quinta-feira, setembro 27, 2007

Babel



Em todas as palavras havia
somente uma língua
Peter Bruegel, o Velho, pintou
Babel
Construída entre palavras
e homens de braços armados
A confusão
que Bruegel não viu
na sua pirâmide inacabada
com um golpe de nuvens
Agora tinha o mundo inteiro uma linguagem.

25/9/2007

terça-feira, setembro 25, 2007

Ópera na Rua em Nova Iorque



A Grande Noite na Ópera

«Opera fans took seats in Times Square on Monday night to watch a live transmission as the Metropolitan Opera opened its season with “Lucia di Lammermoor.”»
in The New York Times

quinta-feira, setembro 20, 2007

Esquecimento

Um dia esquecerão o queixo
submerso na barba,
outro dia a distância
entre as lentes sujas
dos óculos e os olhos,
mais tarde
os olhos sem ninguém.
A seguir a um dia de sol
falarão do vento,
que já não arrasava os cabelos;
depois, que os poemas
devem estar por aí, desiguais
silenciados,
noutro dia
um perfume alheio
fará dúvidas se era esse.
Ao nome, num dia já distante,
começará a faltar um apelido,
nenhum morfema
tomará nosso lugar.

20/9/2007

quarta-feira, setembro 19, 2007

Desaparecido

Sempre que leio nos jornais:
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas, desprezasse, consciente e forte,
O porto do arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
-Livre o instinto, em vez de coagido.
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Eu, o feliz desapar'cido!

(Carlos Queiroz)

terça-feira, setembro 18, 2007

O Tempo que passou



3ªEdição, 1957

«OPINIÃO SOBRE «DESAPARECIDO», DE CARLOS QUEIROZ»

«Não se pode dizer deste livro o que é vulgar dizer-se, elogiosamente, de um primeiro livro, sobretudo de um jovem:- que é uma bela promessa.O livro de Carlos Queiroz não é uma promessa, porque é uma realização.(...)Pertence ao mais íntimo da probidade literária e artística o não se apresentar ao público sem ter plena consciência de que na obra apresentada está tudo quanto em nós haja de forte.»

Fernando Pessoa

# Amanhã, publica-se aqui o poema-chave deste livro: Desaparecido

sexta-feira, setembro 14, 2007

Edmond Jabès, poeta egípcio-judeu



Poema

Deixei uma terra que não era a minha
por outra à qual também não pertenço.
Refugiei-me num vocábulo de nanquim,
e tenho o livro como espaço;
palavra de lugar nenhum, obscura fala do
deserto.
Não me cobri durante a noite.
Nem mesmo tentei me proteger do sol.
Andei nu.
De onde eu vinha, não fazia mais sentido;
Aonde eu ia não incomodava ninguém.
Vento, digo-lhes, vento.
E um pouco de areia no vento.

(Tradução de C.M)

sábado, setembro 08, 2007

As raparigas da Calle d'Avignon




Tal como Picasso o fez, os olhos
maiores do que a cabeça, estendendo
os corpos primitivos,
as Demoiselles para o espectador,
eu vi isso com minha mulher
no verão de 1991,
em Nova Iorque suspensa
na humidade do calor,
animada e intacta numa sucessiva onda
de ar, a alma
das raparigas da Calle d’Avignon
a fundar-se a si mesma.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Alberto de Lacerda( 1928-2007)



Edição de 1963

Exílio

O exílio é isto e nada mais
Na sua forma mais perfeita:
Hoje na terra de meus pais
Sòmente a luz não é suspeita.

domingo, setembro 02, 2007

O Tempo que passou



Edição de 1970


Poema do Beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
-O que eu vejo é o beco.

(Manuel Bandeira)

quinta-feira, agosto 23, 2007

Movimento Literário


You send me your poems,
I’ll send you mine

Robert Creeley



Vamos trocar nossos poemas
Como quem troca os olhos

Com cumplicidades
Uma veloz palavra

Tenderá a sair do círculo
Deixará para trás

Ângulos obtusos e a tautologia
Das quatro paredes

Trocaremos nossos silêncios, ínfimos
Nadas com profundidades

Mandem vossos poemas
Em especial os que rimam

Contra a corrente
Mandarei os meus.

segunda-feira, agosto 20, 2007

A Bicicleta Verde

«They said, you have a blue guitar,
you do not play things as they are.»
Wallace Stevens

A menina curvou o olhar sobre a bicicleta,
Uma menina com imaginação, nos seus olhos
O verde pintou a Terra.
A menina aproveitou o vento
Que brandia as folhas e disse
-Vou pintar de verde a bicicleta,
Terei uma bicicleta verde
Para ser inteira com a natureza,
Se passar pelas folhas
Serei um vento mais
-Não será um raio azul, nem uma estrela
Amarela, nem sequer uma sombra vermelha,
Será um riso verde quando passar rolando.

18-8-2007

sábado, agosto 18, 2007

«On the Road», 1957




Edições portuguesa, de 1960, e ucraniana, 1995


Jack Kerouac disse um dia a propósito das várias edições estrangeiras da sua obra «On the Road»: «Quando for velho, sabem o que vou fazer? Vou estudar línguas para ler todas as traduções do meu «Pela Estrada Fora».
Mas Kerouac não chegou à velhice – morreu em 1969 com 47 anos. Mas as edições traduzidas , especialmente do seu romance ícone, continuam a multiplicar-se.
Quando da edição original do livro, em 1957,o «The New York Times » de 5 de Setembro desse ano, publicava um texto na secção «Os Livros do Times», cujo autor dizia de «On The Road», em síntese, o seguinte: « É a segunda novela de Jack Kerouac e a sua publicação é um histórico momento não distante da exposição de uma autêntica obra de arte.
Absorvente, intrigante, picaresca.
É uma obra que requer uma exegese, porque é uma grande ocasião para se entender este tempo (finais da década de 50) em que as atenções estão fragmentadas e as sensibilidades embotadas pelos superlativos da moda.»

quinta-feira, agosto 16, 2007

Paris, Janeiro 1994



Paris nessa noite tinha a luz
distribuída pelas gotas da chuva.

Sartre e Beauvoir não estavam lá.

No Café de Flore, três ou quatro
colheres de açúcar afogavam
o amargo do café. Beberam-no
primeiro os meus olhos
como um ritual, os lábios
depois, na minha língua
mais tarde escreveria
um poema previsível.

Outras vezes, Paris era um bocado
de ar azulado.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Um diálogo com o Narciso

Tens um rosto na memória
o teu rosto no fundo da água

Entorna os olhos
sobre o lago, como duas contas
de vidro

Como o poeta, eu Narciso
indago em mim mesmo
na transparência das águas

os versos e os dias
à flor da melancolia.

