth e a ceifeira modernista de Fernando Pessoa.
A primeira, vê-se sob a luz do bucolismo da viagem do poeta inglês à Escócia, em 1803; a segunda é vista na imaginação de Pessoa, a partir da urbanidade de Lisboa, datada antes de 19-1-1915.
Uma é toda realidade bucólica, a outra é argumento para o pensamento filosófico sobre o Ser; a «escocesa» é apenas uma ceifeira, a «portuguesa» é ícone para o mistério ontológico. Claro que a primeira é um retrato poético de um poeta romântico, a segunda é um poema de Pessoa, que -parafraseando o próprio- tem mais razões para escrever que a vida.

ONDE PESSOA FOI BUSCAR A SUA CEIFEIRA?

Nas várias obras que o poeta português exibia nas estantes da sua posteriormente chamada Biblioteca Fernandina, como nas incalculáveis e diversificadas leituras que foi fazendo enquanto duraram os seus óculos.
Nessa mistura de livros avultam as obras críticas e as obras de poesia do romantismo inglês.
A relação entre a obra poética heterónima e ortónima de Pessoa com os livros que leu, o que o poeta terá ou não assimilado, torna-se hoje impossível pelo lado do acesso a esses volumes. É sabido, nos meios pessoanos, que Pessoa «vendeu livros para aquisição de outros, ofereceu livros a amigos, perdeu alguns como resultado de mudanças de residência e arrumações apressadas.»
Há, no entanto, mais do que uma simples relação entre leituras, ou uma predisposição para estar simplesmente ao serviço das musas da inspiração sobre qualquer coisa como ceifeiras, salvo melhor opinião.
Entre os versos iniciais do poema pessoano (vd. Poesias, Ática, 1973, pág. 110 ) «Ela canta, pobre ceifeira, \ Julgando-se feliz talvez», e os 5º e 6º versos da primeira estrofe do poema de Wordsworth, «Sozinha ceifa no mundo \ E canta melancolia», não é apenas a mobilidade do tempo que transcorre, mas uma mistura de características que se presume unirem para identificar a actividade, a atitude e o estado psicológico da «mesma» ceifeira. Em ambos os poetas a personagem passa pelo mundo com idêntica melancolia e em ambos os retratos existe, no fundo, igual tendência para a filosofia.
De facto, tanto em Fernando Pessoa como no poeta romântico inglês, ambos os poemas se iniciam com o recurso a bucolismos, para partirem finalmente rumo à filosofia da tristeza, à análise do ser, ao estado de solidão, ao auto-convencimento de que se é «feliz talvez ». Em qualquer dos casos, sobe-se da beleza bucólica do campo para um patamar de suposto pessimismo quanto à vida.
Porém, este aspecto tendente à filosofia está mais presente no autor português. Nos versos da «Ceifeira», como em quase toda a sua poesia, a poética pessoana nunca foi, não é ainda e nem será jamais isolada da filosofia, tanto no fundo como na forma.
Assim é esta poesia que começa por uma exclamação admirativa, não tanto do cantar da ceifeira, mas de que pesando as circunstâncias «Ela canta, pobre ceifeira.»

quarta-feira, maio 30, 2007

Com uma gaiola vazia




Com uma gaiola vazia uma criança
olha para a linha
de um pássaro
a formar-se no horizonte

a sua forma
de ave vem à frente
um passo
do que a vista alcança

Uma porta aberta
na gaiola range
e o pássaro a contempla
a gaiola e os dois reflexos

da esperança
com que a criança olha
as linhas da ave
tiradas do horizonte.

sábado, maio 26, 2007

The small feet of Pavlova


The small feet of Pavlova
flow in space; leaping
through invisible clouds of air.
Fragile dawns never touching the soil.
Her small golden feet
suspended as fish in
an aquarium of wind.

(To Anna Pavlova)

sábado, maio 19, 2007

As bailarinas de Degas





Uma nuvem passa entre o chão
e os pés das bailarinas
como a nuvem
mudam de forma
e estão poucas vezes em terra
as mãos em pontas
nos braços também aparecem
como a inconstância do vento
as bailarinas de Degas
não precisam do nosso olho
- menos rápido, quase sempre
para as elevar do solo.

19-5-2007

quinta-feira, maio 17, 2007

Poema de Billy Collins



ANDAR ATRAVÉS DO ATLÂNTICO

Eu espero que a multidão das férias despeje a praia
antes de pisar na primeira onda.

Logo eu estou a caminhar através do Atlântico
a pensar na Espanha,
verificando as baleias, as trombas marítimas.
Eu sinto as águas a deslocarem o meu peso para cima.
Hoje à noite eu dormirei nesta superfície móvel.

