quarta-feira, maio 30, 2007

Com uma gaiola vazia




Com uma gaiola vazia uma criança
olha para a linha
de um pássaro
a formar-se no horizonte

a sua forma
de ave vem à frente
um passo
do que a vista alcança

Uma porta aberta
na gaiola range
e o pássaro a contempla
a gaiola e os dois reflexos

da esperança
com que a criança olha
as linhas da ave
tiradas do horizonte.

sábado, maio 26, 2007

The small feet of Pavlova


The small feet of Pavlova
flow in space; leaping
through invisible clouds of air.
Fragile dawns never touching the soil.
Her small golden feet
suspended as fish in
an aquarium of wind.

(To Anna Pavlova)

sábado, maio 19, 2007

As bailarinas de Degas





Uma nuvem passa entre o chão
e os pés das bailarinas
como a nuvem
mudam de forma
e estão poucas vezes em terra
as mãos em pontas
nos braços também aparecem
como a inconstância do vento
as bailarinas de Degas
não precisam do nosso olho
- menos rápido, quase sempre
para as elevar do solo.

19-5-2007

quinta-feira, maio 17, 2007

Poema de Billy Collins



ANDAR ATRAVÉS DO ATLÂNTICO

Eu espero que a multidão das férias despeje a praia
antes de pisar na primeira onda.

Logo eu estou a caminhar através do Atlântico
a pensar na Espanha,
verificando as baleias, as trombas marítimas.
Eu sinto as águas a deslocarem o meu peso para cima.
Hoje à noite eu dormirei nesta superfície móvel.

Mas por agora eu tento imaginar o que
deve parecer aos peixes em baixo,
o fundo dos meus pés que aparecem, desaparecem.

(Tradução de J.T.Parreira)

quarta-feira, maio 16, 2007

Os pastores da Arcádia



Permanecem para lá da pele
da ovelha, permanecem pelo olhar
suave dos cordeiros, em frente
de uma estrada que arrasta
o olhar medroso do rebanho
na civilização das máquinas
Os pastores permanecem, embora à noite
lhes pese nos olhos a ovelha
perdida e ainda tenham,
contra o flanco das cabras,
que retirar o leite.

quinta-feira, maio 10, 2007

Chamo-os

(Uma conversação sobre Hebreus 11, 4, ss )

Os ombros de Abel, de longe
voltam-se para mim
e um cordeiro emana
como nuvem de lã
E Enoque, que saía do chão, volúvel
transparente
para a alegria celeste
Estava Noé no silêncio
da sua janela, no meio de escura água
e olhava para cima, movido
pelas fontes do céu
E Abraão, quando chamado
viu ao longe, desafiou os olhos
para a luz suave das estrelas
Em algum sótão do sono
Jacob necessitava de um pouco
de sonho
E pelas pegadas do gado Moisés,
pelo deserto, regressa
até mim.
Chamo-os, enquanto
Raabe do corpo
desenlaça
um fio escarlate.

quarta-feira, maio 02, 2007

Vilegiatura


Atravessamos braços, pernas
fotográficas, bustos
erguidos ao fogo da beleza
passamos por cima de castelos
de areia, e o ar
não suporta nosso corpo
caímos no mar
Olhamos para o chão, como
se fosse um espaço proíbido.

domingo, abril 29, 2007

Charles Reznikoff, traduzido

Magritte, La Victoire

POEMA

Não por causa das vitórias
eu canto,
não tendo nenhumas,
mas pelo comum brilho do sol,
a brisa,
a dádiva da primavera.

Não pela vitória
mas pelo trabalho do dia feito
assim como eu podia;
não pelo assento na tribuna
mas na mesa comum.

(Tradução J.T.Parreira)

sábado, abril 28, 2007

Tudo o que vier depois

Tudo o que vier depois
do fogo, será a matéria
da cinza,

o que vier depois da tempestade,
um lugar
qualquer para refazer os vasos
e moldar o barro,

um silêncio frágil
espalhado pelos dedos.

Tudo o que vier depois
da voz, o eco de um nome
de um amor inesperados

O que vier depois da casa
em ruínas, as formas
do silêncio inabitado

Tudo o que vier depois
da altura, o que vier despido
já da luz e de poesia,

os pássaros difíceis, a chuva
que arde nos olhos, a terra
que na neve tem o toque da ternura.

23-4-2007

sexta-feira, abril 27, 2007

Edith Piaf: Rien

Edith Piaf Non,je ne regrette rien 12-1960


Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
C’est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé
Avec mes souvenirs
J’ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n’ai plus besoin d’eux
Balayé les amours
Avec leurs trémolos
Balayé pour toujours
Je repars à zéro
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien, qu’on m’a fait,
Ni le mal, tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd’hui,
Ça commence avec toi

sábado, abril 21, 2007

O intérprete


O intérprete dos barcos
mete o convés no bojo
de uma elipse
traça a proa num golpe
como corta a água
um barco
se levanta à superfície
dos olhos e sorri a ria
como num espelho os lábios
sorriem ao rosto debruçado.
(Para o pintor Jaime Isidoro)

terça-feira, abril 17, 2007

Despedida

O poeta Joanyr de Oliveira, à esquerda, em 1998

Como Antigona quis
empedrar-me aqui
longe de palavras, de certas
arestas de pedra nas palavras
que vêm de algumas bocas
perturbar nosso canto

Fatigado de mim mesmo
gasto ainda meus olhos
na claridade das metáforas
e cativo fragmentos
de uma rosa desferida
pelo vento
apanhador do voo
das borboletas.

(Para o meu amigo Joanyr de Oliveira)

quinta-feira, abril 12, 2007

Um mendigo

musching a plum on
the street a paper bag
(mascando ameixas pela
rua num saco de papel)
William Carlos Williams

Tira as rugas ao papel
de uma das pernas
das calças, põe
o saco ao ombro
- já andou
por melhores mãos
agora
recolhe meio
comidos restos

O casaco cuja lã é leve
no nono ano cheio
de destinos e
caminhos
retirou há muito
uma das mangas, tem
menos um braço
para abraçar a solidão

Um sapato
vai descalçando
um pé.

quarta-feira, abril 11, 2007

O Tempo que passou

1ª edição, de 1971

BlockquoteAs naus estão agora ajustando as amarras/ Ao cais: oscilam ante a partida. / (...) / As mães vieram abafar o estrondo das naus.



domingo, abril 01, 2007

Regressos

Os teus ruídos
chegaram a casa

a casa encheu
de luz
as janelas

abriram-se cortinas

voaram
no vento

quando
voltaste
a sair

os teus ruídos.

