quarta-feira, março 28, 2007

O Visual na Poesia (Juan Manuel Roca)*

“Lo visual en la poesía, valga decirlo, no tiene únicamente que ver con la disposición tipográfica, aunque fuera tan esencial en los poemas de un gran visionario y vísionador del cubismo, Guillaume Apollínaire y sus Caligramas, sino, más allá de la piel, de la epidermis del lenguaje, en la capacidad evocadora”. Por eso, sostiene, “podemos comparar la mar con una carpintería, porque la garlopa arroja cantidades de viruta a las playas del mundo”, pues la metáfora, “que en griego quiere decir traslado, transporte, llevar de un lado a otro, de una realidad a otra, da a luz nuevas realidades”. Y entonces nos revela cómo, luego de una semana de noches de tormento e insomnia, creó las metáforas o kenningars que cambiaron el discurrir de la poesía en español y que tanto han imitado, sin superarlas, los poetas que le siguen:

El brazo del río jamás esgrime espada.
Los dientes de ajo no comen duraznos.
El ojo de agua desconoce el monóculo.
El cuello de botella no porta collares.
La oreja del pocillo no escucha a Beethoven.
Las manecillas del reloj no usan guantes en invierno.
Los durmientes del ferrocarril no se despiertan a su paso.
Las palmas de las manos no dan dátiles.
La luna de miel no atrae a las moscas.
Las cabezas de los fósforos no tienen aureola, aunque alumbren como santos."
* Poeta columbiano, in revista Arquitrave

domingo, março 25, 2007

Antígona



Antígona
é contra
a cidade
que não faz
sepulturas.
Uma para
Polinices
Outra
vez morto
quando o olham
as aves de rapina.
Antígona casa-se
com a morte,
Sófocles
pendura Antígona
no laço
da bela morte.
24-3-2007

Toreador Song

Gino Bechi, na ópera Carmen
http://www.youtube.com/watch?v=BsNkVduTKO8

sexta-feira, março 23, 2007

Quarto com vista para a Tabacaria

Não há nada
a fazer, com a janela
vêm vidros de gelo
e o fundo da noite.

Nunca será nada
mais do que uma janela
mesmo com a luz dentro de si.

Não pode querer ser nada.

Outra coisa à parte, tem em si mesma
olhos para os sonhos do mundo.

Quarto com vista para a tabacaria
para o mistério
da liberdade do vento
que sopra forte mas acomoda-se
contra as pedras.

Há milhões destes quartos
no mundo com paredes presas
por baixo de quadros, com humidade
nas paisagens e nas naturezas-mortas.

quarta-feira, março 21, 2007

Dia Mundial da (anti-)Poesia

CONVERSA ÀS 3:30 DA MANHÃ

Às 3:30 da manhã
a porta abre-se para uns pés
no corredor arrastando um corpo
soa um toque
descansas a tua cerveja
e vais responder.

Caramba! Diz ela,
você nunca tem sono?

E vai entrando com papelotes
nos cabelos
ela mesma é uma veste de seda
coberta com pássaros e coelhos

Ela trouxe a sua própria garrafa
a que juntas com magnificência
2 copos;
o marido, diz ela, está na Florida
a irmã envia-lhe dinheiro e vestidos
e ela tem procurado um emprego
há 32 dias.

Tu contas-lhe
que és corrector de apostas e um
compositor de jazz e de canções de amor,
e depois de alguns copos
ela não se incomoda com cobrir
as pernas
com a orla do roupão sempre a afastar-se.

Não são nada mal feitas, suas pernas
de facto, são perfeitas
e em breve tu estás a beijar uma
cabeça cheia de pedaços de papel.

E os coelhos estão a começar
a piscar, e a Florida é uma longa
ausência, diz ela nós não somos estranhos
até porque me tem visto no corredor.

E finalmente
há muito pouco
para dizer.