Mas por agora eu tento imaginar o que
deve parecer aos peixes em baixo,
o fundo dos meus pés que aparecem, desaparecem.

(Tradução de J.T.Parreira)

quarta-feira, maio 16, 2007

Os pastores da Arcádia



Permanecem para lá da pele
da ovelha, permanecem pelo olhar
suave dos cordeiros, em frente
de uma estrada que arrasta
o olhar medroso do rebanho
na civilização das máquinas
Os pastores permanecem, embora à noite
lhes pese nos olhos a ovelha
perdida e ainda tenham,
contra o flanco das cabras,
que retirar o leite.

quinta-feira, maio 10, 2007

Chamo-os

(Uma conversação sobre Hebreus 11, 4, ss )

Os ombros de Abel, de longe
voltam-se para mim
e um cordeiro emana
como nuvem de lã
E Enoque, que saía do chão, volúvel
transparente
para a alegria celeste
Estava Noé no silêncio
da sua janela, no meio de escura água
e olhava para cima, movido
pelas fontes do céu
E Abraão, quando chamado
viu ao longe, desafiou os olhos
para a luz suave das estrelas
Em algum sótão do sono
Jacob necessitava de um pouco
de sonho
E pelas pegadas do gado Moisés,
pelo deserto, regressa
até mim.
Chamo-os, enquanto
Raabe do corpo
desenlaça
um fio escarlate.

quarta-feira, maio 02, 2007

Vilegiatura


Atravessamos braços, pernas
fotográficas, bustos
erguidos ao fogo da beleza
passamos por cima de castelos
de areia, e o ar
não suporta nosso corpo
caímos no mar
Olhamos para o chão, como
se fosse um espaço proíbido.

domingo, abril 29, 2007

Charles Reznikoff, traduzido

Magritte, La Victoire

POEMA

Não por causa das vitórias
eu canto,
não tendo nenhumas,
mas pelo comum brilho do sol,
a brisa,
a dádiva da primavera.

Não pela vitória
mas pelo trabalho do dia feito
assim como eu podia;
não pelo assento na tribuna
mas na mesa comum.

(Tradução J.T.Parreira)

sábado, abril 28, 2007

Tudo o que vier depois

Tudo o que vier depois
do fogo, será a matéria
da cinza,

o que vier depois da tempestade,
um lugar
qualquer para refazer os vasos
e moldar o barro,

um silêncio frágil
espalhado pelos dedos.

Tudo o que vier depois
da voz, o eco de um nome
de um amor inesperados

O que vier depois da casa
em ruínas, as formas
do silêncio inabitado

Tudo o que vier depois
da altura, o que vier despido
já da luz e de poesia,

os pássaros difíceis, a chuva
que arde nos olhos, a terra
que na neve tem o toque da ternura.

23-4-2007

sexta-feira, abril 27, 2007

Edith Piaf: Rien

Edith Piaf Non,je ne regrette rien 12-1960


Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
C’est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé
Avec mes souvenirs
J’ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n’ai plus besoin d’eux
Balayé les amours
Avec leurs trémolos
Balayé pour toujours
Je repars à zéro
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien, qu’on m’a fait,
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd’hui,
Ça commence avec toi

sábado, abril 21, 2007

O intérprete


O intérprete dos barcos
mete o convés no bojo
de uma elipse
traça a proa num golpe
como corta a água
um barco
se levanta à superfície
dos olhos e sorri a ria
como num espelho os lábios
sorriem ao rosto debruçado.
(Para o pintor Jaime Isidoro)

terça-feira, abril 17, 2007

Despedida

O poeta Joanyr de Oliveira, à esquerda, em 1998

Como Antigona quis
empedrar-me aqui
longe de palavras, de certas
arestas de pedra nas palavras
que vêm de algumas bocas
perturbar nosso canto

Fatigado de mim mesmo
gasto ainda meus olhos
na claridade das metáforas
e cativo fragmentos
de uma rosa desferida
pelo vento
apanhador do voo
das borboletas.

(Para o meu amigo Joanyr de Oliveira)

quinta-feira, abril 12, 2007

Um mendigo

musching a plum on
the street a paper bag
(mascando ameixas pela
rua num saco de papel)
William Carlos Williams

Tira as rugas ao papel
de uma das pernas
das calças, põe
o saco ao ombro
- já andou
por melhores mãos
agora
recolhe meio
comidos restos

O casaco cuja lã é leve
no nono ano cheio
de destinos e
caminhos
retirou há muito
uma das mangas, tem
menos um braço
para abraçar a solidão

Um sapato
vai descalçando
um pé.

quarta-feira, abril 11, 2007

O Tempo que passou

1ª edição, de 1971

BlockquoteAs naus estão agora ajustando as amarras/ Ao cais: oscilam ante a partida. / (...) / As mães vieram abafar o estrondo das naus.



domingo, abril 01, 2007

Regressos

Os teus ruídos
chegaram a casa

a casa encheu
de luz
as janelas

abriram-se cortinas

voaram
no vento

quando
voltaste
a sair

os teus ruídos.