2006

quarta-feira, março 28, 2007

O Visual na Poesia (Juan Manuel Roca)*

“Lo visual en la poesía, valga decirlo, no tiene únicamente que ver con la disposición tipográfica, aunque fuera tan esencial en los poemas de un gran visionario y vísionador del cubismo, Guillaume Apollínaire y sus Caligramas, sino, más allá de la piel, de la epidermis del lenguaje, en la capacidad evocadora”. Por eso, sostiene, “podemos comparar la mar con una carpintería, porque la garlopa arroja cantidades de viruta a las playas del mundo”, pues la metáfora, “que en griego quiere decir traslado, transporte, llevar de un lado a otro, de una realidad a otra, da a luz nuevas realidades”. Y entonces nos revela cómo, luego de una semana de noches de tormento e insomnia, creó las metáforas o kenningars que cambiaron el discurrir de la poesía en español y que tanto han imitado, sin superarlas, los poetas que le siguen:

El brazo del río jamás esgrime espada.
Los dientes de ajo no comen duraznos.
El ojo de agua desconoce el monóculo.
El cuello de botella no porta collares.
La oreja del pocillo no escucha a Beethoven.
Las manecillas del reloj no usan guantes en invierno.
Los durmientes del ferrocarril no se despiertan a su paso.
Las palmas de las manos no dan dátiles.
La luna de miel no atrae a las moscas.
Las cabezas de los fósforos no tienen aureola, aunque alumbren como santos."
* Poeta columbiano, in revista Arquitrave

domingo, março 25, 2007

Antígona



Antígona
é contra
a cidade
que não faz
sepulturas.
Uma para
Polinices
Outra
vez morto
quando o olham
as aves de rapina.
Antígona casa-se
com a morte,
Sófocles
pendura Antígona
no laço
da bela morte.
24-3-2007

Toreador Song

Gino Bechi, na ópera Carmen
http://www.youtube.com/watch?v=BsNkVduTKO8

sexta-feira, março 23, 2007

Quarto com vista para a Tabacaria

Não há nada
a fazer, com a janela
vêm vidros de gelo
e o fundo da noite.

Nunca será nada
mais do que uma janela
mesmo com a luz dentro de si.

Não pode querer ser nada.

Outra coisa à parte, tem em si mesma
olhos para os sonhos do mundo.

Quarto com vista para a tabacaria
para o mistério
da liberdade do vento
que sopra forte mas acomoda-se
contra as pedras.

Há milhões destes quartos
no mundo com paredes presas
por baixo de quadros, com humidade
nas paisagens e nas naturezas-mortas.

quarta-feira, março 21, 2007

Dia Mundial da (anti-)Poesia

CONVERSA ÀS 3:30 DA MANHÃ

Às 3:30 da manhã
a porta abre-se para uns pés
no corredor arrastando um corpo
soa um toque
descansas a tua cerveja
e vais responder.

Caramba! Diz ela,
você nunca tem sono?

E vai entrando com papelotes
nos cabelos
ela mesma é uma veste de seda
coberta com pássaros e coelhos

Ela trouxe a sua própria garrafa
a que juntas com magnificência
2 copos;
o marido, diz ela, está na Florida
a irmã envia-lhe dinheiro e vestidos
e ela tem procurado um emprego
há 32 dias.

Tu contas-lhe
que és corrector de apostas e um
compositor de jazz e de canções de amor,
e depois de alguns copos
ela não se incomoda com cobrir
as pernas
com a orla do roupão sempre a afastar-se.

Não são nada mal feitas, suas pernas
de facto, são perfeitas
e em breve tu estás a beijar uma
cabeça cheia de pedaços de papel.

E os coelhos estão a começar
a piscar, e a Florida é uma longa
ausência, diz ela nós não somos estranhos
até porque me tem visto no corredor.

E finalmente
há muito pouco
para dizer.

(Charles Bukowski)

Tradução de J.T.Parreira

segunda-feira, março 19, 2007

Talvez depois desta imagem, não haja mais Poesia


La imagen de ese buitre acechando a una niña moribunda en África le persiguió en vida. Con ella atrapó el Pulitzer, pero también la maldición de una pregunta: “¿Qué hiciste para ayudarla?”. A Kevin Carter, cronista gráfico de la Suráfrica del 'apartheid', la presión le empujó al suicidio. Un periodista testigo de aquellos años rememora su figura.
Créditos: El Pais, de hoje, Dia do Pai.

sexta-feira, março 16, 2007

Se tudo volta a começar

Quiero decirlo ahora
porque si no después las cosas se complican.

Soy peor todavía de lo que muchos creen.

Me gusta justamente el plato que otro come
aburro una tras otra mis camisas
me encantan los entierros y odio los recitales
duermo como una bestia
deseo que los muebles estén más de mil años en el mismo lugar
y aunque a escondidas uso tu cepillo de dientes
no quiero que te peines con mi peine.

Te explico estas cuestiones
porque si todo vuelve a comenzar
no me hagas mucho caso acuérdate.

terça-feira, março 13, 2007

Buffalo 66


A ÚLTIMA NOITE

Nenhum amor é mais
Cortante do que
Este

Às 2:30 da manhã
Layla sai do nada

À porta do quarto
Do hotel, uma
Lágrima irrompe
Dentro dos olhos

Fechada à chave
A porta
Alguém sentado
Na cama do quarto
Da noite passando

Um sorriso
Por baixo
Da tristeza
Dos lábios.
12-3-2007

segunda-feira, março 12, 2007

Manuel Machado

VERANO

Frutales
cargados.
Dorados
trigales...

Cristales
ahumados.
Quemados
jarales...

Umbría
sequía,
solano...

Paleta
completa:
verano.

quinta-feira, março 08, 2007

Pavlova


Os pezinhos de Pavlova
crescem no espaço, saltam sobre invisíveis
nuvens de ar, frágeis auroras
quase nunca pousam
no chão o seu voo de ave diminuta
os pezinhos dourados
de Pavlova, como peixes amarelos
num aquário de vento, parece
que procuram
a saída inexistente.

terça-feira, março 06, 2007

Poema.

Poema

Lana Turner veio abaixo!
Eu vagueava pelo quarteirão e de repente
soltaram-se a chuva e a neve
e tu disseste que era granizo
mas o granizo bate na cabeça
com dureza, de modo que nevava e
chovia e eu estava com essa pressa
de me encontrar contigo mas o tráfego
representava rigorosamente como o céu
e subitamente vi um título
LANA TURNER VEIO ABAIXO!
Não há neve nenhuma em Hollywood
nem chuva na Califórnia
tenho estado em muitas festas
e agi como um acabado indecoroso
mas na realidade nunca desmaiei
oh Lana Turner nós amamo-la levante-se
(1962)

Frank O'Hara, Baltimore, 1926-1966

(Tradução de J.T.Parreira)

segunda-feira, março 05, 2007

Frank O'Hara, o poema...

