A Poesia é o assunto do Poema - Wallace Stevens . Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico.
quinta-feira, agosto 23, 2007
Movimento Literário
You send me your poems,
I’ll send you mine
Robert Creeley
Vamos trocar nossos poemas
Como quem troca os olhos
Com cumplicidades
Uma veloz palavra
Tenderá a sair do círculo
Deixará para trás
Ângulos obtusos e a tautologia
Das quatro paredes
Trocaremos nossos silêncios, ínfimos
Nadas com profundidades
Mandem vossos poemas
Em especial os que rimam
Contra a corrente
Mandarei os meus.
segunda-feira, agosto 20, 2007
A Bicicleta Verde
«They said, you have a blue guitar,
you do not play things as they are.»
Wallace Stevens
A menina curvou o olhar sobre a bicicleta,
Uma menina com imaginação, nos seus olhos
O verde pintou a Terra.
A menina aproveitou o vento
Que brandia as folhas e disse
-Vou pintar de verde a bicicleta,
Terei uma bicicleta verde
Para ser inteira com a natureza,
Se passar pelas folhas
Serei um vento mais
-Não será um raio azul, nem uma estrela
Amarela, nem sequer uma sombra vermelha,
Será um riso verde quando passar rolando.
18-8-2007
you do not play things as they are.»
Wallace Stevens
A menina curvou o olhar sobre a bicicleta,
Uma menina com imaginação, nos seus olhos
O verde pintou a Terra.
A menina aproveitou o vento
Que brandia as folhas e disse
-Vou pintar de verde a bicicleta,
Terei uma bicicleta verde
Para ser inteira com a natureza,
Se passar pelas folhas
Serei um vento mais
-Não será um raio azul, nem uma estrela
Amarela, nem sequer uma sombra vermelha,
Será um riso verde quando passar rolando.
18-8-2007
sábado, agosto 18, 2007
«On the Road», 1957


Edições portuguesa, de 1960, e ucraniana, 1995
Jack Kerouac disse um dia a propósito das várias edições estrangeiras da sua obra «On the Road»: «Quando for velho, sabem o que vou fazer? Vou estudar línguas para ler todas as traduções do meu «Pela Estrada Fora».
Mas Kerouac não chegou à velhice – morreu em 1969 com 47 anos. Mas as edições traduzidas , especialmente do seu romance ícone, continuam a multiplicar-se.
Quando da edição original do livro, em 1957,o «The New York Times » de 5 de Setembro desse ano, publicava um texto na secção «Os Livros do Times», cujo autor dizia de «On The Road», em síntese, o seguinte: « É a segunda novela de Jack Kerouac e a sua publicação é um histórico momento não distante da exposição de uma autêntica obra de arte.
Absorvente, intrigante, picaresca.
É uma obra que requer uma exegese, porque é uma grande ocasião para se entender este tempo (finais da década de 50) em que as atenções estão fragmentadas e as sensibilidades embotadas pelos superlativos da moda.»
quinta-feira, agosto 16, 2007
Paris, Janeiro 1994
Paris nessa noite tinha a luz
distribuída pelas gotas da chuva.
Sartre e Beauvoir não estavam lá.
No Café de Flore, três ou quatro
colheres de açúcar afogavam
o amargo do café. Beberam-no
primeiro os meus olhos
como um ritual, os lábios
depois, na minha língua
mais tarde escreveria
um poema previsível.
Outras vezes, Paris era um bocado
de ar azulado.
segunda-feira, agosto 13, 2007
Um diálogo com o Narciso
Tens um rosto na memória
o teu rosto no fundo da água
Entorna os olhos
sobre o lago, como duas contas
de vidro
Como o poeta, eu Narciso
indago em mim mesmo
na transparência das águas
os versos e os dias
à flor da melancolia.
1-8-2007
o teu rosto no fundo da água
Entorna os olhos
sobre o lago, como duas contas
de vidro
Como o poeta, eu Narciso
indago em mim mesmo
na transparência das águas
os versos e os dias
à flor da melancolia.
1-8-2007
quinta-feira, agosto 09, 2007
sábado, agosto 04, 2007
Recomendações para o Exílio
sexta-feira, agosto 03, 2007
quinta-feira, agosto 02, 2007
Oásis
do poeta sevilhano Manuel Machado(irmão de Antonio Machado)
Sonha o leão.
Junto às três palmeiras
amansa-se o sol. Existe
a água. E Deus deixa um momento
que os pobres camelos se ajoelhem...
Junto às três palmeiras,
o árabe, estendido, por fim, sorri
e suspira... Damasco
distante ainda o espera. Os confins
do horizonte acesos brilham.
Um silêncio terrível
enche o ar... Na areia
treme a sombra elástica de um tigre.
(Trad. J.T.Parreira)
Sonha o leão.
Junto às três palmeiras
amansa-se o sol. Existe
a água. E Deus deixa um momento
que os pobres camelos se ajoelhem...
Junto às três palmeiras,
o árabe, estendido, por fim, sorri
e suspira... Damasco
distante ainda o espera. Os confins
do horizonte acesos brilham.
Um silêncio terrível
enche o ar... Na areia
treme a sombra elástica de um tigre.
(Trad. J.T.Parreira)
quarta-feira, agosto 01, 2007
segunda-feira, julho 30, 2007
domingo, julho 29, 2007
O Sorriso de Gioconda
terça-feira, julho 24, 2007
O Galo e Marc Chagall

O GALO
Un gallo
cantò; altri risposero qua e lá.
Umberto Saba
Um galo
cantou e outro respondeu
que está lá
no seu posto móvel
no vento
qualquer coisa negra
começa a desfazer-se
em claridade, a noite
repassa as outras latitudes
qualquer coisa começa
a restaurar-se nas janelas
as casas respondem
outros animais
retomam nos quintais
a domesticada vida
numa repetição sem tédio
nem deleite, um galo
avançou com a rotina
em todo o seu canto
que procede
do silêncio.
sexta-feira, julho 20, 2007
A Demolição

Gabriel Orozco, México, Instalação
Ruiu a casa velha para o fundo
para dentro de si própria
ontem era ainda
um retrato de azulejos
do passado, caiu
abaixo do silêncio
contra o qual a fachada
ao longo destes anos resistiu.
Silenciou as cortinas pobres
das vidraças, que mal se sustinham
já de pé. A sua sombra
jamais espalhará
toda a casa na calçada.
quarta-feira, julho 11, 2007
Gostaria de dizer
Gostaria de dizer
que nasci numa cidade pequena
na casa do largo principal
num universo
com paredes
ancestrais
Gostaria de dizer
que nasci numa casa de província
com o cheiro do fogo
a sair com o frio pelas janelas
mas não
e numa cidadezinha com um rio
como um espelho em frente
de cada porta, plano
e macio?
que nasci numa cidade pequena
na casa do largo principal
num universo
com paredes
ancestrais
Gostaria de dizer
que nasci numa casa de província
com o cheiro do fogo
a sair com o frio pelas janelas
mas não
e numa cidadezinha com um rio
como um espelho em frente
de cada porta, plano
e macio?
terça-feira, julho 10, 2007
SÍSIFO

Ilustração de Julio Saens
Antes que a montanha volte
a inclinar-se, se torne móvel
pelo rolar da rocha e o chão
repita a sua distância
do azul
Antes que teu rosto junto
à rocha, tão perto do magma
apagado do interior do nada,
olhe o píncaro
ao fundo do céu,
antes que esse céu imobilize
o voo dos pássaros
e encostes da pele
a intimidade
ao coração da pedra
sabe que há olhares enternecidos
que estão ainda à tua espera
e da estrela inacessível.
18-3-2007
quinta-feira, julho 05, 2007
Rua suja
A rua deixa adormecer o canto
dos seus heróis, aqui os sonhos
não se dão nos quartos, nem as rosas
respiram as gotas de água
num boquet
De dia turistas aumentam o medo
do olho atrás da lente
tudo se foca nesta rua
sufoca-se no verão
entre roupa acenando nos varais
Depois
que os moradores saem
para as rotinas
das pequenas colinas
de frente para o rio.
dos seus heróis, aqui os sonhos
não se dão nos quartos, nem as rosas
respiram as gotas de água
num boquet
De dia turistas aumentam o medo
do olho atrás da lente
tudo se foca nesta rua
sufoca-se no verão
entre roupa acenando nos varais
Depois
que os moradores saem
para as rotinas
das pequenas colinas
de frente para o rio.
terça-feira, julho 03, 2007
segunda-feira, julho 02, 2007
A tarefa do poeta
« Le poète a fini sa tâche »
Paul Verlaine
O poeta acabou a sua tarefa.
A época não foi de rosas
nem de sonetos que batem
como o coração das amadas
nem de salmos que são a língua
instrumental dos anjos.
A tarefa do poeta não é o desenho
de uma harpa no vento
de uma rosa no papel
irrespirável.
O poeta acabou o seu tempo.
Cansaço dos sonhos que irrigam
o cérebro, com as alegrias
alguns desencontros? o poeta
acolhe o fim com as mãos lentas
da tranquilidade.
O poeta pousou as armas.
Embora o dia continue a subir
na revolução ardente do sol
embora a poesia
continue a nascer, o poeta
cansado, pousou as palavras.
Paul Verlaine
O poeta acabou a sua tarefa.
A época não foi de rosas
nem de sonetos que batem
como o coração das amadas
nem de salmos que são a língua
instrumental dos anjos.
A tarefa do poeta não é o desenho
de uma harpa no vento
de uma rosa no papel
irrespirável.
O poeta acabou o seu tempo.