(Charles Bukowski)

Tradução de J.T.Parreira

segunda-feira, março 19, 2007

Talvez depois desta imagem, não haja mais Poesia


La imagen de ese buitre acechando a una niña moribunda en África le persiguió en vida. Con ella atrapó el Pulitzer, pero también la maldición de una pregunta: “¿Qué hiciste para ayudarla?”. A Kevin Carter, cronista gráfico de la Suráfrica del 'apartheid', la presión le empujó al suicidio. Un periodista testigo de aquellos años rememora su figura.
Créditos: El Pais, de hoje, Dia do Pai.

sexta-feira, março 16, 2007

Se tudo volta a começar

Quiero decirlo ahora
porque si no después las cosas se complican.

Soy peor todavía de lo que muchos creen.

Me gusta justamente el plato que otro come
aburro una tras otra mis camisas
me encantan los entierros y odio los recitales
duermo como una bestia
deseo que los muebles estén más de mil años en el mismo lugar
y aunque a escondidas uso tu cepillo de dientes
no quiero que te peines con mi peine.

Te explico estas cuestiones
porque si todo vuelve a comenzar
no me hagas mucho caso acuérdate.

terça-feira, março 13, 2007

Buffalo 66


A ÚLTIMA NOITE

Nenhum amor é mais
Cortante do que
Este

Às 2:30 da manhã
Layla sai do nada

À porta do quarto
Do hotel, uma
Lágrima irrompe
Dentro dos olhos

Fechada à chave
A porta
Alguém sentado
Na cama do quarto
Da noite passando

Um sorriso
Por baixo
Da tristeza
Dos lábios.
12-3-2007

segunda-feira, março 12, 2007

Manuel Machado

VERANO

Frutales
cargados.
Dorados
trigales...

Cristales
ahumados.
Quemados
jarales...

Umbría
sequía,
solano...

Paleta
completa:
verano.

quinta-feira, março 08, 2007

Pavlova


Os pezinhos de Pavlova
crescem no espaço, saltam sobre invisíveis
nuvens de ar, frágeis auroras
quase nunca pousam
no chão o seu voo de ave diminuta
os pezinhos dourados
de Pavlova, como peixes amarelos
num aquário de vento, parece
que procuram
a saída inexistente.

terça-feira, março 06, 2007

Poema.

Poema

Lana Turner veio abaixo!
Eu vagueava pelo quarteirão e de repente
soltaram-se a chuva e a neve
e tu disseste que era granizo
mas o granizo bate na cabeça
com dureza, de modo que nevava e
chovia e eu estava com essa pressa
de me encontrar contigo mas o tráfego
representava rigorosamente como o céu
e subitamente vi um título
LANA TURNER VEIO ABAIXO!
Não há neve nenhuma em Hollywood
nem chuva na Califórnia
tenho estado em muitas festas
e agi como um acabado indecoroso
mas na realidade nunca desmaiei
oh Lana Turner nós amamo-la levante-se
(1962)

Frank O'Hara, Baltimore, 1926-1966

(Tradução de J.T.Parreira)

segunda-feira, março 05, 2007

Frank O'Hara, o poema...

Poem

Lana Turner has collapsed!
I was trotting along and suddenly
it started raining and snowing
and you said it was hailing
but hailing hits you on the head
hard so it was really snowing and
raining and I was in such a hurry
to meet you but the traffic
was acting exactly like the sky
and suddenly I see a headline
LANA TURNER HAS COLLAPSED!
there is no snow in Hollywood
there is no rain in California
I have been to lots of parties
and acted perfectly disgraceful
but I never actually collapsed
oh Lana Turner we love you get up


A versão com dicção coloquial brasileira:

Lana Turner desmaiou!
Eu tava apressado pela rua e de repente
começou a chover e a nevar
e você falou que era granizo
mas cara granizo bate com força
na cabeça era neve mesmo
e chuva e eu morrendo de pressa
pra te encontrar mas o trânsito
tava naqueles dias como o céu
e de repente vejo a notícia
LANA TURNER DESMAIOU!
Não tá nevando em Hollywood
Não tá chovendo na Califórnia
Já fui num monte de festas
e dei perfeitos vexames
mas nunca desmaiei de fato
Lana Turner te amamos levanta mulher

(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes)

Amanhã a outra versão.