Poem

Lana Turner has collapsed!
I was trotting along and suddenly
it started raining and snowing
and you said it was hailing
but hailing hits you on the head
hard so it was really snowing and
raining and I was in such a hurry
to meet you but the traffic
was acting exactly like the sky
and suddenly I see a headline
LANA TURNER HAS COLLAPSED!
there is no snow in Hollywood
there is no rain in California
I have been to lots of parties
and acted perfectly disgraceful
but I never actually collapsed
oh Lana Turner we love you get up


A versão com dicção coloquial brasileira:

Lana Turner desmaiou!
Eu tava apressado pela rua e de repente
começou a chover e a nevar
e você falou que era granizo
mas cara granizo bate com força
na cabeça era neve mesmo
e chuva e eu morrendo de pressa
pra te encontrar mas o trânsito
tava naqueles dias como o céu
e de repente vejo a notícia
LANA TURNER DESMAIOU!
Não tá nevando em Hollywood
Não tá chovendo na Califórnia
Já fui num monte de festas
e dei perfeitos vexames
mas nunca desmaiei de fato
Lana Turner te amamos levanta mulher

(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes)

Amanhã a outra versão.

Frank O'Hara, amanhã, se calhar

Um poema em duas versões, a original e outra, em português. Se calhar, amanhã.

sexta-feira, março 02, 2007

El maestro

Él tose
como el ruido último que lo liga al mundo
él mira el silencio, espera
de una fuente la música cristalina de la agua
No vemos, pero él piensa
en cada uno de los instrumentos musicales
Y alarga los brazos, después los ojos y los oídos
que siguen las manos del tamaño de la mano Infinita.

Publicado em Predicado-Comunidad de nuevos escritores

domingo, fevereiro 25, 2007

Jaime Gil de Biedma


A ARQUITRAVE

A gente vive entre pessoas brilhantes. Há quem fale
da arquitrave e seus problemas
como se ela fosse sua prima
-além disso, muito próxima.

Pois bem, parece que a arquitrave
está em perigo grave. Ninguém sabe
muito bem por que assim é, mas dizem-no.
Há quem venha a dizê-lo há vinte anos.

Há quem fale, também, de inimigo:
seres não perceptíveis
estão em toda a parte, insinuam-se
como o pó nos quartos.

E existe quem levante andaimes
para que ninguém caia: povo atento.
(Curioso, que em inglês scaffold signifique
ao mesmo tempo andaime e cadafalso.)

Algum sai à rua
e beija uma rapariga ou compra um livro,
passeia, feliz. E lhe disparam:
Mas como se atreve?
!A arquitrave…!


In Las personas del verbo

(Tradução de J.T.Parreira)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Notícia Local

As estrelas expandem-se.
A poeira
caiu numa estrada
do Arizona.

Uma rosa de magma
tornou-se sólida
antes que as mãos pudessem
salvar as cinco pétalas.

Uma ave
cobriu-se de poeira
primeiro que nossos olhos
tivessem tempo
de voar no seu corpo.

E o sol escondeu-se, uma sombra
decapitou uma árvore.

19-2-2007

domingo, fevereiro 18, 2007

Segunda-Feira, de Primo Levi


Que coisa é mais triste que um comboio?
Que parte quando deve,
Que não tem mais que um som,
Que não tem mais do que uma estrada.
Nada é mais triste que um comboio.

Ou talvez um cavalo de tiro.
Está fechado entre duas palas,
Não pode nem olhar para o lado.
A sua vida é andar.

E um homem? Não é triste o homem?
Se vive longamente em solidão
Se crê que chegou ao fim
Também o homem é uma coisa triste.

(Tradução de J.T.Parreira)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Impressões

(à maneira de e.e.cummings)


As gaivotas estão melancólicas
hoje(pairam
no tédio
dos pátios)na ondulada
pedra
das calçadas,
nas poças de água(só
um céu
de lama)só
argila.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Espanha no coração:Pablo Neruda

Madrid isolada e solene, Julho te surpreendeu com tua alegria
de colmeia pobre: tua rua era clara,
claro era teu sonho.
Um desejo negro
de generais, uma vaga
de sotainas raivosas
rompeu entre teus joelhos
suas lodosas águas, seus rios de escarro.

Todavia, com os olhos feridos de sono,
com escopeta e pedras, Madrid, recém-ferida,
defendeste-te. Corrias
pelas ruas
deixando estelas de teu santo sangue,
reunindo e chamando com uma voz de oceano,
com um rosto mudado para sempre
pela luz do sangue, como uma vingadora
montanha, como uma sibilante
estrela de facas.

Quando nos tenebrosos quartéis, quando nas sacristias
da traição entrou tua espada ardendo,
não houve senão o silêncio do amanhecer, não houve
senão teu passo de bandeiras,
e uma gota de sangue em teu sorriso.

in Tercera Residencia, Madrid, 1936

(Tradução de J.T.Parreira)

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Poema de Allen Ginsberg

Kaddish 44

Para Lindsay*

Vachel, as estrelas sairam de cena
o escuro caiu numa estrada do Colorado
um carro lento rasteja através da planície
o rádio ressoa jazz no crepúsculo
um vendedor desanimado acende outro cigarro
Há 27 anos noutra cidade
vejo a tua sombra no muro
estás sentado sobre teus suspensórios na cama
a mão da sombra ergue até à cabeça um frasco de Lysol
teu vulto decai sobre o soalho

*Vachel Lindsay, Poeta norte-americano, 1879-1931. Suicidou-se, bebendo Lysol

(Tradução: J.T.Parreira)


To Lindsay
Vachel, the stars are out / dusk has fallen on the Colorado road / a car crawls slowly across the plain / in the dim light the radio blares its jazz / the heartbroken salesman lights another cigarette / In another city 27 years ago / I see your shadow on the wall / you’re sitting in your suspenders on the bed / the shadow hand lifts up a Lysol bottle to your head / your shade falls over on the floor

[Paris, May 1958]

terça-feira, fevereiro 06, 2007

A Bússola

O destino
ao fundo de uma nuvem
Para quem atravessa a névoa e o sol
no deserto, saber o lado
para onde caminhar
o norte
assiste ao arco que descreve o dia
e o sul
ao fundo do vento
sigamos o magnético
atractivo
da pura fantasia boreal.

domingo, fevereiro 04, 2007

Pós-modernidade na rede: a poesia brasileira no século XXI

Texto da poeta Virna Teixeira
(...)
Alguns blogs agregam poetas que escrevem de várias partes do Brasil, com o Algaravária (http://algaravaria.blogspot.com/). Na internet não há distância geográfica e sim afinidades. Há blogs que são escritos em todas as partes do país, por poetas que mantêm freqüentemente intensa atividade fora do local onde vivem, como por exemplo: Douglas Diegues do Portunhol Selvagem http://www.portunholselvagem.blogspot.com/) em Campo Grande, que mantém vários diálogos com outros poetas dentro da América Latina; Poesilha do Marcelo Sahea (http://poesilha.blogspot.com/) e Folhas de Girapemba da Ana Maria Ramiro (http://girapemba.blogspot.com/) em Brasília; Micropolis (http://micropolis.blogspot.com/), de Marília Kubota, em Curitiba; para citar alguns.