Cansaço dos sonhos que irrigam
o cérebro, com as alegrias
alguns desencontros? o poeta
acolhe o fim com as mãos lentas
da tranquilidade.
O poeta pousou as armas.
Embora o dia continue a subir
na revolução ardente do sol
embora a poesia
continue a nascer, o poeta
cansado, pousou as palavras.
sábado, junho 30, 2007
Morte da Poeta da «Poesia Livre» em Árabe

NAZIK AL-MALAIKA
"Súplicas, salmos, ex-votos brindámos nessa hora
Pão, vinho e tâmaras da Babel embriagante
E de rosa o encanto
Logo aos teus olhos orando, oferenda imolámos
Da lágrima ardente em dilúvio as gotas juntámos –
Um rosário de pranto." – Cânticos à Dor, de Nazik Al-Malaika
Aos 84 anos, morreu Nazik Al-Malaika, uma das mais solitárias vozes poéticas iraquianas e do conjunto da literatura árabe. No Cairo, a 20 de Junho de 2007.
Desta poetisa, nascida em Bagdade em 1923, a poesia tomou o rumo dos caminhos da introspecção ontológica, levando o pessimismo poético quase ao limite de uma linguagem filosoficamente estóica, de suporte de uma dor intensa, mas também intensamente lírica.
Nazik era a poetisa da tragédia da vida. No entanto, quando publicou a sua primeira antologia há mais de 50 anos, ao utilizar o vocábulo "noite", tornou-o símbolo de poesia, imaginação, sonho, beleza das estrelas, do prodígio do luar sobre o bruxuleante Tigre.
Nazil Al-Malaika representou uma nova tendência como poeta, expressando-a, defendendo-a e auto-analisando-a firme e solitariamente, como pioneira, fosse na crítica literária, na arte poética ou mesmo na sua condição de Mulher, num mundo eminentemente masculino, de supremacia do género.
Por esta razão, podemos afirmar que a sua obra influenciou gerações de poetas. Outros poetas do Iraque, a maioria vivendo no exílio – diz-se que na década de 90 ficaram apenas cinco a residir no país – contudo escrevem uma poesia que caracterizou o estilo poético iraquiano, o qual é classificado desde o tradicional ao moderno, passando pelos limites do experimental, com temas que cobrem territórios comunicacionais como o amor, a guerra, as antigas sanções da ONU, o fascismo, a tortura, a prisão, o exílio, etc. E agora a orfandade da sua Poeta maior, Nazil Al-Malaika, que publicou a última obra em 1997 no Cairo, um conjunto de relatos em que fala do Sol abaixo do seu próprio apogeu. Uma premonição para o estado a que chegou a sua terra, outrora fértil e agora devastada.
sábado, junho 23, 2007
sexta-feira, junho 22, 2007
Nocturno de Mim
Quando a noite chega e meus olhos
são uma sala vazia, quando a noite chega
e olho meus livros, os meus utensílios
com palavras na penumbra, é a hora da luz
iluminar com a sua água sobre a mesa
quando a noite chega
quando chega num cigarro abortado
antes da última cinza, quando a noite chega
e as janelas transparentes no escuro
quando chega a noite
estou cercado de perguntas, algumas
respondo, outras cingem-me os ombros
quando a noite chega sou como nuvens
que procuram casa sem parar seu rumo.
Setembro de 1998
são uma sala vazia, quando a noite chega
e olho meus livros, os meus utensílios
com palavras na penumbra, é a hora da luz
iluminar com a sua água sobre a mesa
quando a noite chega
quando chega num cigarro abortado
antes da última cinza, quando a noite chega
e as janelas transparentes no escuro
quando chega a noite
estou cercado de perguntas, algumas
respondo, outras cingem-me os ombros
quando a noite chega sou como nuvens
que procuram casa sem parar seu rumo.
Setembro de 1998
quarta-feira, junho 20, 2007
A morte nunca foi uma coisa gloriosa
A morte nunca foi uma coisa gloriosa
quando a vi pela primeira vez
Mais tarde
vi-a de outro modo
Outras mortes cheias de olhos grandes
eram olhos desmedidos
como se abertos para
a beleza escondida.
quando a vi pela primeira vez
Mais tarde
vi-a de outro modo
Outras mortes cheias de olhos grandes
eram olhos desmedidos
como se abertos para
a beleza escondida.
domingo, junho 17, 2007
Arabescos do Vento
domingo, junho 10, 2007
Os Livros
segunda-feira, junho 04, 2007
2 Haikus
sábado, junho 02, 2007
As Ceifeiras de Pessoa e Wordsworth
Um século com as suas crises de romantismo, simbolismo e futurismo se entrepõe entre a romantizada ceifeira de William Wordsworth e a ceifeira modernista de Fernando Pessoa.
A primeira, vê-se sob a luz do bucolismo da viagem do poeta inglês à Escócia, em 1803; a segunda é vista na imaginação de Pessoa, a partir da urbanidade de Lisboa, datada antes de 19-1-1915.
Uma é toda realidade bucólica, a outra é argumento para o pensamento filosófico sobre o Ser; a «escocesa» é apenas uma ceifeira, a «portuguesa» é ícone para o mistério ontológico. Claro que a primeira é um retrato poético de um poeta romântico, a segunda é um poema de Pessoa, que -parafraseando o próprio- tem mais razões para escrever que a vida.
ONDE PESSOA FOI BUSCAR A SUA CEIFEIRA?
Nas várias obras que o poeta português exibia nas estantes da sua posteriormente chamada Biblioteca Fernandina, como nas incalculáveis e diversificadas leituras que foi fazendo enquanto duraram os seus óculos.
Nessa mistura de livros avultam as obras críticas e as obras de poesia do romantismo inglês.
A relação entre a obra poética heterónima e ortónima de Pessoa com os livros que leu, o que o poeta terá ou não assimilado, torna-se hoje impossível pelo lado do acesso a esses volumes. É sabido, nos meios pessoanos, que Pessoa «vendeu livros para aquisição de outros, ofereceu livros a amigos, perdeu alguns como resultado de mudanças de residência e arrumações apressadas.»
Há, no entanto, mais do que uma simples relação entre leituras, ou uma predisposição para estar simplesmente ao serviço das musas da inspiração sobre qualquer coisa como ceifeiras, salvo melhor opinião.
Entre os versos iniciais do poema pessoano (vd. Poesias, Ática, 1973, pág. 110 ) «Ela canta, pobre ceifeira, \ Julgando-se feliz talvez», e os 5º e 6º versos da primeira estrofe do poema de Wordsworth, «Sozinha ceifa no mundo \ E canta melancolia», não é apenas a mobilidade do tempo que transcorre, mas uma mistura de características que se presume unirem para identificar a actividade, a atitude e o estado psicológico da «mesma» ceifeira. Em ambos os poetas a personagem passa pelo mundo com idêntica melancolia e em ambos os retratos existe, no fundo, igual tendência para a filosofia.
De facto, tanto em Fernando Pessoa como no poeta romântico inglês, ambos os poemas se iniciam com o recurso a bucolismos, para partirem finalmente rumo à filosofia da tristeza, à análise do ser, ao estado de solidão, ao auto-convencimento de que se é «feliz talvez ». Em qualquer dos casos, sobe-se da beleza bucólica do campo para um patamar de suposto pessimismo quanto à vida.
Porém, este aspecto tendente à filosofia está mais presente no autor português. Nos versos da «Ceifeira», como em quase toda a sua poesia, a poética pessoana nunca foi, não é ainda e nem será jamais isolada da filosofia, tanto no fundo como na forma.
Assim é esta poesia que começa por uma exclamação admirativa, não tanto do cantar da ceifeira, mas de que pesando as circunstâncias «Ela canta, pobre ceifeira.»
A primeira, vê-se sob a luz do bucolismo da viagem do poeta inglês à Escócia, em 1803; a segunda é vista na imaginação de Pessoa, a partir da urbanidade de Lisboa, datada antes de 19-1-1915.
Uma é toda realidade bucólica, a outra é argumento para o pensamento filosófico sobre o Ser; a «escocesa» é apenas uma ceifeira, a «portuguesa» é ícone para o mistério ontológico. Claro que a primeira é um retrato poético de um poeta romântico, a segunda é um poema de Pessoa, que -parafraseando o próprio- tem mais razões para escrever que a vida.
ONDE PESSOA FOI BUSCAR A SUA CEIFEIRA?
Nas várias obras que o poeta português exibia nas estantes da sua posteriormente chamada Biblioteca Fernandina, como nas incalculáveis e diversificadas leituras que foi fazendo enquanto duraram os seus óculos.
Nessa mistura de livros avultam as obras críticas e as obras de poesia do romantismo inglês.
A relação entre a obra poética heterónima e ortónima de Pessoa com os livros que leu, o que o poeta terá ou não assimilado, torna-se hoje impossível pelo lado do acesso a esses volumes. É sabido, nos meios pessoanos, que Pessoa «vendeu livros para aquisição de outros, ofereceu livros a amigos, perdeu alguns como resultado de mudanças de residência e arrumações apressadas.»
Há, no entanto, mais do que uma simples relação entre leituras, ou uma predisposição para estar simplesmente ao serviço das musas da inspiração sobre qualquer coisa como ceifeiras, salvo melhor opinião.
Entre os versos iniciais do poema pessoano (vd. Poesias, Ática, 1973, pág. 110 ) «Ela canta, pobre ceifeira, \ Julgando-se feliz talvez», e os 5º e 6º versos da primeira estrofe do poema de Wordsworth, «Sozinha ceifa no mundo \ E canta melancolia», não é apenas a mobilidade do tempo que transcorre, mas uma mistura de características que se presume unirem para identificar a actividade, a atitude e o estado psicológico da «mesma» ceifeira. Em ambos os poetas a personagem passa pelo mundo com idêntica melancolia e em ambos os retratos existe, no fundo, igual tendência para a filosofia.
