quinta-feira, agosto 02, 2007

Oásis

do poeta sevilhano Manuel Machado(irmão de Antonio Machado)

Sonha o leão.
Junto às três palmeiras
amansa-se o sol. Existe
a água. E Deus deixa um momento
que os pobres camelos se ajoelhem...
Junto às três palmeiras,
o árabe, estendido, por fim, sorri
e suspira... Damasco
distante ainda o espera. Os confins
do horizonte acesos brilham.
Um silêncio terrível
enche o ar... Na areia
treme a sombra elástica de um tigre.

(Trad. J.T.Parreira)

segunda-feira, julho 30, 2007

domingo, julho 29, 2007

O Sorriso de Gioconda

O sorriso de Gioconda ornamenta
o museu, ninguém o moldará
de novo, o sorriso burocrático
de Gioconda é a porta
atrás da qual não há nada
alma? paisagens? o silêncio
um umbigo da alma
a sorrir para dentro.



terça-feira, julho 24, 2007

O Galo e Marc Chagall




O GALO

Un gallo
cantò; altri risposero qua e lá.
Umberto Saba


Um galo
cantou e outro respondeu
que está lá
no seu posto móvel
no vento
qualquer coisa negra
começa a desfazer-se
em claridade, a noite
repassa as outras latitudes
qualquer coisa começa
a restaurar-se nas janelas
as casas respondem
outros animais
retomam nos quintais
a domesticada vida
numa repetição sem tédio
nem deleite, um galo
avançou com a rotina
em todo o seu canto
que procede
do silêncio.

sexta-feira, julho 20, 2007

A Demolição


Gabriel Orozco, México, Instalação


Ruiu a casa velha para o fundo
para dentro de si própria
ontem era ainda
um retrato de azulejos
do passado, caiu
abaixo do silêncio
contra o qual a fachada
ao longo destes anos resistiu.
Silenciou as cortinas pobres
das vidraças, que mal se sustinham
já de pé. A sua sombra
jamais espalhará
toda a casa na calçada.

quarta-feira, julho 11, 2007

Gostaria de dizer

Gostaria de dizer
que nasci numa cidade pequena
na casa do largo principal

num universo
com paredes
ancestrais

Gostaria de dizer
que nasci numa casa de província
com o cheiro do fogo

a sair com o frio pelas janelas
mas não
e numa cidadezinha com um rio

como um espelho em frente
de cada porta, plano
e macio?

terça-feira, julho 10, 2007

SÍSIFO



Ilustração de Julio Saens


Antes que a montanha volte
a inclinar-se, se torne móvel
pelo rolar da rocha e o chão
repita a sua distância
do azul

Antes que teu rosto junto
à rocha, tão perto do magma
apagado do interior do nada,
olhe o píncaro
ao fundo do céu,
antes que esse céu imobilize
o voo dos pássaros

e encostes da pele
a intimidade
ao coração da pedra
sabe que há olhares enternecidos
que estão ainda à tua espera
e da estrela inacessível.

18-3-2007

quinta-feira, julho 05, 2007

Rua suja

A rua deixa adormecer o canto
dos seus heróis, aqui os sonhos
não se dão nos quartos, nem as rosas
respiram as gotas de água
num boquet


De dia turistas aumentam o medo
do olho atrás da lente
tudo se foca nesta rua
sufoca-se no verão
entre roupa acenando nos varais

Depois
que os moradores saem
para as rotinas
das pequenas colinas
de frente para o rio.

segunda-feira, julho 02, 2007

A tarefa do poeta

« Le poète a fini sa tâche »
Paul Verlaine




O poeta acabou a sua tarefa.
A época não foi de rosas
nem de sonetos que batem
como o coração das amadas
nem de salmos que são a língua
instrumental dos anjos.

A tarefa do poeta não é o desenho
de uma harpa no vento
de uma rosa no papel
irrespirável.