Há também interações de blogs brasileiros com blogs portugueses, como o Nocturno com gatos (http://nocturnocomgatos.weblog.com.pt/), de Soledade Santos; Linha de cabotagem (http://linhadecabotagem.blogspot.com/) de Helena F. Monteiro, o Finisterra de Oscar Mourave (http://www.finisterra.blogger.com.br/ ) que escreve sob pseudônimo e mora na Tunísia e os blogs de poesia e tradução Ao longe os barcos de flores (http://barcosflores.blogspot.com/), de Amélia Pais e Poeta salutor (http://www.poetasalutor.blogspot.com/) de J. T. Parreira. A poeta carioca Silvia Chueire, do Eugenia in the meadow (http://eugeniainthemeadow.blogspot.com/), pela proximidade da sua escrita com a dicção portuguesa, publicou seu primeiro e único livro de poesia em Portugal, através da internet.

in Cronópios

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

The Factory


Andy
Wahrol, a poeira caiu no chão
um ataque cardíaco
do tecto perto dos nossos olhos
do céu
cairam as luzes, a tua sombra
também sobre o chão.

domingo, janeiro 28, 2007

A Guitarra

Começa o choro
da guitarra.
Partem-se os cristais
da madrugada.
Começa o choro
da guitarra.
É inútil calá-la.
É impossível
calá-la.
Chora o mesmo tom
como o choro da água,
como o choro do vento
sobre as noites brancas.(*)
É impossível
calá-la.
Chora por coisas
longínquas.
Areia do Sul quente
que pede camélias brancas.
Chora a flecha sem alvo,
a tarde sem manhã,
e o primeiro pássaro morto
sobre os ramos.
Ó, guitarra!
Coração malferido
por cinco espadas.

(Tradução: J.T.Parreira)

(*) Em 1946, Eugénio de Andrade traduziu «la nevada», em Antologia Poética, como «o nevão».
Já em 1968, em Trinta e Seis poemas e uma Aleluia Erótica, o mesmo poeta usou o termo «a nevada».
Atendendo à poeticidade da expresão «noites brancas» usamos aqui a mesma, talvez como um metonímia para falar de queda de neve, e não no sentido do romance de Dostoievski (Noites Brancas, o dia contínuo.)

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Cidade Transparente

No teatro das casas
em Amsterdão, à noite
a vida está aberta
à noite passeamos
no meio de mesas de jantar
salas, quartos de dormir
tudo visível, tudo vida
sem cortinas, uma janela
reflecte a luz
nos vidros de água
dos canais.
Há uma linha num livro
que partilha a poesia
um Van Gogh
que o sol da janela amarelou
todos os dias a única
coisa nova são as nuvens
que mudam de lugar.

21-1-2007

terça-feira, janeiro 23, 2007

Dizer sem dizer: os sons na poesia de Vicente Huidobro

Um prefácio e sete poemas, designados por cantos, constituem o livro torrencial de Vicente Huidobro (1893-1948), poeta chileno, cuja linguagem se desloca do centro da poesia modernista, no conceito da América hispânica da primeira década do século XX, para a busca do vocábulo puramente fonético, aparentemente sem poesia, mas exibindo uma estrutura onomatopeica como significante apenas do próprio som.
Esse livro em que a torrente se deslocaliza da palavra para o puro som é Altazor, uma obra considerada épica. Ela consiste na realização, levada a cabo pelo poeta, do seu credo artístico, da criação e criação literária dentro do próprio poema, do desmontar da linguagem gongorizante e simbolista, do provocar o cataclismo en la gramática, do louvor à individualização da mulher como entidade geradora, das combinações vocabulares curiosas, as palavras circulares, como por exemplo eterfinifrete (Canto IV, pág.66) ou ainda novas formas de dizer " al horizonte en la montaña" assim: al horitaña de la montazonte (pág. 60).
As experiências que esse poeta de Santiago do Chile, amigo de Lorca e influenciador de Gerardo Diego, produz na sua poesia não estarão desligadas da sua avidez literária pelas novidades.
A Vanguarda estética, na arte poética, era o seu terreno e Apollinaire, para nos situarmos só na literatura, foi uma das suas figuras tutelares.
Mas toda a Vanguarda artística da Europa contribuiu para a sua criatividade apaixonada, desde Picasso a Stravinsky.
Se dos pincéis do primeiro nasciam deformidades criadoras da pura ordem pictórica e do segundo uma música cujo algum caos formulava já a beleza harmónica do Pássaro de Fogo , da poética de Huidobro surgia a poesia que não se limitava a interpretar, mas a elaborar a própria criação, que não se circunscrevia apenas aos sentidos mas aos sons vocabulares.
São célebres e aforísticos os dois versos, da sua Arte Poética, em que questiona os poetas que se limitavam a cantar a rosa: Por qué cantáis la rosa, oh Poetas, Hacedla florecer en el poema.
Huidobro reclamava a sua quota parte de pequena divindade, que não só naquele tempo, mas sempre e desde os gregos se costumava atribuir aos poetas ( na poética hebraica e bíblica já não era obviamente assim).
El Poeta es un pequeño Dios , era o desafio final daquele poema de Huidobro.
Mas este poema possui um sentido, não é hermético, a sua gramática é habitável, podemos conviver com ela. É uma arte poética com sentidos que transportam de um lugar a outro, indica todo um programa que a história da literatura Latino Americana classifica como Criacionismo.
Ao contrário é o livro Altazor . Sendo também uma viagem, dir-se-ia que é intergalática. A personagem cai ou vem de uma queda auto-promovida desde um ponto do universo.
O livro apoia-se sobre um mito básico: Altazor é a encarnação do poeta descendo às profundidades, tal qual Dante, Enéas ou Orfeu, com a ajuda de um páraquedas, que a crítica usualmente afirma ser a poesia.
Esta queda, ou melhor descida controlada do poeta, é também um acto de revolta, e esta começa em Altazor com uma linguagem carregada de conteúdos , de informação, de ideologia. Nesta obra de capital importância para a poesia modernista hispânica, a dicotomia de Saussure contribui para a compreensão da sua linguagem: contém o elemento social que é a língua e o elemento individual que é a palavra.
É, porém, no último canto do poema que tudo o que concerne à linguagem - língua e palavra - se transmuta em puro som, apesar de alguns vocábulos que podem ser pronunciados, mas distituídos de qualquer sentido. Criação do próprio som, a emanar do «poema» do criacionista Huidobro? Na mesma direcção programática em que os poetas deveriam, sim, criar a rosa e não cantá-la?
O canto VII é, em todo o caso, o da incompreensibilidade, da fonética pura sem sentidos, da onomatopeica propositadamente identificável. Segundo Octávio Paz, o "dizer sem dizer", sem nenhuma correspondência semântica, no fundo, uma metalinguagem.