De facto, tanto em Fernando Pessoa como no poeta romântico inglês, ambos os poemas se iniciam com o recurso a bucolismos, para partirem finalmente rumo à filosofia da tristeza, à análise do ser, ao estado de solidão, ao auto-convencimento de que se é «feliz talvez ». Em qualquer dos casos, sobe-se da beleza bucólica do campo para um patamar de suposto pessimismo quanto à vida.
Porém, este aspecto tendente à filosofia está mais presente no autor português. Nos versos da «Ceifeira», como em quase toda a sua poesia, a poética pessoana nunca foi, não é ainda e nem será jamais isolada da filosofia, tanto no fundo como na forma.
Assim é esta poesia que começa por uma exclamação admirativa, não tanto do cantar da ceifeira, mas de que pesando as circunstâncias «Ela canta, pobre ceifeira.»
quarta-feira, maio 30, 2007
Com uma gaiola vazia

Com uma gaiola vazia uma criança
olha para a linha
de um pássaro
a formar-se no horizonte
a sua forma
de ave vem à frente
um passo
do que a vista alcança
Uma porta aberta
na gaiola range
e o pássaro a contempla
a gaiola e os dois reflexos
da esperança
com que a criança olha
as linhas da ave
tiradas do horizonte.
segunda-feira, maio 28, 2007
sábado, maio 26, 2007
The small feet of Pavlova
sábado, maio 19, 2007
As bailarinas de Degas
quinta-feira, maio 17, 2007
Poema de Billy Collins

ANDAR ATRAVÉS DO ATLÂNTICO
Eu espero que a multidão das férias despeje a praia
antes de pisar na primeira onda.
Logo eu estou a caminhar através do Atlântico
a pensar na Espanha,
verificando as baleias, as trombas marítimas.
Eu sinto as águas a deslocarem o meu peso para cima.
Hoje à noite eu dormirei nesta superfície móvel.
Mas por agora eu tento imaginar o que
deve parecer aos peixes em baixo,
o fundo dos meus pés que aparecem, desaparecem.
(Tradução de J.T.Parreira)
quarta-feira, maio 16, 2007
Os pastores da Arcádia

Permanecem para lá da pele
da ovelha, permanecem pelo olhar
suave dos cordeiros, em frente
de uma estrada que arrasta
o olhar medroso do rebanho
na civilização das máquinas
Os pastores permanecem, embora à noite
lhes pese nos olhos a ovelha
perdida e ainda tenham,
contra o flanco das cabras,
que retirar o leite.
quinta-feira, maio 10, 2007
Chamo-os
(Uma conversação sobre Hebreus 11, 4, ss )
Os ombros de Abel, de longe
voltam-se para mim
e um cordeiro emana
como nuvem de lã
E Enoque, que saía do chão, volúvel
transparente
para a alegria celeste
Estava Noé no silêncio
da sua janela, no meio de escura água
e olhava para cima, movido
pelas fontes do céu
E Abraão, quando chamado
viu ao longe, desafiou os olhos
para a luz suave das estrelas
Em algum sótão do sono
Jacob necessitava de um pouco
de sonho
E pelas pegadas do gado Moisés,
pelo deserto, regressa
até mim.
Chamo-os, enquanto
Raabe do corpo
desenlaça
um fio escarlate.
Os ombros de Abel, de longe
voltam-se para mim
e um cordeiro emana
como nuvem de lã
E Enoque, que saía do chão, volúvel
transparente
para a alegria celeste
Estava Noé no silêncio
da sua janela, no meio de escura água
e olhava para cima, movido
pelas fontes do céu
E Abraão, quando chamado
viu ao longe, desafiou os olhos
para a luz suave das estrelas
Em algum sótão do sono
Jacob necessitava de um pouco
de sonho
E pelas pegadas do gado Moisés,
pelo deserto, regressa
até mim.
Chamo-os, enquanto
Raabe do corpo
desenlaça
um fio escarlate.
quarta-feira, maio 09, 2007
Literary Kicks
New Poems
Here are a few recently posted poems from Action Poetry that have caught our eye ...
VILLEGIATURA by JTParreira
Words by roseberry
On SexSounds Through Walls by Nasdijj
Here are a few recently posted poems from Action Poetry that have caught our eye ...
VILLEGIATURA by JTParreira
Words by roseberry
On SexSounds Through Walls by Nasdijj
quarta-feira, maio 02, 2007
Vilegiatura
domingo, abril 29, 2007
Charles Reznikoff, traduzido
sábado, abril 28, 2007
Tudo o que vier depois
Tudo o que vier depois
do fogo, será a matéria
da cinza,
o que vier depois da tempestade,
um lugar
qualquer para refazer os vasos
e moldar o barro,
um silêncio frágil
espalhado pelos dedos.
Tudo o que vier depois
da voz, o eco de um nome
de um amor inesperados
O que vier depois da casa
em ruínas, as formas
do silêncio inabitado
Tudo o que vier depois
da altura, o que vier despido
já da luz e de poesia,
os pássaros difíceis, a chuva
que arde nos olhos, a terra
que na neve tem o toque da ternura.
23-4-2007
do fogo, será a matéria
da cinza,
o que vier depois da tempestade,
um lugar
qualquer para refazer os vasos
e moldar o barro,
um silêncio frágil
espalhado pelos dedos.
Tudo o que vier depois
da voz, o eco de um nome
de um amor inesperados
O que vier depois da casa
em ruínas, as formas
do silêncio inabitado
Tudo o que vier depois
da altura, o que vier despido
já da luz e de poesia,
os pássaros difíceis, a chuva
que arde nos olhos, a terra
que na neve tem o toque da ternura.
23-4-2007
sexta-feira, abril 27, 2007
Edith Piaf: Rien
Edith Piaf Non,je ne regrette rien 12-1960
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
C’est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé
Avec mes souvenirs
J’ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n’ai plus besoin d’eux
Balayé les amours
Avec leurs trémolos
Balayé pour toujours
Je repars à zéro
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien, qu’on m’a fait,
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd’hui,
Ça commence avec toi
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
C’est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé
Avec mes souvenirs
J’ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n’ai plus besoin d’eux
Balayé les amours
Avec leurs trémolos
Balayé pour toujours
Je repars à zéro
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien, qu’on m’a fait,
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd’hui,
Ça commence avec toi
sábado, abril 21, 2007
O intérprete
terça-feira, abril 17, 2007
Despedida
O poeta Joanyr de Oliveira, à esquerda, em 1998Como Antigona quis
empedrar-me aqui
longe de palavras, de certas
arestas de pedra nas palavras
que vêm de algumas bocas
perturbar nosso canto
Fatigado de mim mesmo
gasto ainda meus olhos
na claridade das metáforas
e cativo fragmentos
de uma rosa desferida
pelo vento
apanhador do voo
das borboletas.
(Para o meu amigo Joanyr de Oliveira)
quinta-feira, abril 12, 2007
Um mendigo
musching a plum on
the street a paper bag
(mascando ameixas pela
rua num saco de papel)
William Carlos Williams
Tira as rugas ao papel
de uma das pernas
das calças, põe
o saco ao ombro
- já andou
por melhores mãos
agora
recolhe meio
comidos restos
O casaco cuja lã é leve
no nono ano cheio
de destinos e
caminhos
retirou há muito
uma das mangas, tem
menos um braço
para abraçar a solidão
Um sapato
vai descalçando
um pé.
the street a paper bag
(mascando ameixas pela
rua num saco de papel)
William Carlos Williams
Tira as rugas ao papel
de uma das pernas
das calças, põe
o saco ao ombro
- já andou
por melhores mãos
agora
recolhe meio
comidos restos
O casaco cuja lã é leve
no nono ano cheio
de destinos e
caminhos
retirou há muito
uma das mangas, tem
menos um braço
para abraçar a solidão
Um sapato
vai descalçando
um pé.
quarta-feira, abril 11, 2007
O Tempo que passou
sexta-feira, abril 06, 2007
segunda-feira, abril 02, 2007
Literary Kicks
New Poems
Here are a few recently posted poems from Action Poetry that have caught our eye ...
Train by Silver-Golem
Antigone( Revised) by JTParreira
Box Of Memories by nerdgirl
Here are a few recently posted poems from Action Poetry that have caught our eye ...
Train by Silver-Golem
Antigone( Revised) by JTParreira
Box Of Memories by nerdgirl
domingo, abril 01, 2007
Regressos
Os teus ruídos
chegaram a casa
a casa encheu
de luz
as janelas
abriram-se cortinas
voaram
no vento
quando
voltaste
a sair
os teus ruídos.
2006
chegaram a casa
a casa encheu
de luz
as janelas
abriram-se cortinas
voaram
no vento
quando
voltaste
a sair
os teus ruídos.
2006
sexta-feira, março 30, 2007
quarta-feira, março 28, 2007
O Visual na Poesia (Juan Manuel Roca)*
“Lo visual en la poesía, valga decirlo, no tiene únicamente que ver con la disposición tipográfica, aunque fuera tan esencial en los poemas de un gran visionario y vísionador del cubismo, Guillaume Apollínaire y sus Caligramas, sino, más allá de la piel, de la epidermis del lenguaje, en la capacidad evocadora”. Por eso, sostiene, “podemos comparar la mar con una carpintería, porque la garlopa arroja cantidades de viruta a las playas del mundo”, pues la metáfora, “que en griego quiere decir traslado, transporte, llevar de un lado a otro, de una realidad a otra, da a luz nuevas realidades”. Y entonces nos revela cómo, luego de una semana de noches de tormento e insomnia, creó las metáforas o kenningars que cambiaron el discurrir de la poesía en español y que tanto han imitado, sin superarlas, los poetas que le siguen:
El brazo del río jamás esgrime espada.