2006

quarta-feira, março 28, 2007

O Visual na Poesia (Juan Manuel Roca)*

“Lo visual en la poesía, valga decirlo, no tiene únicamente que ver con la disposición tipográfica, aunque fuera tan esencial en los poemas de un gran visionario y vísionador del cubismo, Guillaume Apollínaire y sus Caligramas, sino, más allá de la piel, de la epidermis del lenguaje, en la capacidad evocadora”. Por eso, sostiene, “podemos comparar la mar con una carpintería, porque la garlopa arroja cantidades de viruta a las playas del mundo”, pues la metáfora, “que en griego quiere decir traslado, transporte, llevar de un lado a otro, de una realidad a otra, da a luz nuevas realidades”. Y entonces nos revela cómo, luego de una semana de noches de tormento e insomnia, creó las metáforas o kenningars que cambiaron el discurrir de la poesía en español y que tanto han imitado, sin superarlas, los poetas que le siguen:

El brazo del río jamás esgrime espada.
Los dientes de ajo no comen duraznos.
El ojo de agua desconoce el monóculo.
El cuello de botella no porta collares.
La oreja del pocillo no escucha a Beethoven.
Las manecillas del reloj no usan guantes en invierno.
Los durmientes del ferrocarril no se despiertan a su paso.
Las palmas de las manos no dan dátiles.
La luna de miel no atrae a las moscas.
Las cabezas de los fósforos no tienen aureola, aunque alumbren como santos."
* Poeta columbiano, in revista Arquitrave

domingo, março 25, 2007

Antígona



Antígona
é contra
a cidade
que não faz
sepulturas.
Uma para
Polinices
Outra
vez morto
quando o olham
as aves de rapina.
Antígona casa-se
com a morte,
Sófocles
pendura Antígona
no laço
da bela morte.
24-3-2007

Toreador Song

Gino Bechi, na ópera Carmen
http://www.youtube.com/watch?v=BsNkVduTKO8

sexta-feira, março 23, 2007

Quarto com vista para a Tabacaria

Não há nada
a fazer, com a janela
vêm vidros de gelo
e o fundo da noite.

Nunca será nada
mais do que uma janela
mesmo com a luz dentro de si.

Não pode querer ser nada.

Outra coisa à parte, tem em si mesma
olhos para os sonhos do mundo.

Quarto com vista para a tabacaria
para o mistério
da liberdade do vento
que sopra forte mas acomoda-se
contra as pedras.

Há milhões destes quartos
no mundo com paredes presas
por baixo de quadros, com humidade
nas paisagens e nas naturezas-mortas.

quarta-feira, março 21, 2007

Dia Mundial da (anti-)Poesia

CONVERSA ÀS 3:30 DA MANHÃ

Às 3:30 da manhã
a porta abre-se para uns pés
no corredor arrastando um corpo
soa um toque
descansas a tua cerveja
e vais responder.

Caramba! Diz ela,
você nunca tem sono?

E vai entrando com papelotes
nos cabelos
ela mesma é uma veste de seda
coberta com pássaros e coelhos

Ela trouxe a sua própria garrafa
a que juntas com magnificência
2 copos;
o marido, diz ela, está na Florida
a irmã envia-lhe dinheiro e vestidos
e ela tem procurado um emprego
há 32 dias.

Tu contas-lhe
que és corrector de apostas e um
compositor de jazz e de canções de amor,
e depois de alguns copos
ela não se incomoda com cobrir
as pernas
com a orla do roupão sempre a afastar-se.

Não são nada mal feitas, suas pernas
de facto, são perfeitas
e em breve tu estás a beijar uma
cabeça cheia de pedaços de papel.

E os coelhos estão a começar
a piscar, e a Florida é uma longa
ausência, diz ela nós não somos estranhos
até porque me tem visto no corredor.

E finalmente
há muito pouco
para dizer.