Ai aia aiaia ia aia ui Tralalí Lali lalá Aruaru urulario Lalilá Rimbibolam lam lam Uiaya zollonario lalilá Monlutrella monluztrella lalolú Montresol y mandotrina Ai ai Montesur en lasurido Montesol Lusponsedo solinario Aururaro ulisamento lalilá Ylarca murllonía Hormajauma marijauda Mitradente Mitrapausa

sábado, janeiro 20, 2007

Passagem para o efémero

Nalgum lugar onde nunca esteve, ninguém
relembrará quem, o que, onde
e quando, como
as coisas começaram
e porquê o papel durou como invólucro
de rosas.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Um Outro Adeus Português

Blockquote e como um adolescente tropeço de ternura
por ti
Alexandre O Neill


Dentro dos meus olhos uma outra
forma de olhar
suporta a tua dor,

amparo-te na escada fluvial
que te traz ao dia,
no cais onde acostam
tuas sonâmbulas palavras

mais uma puríssima manhã
que deverias tratar
com o leite corporal
róseo da perpétua aurora

não podemos ficar nesta curva
entre sonhos de uma rosa enorme
que deixa o lirismo
a contas, indeciso com o mais
lancinante espinho.

6-1-2007

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Poesia: Intertextualidades: Basil Bunting

O OUTONO

Quando amolece o boquim o alento do que toca o timbre torna-se claro.
É a hora de examinar como Domenico Scarlatti
comprimiu tanta música em tão poucos compassos
sem voltas intrincadas ou cadências em excesso;
nunca uma vaidade ou um intuito; e as estrelas e os lagos
fazem eco e o bosque tamborila ritmos,
os cumes nevados elevam-se com a luz da lua
e do crepúsculo e o sol desponta familiar.

(Tradução do espanhol: JTP)

sexta-feira, janeiro 12, 2007

O Condutor

Tosse
como o último ruído
da ligação ao mundo

Com seus gestos de pescador
à linha
enche os braços de ar

fixa o silêncio
como se esperasse de uma fonte
a cristalina música da água

Não vemos, mas pensa em cada
um dos instrumentos
e estende os braços

Depois os olhos e ouvidos
seguem-no, as mãos
do tamanho da infinita mão

escutam-se, sonoras
vão desvelando
a música.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Charles Olson

"a poem is energy transferred from where the poet got it . . . by way of the poem itself to, all the way over to, the reader . . ."-

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Num campo de concentração: e.e.cummings


um riso sem um
rosto (um olhar
sem um eu)
cuida

do (não to
que) ou
desaparec
erá semru

ído (na doce
terra)&
ninguém
(inclusive nós

mesmos)
relembrará
(por uma fra

ção de
um mo
mento) onde
o que como

quando
por que qual
quem
(ou qualquer coisa)

(Tradução de Augusto de Campos)

terça-feira, janeiro 09, 2007

Na Tabacaria

Nunca era nada. Nunca
seria nada, disse, não podia
querer ser nada.
E o sonho, que era de todos
os sonhadores do mundo,
assomava as janelas do seu quarto,
do quarto de um dos milhões do mundo
que ninguém saberia quem era.
Mas, logo o poema iniciado
cruzaria as ruas, entraria nos hospícios
onde poucos sabem que vão morrer,
nas mansardas onde o sonho
se sonha a si próprio,
entraria no mundo,
chamaria a atenção, como por sinal
divino, do Dono da Tabacaria
quando se acerca da porta e permanece.
Entraria
até no universo para um último adeus:
Adeus, ò Esteves.
E o poema sorriria.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Tradução: John Berryman

Dream Song 105

Como um garoto acreditei na democracia: eu
não via outra alternativa- ensinando em Princeton eu
apliquei-a
numa sondagem para um longo romance: por um voto-
E Tudo o Vento Levou, votaram todos: rangi um «não»
e sentámo-nos com Guerra e Paz.

Como um homem acreditei na democracia( ninguém
sabe sempre tudo) : num dia de folga
o meu assistente, chamado James Dow,
& Eu estivemos tagarelando, em desacordo,
eu perguntei curioso «Qual é a sua verdadeira política?»
«Oh, eu sou monárquico»

Finalizando a sua dissertação, em Ciência Política.
Resigno-me. O desprezo universal pelo Sr.Nixon,
de quem nunca gostei mas o qual
vigilante & enérgico serviu-nos anos a fio debaixo de segredos
desde a invasão da dinastia K. Deixem-nos ter um Rei
talvez, antes de alguns votos estúpidos.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Intertextualidades: para que servem os pássaros

Olhos no Céu

Olhai as aves do céu, voam
de qualquer lado
habitam qualquer lugar
no azul ou no verde
menos nos nossos olhos

Olhai depressa as aves no céu
cada pássaro se dissipa
na sua partida
e a velocidade dos olhos
perde-se no voo violado

Olhai nas aves o céu
espaço permeável
ao vento, à alta seta
do sonho

(J.T.Parreira)



Para que serve o pássaro?

Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?

O que era vôo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico

O que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que
o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um
esquema de distâncias —

mas para que serve o pássaro?
O pássaro não serve. Arrítmicas
brandas asas repousam.

(Orides Fontela, 1940-1998)

terça-feira, janeiro 02, 2007

Outro dia no Café A Brasileira do Chiado

No Café A Brasileira do Chiado
sentam-se o plural
Pessoa, Fernando com risos vacilantes
nos seus lábios
Eles esperam as palavras
para prestar contas pela quebra
do mármore do silêncio
com o ruído das máquinas
e os carros eléctricos
e o respirar na alma.

2/1/2007

domingo, dezembro 31, 2006

"Os Sem Papéis"

Imagem extraída do diário El Mundo

Viajam com as cabeças de fora
cortam a espuma
do vento nas ondas

cortam o rosto com sal
viajam com o corpo
uns dos outros

movem-se
nos olhos
uns dos outros

não perguntes
de onde
vêm

vêm
em direcção a ti-
terra

vêm
como
Ninguém.


30/12/2006

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Intertextualidades:Poema de John Berryman

Separação

O sol corria no céu, o táxi voou;
havia uma espécie de febre no relógio
nessa manhã. Chegamos a Waterloo
sobrando-me tempo, soube encontrar o meu rumo.