Los dientes de ajo no comen duraznos.
El ojo de agua desconoce el monóculo.
El cuello de botella no porta collares.
La oreja del pocillo no escucha a Beethoven.
Las manecillas del reloj no usan guantes en invierno.
Los durmientes del ferrocarril no se despiertan a su paso.
Las palmas de las manos no dan dátiles.
La luna de miel no atrae a las moscas.
Las cabezas de los fósforos no tienen aureola, aunque alumbren como santos."
* Poeta columbiano, in revista Arquitrave
domingo, março 25, 2007
Antígona
sexta-feira, março 23, 2007
Quarto com vista para a Tabacaria
Não há nada
a fazer, com a janela
vêm vidros de gelo
e o fundo da noite.
Nunca será nada
mais do que uma janela
mesmo com a luz dentro de si.
Não pode querer ser nada.
Outra coisa à parte, tem em si mesma
olhos para os sonhos do mundo.
Quarto com vista para a tabacaria
para o mistério
da liberdade do vento
que sopra forte mas acomoda-se
contra as pedras.
Há milhões destes quartos
no mundo com paredes presas
por baixo de quadros, com humidade
nas paisagens e nas naturezas-mortas.
a fazer, com a janela
vêm vidros de gelo
e o fundo da noite.
Nunca será nada
mais do que uma janela
mesmo com a luz dentro de si.
Não pode querer ser nada.
Outra coisa à parte, tem em si mesma
olhos para os sonhos do mundo.
Quarto com vista para a tabacaria
para o mistério
da liberdade do vento
que sopra forte mas acomoda-se
contra as pedras.
Há milhões destes quartos
no mundo com paredes presas
por baixo de quadros, com humidade
nas paisagens e nas naturezas-mortas.
quarta-feira, março 21, 2007
Dia Mundial da (anti-)Poesia
CONVERSA ÀS 3:30 DA MANHÃ
Às 3:30 da manhã
a porta abre-se para uns pés
no corredor arrastando um corpo
soa um toque
descansas a tua cerveja
e vais responder.
Caramba! Diz ela,
você nunca tem sono?
E vai entrando com papelotes
nos cabelos
ela mesma é uma veste de seda
coberta com pássaros e coelhos
Ela trouxe a sua própria garrafa
a que juntas com magnificência
2 copos;
o marido, diz ela, está na Florida
a irmã envia-lhe dinheiro e vestidos
e ela tem procurado um emprego
há 32 dias.
Tu contas-lhe
que és corrector de apostas e um
compositor de jazz e de canções de amor,
e depois de alguns copos
ela não se incomoda com cobrir
as pernas
com a orla do roupão sempre a afastar-se.
Não são nada mal feitas, suas pernas
de facto, são perfeitas
e em breve tu estás a beijar uma
cabeça cheia de pedaços de papel.
E os coelhos estão a começar
a piscar, e a Florida é uma longa
ausência, diz ela nós não somos estranhos
até porque me tem visto no corredor.
E finalmente
há muito pouco
para dizer.
(Charles Bukowski)
Tradução de J.T.Parreira
Às 3:30 da manhã
a porta abre-se para uns pés
no corredor arrastando um corpo
soa um toque
descansas a tua cerveja
e vais responder.
Caramba! Diz ela,
você nunca tem sono?
E vai entrando com papelotes
nos cabelos
ela mesma é uma veste de seda
coberta com pássaros e coelhos
Ela trouxe a sua própria garrafa
a que juntas com magnificência
2 copos;
o marido, diz ela, está na Florida
a irmã envia-lhe dinheiro e vestidos
e ela tem procurado um emprego
há 32 dias.
Tu contas-lhe
que és corrector de apostas e um
compositor de jazz e de canções de amor,
e depois de alguns copos
ela não se incomoda com cobrir
as pernas
com a orla do roupão sempre a afastar-se.
Não são nada mal feitas, suas pernas
de facto, são perfeitas
e em breve tu estás a beijar uma
cabeça cheia de pedaços de papel.
E os coelhos estão a começar
a piscar, e a Florida é uma longa
ausência, diz ela nós não somos estranhos
até porque me tem visto no corredor.
E finalmente
há muito pouco
para dizer.
(Charles Bukowski)
Tradução de J.T.Parreira
segunda-feira, março 19, 2007
Talvez depois desta imagem, não haja mais Poesia

La imagen de ese buitre acechando a una niña moribunda en África le persiguió en vida. Con ella atrapó el Pulitzer, pero también la maldición de una pregunta: “¿Qué hiciste para ayudarla?”. A Kevin Carter, cronista gráfico de la Suráfrica del 'apartheid', la presión le empujó al suicidio. Un periodista testigo de aquellos años rememora su figura.
Créditos: El Pais, de hoje, Dia do Pai.
sexta-feira, março 16, 2007
Se tudo volta a começar
Quiero decirlo ahoraporque si no después las cosas se complican.
Soy peor todavía de lo que muchos creen.
Me gusta justamente el plato que otro come
aburro una tras otra mis camisas
me encantan los entierros y odio los recitales
duermo como una bestia
deseo que los muebles estén más de mil años en el mismo lugar
y aunque a escondidas uso tu cepillo de dientes
no quiero que te peines con mi peine.
Te explico estas cuestiones
porque si todo vuelve a comenzar
no me hagas mucho caso acuérdate.
terça-feira, março 13, 2007
Buffalo 66
segunda-feira, março 12, 2007
Manuel Machado
VERANO
Frutales
cargados.
Dorados
trigales...
Cristales
ahumados.
Quemados
jarales...
Umbría
sequía,
solano...
Paleta
completa:
verano.
Frutales
cargados.
Dorados
trigales...
Cristales
ahumados.
Quemados
jarales...
Umbría
sequía,
solano...
Paleta
completa:
verano.
quinta-feira, março 08, 2007
Pavlova
terça-feira, março 06, 2007
Poema.
Poema
Lana Turner veio abaixo!
Eu vagueava pelo quarteirão e de repente
soltaram-se a chuva e a neve
e tu disseste que era granizo
mas o granizo bate na cabeça
com dureza, de modo que nevava e
chovia e eu estava com essa pressa
de me encontrar contigo mas o tráfego
representava rigorosamente como o céu
e subitamente vi um título
LANA TURNER VEIO ABAIXO!
Não há neve nenhuma em Hollywood
nem chuva na Califórnia
tenho estado em muitas festas
e agi como um acabado indecoroso
mas na realidade nunca desmaiei
oh Lana Turner nós amamo-la levante-se
(1962)
Frank O'Hara, Baltimore, 1926-1966
(Tradução de J.T.Parreira)
Lana Turner veio abaixo!
Eu vagueava pelo quarteirão e de repente
soltaram-se a chuva e a neve
e tu disseste que era granizo
mas o granizo bate na cabeça
com dureza, de modo que nevava e
chovia e eu estava com essa pressa
de me encontrar contigo mas o tráfego
representava rigorosamente como o céu
e subitamente vi um título
LANA TURNER VEIO ABAIXO!
Não há neve nenhuma em Hollywood
nem chuva na Califórnia
tenho estado em muitas festas
e agi como um acabado indecoroso
mas na realidade nunca desmaiei
oh Lana Turner nós amamo-la levante-se
(1962)
Frank O'Hara, Baltimore, 1926-1966
(Tradução de J.T.Parreira)
segunda-feira, março 05, 2007
Frank O'Hara, o poema...
Poem
Lana Turner has collapsed!
I was trotting along and suddenly
it started raining and snowing
and you said it was hailing
but hailing hits you on the head
hard so it was really snowing and
raining and I was in such a hurry
to meet you but the traffic
was acting exactly like the sky
and suddenly I see a headline
LANA TURNER HAS COLLAPSED!
there is no snow in Hollywood
there is no rain in California
I have been to lots of parties
and acted perfectly disgraceful
but I never actually collapsed
oh Lana Turner we love you get up
A versão com dicção coloquial brasileira:
Lana Turner desmaiou!
Eu tava apressado pela rua e de repente
começou a chover e a nevar
e você falou que era granizo
mas cara granizo bate com força
na cabeça era neve mesmo
e chuva e eu morrendo de pressa
pra te encontrar mas o trânsito
tava naqueles dias como o céu
e de repente vejo a notícia
LANA TURNER DESMAIOU!
Não tá nevando em Hollywood
Não tá chovendo na Califórnia
Já fui num monte de festas
e dei perfeitos vexames
mas nunca desmaiei de fato
Lana Turner te amamos levanta mulher
(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes)
Amanhã a outra versão.
Lana Turner has collapsed!
I was trotting along and suddenly
it started raining and snowing
and you said it was hailing
but hailing hits you on the head
hard so it was really snowing and
raining and I was in such a hurry
to meet you but the traffic
was acting exactly like the sky
and suddenly I see a headline
LANA TURNER HAS COLLAPSED!
there is no snow in Hollywood
there is no rain in California
I have been to lots of parties
and acted perfectly disgraceful
but I never actually collapsed
oh Lana Turner we love you get up
A versão com dicção coloquial brasileira:
Lana Turner desmaiou!