1-8-2007

sábado, agosto 04, 2007

Recomendações para o Exílio




Poema de Adam Zagajewski


Viajar sem equipagem, dormir no comboio,
num duro banco de madeira,
esquecer o país natal,
emergir de pequenas estações
à primeira luz do dia.

(Trad.J.T.Parreira)


Boas Férias!

quinta-feira, agosto 02, 2007

Oásis

do poeta sevilhano Manuel Machado(irmão de Antonio Machado)

Sonha o leão.
Junto às três palmeiras
amansa-se o sol. Existe
a água. E Deus deixa um momento
que os pobres camelos se ajoelhem...
Junto às três palmeiras,
o árabe, estendido, por fim, sorri
e suspira... Damasco
distante ainda o espera. Os confins
do horizonte acesos brilham.
Um silêncio terrível
enche o ar... Na areia
treme a sombra elástica de um tigre.

(Trad. J.T.Parreira)

segunda-feira, julho 30, 2007

domingo, julho 29, 2007

O Sorriso de Gioconda

O sorriso de Gioconda ornamenta
o museu, ninguém o moldará
de novo, o sorriso burocrático
de Gioconda é a porta
atrás da qual não há nada
alma? paisagens? o silêncio
um umbigo da alma
a sorrir para dentro.



terça-feira, julho 24, 2007

O Galo e Marc Chagall




O GALO

Un gallo
cantò; altri risposero qua e lá.
Umberto Saba


Um galo
cantou e outro respondeu
que está lá
no seu posto móvel
no vento
qualquer coisa negra
começa a desfazer-se
em claridade, a noite
repassa as outras latitudes
qualquer coisa começa
a restaurar-se nas janelas
as casas respondem
outros animais
retomam nos quintais
a domesticada vida
numa repetição sem tédio
nem deleite, um galo
avançou com a rotina
em todo o seu canto
que procede
do silêncio.

sexta-feira, julho 20, 2007

A Demolição


Gabriel Orozco, México, Instalação


Ruiu a casa velha para o fundo
para dentro de si própria
ontem era ainda
um retrato de azulejos
do passado, caiu
abaixo do silêncio
contra o qual a fachada
ao longo destes anos resistiu.
Silenciou as cortinas pobres
das vidraças, que mal se sustinham
já de pé. A sua sombra
jamais espalhará
toda a casa na calçada.

quarta-feira, julho 11, 2007

Gostaria de dizer

Gostaria de dizer
que nasci numa cidade pequena
na casa do largo principal

num universo
com paredes
ancestrais

Gostaria de dizer
que nasci numa casa de província
com o cheiro do fogo

a sair com o frio pelas janelas
mas não
e numa cidadezinha com um rio

como um espelho em frente
de cada porta, plano
e macio?

terça-feira, julho 10, 2007

SÍSIFO



Ilustração de Julio Saens


Antes que a montanha volte
a inclinar-se, se torne móvel
pelo rolar da rocha e o chão
repita a sua distância
do azul

Antes que teu rosto junto
à rocha, tão perto do magma
apagado do interior do nada,
olhe o píncaro
ao fundo do céu,
antes que esse céu imobilize
o voo dos pássaros

e encostes da pele
a intimidade
ao coração da pedra
sabe que há olhares enternecidos
que estão ainda à tua espera
e da estrela inacessível.

18-3-2007

quinta-feira, julho 05, 2007

Rua suja

A rua deixa adormecer o canto
dos seus heróis, aqui os sonhos
não se dão nos quartos, nem as rosas
respiram as gotas de água
num boquet


De dia turistas aumentam o medo
do olho atrás da lente
tudo se foca nesta rua
sufoca-se no verão
entre roupa acenando nos varais

Depois
que os moradores saem
para as rotinas
das pequenas colinas
de frente para o rio.

segunda-feira, julho 02, 2007

A tarefa do poeta

« Le poète a fini sa tâche »
Paul Verlaine




O poeta acabou a sua tarefa.
A época não foi de rosas
nem de sonetos que batem
como o coração das amadas
nem de salmos que são a língua
instrumental dos anjos.

A tarefa do poeta não é o desenho
de uma harpa no vento
de uma rosa no papel
irrespirável.

O poeta acabou o seu tempo.
Cansaço dos sonhos que irrigam
o cérebro, com as alegrias
alguns desencontros? o poeta
acolhe o fim com as mãos lentas
da tranquilidade.

O poeta pousou as armas.
Embora o dia continue a subir
na revolução ardente do sol
embora a poesia
continue a nascer, o poeta
cansado, pousou as palavras.

sábado, junho 30, 2007

Morte da Poeta da «Poesia Livre» em Árabe


NAZIK AL-MALAIKA

"Súplicas, salmos, ex-votos brindámos nessa hora
Pão, vinho e tâmaras da Babel embriagante
E de rosa o encanto
Logo aos teus olhos orando, oferenda imolámos
Da lágrima ardente em dilúvio as gotas juntámos –
Um rosário de pranto." – Cânticos à Dor, de Nazik Al-Malaika


Aos 84 anos, morreu Nazik Al-Malaika, uma das mais solitárias vozes poéticas iraquianas e do conjunto da literatura árabe. No Cairo, a 20 de Junho de 2007.
Desta poetisa, nascida em Bagdade em 1923, a poesia tomou o rumo dos caminhos da introspecção ontológica, levando o pessimismo poético quase ao limite de uma linguagem filosoficamente estóica, de suporte de uma dor intensa, mas também intensamente lírica.
Nazik era a poetisa da tragédia da vida. No entanto, quando publicou a sua primeira antologia há mais de 50 anos, ao utilizar o vocábulo "noite", tornou-o símbolo de poesia, imaginação, sonho, beleza das estrelas, do prodígio do luar sobre o bruxuleante Tigre.
Nazil Al-Malaika representou uma nova tendência como poeta, expressando-a, defendendo-a e auto-analisando-a firme e solitariamente, como pioneira, fosse na crítica literária, na arte poética ou mesmo na sua condição de Mulher, num mundo eminentemente masculino, de supremacia do género.
Por esta razão, podemos afirmar que a sua obra influenciou gerações de poetas. Outros poetas do Iraque, a maioria vivendo no exílio – diz-se que na década de 90 ficaram apenas cinco a residir no país – contudo escrevem uma poesia que caracterizou o estilo poético iraquiano, o qual é classificado desde o tradicional ao moderno, passando pelos limites do experimental, com temas que cobrem territórios comunicacionais como o amor, a guerra, as antigas sanções da ONU, o fascismo, a tortura, a prisão, o exílio, etc. E agora a orfandade da sua Poeta maior, Nazil Al-Malaika, que publicou a última obra em 1997 no Cairo, um conjunto de relatos em que fala do Sol abaixo do seu próprio apogeu. Uma premonição para o estado a que chegou a sua terra, outrora fértil e agora devastada.

sexta-feira, junho 22, 2007

Nocturno de Mim

Quando a noite chega e meus olhos
são uma sala vazia, quando a noite chega
e olho meus livros, os meus utensílios
com palavras na penumbra, é a hora da luz
iluminar com a sua água sobre a mesa
quando a noite chega
quando chega num cigarro abortado
antes da última cinza, quando a noite chega
e as janelas transparentes no escuro
quando chega a noite
estou cercado de perguntas, algumas
respondo, outras cingem-me os ombros
quando a noite chega sou como nuvens
que procuram casa sem parar seu rumo.