Frank O'Hara, amanhã, se calhar

Um poema em duas versões, a original e outra, em português. Se calhar, amanhã.

sexta-feira, março 02, 2007

El maestro

Él tose
como el ruido último que lo liga al mundo
él mira el silencio, espera
de una fuente la música cristalina de la agua
No vemos, pero él piensa
en cada uno de los instrumentos musicales
Y alarga los brazos, después los ojos y los oídos
que siguen las manos del tamaño de la mano Infinita.

Publicado em Predicado-Comunidad de nuevos escritores

domingo, fevereiro 25, 2007

Jaime Gil de Biedma


A ARQUITRAVE

A gente vive entre pessoas brilhantes. Há quem fale
da arquitrave e seus problemas
como se ela fosse sua prima
-além disso, muito próxima.

Pois bem, parece que a arquitrave
está em perigo grave. Ninguém sabe
muito bem por que assim é, mas dizem-no.
Há quem venha a dizê-lo há vinte anos.

Há quem fale, também, de inimigo:
seres não perceptíveis
estão em toda a parte, insinuam-se
como o pó nos quartos.

E existe quem levante andaimes
para que ninguém caia: povo atento.
(Curioso, que em inglês scaffold signifique
ao mesmo tempo andaime e cadafalso.)

Algum sai à rua
e beija uma rapariga ou compra um livro,
passeia, feliz. E lhe disparam:
Mas como se atreve?
!A arquitrave…!


In Las personas del verbo

(Tradução de J.T.Parreira)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Notícia Local

As estrelas expandem-se.
A poeira
caiu numa estrada
do Arizona.

Uma rosa de magma
tornou-se sólida
antes que as mãos pudessem
salvar as cinco pétalas.

Uma ave
cobriu-se de poeira
primeiro que nossos olhos
tivessem tempo
de voar no seu corpo.

E o sol escondeu-se, uma sombra
decapitou uma árvore.

19-2-2007

domingo, fevereiro 18, 2007

Segunda-Feira, de Primo Levi


Que coisa é mais triste que um comboio?
Que parte quando deve,
Que não tem mais que um som,
Que não tem mais do que uma estrada.
Nada é mais triste que um comboio.

Ou talvez um cavalo de tiro.
Está fechado entre duas palas,
Não pode nem olhar para o lado.
A sua vida é andar.

E um homem? Não é triste o homem?
Se vive longamente em solidão
Se crê que chegou ao fim
Também o homem é uma coisa triste.

(Tradução de J.T.Parreira)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Impressões

(à maneira de e.e.cummings)


As gaivotas estão melancólicas
hoje(pairam
no tédio
dos pátios)na ondulada
pedra
das calçadas,
nas poças de água(só
um céu
de lama)só
argila.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Espanha no coração:Pablo Neruda

Madrid isolada e solene, Julho te surpreendeu com tua alegria
de colmeia pobre: tua rua era clara,
claro era teu sonho.
Um desejo negro
de generais, uma vaga
de sotainas raivosas
rompeu entre teus joelhos
suas lodosas águas, seus rios de escarro.

Todavia, com os olhos feridos de sono,
com escopeta e pedras, Madrid, recém-ferida,
defendeste-te. Corrias
pelas ruas
deixando estelas de teu santo sangue,
reunindo e chamando com uma voz de oceano,
com um rosto mudado para sempre
pela luz do sangue, como uma vingadora
montanha, como uma sibilante
estrela de facas.

Quando nos tenebrosos quartéis, quando nas sacristias
da traição entrou tua espada ardendo,
não houve senão o silêncio do amanhecer, não houve
senão teu passo de bandeiras,
e uma gota de sangue em teu sorriso.

in Tercera Residencia, Madrid, 1936

(Tradução de J.T.Parreira)