Um século com as suas crises de romantismo, simbolismo e futurismo se entrepõe entre a romantizada ceifeira de William Wordsworth e a ceifeira modernista de Fernando Pessoa.
A primeira, vê-se sob a luz do bucolismo da viagem do poeta inglês à Escócia, em 1803; a segunda é vista na imaginação de Pessoa, a partir da urbanidade de Lisboa, datada antes de 19-1-1915.
Uma é toda realidade bucólica, a outra é argumento para o pensamento filosófico sobre o Ser; a «escocesa» é apenas uma ceifeira, a «portuguesa» é ícone para o mistério ontológico. Claro que a primeira é um retrato poético de um poeta romântico, a segunda é um poema de Pessoa, que -parafraseando o próprio- tem mais razões para escrever que a vida.
ONDE PESSOA FOI BUSCAR A SUA CEIFEIRA?
Nas várias obras que o poeta português exibia nas estantes da sua posteriormente chamada Biblioteca Fernandina, como nas incalculáveis e diversificadas leituras que foi fazendo enquanto duraram os seus óculos.
Nessa mistura de livros avultam as obras críticas e as obras de poesia do romantismo inglês.
A relação entre a obra poética heterónima e ortónima de Pessoa com os livros que leu, o que o poeta terá ou não assimilado, torna-se hoje impossível pelo lado do acesso a esses volumes. É sabido, nos meios pessoanos, que Pessoa «vendeu livros para aquisição de outros, ofereceu livros a amigos, perdeu alguns como resultado de mudanças de residência e arrumações apressadas.»
Há, no entanto, mais do que uma simples relação entre leituras, ou uma predisposição para estar simplesmente ao serviço das musas da inspiração sobre qualquer coisa como ceifeiras, salvo melhor opinião.
Entre os versos iniciais do poema pessoano (vd. Poesias, Ática, 1973, pág. 110 ) «Ela canta, pobre ceifeira, \ Julgando-se feliz talvez», e os 5º e 6º versos da primeira estrofe do poema de Wordsworth, «Sozinha ceifa no mundo \ E canta melancolia», não é apenas a mobilidade do tempo que transcorre, mas uma mistura de características que se presume unirem para identificar a actividade, a atitude e o estado psicológico da «mesma» ceifeira. Em ambos os poetas a personagem passa pelo mundo com idêntica melancolia e em ambos os retratos existe, no fundo, igual tendência para a filosofia.
De facto, tanto em Fernando Pessoa como no poeta romântico inglês, ambos os poemas se iniciam com o recurso a bucolismos, para partirem finalmente rumo à filosofia da tristeza, à análise do ser, ao estado de solidão, ao auto-convencimento de que se é «feliz talvez ». Em qualquer dos casos, sobe-se da beleza bucólica do campo para um patamar de suposto pessimismo quanto à vida.
Porém, este aspecto tendente à filosofia está mais presente no autor português. Nos versos da «Ceifeira», como em quase toda a sua poesia, a poética pessoana nunca foi, não é ainda e nem será jamais isolada da filosofia, tanto no fundo como na forma.
Assim é esta poesia que começa por uma exclamação admirativa, não tanto do cantar da ceifeira, mas de que pesando as circunstâncias «Ela canta, pobre ceifeira.»
A Poesia é o assunto do Poema - Wallace Stevens . Este Blog não respeita o Acordo Ortográfico.
sábado, junho 02, 2007
quarta-feira, maio 30, 2007
Com uma gaiola vazia

Com uma gaiola vazia uma criança
olha para a linha
de um pássaro
a formar-se no horizonte
a sua forma
de ave vem à frente
um passo
do que a vista alcança
Uma porta aberta
na gaiola range
e o pássaro a contempla
a gaiola e os dois reflexos
da esperança
com que a criança olha
as linhas da ave
tiradas do horizonte.
segunda-feira, maio 28, 2007
sábado, maio 26, 2007
The small feet of Pavlova
sábado, maio 19, 2007
As bailarinas de Degas
quinta-feira, maio 17, 2007
Poema de Billy Collins

ANDAR ATRAVÉS DO ATLÂNTICO
Eu espero que a multidão das férias despeje a praia
antes de pisar na primeira onda.
Logo eu estou a caminhar através do Atlântico
a pensar na Espanha,
verificando as baleias, as trombas marítimas.
Eu sinto as águas a deslocarem o meu peso para cima.
Hoje à noite eu dormirei nesta superfície móvel.
Mas por agora eu tento imaginar o que
deve parecer aos peixes em baixo,
o fundo dos meus pés que aparecem, desaparecem.
(Tradução de J.T.Parreira)
quarta-feira, maio 16, 2007
Os pastores da Arcádia