O café amargo num pequeno restaurant
permitiu-nos a conversa. Quando o comboio
começou a andar,vi a tua meia-volta
e desapareceste, e as veias do meu cérebro

estouraram, o comboio rugiu, os outros passageiros
saltaram velozes, o ar inconstante
che si cruccia,ouvi os demónios maldizer
e chiar de alegria nesse lugar longe da súplica.

(Tradução de J.T.Parreira)

terça-feira, dezembro 26, 2006

O esplendor em Paris-Orly

O táxi corria contra o caudal
das ruas, um rio volumoso
saltando das margens, peões
carros febris, todos
os relógios contra o seu.

Chegaram ao Paris Orly. Ainda
com tempo para o fogo
interior, amargo
de um café, como fogueira
no centro de um campo de sonhos.

Quando a última voz chamou
os viajantes para o voo, o adeus
e os beijos morreram nos lábios
e lembram-se da meia-volta final
antes de se tornarem voláteis.


23/12/2006

quinta-feira, dezembro 21, 2006

O retorno ao Mito - e.e.cummings


Ao analisar as estatísticas das referências procuradas neste Blog, neste último mês, colocam-se em destaque o poeta e.e.cummings e, designadamente, o poema i carry your heart. Aqui fica uma nossa tradução mais antiga, que extraímos do site Escrita Criativa, e uma curiosidade de 1920.

Buffalo Bill's
Poema de e.e.cummings
Tradução de J.T.Parreira

Buffalo Bill
o defunto
que costumava
montar um garanhão
de prata como água macia
e rebentar umdoistrêsquatrocincotiposdeumavez
oh céus
era um homem bonito
e o que eu desejo saber é
o que lhe parece esse rapaz de olho azul
Senhor Morte

domingo, dezembro 17, 2006

A (minha)posição surrealista

Como um beduíno que vive
ondulando com as dunas,
desprovido de cintilações
de oiro, o meu vestido gasta-se
na minha tenda
acocorada no deserto.
Sou um beduíno, no vento
traspasso-me de areias
curvo-me
para receber o sol
e a sombra,
da oculta mão.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Poema 20

(Fragmento)
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe».

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e às vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a nos meus braços.
Tantas vezes a beijei sob o céu infinito.

Ela me amou, às vezes eu também a amava.
Como não amar seus grandes olhos fixos.

(Tradução de J.T.Parreira)

terça-feira, dezembro 12, 2006

The Urban Night / A Noite Urbana

Windshine, and the vigilant
lights of lampposts;
spent bonfires
in the washed gray night; window treatments
on a window that coughs
and flails
while twin shadows slip away
still tied
to a last glance. On each balcony
and verandah
there is someone
on the look out
for the naked intimacy
freefalling
from a dark room.

(Tradução de Sergio Facchini)

Brilham no vento as luzes vigilantes
dos candeeiros públicos,
fogueiras
para as noites húmidas,
agitam-se as cortinas
da janela que tosse,
enquanto dois vultos
se esquivam enlaçados
aos últimos olhares,
entre as varandas dos prédios
há quem procure
num quarto nu a intimidade.

sábado, dezembro 09, 2006

A Poesia de Pôr em Cena de Harold Pinter

A obra poética de Pinter, de reduzida dimensão, mistura a dramaticidade com a fala coloquial, quase sem importância, mas com amplos e profundos significados. Diria, quase que esticando um pouco a corda da análise pessoal, que alguns dos seus poemas são em si mesmos trechos de material que se pode encenar. Alguém comentou já que a sua poesia não é poesia, no sentido que atribuímos a esse artefacto literário que é o poema. Essa afirmação não poderá ser tida como definitiva.
A poesia de Harold Pinter carrega em si a mensagem que reflecte um mundo ameaçador e violento, feito das contradições da nossa sociedade e da natureza humana. Como afinal acontece na sua obra dramatúrgica, fazendo da mesma uma das mais importantes do século XX, a meio caminho entre o teatro poético, na poesia da vida quotidiana, e o teatro do absurdo. Pinter não teve de facto as suas personagens à espera de Godot, as suas personagens não esperam nada, o fundamental das mesmas, são as falas sem nenhum significado dos actores. O que nos parece poder intuir-se, salvo melhor opinião, na mediatizada fala de duas personagens, marido e mulher, de uma das suas peças. O marido que pergunta à mulher o que toma, que bebida quer tomar:
-Somos casados há dez anos- responde ela, e apenas isso.
A poesia, alguma poesia de Pinter, também abre várias perspectivas para outros tantos caminhos, apesar de algum laconismo. São poemas para descobrir também os ambientes fechados. Pinter faz com que os poucos poemas que escreveu, comparativamente às suas peças, e tal como estas, revelem o abismo que existe nas conversas ôcas das personagens, nos espaços mais variados das relações humanas em sociedade ou no interior da home. A sua poesia é também «pinteresque», aparentemente usa a língua sem nada comunicar. Mas é o que nos parece... É paradigmático, este já nosso conhecido poema:

Restaurante

Não, você está errado.

Todos são tão belos
como podem possivelmente ser

Particularmente ao almoço
no restaurante que ri

Todos são tão belos
como podem possivelmente ser

e são movidos
pela sua própria beleza

e derramam lágrimas por isso
no fundo do taxi para casa.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Para um retrato de Modigliani

Saltaram dos teus olhos imersos em azul
os meus olhos
para o teu colo esguio

Deviam descer pelo curso
do pescoço como um rio
infinito?

Mas ficariam retidos
no castelo da tua mão
com ameias vigilantes!

domingo, dezembro 03, 2006

Procura



Procurei, procurei, virei-me de olhos para o ar, e enfim, lá estava ele no fundo de 1973, numa das estantes, entre milhares de outras palavras da minha biblioteca. Custou-me então 40$00.

sábado, dezembro 02, 2006

À chuva num campo de milho

Perdeu o orgulho, o cavalo-
à chuva que flutua
mais do que em queda
- montado no vento das suas patas,
baixa a cabeça, a
cabeleira
é agora um inútil
cometa.
Mas não perde a elegância
da figura
há mesmo um certo aprumo
na ruína equestre
de um cavalo à chuva.

29-11-2006

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa

Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa - Clique aqui e baixe

Após dois anos de diligente pesquisa, Sammis Reachers concluiu e tornou disponível a todos gratuitamente a Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa, reunindo poemas de caráter genuinamente cristão de grandes nomes da literatura lusófona, desde Camões até os dias atuais, passando por escritores e poetas como Machado de Assis, Fernando Pessoa, Alexandre Herculano e muitos outros. Poemas de mais de 80 autores, dentre brasileiros, portugueses e africanos. Textos belíssimos, selecionados a partir de uma perspectiva evangélica. Um verdadeiro presente aos leitores, sejam eles cristãos ou não.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Poeta mexicano, Xavier Villaurrutia, 1903-1950*

Nocturno de la Estatua

A Agustín Lazo

Soñar, soñar la noche, la calle, la escalera
y el grito de la estatua desdoblando la esquina.
Correr hacia la estatua y encontrar sólo el grito,
querer tocar el grito y sólo hallar el eco,
querer asir el eco y encontrar sólo el muro
y correr hacia el muro y tocar un espejo.
Hallar en el espejo la estatua asesinada,
sacarla de la sangre de su sombra,
vestirla en un cerrar de ojos,
acariciarla como a una hermana imprevista
y jugar con las fichas de sus dedos
y contar a su oreja cien veces cien cien veces
hasta oírla decir: «estoy muerta de sueño».