Setembro de 1998

quarta-feira, junho 20, 2007

A morte nunca foi uma coisa gloriosa

A morte nunca foi uma coisa gloriosa
quando a vi pela primeira vez

Mais tarde
vi-a de outro modo

Outras mortes cheias de olhos grandes
eram olhos desmedidos

como se abertos para
a beleza escondida.

domingo, junho 17, 2007

Arabescos do Vento



ARABESCOS DO VENTO

Eu gosto do que estás a tentar fazer-
isto é

algum esboço longe de
estar terminado, digo eu.

O salgueiro fica pálido
a cada toque

eu estou sentado a observar-te
tomas as folhas

como se teus dedos
andassem pelo chão.

17/6/2007

domingo, junho 10, 2007

Os Livros




Desarrumados da estante
esticam suas folhas
como pernas, os volumes
folheados tomam ar
respiram
entre sílabas as palavras
e os autores sacodem
a penumbra, tossem
os poetas novelos de poeira.
Desarrumado o verbo, vem à luz
e diz o quê? o inesperado.

8-6-2007

segunda-feira, junho 04, 2007

2 Haikus



A Serra da Estrela-
no inverno dorme cedo
sob alvo lençol.


Moinhos no céu.
Um Quixote vai partindo
uma a uma as nuvens.

(J.T.Parreira)

sábado, junho 02, 2007

As Ceifeiras de Pessoa e Wordsworth

Um século com as suas crises de romantismo, simbolismo e futurismo se entrepõe entre a romantizada ceifeira de William Wordsworth e a ceifeira modernista de Fernando Pessoa.
A primeira, vê-se sob a luz do bucolismo da viagem do poeta inglês à Escócia, em 1803; a segunda é vista na imaginação de Pessoa, a partir da urbanidade de Lisboa, datada antes de 19-1-1915.
Uma é toda realidade bucólica, a outra é argumento para o pensamento filosófico sobre o Ser; a «escocesa» é apenas uma ceifeira, a «portuguesa» é ícone para o mistério ontológico. Claro que a primeira é um retrato poético de um poeta romântico, a segunda é um poema de Pessoa, que -parafraseando o próprio- tem mais razões para escrever que a vida.

ONDE PESSOA FOI BUSCAR A SUA CEIFEIRA?

Nas várias obras que o poeta português exibia nas estantes da sua posteriormente chamada Biblioteca Fernandina, como nas incalculáveis e diversificadas leituras que foi fazendo enquanto duraram os seus óculos.
Nessa mistura de livros avultam as obras críticas e as obras de poesia do romantismo inglês.
A relação entre a obra poética heterónima e ortónima de Pessoa com os livros que leu, o que o poeta terá ou não assimilado, torna-se hoje impossível pelo lado do acesso a esses volumes. É sabido, nos meios pessoanos, que Pessoa «vendeu livros para aquisição de outros, ofereceu livros a amigos, perdeu alguns como resultado de mudanças de residência e arrumações apressadas.»
Há, no entanto, mais do que uma simples relação entre leituras, ou uma predisposição para estar simplesmente ao serviço das musas da inspiração sobre qualquer coisa como ceifeiras, salvo melhor opinião.
Entre os versos iniciais do poema pessoano (vd. Poesias, Ática, 1973, pág. 110 ) «Ela canta, pobre ceifeira, \ Julgando-se feliz talvez», e os 5º e 6º versos da primeira estrofe do poema de Wordsworth, «Sozinha ceifa no mundo \ E canta melancolia», não é apenas a mobilidade do tempo que transcorre, mas uma mistura de características que se presume unirem para identificar a actividade, a atitude e o estado psicológico da «mesma» ceifeira. Em ambos os poetas a personagem passa pelo mundo com idêntica melancolia e em ambos os retratos existe, no fundo, igual tendência para a filosofia.
De facto, tanto em Fernando Pessoa como no poeta romântico inglês, ambos os poemas se iniciam com o recurso a bucolismos, para partirem finalmente rumo à filosofia da tristeza, à análise do ser, ao estado de solidão, ao auto-convencimento de que se é «feliz talvez ». Em qualquer dos casos, sobe-se da beleza bucólica do campo para um patamar de suposto pessimismo quanto à vida.
Porém, este aspecto tendente à filosofia está mais presente no autor português. Nos versos da «Ceifeira», como em quase toda a sua poesia, a poética pessoana nunca foi, não é ainda e nem será jamais isolada da filosofia, tanto no fundo como na forma.
Assim é esta poesia que começa por uma exclamação admirativa, não tanto do cantar da ceifeira, mas de que pesando as circunstâncias «Ela canta, pobre ceifeira.»

quarta-feira, maio 30, 2007

Com uma gaiola vazia




Com uma gaiola vazia uma criança
olha para a linha
de um pássaro
a formar-se no horizonte

a sua forma
de ave vem à frente
um passo
do que a vista alcança

Uma porta aberta
na gaiola range
e o pássaro a contempla
a gaiola e os dois reflexos

da esperança
com que a criança olha
as linhas da ave
tiradas do horizonte.

sábado, maio 26, 2007

The small feet of Pavlova


The small feet of Pavlova
flow in space; leaping
through invisible clouds of air.
Fragile dawns never touching the soil.
Her small golden feet
suspended as fish in
an aquarium of wind.

(To Anna Pavlova)

sábado, maio 19, 2007

As bailarinas de Degas





Uma nuvem passa entre o chão
e os pés das bailarinas
como a nuvem
mudam de forma
e estão poucas vezes em terra
as mãos em pontas
nos braços também aparecem
como a inconstância do vento
as bailarinas de Degas
não precisam do nosso olho
- menos rápido, quase sempre
para as elevar do solo.

19-5-2007

quinta-feira, maio 17, 2007

Poema de Billy Collins



ANDAR ATRAVÉS DO ATLÂNTICO

Eu espero que a multidão das férias despeje a praia
antes de pisar na primeira onda.