(Charles Bukowski)

Tradução de J.T.Parreira

segunda-feira, março 19, 2007

Talvez depois desta imagem, não haja mais Poesia


La imagen de ese buitre acechando a una niña moribunda en África le persiguió en vida. Con ella atrapó el Pulitzer, pero también la maldición de una pregunta: “¿Qué hiciste para ayudarla?”. A Kevin Carter, cronista gráfico de la Suráfrica del 'apartheid', la presión le empujó al suicidio. Un periodista testigo de aquellos años rememora su figura.
Créditos: El Pais, de hoje, Dia do Pai.

sexta-feira, março 16, 2007

Se tudo volta a começar

Quiero decirlo ahora
porque si no después las cosas se complican.

Soy peor todavía de lo que muchos creen.

Me gusta justamente el plato que otro come
aburro una tras otra mis camisas
me encantan los entierros y odio los recitales
duermo como una bestia
deseo que los muebles estén más de mil años en el mismo lugar
y aunque a escondidas uso tu cepillo de dientes
no quiero que te peines con mi peine.

Te explico estas cuestiones
porque si todo vuelve a comenzar
no me hagas mucho caso acuérdate.

terça-feira, março 13, 2007

Buffalo 66


A ÚLTIMA NOITE

Nenhum amor é mais
Cortante do que
Este

Às 2:30 da manhã
Layla sai do nada

À porta do quarto
Do hotel, uma
Lágrima irrompe
Dentro dos olhos

Fechada à chave
A porta
Alguém sentado
Na cama do quarto
Da noite passando

Um sorriso
Por baixo
Da tristeza
Dos lábios.
12-3-2007

segunda-feira, março 12, 2007

Manuel Machado

VERANO

Frutales
cargados.
Dorados
trigales...

Cristales
ahumados.
Quemados
jarales...

Umbría
sequía,
solano...

Paleta
completa:
verano.

quinta-feira, março 08, 2007

Pavlova


Os pezinhos de Pavlova
crescem no espaço, saltam sobre invisíveis
nuvens de ar, frágeis auroras
quase nunca pousam
no chão o seu voo de ave diminuta
os pezinhos dourados
de Pavlova, como peixes amarelos
num aquário de vento, parece
que procuram
a saída inexistente.

terça-feira, março 06, 2007

Poema.

Poema

Lana Turner veio abaixo!
Eu vagueava pelo quarteirão e de repente
soltaram-se a chuva e a neve
e tu disseste que era granizo
mas o granizo bate na cabeça
com dureza, de modo que nevava e
chovia e eu estava com essa pressa
de me encontrar contigo mas o tráfego
representava rigorosamente como o céu
e subitamente vi um título
LANA TURNER VEIO ABAIXO!
Não há neve nenhuma em Hollywood
nem chuva na Califórnia
tenho estado em muitas festas
e agi como um acabado indecoroso
mas na realidade nunca desmaiei
oh Lana Turner nós amamo-la levante-se
(1962)

Frank O'Hara, Baltimore, 1926-1966

(Tradução de J.T.Parreira)

segunda-feira, março 05, 2007

Frank O'Hara, o poema...

Poem

Lana Turner has collapsed!
I was trotting along and suddenly
it started raining and snowing
and you said it was hailing
but hailing hits you on the head
hard so it was really snowing and
raining and I was in such a hurry
to meet you but the traffic
was acting exactly like the sky
and suddenly I see a headline
LANA TURNER HAS COLLAPSED!
there is no snow in Hollywood
there is no rain in California
I have been to lots of parties
and acted perfectly disgraceful
but I never actually collapsed
oh Lana Turner we love you get up


A versão com dicção coloquial brasileira:

Lana Turner desmaiou!
Eu tava apressado pela rua e de repente
começou a chover e a nevar
e você falou que era granizo
mas cara granizo bate com força
na cabeça era neve mesmo
e chuva e eu morrendo de pressa
pra te encontrar mas o trânsito
tava naqueles dias como o céu
e de repente vejo a notícia
LANA TURNER DESMAIOU!
Não tá nevando em Hollywood
Não tá chovendo na Califórnia
Já fui num monte de festas
e dei perfeitos vexames
mas nunca desmaiei de fato
Lana Turner te amamos levanta mulher

(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes)

Amanhã a outra versão.

Frank O'Hara, amanhã, se calhar

Um poema em duas versões, a original e outra, em português. Se calhar, amanhã.

sexta-feira, março 02, 2007

El maestro

Él tose
como el ruido último que lo liga al mundo
él mira el silencio, espera
de una fuente la música cristalina de la agua
No vemos, pero él piensa
en cada uno de los instrumentos musicales
Y alarga los brazos, después los ojos y los oídos
que siguen las manos del tamaño de la mano Infinita.

Publicado em Predicado-Comunidad de nuevos escritores