O poeta acabou o seu tempo.
Cansaço dos sonhos que irrigam
o cérebro, com as alegrias
alguns desencontros? o poeta
acolhe o fim com as mãos lentas
da tranquilidade.

O poeta pousou as armas.
Embora o dia continue a subir
na revolução ardente do sol
embora a poesia
continue a nascer, o poeta
cansado, pousou as palavras.

sábado, junho 30, 2007

Morte da Poeta da «Poesia Livre» em Árabe


NAZIK AL-MALAIKA

"Súplicas, salmos, ex-votos brindámos nessa hora
Pão, vinho e tâmaras da Babel embriagante
E de rosa o encanto
Logo aos teus olhos orando, oferenda imolámos
Da lágrima ardente em dilúvio as gotas juntámos –
Um rosário de pranto." – Cânticos à Dor, de Nazik Al-Malaika


Aos 84 anos, morreu Nazik Al-Malaika, uma das mais solitárias vozes poéticas iraquianas e do conjunto da literatura árabe. No Cairo, a 20 de Junho de 2007.
Desta poetisa, nascida em Bagdade em 1923, a poesia tomou o rumo dos caminhos da introspecção ontológica, levando o pessimismo poético quase ao limite de uma linguagem filosoficamente estóica, de suporte de uma dor intensa, mas também intensamente lírica.
Nazik era a poetisa da tragédia da vida. No entanto, quando publicou a sua primeira antologia há mais de 50 anos, ao utilizar o vocábulo "noite", tornou-o símbolo de poesia, imaginação, sonho, beleza das estrelas, do prodígio do luar sobre o bruxuleante Tigre.
Nazil Al-Malaika representou uma nova tendência como poeta, expressando-a, defendendo-a e auto-analisando-a firme e solitariamente, como pioneira, fosse na crítica literária, na arte poética ou mesmo na sua condição de Mulher, num mundo eminentemente masculino, de supremacia do género.
Por esta razão, podemos afirmar que a sua obra influenciou gerações de poetas. Outros poetas do Iraque, a maioria vivendo no exílio – diz-se que na década de 90 ficaram apenas cinco a residir no país – contudo escrevem uma poesia que caracterizou o estilo poético iraquiano, o qual é classificado desde o tradicional ao moderno, passando pelos limites do experimental, com temas que cobrem territórios comunicacionais como o amor, a guerra, as antigas sanções da ONU, o fascismo, a tortura, a prisão, o exílio, etc. E agora a orfandade da sua Poeta maior, Nazil Al-Malaika, que publicou a última obra em 1997 no Cairo, um conjunto de relatos em que fala do Sol abaixo do seu próprio apogeu. Uma premonição para o estado a que chegou a sua terra, outrora fértil e agora devastada.

sexta-feira, junho 22, 2007

Nocturno de Mim

Quando a noite chega e meus olhos
são uma sala vazia, quando a noite chega
e olho meus livros, os meus utensílios
com palavras na penumbra, é a hora da luz
iluminar com a sua água sobre a mesa
quando a noite chega
quando chega num cigarro abortado
antes da última cinza, quando a noite chega
e as janelas transparentes no escuro
quando chega a noite
estou cercado de perguntas, algumas
respondo, outras cingem-me os ombros
quando a noite chega sou como nuvens
que procuram casa sem parar seu rumo.

Setembro de 1998

quarta-feira, junho 20, 2007

A morte nunca foi uma coisa gloriosa

A morte nunca foi uma coisa gloriosa
quando a vi pela primeira vez

Mais tarde
vi-a de outro modo

Outras mortes cheias de olhos grandes
eram olhos desmedidos

como se abertos para
a beleza escondida.

domingo, junho 17, 2007

Arabescos do Vento



ARABESCOS DO VENTO

Eu gosto do que estás a tentar fazer-
isto é

algum esboço longe de
estar terminado, digo eu.

O salgueiro fica pálido
a cada toque

eu estou sentado a observar-te
tomas as folhas

como se teus dedos
andassem pelo chão.