Logo eu estou a caminhar através do Atlântico
a pensar na Espanha,
verificando as baleias, as trombas marítimas.
Eu sinto as águas a deslocarem o meu peso para cima.
Hoje à noite eu dormirei nesta superfície móvel.

Mas por agora eu tento imaginar o que
deve parecer aos peixes em baixo,
o fundo dos meus pés que aparecem, desaparecem.

(Tradução de J.T.Parreira)

quarta-feira, maio 16, 2007

Os pastores da Arcádia



Permanecem para lá da pele
da ovelha, permanecem pelo olhar
suave dos cordeiros, em frente
de uma estrada que arrasta
o olhar medroso do rebanho
na civilização das máquinas
Os pastores permanecem, embora à noite
lhes pese nos olhos a ovelha
perdida e ainda tenham,
contra o flanco das cabras,
que retirar o leite.

quinta-feira, maio 10, 2007

Chamo-os

(Uma conversação sobre Hebreus 11, 4, ss )

Os ombros de Abel, de longe
voltam-se para mim
e um cordeiro emana
como nuvem de lã
E Enoque, que saía do chão, volúvel
transparente
para a alegria celeste
Estava Noé no silêncio
da sua janela, no meio de escura água
e olhava para cima, movido
pelas fontes do céu
E Abraão, quando chamado
viu ao longe, desafiou os olhos
para a luz suave das estrelas
Em algum sótão do sono
Jacob necessitava de um pouco
de sonho
E pelas pegadas do gado Moisés,
pelo deserto, regressa
até mim.
Chamo-os, enquanto
Raabe do corpo
desenlaça
um fio escarlate.

quarta-feira, maio 02, 2007

Vilegiatura


Atravessamos braços, pernas
fotográficas, bustos
erguidos ao fogo da beleza
passamos por cima de castelos
de areia, e o ar
não suporta nosso corpo
caímos no mar
Olhamos para o chão, como
se fosse um espaço proíbido.

domingo, abril 29, 2007

Charles Reznikoff, traduzido

Magritte, La Victoire

POEMA

Não por causa das vitórias
eu canto,
não tendo nenhumas,
mas pelo comum brilho do sol,
a brisa,
a dádiva da primavera.

Não pela vitória
mas pelo trabalho do dia feito
assim como eu podia;
não pelo assento na tribuna
mas na mesa comum.

(Tradução J.T.Parreira)

sábado, abril 28, 2007

Tudo o que vier depois

Tudo o que vier depois
do fogo, será a matéria
da cinza,

o que vier depois da tempestade,
um lugar
qualquer para refazer os vasos
e moldar o barro,

um silêncio frágil
espalhado pelos dedos.

Tudo o que vier depois
da voz, o eco de um nome
de um amor inesperados

O que vier depois da casa
em ruínas, as formas
do silêncio inabitado

Tudo o que vier depois
da altura, o que vier despido
já da luz e de poesia,

os pássaros difíceis, a chuva
que arde nos olhos, a terra
que na neve tem o toque da ternura.

23-4-2007

sexta-feira, abril 27, 2007

Edith Piaf: Rien

Edith Piaf Non,je ne regrette rien 12-1960


Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
C’est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé
Avec mes souvenirs
J’ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n’ai plus besoin d’eux
Balayé les amours
Avec leurs trémolos
Balayé pour toujours
Je repars à zéro
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien, qu’on m’a fait,
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd’hui,
Ça commence avec toi

sábado, abril 21, 2007

O intérprete


O intérprete dos barcos
mete o convés no bojo
de uma elipse
traça a proa num golpe
como corta a água
um barco
se levanta à superfície
dos olhos e sorri a ria
como num espelho os lábios
sorriem ao rosto debruçado.
(Para o pintor Jaime Isidoro)

terça-feira, abril 17, 2007

Despedida

O poeta Joanyr de Oliveira, à esquerda, em 1998

Como Antigona quis
empedrar-me aqui
longe de palavras, de certas
arestas de pedra nas palavras
que vêm de algumas bocas
perturbar nosso canto

Fatigado de mim mesmo
gasto ainda meus olhos
na claridade das metáforas
e cativo fragmentos
de uma rosa desferida
pelo vento
apanhador do voo
das borboletas.

(Para o meu amigo Joanyr de Oliveira)

quinta-feira, abril 12, 2007

Um mendigo

musching a plum on
the street a paper bag
(mascando ameixas pela
rua num saco de papel)
William Carlos Williams

Tira as rugas ao papel
de uma das pernas
das calças, põe
o saco ao ombro
- já andou
por melhores mãos
agora
recolhe meio
comidos restos

O casaco cuja lã é leve
no nono ano cheio
de destinos e
caminhos
retirou há muito
uma das mangas, tem
menos um braço
para abraçar a solidão

Um sapato
vai descalçando
um pé.

quarta-feira, abril 11, 2007

O Tempo que passou

1ª edição, de 1971

BlockquoteAs naus estão agora ajustando as amarras/ Ao cais: oscilam ante a partida. / (...) / As mães vieram abafar o estrondo das naus.



domingo, abril 01, 2007

Regressos

Os teus ruídos
chegaram a casa

a casa encheu
de luz
as janelas

abriram-se cortinas

voaram
no vento

quando
voltaste
a sair

os teus ruídos.

2006

quarta-feira, março 28, 2007

O Visual na Poesia (Juan Manuel Roca)*

“Lo visual en la poesía, valga decirlo, no tiene únicamente que ver con la disposición tipográfica, aunque fuera tan esencial en los poemas de un gran visionario y vísionador del cubismo, Guillaume Apollínaire y sus Caligramas, sino, más allá de la piel, de la epidermis del lenguaje, en la capacidad evocadora”. Por eso, sostiene, “podemos comparar la mar con una carpintería, porque la garlopa arroja cantidades de viruta a las playas del mundo”, pues la metáfora, “que en griego quiere decir traslado, transporte, llevar de un lado a otro, de una realidad a otra, da a luz nuevas realidades”. Y entonces nos revela cómo, luego de una semana de noches de tormento e insomnia, creó las metáforas o kenningars que cambiaron el discurrir de la poesía en español y que tanto han imitado, sin superarlas, los poetas que le siguen:

El brazo del río jamás esgrime espada.
Los dientes de ajo no comen duraznos.
El ojo de agua desconoce el monóculo.
El cuello de botella no porta collares.
La oreja del pocillo no escucha a Beethoven.
Las manecillas del reloj no usan guantes en invierno.
Los durmientes del ferrocarril no se despiertan a su paso.
Las palmas de las manos no dan dátiles.
La luna de miel no atrae a las moscas.
Las cabezas de los fósforos no tienen aureola, aunque alumbren como santos."
* Poeta columbiano, in revista Arquitrave

domingo, março 25, 2007

Antígona



Antígona
é contra
a cidade
que não faz
sepulturas.
Uma para
Polinices
Outra
vez morto
quando o olham
as aves de rapina.
Antígona casa-se
com a morte,
Sófocles
pendura Antígona
no laço
da bela morte.
24-3-2007

Toreador Song

Gino Bechi, na ópera Carmen
http://www.youtube.com/watch?v=BsNkVduTKO8

sexta-feira, março 23, 2007

Quarto com vista para a Tabacaria

Não há nada
a fazer, com a janela
vêm vidros de gelo
e o fundo da noite.