Eu tava apressado pela rua e de repente
começou a chover e a nevar
e você falou que era granizo
mas cara granizo bate com força
na cabeça era neve mesmo
e chuva e eu morrendo de pressa
pra te encontrar mas o trânsito
tava naqueles dias como o céu
e de repente vejo a notícia
LANA TURNER DESMAIOU!
Não tá nevando em Hollywood
Não tá chovendo na Califórnia
Já fui num monte de festas
e dei perfeitos vexames
mas nunca desmaiei de fato
Lana Turner te amamos levanta mulher
(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes)
Amanhã a outra versão.
sexta-feira, março 02, 2007
El maestro
Él tose
como el ruido último que lo liga al mundo
él mira el silencio, espera
de una fuente la música cristalina de la agua
No vemos, pero él piensa
en cada uno de los instrumentos musicales
Y alarga los brazos, después los ojos y los oídos
que siguen las manos del tamaño de la mano Infinita.
Publicado em Predicado-Comunidad de nuevos escritores
como el ruido último que lo liga al mundo
él mira el silencio, espera
de una fuente la música cristalina de la agua
No vemos, pero él piensa
en cada uno de los instrumentos musicales
Y alarga los brazos, después los ojos y los oídos
que siguen las manos del tamaño de la mano Infinita.
Publicado em Predicado-Comunidad de nuevos escritores
quinta-feira, março 01, 2007
Literary Kicks
New Poems
Here are a few recently posted poems from Action Poetry that have caught our eye ...
Anything given a name by Silas
Where are you Jack? by buddhaamc
The Conductor by JTParreira
Here are a few recently posted poems from Action Poetry that have caught our eye ...
Anything given a name by Silas
Where are you Jack? by buddhaamc
The Conductor by JTParreira
domingo, fevereiro 25, 2007
Jaime Gil de Biedma

A ARQUITRAVE
A gente vive entre pessoas brilhantes. Há quem fale
da arquitrave e seus problemas
como se ela fosse sua prima
-além disso, muito próxima.
Pois bem, parece que a arquitrave
está em perigo grave. Ninguém sabe
muito bem por que assim é, mas dizem-no.
Há quem venha a dizê-lo há vinte anos.
Há quem fale, também, de inimigo:
seres não perceptíveis
estão em toda a parte, insinuam-se
como o pó nos quartos.
E existe quem levante andaimes
para que ninguém caia: povo atento.
(Curioso, que em inglês scaffold signifique
ao mesmo tempo andaime e cadafalso.)
Algum sai à rua
e beija uma rapariga ou compra um livro,
passeia, feliz. E lhe disparam:
Mas como se atreve?
!A arquitrave…!
In Las personas del verbo
(Tradução de J.T.Parreira)
A gente vive entre pessoas brilhantes. Há quem fale
da arquitrave e seus problemas
como se ela fosse sua prima
-além disso, muito próxima.
Pois bem, parece que a arquitrave
está em perigo grave. Ninguém sabe
muito bem por que assim é, mas dizem-no.
Há quem venha a dizê-lo há vinte anos.
Há quem fale, também, de inimigo:
seres não perceptíveis
estão em toda a parte, insinuam-se
como o pó nos quartos.
E existe quem levante andaimes
para que ninguém caia: povo atento.
(Curioso, que em inglês scaffold signifique
ao mesmo tempo andaime e cadafalso.)
Algum sai à rua
e beija uma rapariga ou compra um livro,
passeia, feliz. E lhe disparam:
Mas como se atreve?
!A arquitrave…!
In Las personas del verbo
(Tradução de J.T.Parreira)
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
Notícia Local
As estrelas expandem-se.
A poeira
caiu numa estrada
do Arizona.
Uma rosa de magma
tornou-se sólida
antes que as mãos pudessem
salvar as cinco pétalas.
Uma ave
cobriu-se de poeira
primeiro que nossos olhos
tivessem tempo
de voar no seu corpo.
E o sol escondeu-se, uma sombra
decapitou uma árvore.
19-2-2007
A poeira
caiu numa estrada
do Arizona.
Uma rosa de magma
tornou-se sólida
antes que as mãos pudessem
salvar as cinco pétalas.
Uma ave
cobriu-se de poeira
primeiro que nossos olhos
tivessem tempo
de voar no seu corpo.
E o sol escondeu-se, uma sombra
decapitou uma árvore.
19-2-2007
domingo, fevereiro 18, 2007
Segunda-Feira, de Primo Levi

Que coisa é mais triste que um comboio?
Que parte quando deve,
Que não tem mais que um som,
Que não tem mais do que uma estrada.
Nada é mais triste que um comboio.
Ou talvez um cavalo de tiro.
Está fechado entre duas palas,
Não pode nem olhar para o lado.
A sua vida é andar.
E um homem? Não é triste o homem?
Se vive longamente em solidão
Se crê que chegou ao fim
Também o homem é uma coisa triste.
(Tradução de J.T.Parreira)
Que parte quando deve,
Que não tem mais que um som,
Que não tem mais do que uma estrada.
Nada é mais triste que um comboio.
Ou talvez um cavalo de tiro.
Está fechado entre duas palas,
Não pode nem olhar para o lado.
A sua vida é andar.
E um homem? Não é triste o homem?
Se vive longamente em solidão
Se crê que chegou ao fim
Também o homem é uma coisa triste.
(Tradução de J.T.Parreira)
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
Impressões
(à maneira de e.e.cummings)
As gaivotas estão melancólicas
hoje(pairam
no tédio
dos pátios)na ondulada
pedra
das calçadas,
nas poças de água(só
um céu
de lama)só
argila.
As gaivotas estão melancólicas
hoje(pairam
no tédio
dos pátios)na ondulada
pedra
das calçadas,
nas poças de água(só
um céu
de lama)só
argila.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Espanha no coração:Pablo Neruda
Madrid isolada e solene, Julho te surpreendeu com tua alegria
de colmeia pobre: tua rua era clara,
claro era teu sonho.
Um desejo negro
de generais, uma vaga
de sotainas raivosas
rompeu entre teus joelhos
suas lodosas águas, seus rios de escarro.
Todavia, com os olhos feridos de sono,
com escopeta e pedras, Madrid, recém-ferida,
defendeste-te. Corrias
pelas ruas
deixando estelas de teu santo sangue,
reunindo e chamando com uma voz de oceano,
com um rosto mudado para sempre
pela luz do sangue, como uma vingadora
montanha, como uma sibilante
estrela de facas.
Quando nos tenebrosos quartéis, quando nas sacristias
da traição entrou tua espada ardendo,
não houve senão o silêncio do amanhecer, não houve
senão teu passo de bandeiras,
e uma gota de sangue em teu sorriso.
in Tercera Residencia, Madrid, 1936
(Tradução de J.T.Parreira)
de colmeia pobre: tua rua era clara,
claro era teu sonho.
Um desejo negro
de generais, uma vaga
de sotainas raivosas
rompeu entre teus joelhos
suas lodosas águas, seus rios de escarro.
Todavia, com os olhos feridos de sono,
com escopeta e pedras, Madrid, recém-ferida,
defendeste-te. Corrias
pelas ruas
deixando estelas de teu santo sangue,
reunindo e chamando com uma voz de oceano,
com um rosto mudado para sempre
pela luz do sangue, como uma vingadora
montanha, como uma sibilante
estrela de facas.
Quando nos tenebrosos quartéis, quando nas sacristias
da traição entrou tua espada ardendo,
não houve senão o silêncio do amanhecer, não houve
senão teu passo de bandeiras,
e uma gota de sangue em teu sorriso.
in Tercera Residencia, Madrid, 1936
(Tradução de J.T.Parreira)
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Poema de Allen Ginsberg
Kaddish 44
Para Lindsay*
Vachel, as estrelas sairam de cena
o escuro caiu numa estrada do Colorado
um carro lento rasteja através da planície
o rádio ressoa jazz no crepúsculo
um vendedor desanimado acende outro cigarro
Há 27 anos noutra cidade
vejo a tua sombra no muro
estás sentado sobre teus suspensórios na cama
a mão da sombra ergue até à cabeça um frasco de Lysol
teu vulto decai sobre o soalho
*Vachel Lindsay, Poeta norte-americano, 1879-1931. Suicidou-se, bebendo Lysol
(Tradução: J.T.Parreira)
To Lindsay
Vachel, the stars are out / dusk has fallen on the Colorado road / a car crawls slowly across the plain / in the dim light the radio blares its jazz / the heartbroken salesman lights another cigarette / In another city 27 years ago / I see your shadow on the wall / you’re sitting in your suspenders on the bed / the shadow hand lifts up a Lysol bottle to your head / your shade falls over on the floor
[Paris, May 1958]
Para Lindsay*
Vachel, as estrelas sairam de cena
o escuro caiu numa estrada do Colorado
um carro lento rasteja através da planície
o rádio ressoa jazz no crepúsculo
um vendedor desanimado acende outro cigarro
Há 27 anos noutra cidade
vejo a tua sombra no muro
estás sentado sobre teus suspensórios na cama
a mão da sombra ergue até à cabeça um frasco de Lysol
teu vulto decai sobre o soalho
*Vachel Lindsay, Poeta norte-americano, 1879-1931. Suicidou-se, bebendo Lysol
(Tradução: J.T.Parreira)
To Lindsay
Vachel, the stars are out / dusk has fallen on the Colorado road / a car crawls slowly across the plain / in the dim light the radio blares its jazz / the heartbroken salesman lights another cigarette / In another city 27 years ago / I see your shadow on the wall / you’re sitting in your suspenders on the bed / the shadow hand lifts up a Lysol bottle to your head / your shade falls over on the floor
[Paris, May 1958]
terça-feira, fevereiro 06, 2007
A Bússola
domingo, fevereiro 04, 2007
Pós-modernidade na rede: a poesia brasileira no século XXI
Texto da poeta Virna Teixeira
(...)