*Criador do chamado movimento Los Contemporâneos, equivalente sul-americano à Geração del 27

segunda-feira, novembro 27, 2006

Cesariny(1923-2006)

Cheguei ao Cesariny pelo Rimbaud, em 1963


Cesariny

O homem
que morreu fica hoje
confinado a poeta

Fica hoje confiado
ao espaço
de uma pedra

tumular, fica dentro
de si próprio
o homem que morreu

fica hoje confiado
à poesia.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Recolher Obrigatório


Nos cafés apalpa-se a tristeza.

As luzes tomam o caminho
mais estreito,
o colapso das colunas da noite
fez cair
as sombras nas esquinas,
ninguém
quer uma bala perdida.

Cada dia no entanto
a solidão
penetra as nossas mãos.

terça-feira, novembro 21, 2006

A menina de Ezra Pound

A Menina

A árvore penetrou minhas mãos,
A seiva ascendeu pelos meus braços,
A árvore cresceu-me no peito-
Para baixo,
Os ramos crescem fora de mim, como braços.

Árvore és tu,
Musgo és tu,
Tu és violetas com o vento acima delas.
Uma criança – tão alta – és tu,
E tudo isso é loucura para o mundo.

(Tradução J.T.Parreira)


A Girl

The tree has entered my hands, //The sap has ascended my arms, //The tree has grown in my breast-// Downward, //The branches grow out of me, like arms. //Tree you are, //Moss you are, //You are violets with wind above them. //A child - so high - you are, // And all this is folly to the world.

(Ezra Pound)

sábado, novembro 18, 2006

Giuseppe Ungaretti: uma tradução

VEGLIA

Un’intera nottata
buttato vicino
a un compagno
massacrato
con la sua bocca
digrignata
volta al plenilunio
con la congestione
delle sue mani
penetrata
nel mio silenzio
ho scritto
lettere piene d’amore

Non sono mai stato
tanto
attaccato alla vita


VIGÍLIA

Uma noite inteira
próximo
de um companheiro
massacrado
com a sua boca
a ranger à lua cheia
com o sangue hirto
das suas mãos
cravado
em meu silêncio
escrevi
cartas cheias de amor

Nunca estive assim
tão
encostado à vida

(Tradução de J.T.Parreira)

sexta-feira, novembro 17, 2006

a mão à maneira de e.e.

para e.e.cummings

a mão desliza(nas coisas do amor
a mesma mão que seca as lágrimas)e
faz explodir o silêncio
a mão(que inventa ritmos novos
que guia a criança até a sua casa)aperta
a outra mão.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Walt Whitman


AS ADAM EARLY IN THE MORNING

As Adam early in the morning,
Walking forth from the bower refresh’d with sleep,
Behold me where I pass, hear my voice, approach,
Touch me, touch the palm of your hand to my body as I pass,
Be not afraid of my body.

(Walt Whitman)

IGUAL A ADÃO MADRUGADOR

Igual a Adão madrugador,
passeio à frente das ramagens, acordado pela água,
vejam onde passo, ouçam minha voz, aproximem-se,
toquem-me, com a palma da vossa mão passem por mim,
não temam o meu corpo.

(Tradução de J.T.Parreira)



domingo, novembro 12, 2006

a Prostituta

Primeiro os seus olhos deixam
penetrar-se pela noite
O corpo então
passa pelas esquinas
como em paredes de cristal
os cabelos estremecem
sobre os ombros, os lábios
sorriem detrás da flor
carmim
as pernas sobem dos saltos
dos sapatos
por fim, o peito que aconchega
o frio
O único mundo
que cai aos seus pés
as meias, a rosa
íntima
e o vestido.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Galeria

Kaddish

La Puerta, de Gabriel Celaya

LA PUERTA

Me he parado, pequeño, ante la enorme puerta
de madera oscura, com bronces historiados.
Debo llamar? Debo esperar? Debo algo?
Parece que sí. No sé. Quizá recuerdo
al niño que trataba de llegar a la aldaba.
Yo tampoco llego, de puntillas, ni en sueños.
Y de pronto la puerta se abre lentamente,
despacio, con el leve chirrido de cien siglos,
y muestra ante mí, ansioso, de par en par, cuadrado,
un espejo de plata, y en él, quien no conozco.

1968

A PORTA

Não continuei, ínfimo ante a porta enorme
de madeira obscura, com bronzes entalhados.
Devo chamar? Devo esperar? Fazer o quê?
Parece que sim. Não sei. Então recordo
o menino que se aplicava para chegar ao trinco.
Tão-pouco chego, nem por sonhos em bicos dos pés.
E logo a porta se abre lentamente,
sem peso, com um leve chiar de cem séculos,
e põe diante de mim, ansioso, um quadro amplo
um espelho de prata, e nele quem não conheço.

(Trad. J.T.Parreira)

Bom fim de semana!

terça-feira, novembro 07, 2006

O Arado

Preso ao arado, atrás
do arado a dupla
condição de homem
e gume.
A terra apagada
começa a florir, no avesso
da terra nasce uma luz
do fundo
da terra vem um gesto
um húmus, uma vaga
de silêncios.
Onde está o caminho para o outro lado
o branco, o magma
para atravessar a dor da água?
Penetrar
até ser também raíz
cansada um dia
e repousar envolto
num lençol
de água.

segunda-feira, novembro 06, 2006

O sol da casa

Sou o que veio por um momento
de sol.

Vim até à beira da janela
até ao hálito da casa.

Venho até ver com o sol
o ouro do campo
da casa.

Uma boca lenta que percorre
o sabor dos quartos
desta casa de terra quente.

Venho até quase à boca desta casa
silenciosa de sol.

(António Ramos Rosa)

sábado, novembro 04, 2006

Claribel Alegría, poeta das memórias

Bloco de textoJuan Ramón me guió los primeros pasos en poesía. Yo quería lanzarme al verso libre y él me condujo a la métrica tradicional. Decía que eso era lo primero antes de aprender a caminar sin muletas.