Nunca será nada
mais do que uma janela
mesmo com a luz dentro de si.

Não pode querer ser nada.

Outra coisa à parte, tem em si mesma
olhos para os sonhos do mundo.

Quarto com vista para a tabacaria
para o mistério
da liberdade do vento
que sopra forte mas acomoda-se
contra as pedras.

Há milhões destes quartos
no mundo com paredes presas
por baixo de quadros, com humidade
nas paisagens e nas naturezas-mortas.

quarta-feira, março 21, 2007

Dia Mundial da (anti-)Poesia

CONVERSA ÀS 3:30 DA MANHÃ

Às 3:30 da manhã
a porta abre-se para uns pés
no corredor arrastando um corpo
soa um toque
descansas a tua cerveja
e vais responder.

Caramba! Diz ela,
você nunca tem sono?

E vai entrando com papelotes
nos cabelos
ela mesma é uma veste de seda
coberta com pássaros e coelhos

Ela trouxe a sua própria garrafa
a que juntas com magnificência
2 copos;
o marido, diz ela, está na Florida
a irmã envia-lhe dinheiro e vestidos
e ela tem procurado um emprego
há 32 dias.

Tu contas-lhe
que és corrector de apostas e um
compositor de jazz e de canções de amor,
e depois de alguns copos
ela não se incomoda com cobrir
as pernas
com a orla do roupão sempre a afastar-se.

Não são nada mal feitas, suas pernas
de facto, são perfeitas
e em breve tu estás a beijar uma
cabeça cheia de pedaços de papel.

E os coelhos estão a começar
a piscar, e a Florida é uma longa
ausência, diz ela nós não somos estranhos
até porque me tem visto no corredor.

E finalmente
há muito pouco
para dizer.

(Charles Bukowski)

Tradução de J.T.Parreira

segunda-feira, março 19, 2007

Talvez depois desta imagem, não haja mais Poesia


La imagen de ese buitre acechando a una niña moribunda en África le persiguió en vida. Con ella atrapó el Pulitzer, pero también la maldición de una pregunta: “¿Qué hiciste para ayudarla?”. A Kevin Carter, cronista gráfico de la Suráfrica del 'apartheid', la presión le empujó al suicidio. Un periodista testigo de aquellos años rememora su figura.
Créditos: El Pais, de hoje, Dia do Pai.

sexta-feira, março 16, 2007

Se tudo volta a começar

Quiero decirlo ahora
porque si no después las cosas se complican.

Soy peor todavía de lo que muchos creen.

Me gusta justamente el plato que otro come
aburro una tras otra mis camisas
me encantan los entierros y odio los recitales
duermo como una bestia
deseo que los muebles estén más de mil años en el mismo lugar
y aunque a escondidas uso tu cepillo de dientes
no quiero que te peines con mi peine.

Te explico estas cuestiones
porque si todo vuelve a comenzar
no me hagas mucho caso acuérdate.

terça-feira, março 13, 2007

Buffalo 66


A ÚLTIMA NOITE

Nenhum amor é mais
Cortante do que
Este

Às 2:30 da manhã
Layla sai do nada

À porta do quarto
Do hotel, uma
Lágrima irrompe
Dentro dos olhos

Fechada à chave
A porta
Alguém sentado
Na cama do quarto
Da noite passando

Um sorriso
Por baixo
Da tristeza
Dos lábios.
12-3-2007

segunda-feira, março 12, 2007

Manuel Machado

VERANO

Frutales
cargados.
Dorados
trigales...

Cristales
ahumados.
Quemados
jarales...

Umbría
sequía,
solano...

Paleta
completa:
verano.

quinta-feira, março 08, 2007

Pavlova


Os pezinhos de Pavlova
crescem no espaço, saltam sobre invisíveis
nuvens de ar, frágeis auroras
quase nunca pousam
no chão o seu voo de ave diminuta
os pezinhos dourados
de Pavlova, como peixes amarelos
num aquário de vento, parece
que procuram
a saída inexistente.

terça-feira, março 06, 2007

Poema.

Poema

Lana Turner veio abaixo!
Eu vagueava pelo quarteirão e de repente
soltaram-se a chuva e a neve
e tu disseste que era granizo
mas o granizo bate na cabeça
com dureza, de modo que nevava e
chovia e eu estava com essa pressa
de me encontrar contigo mas o tráfego
representava rigorosamente como o céu
e subitamente vi um título
LANA TURNER VEIO ABAIXO!
Não há neve nenhuma em Hollywood
nem chuva na Califórnia
tenho estado em muitas festas
e agi como um acabado indecoroso
mas na realidade nunca desmaiei
oh Lana Turner nós amamo-la levante-se
(1962)

Frank O'Hara, Baltimore, 1926-1966

(Tradução de J.T.Parreira)

segunda-feira, março 05, 2007

Frank O'Hara, o poema...

Poem

Lana Turner has collapsed!
I was trotting along and suddenly
it started raining and snowing
and you said it was hailing
but hailing hits you on the head
hard so it was really snowing and
raining and I was in such a hurry
to meet you but the traffic
was acting exactly like the sky
and suddenly I see a headline
LANA TURNER HAS COLLAPSED!
there is no snow in Hollywood
there is no rain in California
I have been to lots of parties
and acted perfectly disgraceful
but I never actually collapsed
oh Lana Turner we love you get up


A versão com dicção coloquial brasileira:

Lana Turner desmaiou!
Eu tava apressado pela rua e de repente
começou a chover e a nevar
e você falou que era granizo
mas cara granizo bate com força
na cabeça era neve mesmo
e chuva e eu morrendo de pressa
pra te encontrar mas o trânsito
tava naqueles dias como o céu
e de repente vejo a notícia
LANA TURNER DESMAIOU!
Não tá nevando em Hollywood
Não tá chovendo na Califórnia
Já fui num monte de festas
e dei perfeitos vexames
mas nunca desmaiei de fato
Lana Turner te amamos levanta mulher

(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes)

Amanhã a outra versão.