Permanecem para lá da pele
da ovelha, permanecem pelo olhar
suave dos cordeiros, em frente
de uma estrada que arrasta
o olhar medroso do rebanho
na civilização das máquinas
Os pastores permanecem, embora à noite
lhes pese nos olhos a ovelha
perdida e ainda tenham,
contra o flanco das cabras,
que retirar o leite.
quinta-feira, maio 10, 2007
Chamo-os
(Uma conversação sobre Hebreus 11, 4, ss )
Os ombros de Abel, de longe
voltam-se para mim
e um cordeiro emana
como nuvem de lã
E Enoque, que saía do chão, volúvel
transparente
para a alegria celeste
Estava Noé no silêncio
da sua janela, no meio de escura água
e olhava para cima, movido
pelas fontes do céu
E Abraão, quando chamado
viu ao longe, desafiou os olhos
para a luz suave das estrelas
Em algum sótão do sono
Jacob necessitava de um pouco
de sonho
E pelas pegadas do gado Moisés,
pelo deserto, regressa
até mim.
Chamo-os, enquanto
Raabe do corpo
desenlaça
um fio escarlate.
Os ombros de Abel, de longe
voltam-se para mim
e um cordeiro emana
como nuvem de lã
E Enoque, que saía do chão, volúvel
transparente
para a alegria celeste
Estava Noé no silêncio
da sua janela, no meio de escura água
e olhava para cima, movido
pelas fontes do céu
E Abraão, quando chamado
viu ao longe, desafiou os olhos
para a luz suave das estrelas
Em algum sótão do sono
Jacob necessitava de um pouco
de sonho
E pelas pegadas do gado Moisés,
pelo deserto, regressa
até mim.
Chamo-os, enquanto
Raabe do corpo
desenlaça
um fio escarlate.
quarta-feira, maio 09, 2007
Literary Kicks
New Poems
Here are a few recently posted poems from Action Poetry that have caught our eye ...
VILLEGIATURA by JTParreira
Words by roseberry
On SexSounds Through Walls by Nasdijj
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VILLEGIATURA by JTParreira
Words by roseberry
On SexSounds Through Walls by Nasdijj
quarta-feira, maio 02, 2007
Vilegiatura
domingo, abril 29, 2007
Charles Reznikoff, traduzido
sábado, abril 28, 2007
Tudo o que vier depois
Tudo o que vier depois
do fogo, será a matéria
da cinza,
o que vier depois da tempestade,
um lugar
qualquer para refazer os vasos
e moldar o barro,
um silêncio frágil
espalhado pelos dedos.
Tudo o que vier depois
da voz, o eco de um nome
de um amor inesperados
O que vier depois da casa
em ruínas, as formas
do silêncio inabitado
Tudo o que vier depois
da altura, o que vier despido
já da luz e de poesia,
os pássaros difíceis, a chuva
que arde nos olhos, a terra
que na neve tem o toque da ternura.
23-4-2007
do fogo, será a matéria
da cinza,
o que vier depois da tempestade,
um lugar
qualquer para refazer os vasos
e moldar o barro,
um silêncio frágil
espalhado pelos dedos.
Tudo o que vier depois
da voz, o eco de um nome
de um amor inesperados
O que vier depois da casa
em ruínas, as formas
do silêncio inabitado
Tudo o que vier depois
da altura, o que vier despido
já da luz e de poesia,
os pássaros difíceis, a chuva
que arde nos olhos, a terra
que na neve tem o toque da ternura.
23-4-2007
sexta-feira, abril 27, 2007
Edith Piaf: Rien
Edith Piaf Non,je ne regrette rien 12-1960
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
C’est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé
Avec mes souvenirs
J’ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n’ai plus besoin d’eux
Balayé les amours
Avec leurs trémolos
Balayé pour toujours
Je repars à zéro
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien, qu’on m’a fait,
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd’hui,
Ça commence avec toi
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
C’est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé
Avec mes souvenirs
J’ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n’ai plus besoin d’eux
Balayé les amours
Avec leurs trémolos
Balayé pour toujours
Je repars à zéro
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien, qu’on m’a fait,
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd’hui,
Ça commence avec toi
sábado, abril 21, 2007
O intérprete
terça-feira, abril 17, 2007
Despedida
O poeta Joanyr de Oliveira, à esquerda, em 1998Como Antigona quis
empedrar-me aqui
longe de palavras, de certas
arestas de pedra nas palavras
que vêm de algumas bocas
perturbar nosso canto
Fatigado de mim mesmo
gasto ainda meus olhos
na claridade das metáforas
e cativo fragmentos
de uma rosa desferida
pelo vento
apanhador do voo
das borboletas.
(Para o meu amigo Joanyr de Oliveira)
quinta-feira, abril 12, 2007
Um mendigo
musching a plum on
the street a paper bag
(mascando ameixas pela
rua num saco de papel)
William Carlos Williams
Tira as rugas ao papel
de uma das pernas
das calças, põe
o saco ao ombro
- já andou
por melhores mãos
agora
recolhe meio
comidos restos
O casaco cuja lã é leve
no nono ano cheio
de destinos e
caminhos
retirou há muito
uma das mangas, tem
menos um braço
para abraçar a solidão
Um sapato
vai descalçando
um pé.
the street a paper bag
(mascando ameixas pela
rua num saco de papel)
William Carlos Williams
Tira as rugas ao papel
de uma das pernas
das calças, põe
o saco ao ombro
- já andou
por melhores mãos
agora
recolhe meio
comidos restos
O casaco cuja lã é leve
no nono ano cheio
de destinos e
caminhos
retirou há muito
uma das mangas, tem
menos um braço
para abraçar a solidão
Um sapato
vai descalçando
um pé.
quarta-feira, abril 11, 2007
O Tempo que passou
sexta-feira, abril 06, 2007
segunda-feira, abril 02, 2007
Literary Kicks
New Poems
Here are a few recently posted poems from Action Poetry that have caught our eye ...
Train by Silver-Golem
Antigone( Revised) by JTParreira
Box Of Memories by nerdgirl
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Train by Silver-Golem
Antigone( Revised) by JTParreira
Box Of Memories by nerdgirl
domingo, abril 01, 2007
Regressos
Os teus ruídos
chegaram a casa
a casa encheu
de luz
as janelas
abriram-se cortinas
voaram
no vento
quando
voltaste
a sair
os teus ruídos.
2006
chegaram a casa
a casa encheu
de luz
as janelas
abriram-se cortinas
voaram
no vento
quando
voltaste
a sair
os teus ruídos.
2006
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As naus estão agora ajustando as amarras/ Ao cais: oscilam ante a partida. / (...) / As mães vieram abafar o estrondo das naus.