17/6/2007

domingo, junho 10, 2007

Os Livros




Desarrumados da estante
esticam suas folhas
como pernas, os volumes
folheados tomam ar
respiram
entre sílabas as palavras
e os autores sacodem
a penumbra, tossem
os poetas novelos de poeira.
Desarrumado o verbo, vem à luz
e diz o quê? o inesperado.

8-6-2007

segunda-feira, junho 04, 2007

2 Haikus



A Serra da Estrela-
no inverno dorme cedo
sob alvo lençol.


Moinhos no céu.
Um Quixote vai partindo
uma a uma as nuvens.

(J.T.Parreira)

sábado, junho 02, 2007

As Ceifeiras de Pessoa e Wordsworth

Um século com as suas crises de romantismo, simbolismo e futurismo se entrepõe entre a romantizada ceifeira de William Wordsworth e a ceifeira modernista de Fernando Pessoa.
A primeira, vê-se sob a luz do bucolismo da viagem do poeta inglês à Escócia, em 1803; a segunda é vista na imaginação de Pessoa, a partir da urbanidade de Lisboa, datada antes de 19-1-1915.
Uma é toda realidade bucólica, a outra é argumento para o pensamento filosófico sobre o Ser; a «escocesa» é apenas uma ceifeira, a «portuguesa» é ícone para o mistério ontológico. Claro que a primeira é um retrato poético de um poeta romântico, a segunda é um poema de Pessoa, que -parafraseando o próprio- tem mais razões para escrever que a vida.

ONDE PESSOA FOI BUSCAR A SUA CEIFEIRA?

Nas várias obras que o poeta português exibia nas estantes da sua posteriormente chamada Biblioteca Fernandina, como nas incalculáveis e diversificadas leituras que foi fazendo enquanto duraram os seus óculos.
Nessa mistura de livros avultam as obras críticas e as obras de poesia do romantismo inglês.
A relação entre a obra poética heterónima e ortónima de Pessoa com os livros que leu, o que o poeta terá ou não assimilado, torna-se hoje impossível pelo lado do acesso a esses volumes. É sabido, nos meios pessoanos, que Pessoa «vendeu livros para aquisição de outros, ofereceu livros a amigos, perdeu alguns como resultado de mudanças de residência e arrumações apressadas.»
Há, no entanto, mais do que uma simples relação entre leituras, ou uma predisposição para estar simplesmente ao serviço das musas da inspiração sobre qualquer coisa como ceifeiras, salvo melhor opinião.
Entre os versos iniciais do poema pessoano (vd. Poesias, Ática, 1973, pág. 110 ) «Ela canta, pobre ceifeira, \ Julgando-se feliz talvez», e os 5º e 6º versos da primeira estrofe do poema de Wordsworth, «Sozinha ceifa no mundo \ E canta melancolia», não é apenas a mobilidade do tempo que transcorre, mas uma mistura de características que se presume unirem para identificar a actividade, a atitude e o estado psicológico da «mesma» ceifeira. Em ambos os poetas a personagem passa pelo mundo com idêntica melancolia e em ambos os retratos existe, no fundo, igual tendência para a filosofia.
De facto, tanto em Fernando Pessoa como no poeta romântico inglês, ambos os poemas se iniciam com o recurso a bucolismos, para partirem finalmente rumo à filosofia da tristeza, à análise do ser, ao estado de solidão, ao auto-convencimento de que se é «feliz talvez ». Em qualquer dos casos, sobe-se da beleza bucólica do campo para um patamar de suposto pessimismo quanto à vida.
Porém, este aspecto tendente à filosofia está mais presente no autor português. Nos versos da «Ceifeira», como em quase toda a sua poesia, a poética pessoana nunca foi, não é ainda e nem será jamais isolada da filosofia, tanto no fundo como na forma.
Assim é esta poesia que começa por uma exclamação admirativa, não tanto do cantar da ceifeira, mas de que pesando as circunstâncias «Ela canta, pobre ceifeira.»