Frank O'Hara, amanhã, se calhar

Um poema em duas versões, a original e outra, em português. Se calhar, amanhã.

sexta-feira, março 02, 2007

El maestro

Él tose
como el ruido último que lo liga al mundo
él mira el silencio, espera
de una fuente la música cristalina de la agua
No vemos, pero él piensa
en cada uno de los instrumentos musicales
Y alarga los brazos, después los ojos y los oídos
que siguen las manos del tamaño de la mano Infinita.

Publicado em Predicado-Comunidad de nuevos escritores

domingo, fevereiro 25, 2007

Jaime Gil de Biedma


A ARQUITRAVE

A gente vive entre pessoas brilhantes. Há quem fale
da arquitrave e seus problemas
como se ela fosse sua prima
-além disso, muito próxima.

Pois bem, parece que a arquitrave
está em perigo grave. Ninguém sabe
muito bem por que assim é, mas dizem-no.
Há quem venha a dizê-lo há vinte anos.

Há quem fale, também, de inimigo:
seres não perceptíveis
estão em toda a parte, insinuam-se
como o pó nos quartos.

E existe quem levante andaimes
para que ninguém caia: povo atento.
(Curioso, que em inglês scaffold signifique
ao mesmo tempo andaime e cadafalso.)

Algum sai à rua
e beija uma rapariga ou compra um livro,
passeia, feliz. E lhe disparam:
Mas como se atreve?
!A arquitrave…!


In Las personas del verbo

(Tradução de J.T.Parreira)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Notícia Local

As estrelas expandem-se.
A poeira
caiu numa estrada
do Arizona.

Uma rosa de magma
tornou-se sólida
antes que as mãos pudessem
salvar as cinco pétalas.

Uma ave
cobriu-se de poeira
primeiro que nossos olhos
tivessem tempo
de voar no seu corpo.

E o sol escondeu-se, uma sombra
decapitou uma árvore.

19-2-2007

domingo, fevereiro 18, 2007

Segunda-Feira, de Primo Levi


Que coisa é mais triste que um comboio?
Que parte quando deve,
Que não tem mais que um som,
Que não tem mais do que uma estrada.
Nada é mais triste que um comboio.

Ou talvez um cavalo de tiro.
Está fechado entre duas palas,
Não pode nem olhar para o lado.
A sua vida é andar.

E um homem? Não é triste o homem?
Se vive longamente em solidão
Se crê que chegou ao fim
Também o homem é uma coisa triste.

(Tradução de J.T.Parreira)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Impressões

(à maneira de e.e.cummings)


As gaivotas estão melancólicas
hoje(pairam
no tédio
dos pátios)na ondulada
pedra
das calçadas,
nas poças de água(só
um céu
de lama)só
argila.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Espanha no coração:Pablo Neruda

Madrid isolada e solene, Julho te surpreendeu com tua alegria
de colmeia pobre: tua rua era clara,
claro era teu sonho.
Um desejo negro
de generais, uma vaga
de sotainas raivosas
rompeu entre teus joelhos
suas lodosas águas, seus rios de escarro.

Todavia, com os olhos feridos de sono,
com escopeta e pedras, Madrid, recém-ferida,
defendeste-te. Corrias
pelas ruas
deixando estelas de teu santo sangue,
reunindo e chamando com uma voz de oceano,
com um rosto mudado para sempre
pela luz do sangue, como uma vingadora
montanha, como uma sibilante
estrela de facas.

Quando nos tenebrosos quartéis, quando nas sacristias
da traição entrou tua espada ardendo,
não houve senão o silêncio do amanhecer, não houve
senão teu passo de bandeiras,
e uma gota de sangue em teu sorriso.

in Tercera Residencia, Madrid, 1936

(Tradução de J.T.Parreira)

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Poema de Allen Ginsberg

Kaddish 44

Para Lindsay*

Vachel, as estrelas sairam de cena
o escuro caiu numa estrada do Colorado
um carro lento rasteja através da planície
o rádio ressoa jazz no crepúsculo
um vendedor desanimado acende outro cigarro
Há 27 anos noutra cidade
vejo a tua sombra no muro
estás sentado sobre teus suspensórios na cama
a mão da sombra ergue até à cabeça um frasco de Lysol
teu vulto decai sobre o soalho

*Vachel Lindsay, Poeta norte-americano, 1879-1931. Suicidou-se, bebendo Lysol

(Tradução: J.T.Parreira)


To Lindsay
Vachel, the stars are out / dusk has fallen on the Colorado road / a car crawls slowly across the plain / in the dim light the radio blares its jazz / the heartbroken salesman lights another cigarette / In another city 27 years ago / I see your shadow on the wall / you’re sitting in your suspenders on the bed / the shadow hand lifts up a Lysol bottle to your head / your shade falls over on the floor

[Paris, May 1958]

terça-feira, fevereiro 06, 2007

A Bússola

O destino
ao fundo de uma nuvem
Para quem atravessa a névoa e o sol
no deserto, saber o lado
para onde caminhar
o norte
assiste ao arco que descreve o dia
e o sul
ao fundo do vento
sigamos o magnético
atractivo
da pura fantasia boreal.

domingo, fevereiro 04, 2007

Pós-modernidade na rede: a poesia brasileira no século XXI

Texto da poeta Virna Teixeira
(...)
Alguns blogs agregam poetas que escrevem de várias partes do Brasil, com o Algaravária (http://algaravaria.blogspot.com/). Na internet não há distância geográfica e sim afinidades. Há blogs que são escritos em todas as partes do país, por poetas que mantêm freqüentemente intensa atividade fora do local onde vivem, como por exemplo: Douglas Diegues do Portunhol Selvagem http://www.portunholselvagem.blogspot.com/) em Campo Grande, que mantém vários diálogos com outros poetas dentro da América Latina; Poesilha do Marcelo Sahea (http://poesilha.blogspot.com/) e Folhas de Girapemba da Ana Maria Ramiro (http://girapemba.blogspot.com/) em Brasília; Micropolis (http://micropolis.blogspot.com/), de Marília Kubota, em Curitiba; para citar alguns.