BARAJANDO RECUERDOS

Barajando recuerdos
me encontré con el tuyo.
No dolía.
Lo saqué de su estuche,
sacudí sus raíces
en el viento,
lo puse a contraluz:
Era un cristal pulido
reflejando peces de colores,
una flor sin espinas
que no ardía.
Lo arrojé contra el muro
y sonó la sirena de mi
alarma.
¿Quién apagó su lumbre?
¿Quién le quitó su filo
a mi recuerdo-lanza
que yo amaba?

Aos 81 anos, a poeta nicaraguense acaba de receber nos Estados Unidos o Prémio Neustadt. Na entrevista que deu ao Babelia, hoje, recorda a influência e a formação junto de Juan Ramón Jiménez.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Voo 0475

: depois descolou da terra o seu peso, subiu
para o tempo inconsútil, a hora de ponta
do azul prateado.
Sob o tráfego aéreo as árvores, as casas, os nomes
das ruas
reduzem os átomos,
magros desenhos, como no verde estampado
da tua blusa sentada com os olhos
presos na janela.
Não a contemplo na sua altivez,
a nave que enfrenta a gravidade, estou dentro,
estou bloqueado numa água azul
num aquário no meio do tráfego, levanto-me,
mas ando sobre nuvens.

domingo, outubro 29, 2006

El Pais: Babelia: Herberto Helder

Na edição de ontem, sábado, o suplemento Babelia fala de um Poeta Obscuro:
Bloco de textoIntroductor del surrealismo en su país en los años cincuenta, próximo a algunos de los postulados de la poesía experimental más tarde, Herberto Helder participa en varios de los proyectos más importantes de la historia reciente de la literatura lusa, como Folhas de Poesia o Poesia Experimental. Desde el meridiano del siglo, ha construido una obra intensa y singular, sin debilidades ni concesiones, pareja en muchos aspectos a su propia experiencia personal, con décadas de vida recluida y de entrega total a la escritura y el lenguaje, rechazando participar en antologías, entrevistas o encuentros y recibir premios, como los prestigiosos Europalia o el Fernando Pessoa, que le habían sido concedidos.
De esta forma, Herberto Helder ha ido consolidando una obra profundamente personal, enigmática y depurada, que nunca deja indiferente a sus lectores, y que hace de los dominios del lenguaje su campo exacto de movimiento.

sábado, outubro 28, 2006

e.e.cummings: um poema de amor

i carry your heart with me

i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

(e.e.cummings)


carrego o teu coração comigo

carrego o teu coração comigo(carrego-o em
meu coração)nunca estou sem ele(onde
eu vou tu vais, querida; e o que é feito
só por mim és tu que fazes, meu amor)
eu não temo
nenhum destino(tu és o meu destino, meu doce)eu não quero
outro mundo (pela tua beleza ser o meu mundo, minha verdade)
e tu és seja o que for que a lua signifique
e o que quer que o sol cante sempre és tu

aqui está o segredo mais profundo que ninguém sabe
(a raíz da raíz e o botão do botão
e o céu do céu da árvore chamada vida; a qual cresce
mais alto do que a alma espera ou a mente esconde)
e este é o milagre que mantém as estrelas separadas

carrego o teu coração( carrego-o em meu coração)

(Tradução de J.T.Parreira)

sexta-feira, outubro 27, 2006

Leopardi: Canti

O patria mia, vedo le mura e gli archi
e le colonne e i simulacri e l'erme
torri degli avi nostri,
ma la gloria non vedo,
non vedo il lauro e il ferro ond'eran carchi
i nostri padri antichi. Or fatta inerme,
nuda la fronte e nudo il petto mostri.

quinta-feira, outubro 26, 2006

America

Quando potrò andare al mercato
con il cuore in mano
Con il mio fascino
pagherò vino e latte
Userò le dita
come codice
alla sbarra
che dirà la verità.

(Traduzione di Alessandra S.Banti)

quarta-feira, outubro 25, 2006

Haikus de Kobayashi Issa (1763-1827)

鶏の抱かれて見たるぼたん哉
niwatori no dakarete mitaru botan kana

sitting on her eggs
the chicken admires
the peony

sentada em seus ovos
a galinha admira
a peónia


Snow melts,
and the village is overflowing –
with children.

Derretimento da neve,
e a aldeia está a transbordar-
com crianças.

(Tradução:J.T.Parreira)

terça-feira, outubro 24, 2006

O guarda do farol

A luz que mora no farol
toca com nostálgicos
dedos os navios,

iluminados
por dentro
são as janelas da noite,

depois afastam-se
com um princípio,
meio e fim, depois

nem o rasto branco
fica na ondulada folha,
azul-escura, das águas.

A luz que mora no farol
conhece de cor
o faroleiro, ele manuseia

as trevas, os ventos, o rugir
do mar, ele diz
por onde a luz deve ir,

tem sempre uma última
luz na beira das manhãs.

sábado, outubro 21, 2006

Apollinaire (Sob a ponte Mirabeau)

Óleo do poeta Ferreira Gular

Sob a ponte Mirabeau desliza o Sena
E os nossos amores
É bom lembrar, vale a pena,
Que a alegria sucede aos dissabores

A noite vem passo a passo
Os dias se vão eu não passo

As mãos nas mãos estamos face a face
Enquanto passa
Sob a ponte de nossos braços
A onda lenta de um eterno cansaço

A noite vem passo a passo
Os dias se vão eu não passo

O amor se vai como esta água barrenta
O amor se vai
Como a vida é lenta
E como a esperança é violenta

A noite vem passo a passo
Os dias se vão eu não passo

Passam-se os dias passam-se as semanas
Nada do que passou
volta de novo à cena
Sob a ponte Mirabeau desliza o Sena

A noite vem passo a passo
Os dias se vão eu não passo

(Tradução por Ferreira Gullar)

Memórias aos 59

When I look back, I see a collapsing
accordion of my receding houses
Robert Lowell

Quando olho para trás, vejo o colapso
da minha infância, a derrocada
dos meus calções de golfe
e camisas aos quadrados,
ao mesmo tempo que o das casas
e dos quartos e das janelas
em que debrucei os meus
primeiros, inocentes olhos
e assim a sucessão
das ruas em lisboa
quando olho para trás
vejo meus pais
a quererem talvez mover-se
para o futuro.

quarta-feira, outubro 18, 2006

1961

O meu coração sem trânsito
num tempo
de amores platónicos
no ano 1961.
Os olhos fugiam
para a janela aberta da casa
ali ao lado
o branco e o preto
era a hora do mundo
no televisor.
Nem ouvia os ruídos da rua
começava a ter
Angola
as obscuras mortes
e a juventude pendurava
o seu sorriso
na sala oval da América.
Nem via os rostos a passar
dos velhos vizinhos
- que diziam
sinhe!, Cindinha ,
que esgotaram
já o prazo concedido
às linhas da memória.
Hoje é a mesma rua uma água
turva e larga, por onde se vai
para casas vazias.

17-10-2006