Alguns blogs agregam poetas que escrevem de várias partes do Brasil, com o Algaravária (http://algaravaria.blogspot.com/). Na internet não há distância geográfica e sim afinidades. Há blogs que são escritos em todas as partes do país, por poetas que mantêm freqüentemente intensa atividade fora do local onde vivem, como por exemplo: Douglas Diegues do Portunhol Selvagem http://www.portunholselvagem.blogspot.com/) em Campo Grande, que mantém vários diálogos com outros poetas dentro da América Latina; Poesilha do Marcelo Sahea (http://poesilha.blogspot.com/) e Folhas de Girapemba da Ana Maria Ramiro (http://girapemba.blogspot.com/) em Brasília; Micropolis (http://micropolis.blogspot.com/), de Marília Kubota, em Curitiba; para citar alguns.
Há também interações de blogs brasileiros com blogs portugueses, como o Nocturno com gatos (http://nocturnocomgatos.weblog.com.pt/), de Soledade Santos; Linha de cabotagem (http://linhadecabotagem.blogspot.com/) de Helena F. Monteiro, o Finisterra de Oscar Mourave (http://www.finisterra.blogger.com.br/ ) que escreve sob pseudônimo e mora na Tunísia e os blogs de poesia e tradução Ao longe os barcos de flores (http://barcosflores.blogspot.com/), de Amélia Pais e Poeta salutor (http://www.poetasalutor.blogspot.com/) de J. T. Parreira. A poeta carioca Silvia Chueire, do Eugenia in the meadow (http://eugeniainthemeadow.blogspot.com/), pela proximidade da sua escrita com a dicção portuguesa, publicou seu primeiro e único livro de poesia em Portugal, através da internet.
in Cronópios
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
The Factory
domingo, janeiro 28, 2007
A Guitarra
Começa o choroda guitarra.
Partem-se os cristais
da madrugada.
Começa o choro
da guitarra.
É inútil calá-la.
É impossível
calá-la.
Chora o mesmo tom
como o choro da água,
como o choro do vento
sobre as noites brancas.(*)
É impossível
calá-la.
Chora por coisas
longínquas.
Areia do Sul quente
que pede camélias brancas.
Chora a flecha sem alvo,
a tarde sem manhã,
e o primeiro pássaro morto
sobre os ramos.
Ó, guitarra!
Coração malferido
por cinco espadas.
(Tradução: J.T.Parreira)
(*) Em 1946, Eugénio de Andrade traduziu «la nevada», em Antologia Poética, como «o nevão».
Já em 1968, em Trinta e Seis poemas e uma Aleluia Erótica, o mesmo poeta usou o termo «a nevada».
Atendendo à poeticidade da expresão «noites brancas» usamos aqui a mesma, talvez como um metonímia para falar de queda de neve, e não no sentido do romance de Dostoievski (Noites Brancas, o dia contínuo.)
quinta-feira, janeiro 25, 2007
Cidade Transparente
No teatro das casas
em Amsterdão, à noite
a vida está aberta
à noite passeamos
no meio de mesas de jantar
salas, quartos de dormir
tudo visível, tudo vida
sem cortinas, uma janela
reflecte a luz
nos vidros de água
dos canais.
Há uma linha num livro
que partilha a poesia
um Van Gogh
que o sol da janela amarelou
todos os dias a única
coisa nova são as nuvens
que mudam de lugar.
21-1-2007
em Amsterdão, à noite
a vida está aberta
à noite passeamos
no meio de mesas de jantar
salas, quartos de dormir
tudo visível, tudo vida
sem cortinas, uma janela
reflecte a luz
nos vidros de água
dos canais.
Há uma linha num livro
que partilha a poesia
um Van Gogh
que o sol da janela amarelou
todos os dias a única
coisa nova são as nuvens
que mudam de lugar.
21-1-2007
terça-feira, janeiro 23, 2007
Dizer sem dizer: os sons na poesia de Vicente Huidobro
Um prefácio e sete poemas, designados por cantos, constituem o livro torrencial de Vicente Huidobro (1893-1948), poeta chileno, cuja linguagem se desloca do centro da poesia modernista, no conceito da América hispânica da primeira década do século XX, para a busca do vocábulo puramente fonético, aparentemente sem poesia, mas exibindo uma estrutura onomatopeica como significante apenas do próprio som.
Esse livro em que a torrente se deslocaliza da palavra para o puro som é Altazor, uma obra considerada épica. Ela consiste na realização, levada a cabo pelo poeta, do seu credo artístico, da criação e criação literária dentro do próprio poema, do desmontar da linguagem gongorizante e simbolista, do provocar o cataclismo en la gramática, do louvor à individualização da mulher como entidade geradora, das combinações vocabulares curiosas, as palavras circulares, como por exemplo eterfinifrete (Canto IV, pág.66) ou ainda novas formas de dizer " al horizonte en la montaña" assim: al horitaña de la montazonte (pág. 60).
As experiências que esse poeta de Santiago do Chile, amigo de Lorca e influenciador de Gerardo Diego, produz na sua poesia não estarão desligadas da sua avidez literária pelas novidades.
A Vanguarda estética, na arte poética, era o seu terreno e Apollinaire, para nos situarmos só na literatura, foi uma das suas figuras tutelares.
Mas toda a Vanguarda artística da Europa contribuiu para a sua criatividade apaixonada, desde Picasso a Stravinsky.
Se dos pincéis do primeiro nasciam deformidades criadoras da pura ordem pictórica e do segundo uma música cujo algum caos formulava já a beleza harmónica do Pássaro de Fogo , da poética de Huidobro surgia a poesia que não se limitava a interpretar, mas a elaborar a própria criação, que não se circunscrevia apenas aos sentidos mas aos sons vocabulares.
São célebres e aforísticos os dois versos, da sua Arte Poética, em que questiona os poetas que se limitavam a cantar a rosa: Por qué cantáis la rosa, oh Poetas, Hacedla florecer en el poema.
Huidobro reclamava a sua quota parte de pequena divindade, que não só naquele tempo, mas sempre e desde os gregos se costumava atribuir aos poetas ( na poética hebraica e bíblica já não era obviamente assim).
El Poeta es un pequeño Dios , era o desafio final daquele poema de Huidobro.
Mas este poema possui um sentido, não é hermético, a sua gramática é habitável, podemos conviver com ela. É uma arte poética com sentidos que transportam de um lugar a outro, indica todo um programa que a história da literatura Latino Americana classifica como Criacionismo.
Ao contrário é o livro Altazor . Sendo também uma viagem, dir-se-ia que é intergalática. A personagem cai ou vem de uma queda auto-promovida desde um ponto do universo.
O livro apoia-se sobre um mito básico: Altazor é a encarnação do poeta descendo às profundidades, tal qual Dante, Enéas ou Orfeu, com a ajuda de um páraquedas, que a crítica usualmente afirma ser a poesia.
Esta queda, ou melhor descida controlada do poeta, é também um acto de revolta, e esta começa em Altazor com uma linguagem carregada de conteúdos , de informação, de ideologia. Nesta obra de capital importância para a poesia modernista hispânica, a dicotomia de Saussure contribui para a compreensão da sua linguagem: contém o elemento social que é a língua e o elemento individual que é a palavra.
É, porém, no último canto do poema que tudo o que concerne à linguagem - língua e palavra - se transmuta em puro som, apesar de alguns vocábulos que podem ser pronunciados, mas distituídos de qualquer sentido. Criação do próprio som, a emanar do «poema» do criacionista Huidobro? Na mesma direcção programática em que os poetas deveriam, sim, criar a rosa e não cantá-la?
O canto VII é, em todo o caso, o da incompreensibilidade, da fonética pura sem sentidos, da onomatopeica propositadamente identificável. Segundo Octávio Paz, o "dizer sem dizer", sem nenhuma correspondência semântica, no fundo, uma metalinguagem.
Esse livro em que a torrente se deslocaliza da palavra para o puro som é Altazor, uma obra considerada épica. Ela consiste na realização, levada a cabo pelo poeta, do seu credo artístico, da criação e criação literária dentro do próprio poema, do desmontar da linguagem gongorizante e simbolista, do provocar o cataclismo en la gramática, do louvor à individualização da mulher como entidade geradora, das combinações vocabulares curiosas, as palavras circulares, como por exemplo eterfinifrete (Canto IV, pág.66) ou ainda novas formas de dizer " al horizonte en la montaña" assim: al horitaña de la montazonte (pág. 60).
As experiências que esse poeta de Santiago do Chile, amigo de Lorca e influenciador de Gerardo Diego, produz na sua poesia não estarão desligadas da sua avidez literária pelas novidades.
A Vanguarda estética, na arte poética, era o seu terreno e Apollinaire, para nos situarmos só na literatura, foi uma das suas figuras tutelares.
Mas toda a Vanguarda artística da Europa contribuiu para a sua criatividade apaixonada, desde Picasso a Stravinsky.
Se dos pincéis do primeiro nasciam deformidades criadoras da pura ordem pictórica e do segundo uma música cujo algum caos formulava já a beleza harmónica do Pássaro de Fogo , da poética de Huidobro surgia a poesia que não se limitava a interpretar, mas a elaborar a própria criação, que não se circunscrevia apenas aos sentidos mas aos sons vocabulares.
São célebres e aforísticos os dois versos, da sua Arte Poética, em que questiona os poetas que se limitavam a cantar a rosa: Por qué cantáis la rosa, oh Poetas, Hacedla florecer en el poema.