Há também interações de blogs brasileiros com blogs portugueses, como o Nocturno com gatos (http://nocturnocomgatos.weblog.com.pt/), de Soledade Santos; Linha de cabotagem (http://linhadecabotagem.blogspot.com/) de Helena F. Monteiro, o Finisterra de Oscar Mourave (http://www.finisterra.blogger.com.br/ ) que escreve sob pseudônimo e mora na Tunísia e os blogs de poesia e tradução Ao longe os barcos de flores (http://barcosflores.blogspot.com/), de Amélia Pais e Poeta salutor (http://www.poetasalutor.blogspot.com/) de J. T. Parreira. A poeta carioca Silvia Chueire, do Eugenia in the meadow (http://eugeniainthemeadow.blogspot.com/), pela proximidade da sua escrita com a dicção portuguesa, publicou seu primeiro e único livro de poesia em Portugal, através da internet.

in Cronópios

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

The Factory


Andy
Wahrol, a poeira caiu no chão
um ataque cardíaco
do tecto perto dos nossos olhos
do céu
cairam as luzes, a tua sombra
também sobre o chão.

domingo, janeiro 28, 2007

A Guitarra

Começa o choro
da guitarra.
Partem-se os cristais
da madrugada.
Começa o choro
da guitarra.
É inútil calá-la.
É impossível
calá-la.
Chora o mesmo tom
como o choro da água,
como o choro do vento
sobre as noites brancas.(*)
É impossível
calá-la.
Chora por coisas
longínquas.
Areia do Sul quente
que pede camélias brancas.
Chora a flecha sem alvo,
a tarde sem manhã,
e o primeiro pássaro morto
sobre os ramos.
Ó, guitarra!
Coração malferido
por cinco espadas.

(Tradução: J.T.Parreira)

(*) Em 1946, Eugénio de Andrade traduziu «la nevada», em Antologia Poética, como «o nevão».
Já em 1968, em Trinta e Seis poemas e uma Aleluia Erótica, o mesmo poeta usou o termo «a nevada».
Atendendo à poeticidade da expresão «noites brancas» usamos aqui a mesma, talvez como um metonímia para falar de queda de neve, e não no sentido do romance de Dostoievski (Noites Brancas, o dia contínuo.)

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Cidade Transparente

No teatro das casas
em Amsterdão, à noite
a vida está aberta
à noite passeamos
no meio de mesas de jantar
salas, quartos de dormir
tudo visível, tudo vida
sem cortinas, uma janela
reflecte a luz
nos vidros de água
dos canais.
Há uma linha num livro
que partilha a poesia
um Van Gogh
que o sol da janela amarelou
todos os dias a única
coisa nova são as nuvens
que mudam de lugar.

21-1-2007

terça-feira, janeiro 23, 2007

Dizer sem dizer: os sons na poesia de Vicente Huidobro

Um prefácio e sete poemas, designados por cantos, constituem o livro torrencial de Vicente Huidobro (1893-1948), poeta chileno, cuja linguagem se desloca do centro da poesia modernista, no conceito da América hispânica da primeira década do século XX, para a busca do vocábulo puramente fonético, aparentemente sem poesia, mas exibindo uma estrutura onomatopeica como significante apenas do próprio som.
Esse livro em que a torrente se deslocaliza da palavra para o puro som é Altazor, uma obra considerada épica. Ela consiste na realização, levada a cabo pelo poeta, do seu credo artístico, da criação e criação literária dentro do próprio poema, do desmontar da linguagem gongorizante e simbolista, do provocar o cataclismo en la gramática, do louvor à individualização da mulher como entidade geradora, das combinações vocabulares curiosas, as palavras circulares, como por exemplo eterfinifrete (Canto IV, pág.66) ou ainda novas formas de dizer " al horizonte en la montaña" assim: al horitaña de la montazonte (pág. 60).
As experiências que esse poeta de Santiago do Chile, amigo de Lorca e influenciador de Gerardo Diego, produz na sua poesia não estarão desligadas da sua avidez literária pelas novidades.
A Vanguarda estética, na arte poética, era o seu terreno e Apollinaire, para nos situarmos só na literatura, foi uma das suas figuras tutelares.
Mas toda a Vanguarda artística da Europa contribuiu para a sua criatividade apaixonada, desde Picasso a Stravinsky.
Se dos pincéis do primeiro nasciam deformidades criadoras da pura ordem pictórica e do segundo uma música cujo algum caos formulava já a beleza harmónica do Pássaro de Fogo , da poética de Huidobro surgia a poesia que não se limitava a interpretar, mas a elaborar a própria criação, que não se circunscrevia apenas aos sentidos mas aos sons vocabulares.
São célebres e aforísticos os dois versos, da sua Arte Poética, em que questiona os poetas que se limitavam a cantar a rosa: Por qué cantáis la rosa, oh Poetas, Hacedla florecer en el poema.
Huidobro reclamava a sua quota parte de pequena divindade, que não só naquele tempo, mas sempre e desde os gregos se costumava atribuir aos poetas ( na poética hebraica e bíblica já não era obviamente assim).
El Poeta es un pequeño Dios , era o desafio final daquele poema de Huidobro.
Mas este poema possui um sentido, não é hermético, a sua gramática é habitável, podemos conviver com ela. É uma arte poética com sentidos que transportam de um lugar a outro, indica todo um programa que a história da literatura Latino Americana classifica como Criacionismo.
Ao contrário é o livro Altazor . Sendo também uma viagem, dir-se-ia que é intergalática. A personagem cai ou vem de uma queda auto-promovida desde um ponto do universo.
O livro apoia-se sobre um mito básico: Altazor é a encarnação do poeta descendo às profundidades, tal qual Dante, Enéas ou Orfeu, com a ajuda de um páraquedas, que a crítica usualmente afirma ser a poesia.
Esta queda, ou melhor descida controlada do poeta, é também um acto de revolta, e esta começa em Altazor com uma linguagem carregada de conteúdos , de informação, de ideologia. Nesta obra de capital importância para a poesia modernista hispânica, a dicotomia de Saussure contribui para a compreensão da sua linguagem: contém o elemento social que é a língua e o elemento individual que é a palavra.
É, porém, no último canto do poema que tudo o que concerne à linguagem - língua e palavra - se transmuta em puro som, apesar de alguns vocábulos que podem ser pronunciados, mas distituídos de qualquer sentido. Criação do próprio som, a emanar do «poema» do criacionista Huidobro? Na mesma direcção programática em que os poetas deveriam, sim, criar a rosa e não cantá-la?
O canto VII é, em todo o caso, o da incompreensibilidade, da fonética pura sem sentidos, da onomatopeica propositadamente identificável. Segundo Octávio Paz, o "dizer sem dizer", sem nenhuma correspondência semântica, no fundo, uma metalinguagem.

