terça-feira, setembro 25, 2007

Ópera na Rua em Nova Iorque



A Grande Noite na Ópera

«Opera fans took seats in Times Square on Monday night to watch a live transmission as the Metropolitan Opera opened its season with “Lucia di Lammermoor.”»
in The New York Times

quinta-feira, setembro 20, 2007

Esquecimento

Um dia esquecerão o queixo
submerso na barba,
outro dia a distância
entre as lentes sujas
dos óculos e os olhos,
mais tarde
os olhos sem ninguém.
A seguir a um dia de sol
falarão do vento,
que já não arrasava os cabelos;
depois, que os poemas
devem estar por aí, desiguais
silenciados,
noutro dia
um perfume alheio
fará dúvidas se era esse.
Ao nome, num dia já distante,
começará a faltar um apelido,
nenhum morfema
tomará nosso lugar.

20/9/2007

quarta-feira, setembro 19, 2007

Desaparecido

Sempre que leio nos jornais:
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas, desprezasse, consciente e forte,
O porto do arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
-Livre o instinto, em vez de coagido.
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Eu, o feliz desapar'cido!

(Carlos Queiroz)

terça-feira, setembro 18, 2007

O Tempo que passou



3ªEdição, 1957

«OPINIÃO SOBRE «DESAPARECIDO», DE CARLOS QUEIROZ»

«Não se pode dizer deste livro o que é vulgar dizer-se, elogiosamente, de um primeiro livro, sobretudo de um jovem:- que é uma bela promessa.O livro de Carlos Queiroz não é uma promessa, porque é uma realização.(...)Pertence ao mais íntimo da probidade literária e artística o não se apresentar ao público sem ter plena consciência de que na obra apresentada está tudo quanto em nós haja de forte.»

Fernando Pessoa

# Amanhã, publica-se aqui o poema-chave deste livro: Desaparecido

sexta-feira, setembro 14, 2007

Edmond Jabès, poeta egípcio-judeu



Poema

Deixei uma terra que não era a minha
por outra à qual também não pertenço.
Refugiei-me num vocábulo de nanquim,
e tenho o livro como espaço;
palavra de lugar nenhum, obscura fala do
deserto.
Não me cobri durante a noite.
Nem mesmo tentei me proteger do sol.
Andei nu.
De onde eu vinha, não fazia mais sentido;
Aonde eu ia não incomodava ninguém.
Vento, digo-lhes, vento.
E um pouco de areia no vento.

(Tradução de C.M)

sábado, setembro 08, 2007

As raparigas da Calle d'Avignon




Tal como Picasso o fez, os olhos
maiores do que a cabeça, estendendo
os corpos primitivos,
as Demoiselles para o espectador,
eu vi isso com minha mulher
no verão de 1991,
em Nova Iorque suspensa
na humidade do calor,
animada e intacta numa sucessiva onda
de ar, a alma
das raparigas da Calle d’Avignon
a fundar-se a si mesma.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Alberto de Lacerda( 1928-2007)



Edição de 1963

Exílio

O exílio é isto e nada mais
Na sua forma mais perfeita:
Hoje na terra de meus pais
Sòmente a luz não é suspeita.

domingo, setembro 02, 2007

O Tempo que passou



Edição de 1970


Poema do Beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
-O que eu vejo é o beco.

(Manuel Bandeira)

quinta-feira, agosto 23, 2007

Movimento Literário


You send me your poems,
I’ll send you mine

Robert Creeley



Vamos trocar nossos poemas
Como quem troca os olhos

Com cumplicidades
Uma veloz palavra

Tenderá a sair do círculo
Deixará para trás

Ângulos obtusos e a tautologia
Das quatro paredes

Trocaremos nossos silêncios, ínfimos
Nadas com profundidades

Mandem vossos poemas
Em especial os que rimam

Contra a corrente
Mandarei os meus.

segunda-feira, agosto 20, 2007

A Bicicleta Verde

«They said, you have a blue guitar,
you do not play things as they are.»
Wallace Stevens

A menina curvou o olhar sobre a bicicleta,
Uma menina com imaginação, nos seus olhos
O verde pintou a Terra.
A menina aproveitou o vento
Que brandia as folhas e disse
-Vou pintar de verde a bicicleta,
Terei uma bicicleta verde
Para ser inteira com a natureza,
Se passar pelas folhas
Serei um vento mais
-Não será um raio azul, nem uma estrela
Amarela, nem sequer uma sombra vermelha,
Será um riso verde quando passar rolando.

18-8-2007

sábado, agosto 18, 2007

«On the Road», 1957




Edições portuguesa, de 1960, e ucraniana, 1995


Jack Kerouac disse um dia a propósito das várias edições estrangeiras da sua obra «On the Road»: «Quando for velho, sabem o que vou fazer? Vou estudar línguas para ler todas as traduções do meu «Pela Estrada Fora».
Mas Kerouac não chegou à velhice – morreu em 1969 com 47 anos. Mas as edições traduzidas , especialmente do seu romance ícone, continuam a multiplicar-se.
Quando da edição original do livro, em 1957,o «The New York Times » de 5 de Setembro desse ano, publicava um texto na secção «Os Livros do Times», cujo autor dizia de «On The Road», em síntese, o seguinte: « É a segunda novela de Jack Kerouac e a sua publicação é um histórico momento não distante da exposição de uma autêntica obra de arte.
Absorvente, intrigante, picaresca.
É uma obra que requer uma exegese, porque é uma grande ocasião para se entender este tempo (finais da década de 50) em que as atenções estão fragmentadas e as sensibilidades embotadas pelos superlativos da moda.»

quinta-feira, agosto 16, 2007

Paris, Janeiro 1994



Paris nessa noite tinha a luz
distribuída pelas gotas da chuva.

Sartre e Beauvoir não estavam lá.

No Café de Flore, três ou quatro
colheres de açúcar afogavam
o amargo do café. Beberam-no
primeiro os meus olhos
como um ritual, os lábios
depois, na minha língua
mais tarde escreveria
um poema previsível.

Outras vezes, Paris era um bocado
de ar azulado.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Um diálogo com o Narciso

Tens um rosto na memória
o teu rosto no fundo da água

Entorna os olhos
sobre o lago, como duas contas
de vidro

Como o poeta, eu Narciso
indago em mim mesmo
na transparência das águas

os versos e os dias
à flor da melancolia.

1-8-2007

sábado, agosto 04, 2007

Recomendações para o Exílio




Poema de Adam Zagajewski


Viajar sem equipagem, dormir no comboio,
num duro banco de madeira,
esquecer o país natal,
emergir de pequenas estações
à primeira luz do dia.

(Trad.J.T.Parreira)


Boas Férias!

quinta-feira, agosto 02, 2007

Oásis

do poeta sevilhano Manuel Machado(irmão de Antonio Machado)

Sonha o leão.
Junto às três palmeiras
amansa-se o sol. Existe
a água. E Deus deixa um momento
que os pobres camelos se ajoelhem...
Junto às três palmeiras,
o árabe, estendido, por fim, sorri
e suspira... Damasco
distante ainda o espera. Os confins
do horizonte acesos brilham.
Um silêncio terrível
enche o ar... Na areia
treme a sombra elástica de um tigre.

(Trad. J.T.Parreira)