Huidobro reclamava a sua quota parte de pequena divindade, que não só naquele tempo, mas sempre e desde os gregos se costumava atribuir aos poetas ( na poética hebraica e bíblica já não era obviamente assim).
El Poeta es un pequeño Dios , era o desafio final daquele poema de Huidobro.
Mas este poema possui um sentido, não é hermético, a sua gramática é habitável, podemos conviver com ela. É uma arte poética com sentidos que transportam de um lugar a outro, indica todo um programa que a história da literatura Latino Americana classifica como Criacionismo.
Ao contrário é o livro Altazor . Sendo também uma viagem, dir-se-ia que é intergalática. A personagem cai ou vem de uma queda auto-promovida desde um ponto do universo.
O livro apoia-se sobre um mito básico: Altazor é a encarnação do poeta descendo às profundidades, tal qual Dante, Enéas ou Orfeu, com a ajuda de um páraquedas, que a crítica usualmente afirma ser a poesia.
Esta queda, ou melhor descida controlada do poeta, é também um acto de revolta, e esta começa em Altazor com uma linguagem carregada de conteúdos , de informação, de ideologia. Nesta obra de capital importância para a poesia modernista hispânica, a dicotomia de Saussure contribui para a compreensão da sua linguagem: contém o elemento social que é a língua e o elemento individual que é a palavra.
É, porém, no último canto do poema que tudo o que concerne à linguagem - língua e palavra - se transmuta em puro som, apesar de alguns vocábulos que podem ser pronunciados, mas distituídos de qualquer sentido. Criação do próprio som, a emanar do «poema» do criacionista Huidobro? Na mesma direcção programática em que os poetas deveriam, sim, criar a rosa e não cantá-la?
O canto VII é, em todo o caso, o da incompreensibilidade, da fonética pura sem sentidos, da onomatopeica propositadamente identificável. Segundo Octávio Paz, o "dizer sem dizer", sem nenhuma correspondência semântica, no fundo, uma metalinguagem.
Ai aia aiaia ia aia ui Tralalí Lali lalá Aruaru urulario Lalilá Rimbibolam lam lam Uiaya zollonario lalilá Monlutrella monluztrella lalolú Montresol y mandotrina Ai ai Montesur en lasurido Montesol Lusponsedo solinario Aururaro ulisamento lalilá Ylarca murllonía Hormajauma marijauda Mitradente Mitrapausa
sábado, janeiro 20, 2007
Passagem para o efémero
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Um Outro Adeus Português
e como um adolescente tropeço de ternurapor ti
Alexandre O Neill
Dentro dos meus olhos uma outra
forma de olhar
suporta a tua dor,
amparo-te na escada fluvial
que te traz ao dia,
no cais onde acostam
tuas sonâmbulas palavras
mais uma puríssima manhã
que deverias tratar
com o leite corporal
róseo da perpétua aurora
não podemos ficar nesta curva
entre sonhos de uma rosa enorme
que deixa o lirismo
a contas, indeciso com o mais
lancinante espinho.
6-1-2007
segunda-feira, janeiro 15, 2007
Poesia: Intertextualidades: Basil Bunting
O OUTONO
Quando amolece o boquim o alento do que toca o timbre torna-se claro.
É a hora de examinar como Domenico Scarlatti
comprimiu tanta música em tão poucos compassos
sem voltas intrincadas ou cadências em excesso;
nunca uma vaidade ou um intuito; e as estrelas e os lagos
fazem eco e o bosque tamborila ritmos,
os cumes nevados elevam-se com a luz da lua
e do crepúsculo e o sol desponta familiar.
(Tradução do espanhol: JTP)
Quando amolece o boquim o alento do que toca o timbre torna-se claro.
É a hora de examinar como Domenico Scarlatti
comprimiu tanta música em tão poucos compassos
sem voltas intrincadas ou cadências em excesso;
nunca uma vaidade ou um intuito; e as estrelas e os lagos
fazem eco e o bosque tamborila ritmos,
os cumes nevados elevam-se com a luz da lua
e do crepúsculo e o sol desponta familiar.
(Tradução do espanhol: JTP)
sexta-feira, janeiro 12, 2007
O Condutor
Tossecomo o último ruído
da ligação ao mundo
Com seus gestos de pescador
à linha
enche os braços de ar
fixa o silêncio
como se esperasse de uma fonte
a cristalina música da água
Não vemos, mas pensa em cada
um dos instrumentos
e estende os braços
Depois os olhos e ouvidos
seguem-no, as mãos
do tamanho da infinita mão
escutam-se, sonoras
vão desvelando
a música.
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Charles Olson
"a poem is energy transferred from where the poet got it . . . by way of the poem itself to, all the way over to, the reader . . ."-
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Num campo de concentração: e.e.cummings
terça-feira, janeiro 09, 2007
Na Tabacaria
Nunca era nada. Nuncaseria nada, disse, não podia
querer ser nada.
E o sonho, que era de todos
os sonhadores do mundo,
assomava as janelas do seu quarto,
do quarto de um dos milhões do mundo
que ninguém saberia quem era.
Mas, logo o poema iniciado
cruzaria as ruas, entraria nos hospícios
onde poucos sabem que vão morrer,
nas mansardas onde o sonho
se sonha a si próprio,
entraria no mundo,
chamaria a atenção, como por sinal
divino, do Dono da Tabacaria
quando se acerca da porta e permanece.
Entraria
até no universo para um último adeus:
Adeus, ò Esteves.
E o poema sorriria.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
Tradução: John Berryman
Dream Song 105
Como um garoto acreditei na democracia: eu
não via outra alternativa- ensinando em Princeton eu
apliquei-a
numa sondagem para um longo romance: por um voto-
E Tudo o Vento Levou, votaram todos: rangi um «não»
e sentámo-nos com Guerra e Paz.
Como um homem acreditei na democracia( ninguém
sabe sempre tudo) : num dia de folga
o meu assistente, chamado James Dow,
& Eu estivemos tagarelando, em desacordo,
eu perguntei curioso «Qual é a sua verdadeira política?»
«Oh, eu sou monárquico»
Finalizando a sua dissertação, em Ciência Política.
Resigno-me. O desprezo universal pelo Sr.Nixon,
de quem nunca gostei mas o qual
vigilante & enérgico serviu-nos anos a fio debaixo de segredos
desde a invasão da dinastia K. Deixem-nos ter um Rei
talvez, antes de alguns votos estúpidos.
Como um garoto acreditei na democracia: eu
não via outra alternativa- ensinando em Princeton eu
apliquei-a
numa sondagem para um longo romance: por um voto-
E Tudo o Vento Levou, votaram todos: rangi um «não»
e sentámo-nos com Guerra e Paz.
Como um homem acreditei na democracia( ninguém
sabe sempre tudo) : num dia de folga
o meu assistente, chamado James Dow,
& Eu estivemos tagarelando, em desacordo,
eu perguntei curioso «Qual é a sua verdadeira política?»
«Oh, eu sou monárquico»
Finalizando a sua dissertação, em Ciência Política.
Resigno-me. O desprezo universal pelo Sr.Nixon,
de quem nunca gostei mas o qual
vigilante & enérgico serviu-nos anos a fio debaixo de segredos
desde a invasão da dinastia K. Deixem-nos ter um Rei
talvez, antes de alguns votos estúpidos.
sexta-feira, janeiro 05, 2007
Intertextualidades: para que servem os pássaros
Olhos no Céu
Olhai as aves do céu, voam
de qualquer lado
habitam qualquer lugar
no azul ou no verde
menos nos nossos olhos
Olhai depressa as aves no céu
cada pássaro se dissipa
na sua partida
e a velocidade dos olhos
perde-se no voo violado
Olhai nas aves o céu
espaço permeável
ao vento, à alta seta
do sonho
(J.T.Parreira)
Para que serve o pássaro?
Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?
O que era vôo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico
O que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que
o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um
esquema de distâncias —
mas para que serve o pássaro?
O pássaro não serve. Arrítmicas
brandas asas repousam.
(Orides Fontela, 1940-1998)
Olhai as aves do céu, voam
de qualquer lado
habitam qualquer lugar
no azul ou no verde
menos nos nossos olhos
Olhai depressa as aves no céu
cada pássaro se dissipa
na sua partida
e a velocidade dos olhos
perde-se no voo violado
Olhai nas aves o céu
espaço permeável
ao vento, à alta seta
do sonho
(J.T.Parreira)
Para que serve o pássaro?
Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?
O que era vôo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico
O que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que
o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um
esquema de distâncias —
mas para que serve o pássaro?
O pássaro não serve. Arrítmicas
brandas asas repousam.
(Orides Fontela, 1940-1998)
terça-feira, janeiro 02, 2007
Outro dia no Café A Brasileira do Chiado
No Café A Brasileira do Chiado
sentam-se o plural
Pessoa, Fernando com risos vacilantes
nos seus lábios
Eles esperam as palavras
para prestar contas pela quebra
do mármore do silêncio
com o ruído das máquinas
e os carros eléctricos
e o respirar na alma.
2/1/2007
sentam-se o plural
Pessoa, Fernando com risos vacilantes
nos seus lábios
Eles esperam as palavras
para prestar contas pela quebra
do mármore do silêncio
com o ruído das máquinas
e os carros eléctricos
e o respirar na alma.
2/1/2007
domingo, dezembro 31, 2006
"Os Sem Papéis"
sexta-feira, dezembro 29, 2006
Intertextualidades:Poema de John Berryman
Separação
O sol corria no céu, o táxi voou;
havia uma espécie de febre no relógio
nessa manhã. Chegamos a Waterloo
sobrando-me tempo, soube encontrar o meu rumo.