Ai aia aiaia ia aia ui Tralalí Lali lalá Aruaru urulario Lalilá Rimbibolam lam lam Uiaya zollonario lalilá Monlutrella monluztrella lalolú Montresol y mandotrina Ai ai Montesur en lasurido Montesol Lusponsedo solinario Aururaro ulisamento lalilá Ylarca murllonía Hormajauma marijauda Mitradente Mitrapausa

sábado, janeiro 20, 2007

Passagem para o efémero

Nalgum lugar onde nunca esteve, ninguém
relembrará quem, o que, onde
e quando, como
as coisas começaram
e porquê o papel durou como invólucro
de rosas.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Um Outro Adeus Português

Blockquote e como um adolescente tropeço de ternura
por ti
Alexandre O Neill


Dentro dos meus olhos uma outra
forma de olhar
suporta a tua dor,

amparo-te na escada fluvial
que te traz ao dia,
no cais onde acostam
tuas sonâmbulas palavras

mais uma puríssima manhã
que deverias tratar
com o leite corporal
róseo da perpétua aurora

não podemos ficar nesta curva
entre sonhos de uma rosa enorme
que deixa o lirismo
a contas, indeciso com o mais
lancinante espinho.

6-1-2007

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Poesia: Intertextualidades: Basil Bunting

O OUTONO

Quando amolece o boquim o alento do que toca o timbre torna-se claro.
É a hora de examinar como Domenico Scarlatti
comprimiu tanta música em tão poucos compassos
sem voltas intrincadas ou cadências em excesso;
nunca uma vaidade ou um intuito; e as estrelas e os lagos
fazem eco e o bosque tamborila ritmos,
os cumes nevados elevam-se com a luz da lua
e do crepúsculo e o sol desponta familiar.

(Tradução do espanhol: JTP)

sexta-feira, janeiro 12, 2007

O Condutor

Tosse
como o último ruído
da ligação ao mundo

Com seus gestos de pescador
à linha
enche os braços de ar

fixa o silêncio
como se esperasse de uma fonte
a cristalina música da água

Não vemos, mas pensa em cada
um dos instrumentos
e estende os braços

Depois os olhos e ouvidos
seguem-no, as mãos
do tamanho da infinita mão

escutam-se, sonoras
vão desvelando
a música.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Charles Olson

"a poem is energy transferred from where the poet got it . . . by way of the poem itself to, all the way over to, the reader . . ."-

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Num campo de concentração: e.e.cummings


um riso sem um
rosto (um olhar
sem um eu)
cuida

do (não to
que) ou
desaparec
erá semru

ído (na doce
terra)&
ninguém
(inclusive nós

mesmos)
relembrará
(por uma fra

ção de
um mo
mento) onde
o que como

quando
por que qual
quem
(ou qualquer coisa)

(Tradução de Augusto de Campos)

terça-feira, janeiro 09, 2007

Na Tabacaria

Nunca era nada. Nunca
seria nada, disse, não podia
querer ser nada.
E o sonho, que era de todos
os sonhadores do mundo,
assomava as janelas do seu quarto,
do quarto de um dos milhões do mundo
que ninguém saberia quem era.
Mas, logo o poema iniciado
cruzaria as ruas, entraria nos hospícios
onde poucos sabem que vão morrer,
nas mansardas onde o sonho
se sonha a si próprio,
entraria no mundo,
chamaria a atenção, como por sinal
divino, do Dono da Tabacaria
quando se acerca da porta e permanece.
Entraria
até no universo para um último adeus:
Adeus, ò Esteves.
E o poema sorriria.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Tradução: John Berryman

Dream Song 105

Como um garoto acreditei na democracia: eu
não via outra alternativa- ensinando em Princeton eu
apliquei-a
numa sondagem para um longo romance: por um voto-
E Tudo o Vento Levou, votaram todos: rangi um «não»
e sentámo-nos com Guerra e Paz.

Como um homem acreditei na democracia( ninguém
sabe sempre tudo) : num dia de folga
o meu assistente, chamado James Dow,
& Eu estivemos tagarelando, em desacordo,
eu perguntei curioso «Qual é a sua verdadeira política?»
«Oh, eu sou monárquico»

Finalizando a sua dissertação, em Ciência Política.
Resigno-me. O desprezo universal pelo Sr.Nixon,
de quem nunca gostei mas o qual
vigilante & enérgico serviu-nos anos a fio debaixo de segredos
desde a invasão da dinastia K. Deixem-nos ter um Rei
talvez, antes de alguns votos estúpidos.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Intertextualidades: para que servem os pássaros

Olhos no Céu

Olhai as aves do céu, voam
de qualquer lado
habitam qualquer lugar
no azul ou no verde
menos nos nossos olhos

Olhai depressa as aves no céu
cada pássaro se dissipa
na sua partida
e a velocidade dos olhos
perde-se no voo violado

Olhai nas aves o céu
espaço permeável
ao vento, à alta seta
do sonho

(J.T.Parreira)



Para que serve o pássaro?

Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?

O que era vôo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico

O que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que
o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um
esquema de distâncias —

mas para que serve o pássaro?
O pássaro não serve. Arrítmicas
brandas asas repousam.

(Orides Fontela, 1940-1998)

terça-feira, janeiro 02, 2007

Outro dia no Café A Brasileira do Chiado

No Café A Brasileira do Chiado
sentam-se o plural
Pessoa, Fernando com risos vacilantes
nos seus lábios
Eles esperam as palavras
para prestar contas pela quebra
do mármore do silêncio
com o ruído das máquinas
e os carros eléctricos
e o respirar na alma.

2/1/2007

domingo, dezembro 31, 2006

"Os Sem Papéis"

Imagem extraída do diário El Mundo

Viajam com as cabeças de fora
cortam a espuma
do vento nas ondas

cortam o rosto com sal
viajam com o corpo
uns dos outros

movem-se
nos olhos
uns dos outros

não perguntes
de onde
vêm

vêm
em direcção a ti-
terra

vêm
como
Ninguém.


30/12/2006

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Intertextualidades:Poema de John Berryman

Separação

O sol corria no céu, o táxi voou;
havia uma espécie de febre no relógio
nessa manhã. Chegamos a Waterloo
sobrando-me tempo, soube encontrar o meu rumo.

O café amargo num pequeno restaurant
permitiu-nos a conversa. Quando o comboio
começou a andar,vi a tua meia-volta
e desapareceste, e as veias do meu cérebro

estouraram, o comboio rugiu, os outros passageiros
saltaram velozes, o ar inconstante
che si cruccia,ouvi os demónios maldizer
e chiar de alegria nesse lugar longe da súplica.

(Tradução de J.T.Parreira)

terça-feira, dezembro 26, 2006

O esplendor em Paris-Orly

O táxi corria contra o caudal
das ruas, um rio volumoso
saltando das margens, peões
carros febris, todos
os relógios contra o seu.

Chegaram ao Paris Orly. Ainda
com tempo para o fogo
interior, amargo
de um café, como fogueira
no centro de um campo de sonhos.

Quando a última voz chamou
os viajantes para o voo, o adeus
e os beijos morreram nos lábios
e lembram-se da meia-volta final
antes de se tornarem voláteis.


23/12/2006