O café amargo num pequeno restaurant
permitiu-nos a conversa. Quando o comboio
começou a andar,vi a tua meia-volta
e desapareceste, e as veias do meu cérebro
estouraram, o comboio rugiu, os outros passageiros
saltaram velozes, o ar inconstante
che si cruccia,ouvi os demónios maldizer
e chiar de alegria nesse lugar longe da súplica.
(Tradução de J.T.Parreira)
O sol corria no céu, o táxi voou;
havia uma espécie de febre no relógio
nessa manhã. Chegamos a Waterloo
sobrando-me tempo, soube encontrar o meu rumo.
O café amargo num pequeno restaurant
permitiu-nos a conversa. Quando o comboio
começou a andar,vi a tua meia-volta
e desapareceste, e as veias do meu cérebro
estouraram, o comboio rugiu, os outros passageiros
saltaram velozes, o ar inconstante
che si cruccia,ouvi os demónios maldizer
e chiar de alegria nesse lugar longe da súplica.
(Tradução de J.T.Parreira)
terça-feira, dezembro 26, 2006
O esplendor em Paris-Orly
O táxi corria contra o caudal
das ruas, um rio volumoso
saltando das margens, peões
carros febris, todos
os relógios contra o seu.
Chegaram ao Paris Orly. Ainda
com tempo para o fogo
interior, amargo
de um café, como fogueira
no centro de um campo de sonhos.
Quando a última voz chamou
os viajantes para o voo, o adeus
e os beijos morreram nos lábios
e lembram-se da meia-volta final
antes de se tornarem voláteis.
23/12/2006
das ruas, um rio volumoso
saltando das margens, peões
carros febris, todos
os relógios contra o seu.
Chegaram ao Paris Orly. Ainda
com tempo para o fogo
interior, amargo
de um café, como fogueira
no centro de um campo de sonhos.
Quando a última voz chamou
os viajantes para o voo, o adeus
e os beijos morreram nos lábios
e lembram-se da meia-volta final
antes de se tornarem voláteis.
23/12/2006
segunda-feira, dezembro 25, 2006
domingo, dezembro 24, 2006
sábado, dezembro 23, 2006
quinta-feira, dezembro 21, 2006
O retorno ao Mito - e.e.cummings

Ao analisar as estatísticas das referências procuradas neste Blog, neste último mês, colocam-se em destaque o poeta e.e.cummings e, designadamente, o poema i carry your heart. Aqui fica uma nossa tradução mais antiga, que extraímos do site Escrita Criativa, e uma curiosidade de 1920.
Buffalo Bill's
Poema de e.e.cummings
Tradução de J.T.Parreira
Buffalo Bill
que costumava
montar um garanhão
de prata como água macia
e rebentar umdoistrêsquatrocincotiposdeumavez
oh céus
era um homem bonito
e o que eu desejo saber é
o que lhe parece esse rapaz de olho azul
Senhor Morte
terça-feira, dezembro 19, 2006
Literary Kicks
New Poems
Here are a few recently posted poems from Action Poetry
that have caught our eye ...
In the Station of Trains by JTParreira
Here are a few recently posted poems from Action Poetry
that have caught our eye ...
In the Station of Trains by JTParreira
domingo, dezembro 17, 2006
A (minha)posição surrealista
sábado, dezembro 16, 2006
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Poema 20
(Fragmento)Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe».
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e às vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a nos meus braços.
Tantas vezes a beijei sob o céu infinito.
Ela me amou, às vezes eu também a amava.
Como não amar seus grandes olhos fixos.
(Tradução de J.T.Parreira)
terça-feira, dezembro 12, 2006
The Urban Night / A Noite Urbana
Windshine, and the vigilant
lights of lampposts;
spent bonfires
in the washed gray night; window treatments
on a window that coughs
and flails
while twin shadows slip away
still tied
to a last glance. On each balcony
and verandah
there is someone
on the look out
for the naked intimacy
freefalling
from a dark room.
(Tradução de Sergio Facchini)
Brilham no vento as luzes vigilantes
dos candeeiros públicos,
fogueiras
para as noites húmidas,
agitam-se as cortinas
da janela que tosse,
enquanto dois vultos
se esquivam enlaçados
aos últimos olhares,
entre as varandas dos prédios
há quem procure
num quarto nu a intimidade.
lights of lampposts;
spent bonfires
in the washed gray night; window treatments
on a window that coughs
and flails
while twin shadows slip away
still tied
to a last glance. On each balcony
and verandah
there is someone
on the look out
for the naked intimacy
freefalling
from a dark room.
(Tradução de Sergio Facchini)
Brilham no vento as luzes vigilantes
dos candeeiros públicos,
fogueiras
para as noites húmidas,
agitam-se as cortinas
da janela que tosse,
enquanto dois vultos
se esquivam enlaçados
aos últimos olhares,
entre as varandas dos prédios
há quem procure
num quarto nu a intimidade.
sábado, dezembro 09, 2006
A Poesia de Pôr em Cena de Harold Pinter
A obra poética de Pinter, de reduzida dimensão, mistura a dramaticidade com a fala coloquial, quase sem importância, mas com amplos e profundos significados. Diria, quase que esticando um pouco a corda da análise pessoal, que alguns dos seus poemas são em si mesmos trechos de material que se pode encenar. Alguém comentou já que a sua poesia não é poesia, no sentido que atribuímos a esse artefacto literário que é o poema. Essa afirmação não poderá ser tida como definitiva.
A poesia de Harold Pinter carrega em si a mensagem que reflecte um mundo ameaçador e violento, feito das contradições da nossa sociedade e da natureza humana. Como afinal acontece na sua obra dramatúrgica, fazendo da mesma uma das mais importantes do século XX, a meio caminho entre o teatro poético, na poesia da vida quotidiana, e o teatro do absurdo. Pinter não teve de facto as suas personagens à espera de Godot, as suas personagens não esperam nada, o fundamental das mesmas, são as falas sem nenhum significado dos actores. O que nos parece poder intuir-se, salvo melhor opinião, na mediatizada fala de duas personagens, marido e mulher, de uma das suas peças. O marido que pergunta à mulher o que toma, que bebida quer tomar:
-Somos casados há dez anos- responde ela, e apenas isso.
A poesia, alguma poesia de Pinter, também abre várias perspectivas para outros tantos caminhos, apesar de algum laconismo. São poemas para descobrir também os ambientes fechados. Pinter faz com que os poucos poemas que escreveu, comparativamente às suas peças, e tal como estas, revelem o abismo que existe nas conversas ôcas das personagens, nos espaços mais variados das relações humanas em sociedade ou no interior da home. A sua poesia é também «pinteresque», aparentemente usa a língua sem nada comunicar. Mas é o que nos parece... É paradigmático, este já nosso conhecido poema:
Restaurante
Não, você está errado.
Todos são tão belos
como podem possivelmente ser
Particularmente ao almoço
no restaurante que ri
Todos são tão belos
como podem possivelmente ser
e são movidos
pela sua própria beleza
e derramam lágrimas por isso
no fundo do taxi para casa.
A poesia de Harold Pinter carrega em si a mensagem que reflecte um mundo ameaçador e violento, feito das contradições da nossa sociedade e da natureza humana. Como afinal acontece na sua obra dramatúrgica, fazendo da mesma uma das mais importantes do século XX, a meio caminho entre o teatro poético, na poesia da vida quotidiana, e o teatro do absurdo. Pinter não teve de facto as suas personagens à espera de Godot, as suas personagens não esperam nada, o fundamental das mesmas, são as falas sem nenhum significado dos actores. O que nos parece poder intuir-se, salvo melhor opinião, na mediatizada fala de duas personagens, marido e mulher, de uma das suas peças. O marido que pergunta à mulher o que toma, que bebida quer tomar:
-Somos casados há dez anos- responde ela, e apenas isso.
A poesia, alguma poesia de Pinter, também abre várias perspectivas para outros tantos caminhos, apesar de algum laconismo. São poemas para descobrir também os ambientes fechados. Pinter faz com que os poucos poemas que escreveu, comparativamente às suas peças, e tal como estas, revelem o abismo que existe nas conversas ôcas das personagens, nos espaços mais variados das relações humanas em sociedade ou no interior da home. A sua poesia é também «pinteresque», aparentemente usa a língua sem nada comunicar. Mas é o que nos parece... É paradigmático, este já nosso conhecido poema:
Restaurante
Não, você está errado.
Todos são tão belos
como podem possivelmente ser
Particularmente ao almoço
no restaurante que ri
Todos são tão belos
como podem possivelmente ser
e são movidos
pela sua própria beleza
e derramam lágrimas por isso
no fundo do taxi para casa.
quarta-feira, dezembro 06, 2006
Para um retrato de Modigliani
domingo, dezembro 03, 2006
Procura
sábado, dezembro 02, 2006
À chuva num campo de milho
Perdeu o orgulho, o cavalo-
à chuva que flutua
mais do que em queda
- montado no vento das suas patas,
baixa a cabeça, a
cabeleira
é agora um inútil
cometa.
Mas não perde a elegância
da figura
há mesmo um certo aprumo
na ruína equestre
de um cavalo à chuva.
29-11-2006
à chuva que flutua
mais do que em queda
- montado no vento das suas patas,
baixa a cabeça, a
cabeleira
é agora um inútil
cometa.
Mas não perde a elegância
da figura
há mesmo um certo aprumo
na ruína equestre
de um cavalo à chuva.
29-11-2006
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