quinta-feira, março 08, 2007

Pavlova


Os pezinhos de Pavlova
crescem no espaço, saltam sobre invisíveis
nuvens de ar, frágeis auroras
quase nunca pousam
no chão o seu voo de ave diminuta
os pezinhos dourados
de Pavlova, como peixes amarelos
num aquário de vento, parece
que procuram
a saída inexistente.

terça-feira, março 06, 2007

Poema.

Poema

Lana Turner veio abaixo!
Eu vagueava pelo quarteirão e de repente
soltaram-se a chuva e a neve
e tu disseste que era granizo
mas o granizo bate na cabeça
com dureza, de modo que nevava e
chovia e eu estava com essa pressa
de me encontrar contigo mas o tráfego
representava rigorosamente como o céu
e subitamente vi um título
LANA TURNER VEIO ABAIXO!
Não há neve nenhuma em Hollywood
nem chuva na Califórnia
tenho estado em muitas festas
e agi como um acabado indecoroso
mas na realidade nunca desmaiei
oh Lana Turner nós amamo-la levante-se
(1962)

Frank O'Hara, Baltimore, 1926-1966

(Tradução de J.T.Parreira)

segunda-feira, março 05, 2007

Frank O'Hara, o poema...

Poem

Lana Turner has collapsed!
I was trotting along and suddenly
it started raining and snowing
and you said it was hailing
but hailing hits you on the head
hard so it was really snowing and
raining and I was in such a hurry
to meet you but the traffic
was acting exactly like the sky
and suddenly I see a headline
LANA TURNER HAS COLLAPSED!
there is no snow in Hollywood
there is no rain in California
I have been to lots of parties
and acted perfectly disgraceful
but I never actually collapsed
oh Lana Turner we love you get up


A versão com dicção coloquial brasileira:

Lana Turner desmaiou!
Eu tava apressado pela rua e de repente
começou a chover e a nevar
e você falou que era granizo
mas cara granizo bate com força
na cabeça era neve mesmo
e chuva e eu morrendo de pressa
pra te encontrar mas o trânsito
tava naqueles dias como o céu
e de repente vejo a notícia
LANA TURNER DESMAIOU!
Não tá nevando em Hollywood
Não tá chovendo na Califórnia
Já fui num monte de festas
e dei perfeitos vexames
mas nunca desmaiei de fato
Lana Turner te amamos levanta mulher

(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes)

Amanhã a outra versão.

Frank O'Hara, amanhã, se calhar

Um poema em duas versões, a original e outra, em português. Se calhar, amanhã.

sexta-feira, março 02, 2007

El maestro

Él tose
como el ruido último que lo liga al mundo
él mira el silencio, espera
de una fuente la música cristalina de la agua
No vemos, pero él piensa
en cada uno de los instrumentos musicales
Y alarga los brazos, después los ojos y los oídos
que siguen las manos del tamaño de la mano Infinita.

Publicado em Predicado-Comunidad de nuevos escritores

domingo, fevereiro 25, 2007

Jaime Gil de Biedma


A ARQUITRAVE

A gente vive entre pessoas brilhantes. Há quem fale
da arquitrave e seus problemas
como se ela fosse sua prima
-além disso, muito próxima.

Pois bem, parece que a arquitrave
está em perigo grave. Ninguém sabe
muito bem por que assim é, mas dizem-no.
Há quem venha a dizê-lo há vinte anos.

Há quem fale, também, de inimigo:
seres não perceptíveis
estão em toda a parte, insinuam-se
como o pó nos quartos.

E existe quem levante andaimes
para que ninguém caia: povo atento.
(Curioso, que em inglês scaffold signifique
ao mesmo tempo andaime e cadafalso.)

Algum sai à rua
e beija uma rapariga ou compra um livro,
passeia, feliz. E lhe disparam:
Mas como se atreve?
!A arquitrave…!


In Las personas del verbo

(Tradução de J.T.Parreira)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Notícia Local

As estrelas expandem-se.
A poeira
caiu numa estrada
do Arizona.

Uma rosa de magma
tornou-se sólida
antes que as mãos pudessem
salvar as cinco pétalas.

Uma ave
cobriu-se de poeira
primeiro que nossos olhos
tivessem tempo
de voar no seu corpo.

E o sol escondeu-se, uma sombra
decapitou uma árvore.

19-2-2007

domingo, fevereiro 18, 2007

Segunda-Feira, de Primo Levi


Que coisa é mais triste que um comboio?
Que parte quando deve,
Que não tem mais que um som,
Que não tem mais do que uma estrada.
Nada é mais triste que um comboio.

Ou talvez um cavalo de tiro.
Está fechado entre duas palas,
Não pode nem olhar para o lado.
A sua vida é andar.

E um homem? Não é triste o homem?
Se vive longamente em solidão
Se crê que chegou ao fim
Também o homem é uma coisa triste.

(Tradução de J.T.Parreira)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Impressões

(à maneira de e.e.cummings)


As gaivotas estão melancólicas
hoje(pairam
no tédio
dos pátios)na ondulada
pedra
das calçadas,
nas poças de água(só
um céu
de lama)só
argila.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Espanha no coração:Pablo Neruda

Madrid isolada e solene, Julho te surpreendeu com tua alegria
de colmeia pobre: tua rua era clara,
claro era teu sonho.
Um desejo negro
de generais, uma vaga
de sotainas raivosas
rompeu entre teus joelhos
suas lodosas águas, seus rios de escarro.

Todavia, com os olhos feridos de sono,
com escopeta e pedras, Madrid, recém-ferida,
defendeste-te. Corrias
pelas ruas
deixando estelas de teu santo sangue,
reunindo e chamando com uma voz de oceano,
com um rosto mudado para sempre
pela luz do sangue, como uma vingadora
montanha, como uma sibilante
estrela de facas.

Quando nos tenebrosos quartéis, quando nas sacristias
da traição entrou tua espada ardendo,
não houve senão o silêncio do amanhecer, não houve
senão teu passo de bandeiras,
e uma gota de sangue em teu sorriso.

in Tercera Residencia, Madrid, 1936

(Tradução de J.T.Parreira)

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Poema de Allen Ginsberg

Kaddish 44

Para Lindsay*

Vachel, as estrelas sairam de cena
o escuro caiu numa estrada do Colorado
um carro lento rasteja através da planície
o rádio ressoa jazz no crepúsculo
um vendedor desanimado acende outro cigarro
Há 27 anos noutra cidade
vejo a tua sombra no muro
estás sentado sobre teus suspensórios na cama
a mão da sombra ergue até à cabeça um frasco de Lysol
teu vulto decai sobre o soalho

*Vachel Lindsay, Poeta norte-americano, 1879-1931. Suicidou-se, bebendo Lysol

(Tradução: J.T.Parreira)


To Lindsay
Vachel, the stars are out / dusk has fallen on the Colorado road / a car crawls slowly across the plain / in the dim light the radio blares its jazz / the heartbroken salesman lights another cigarette / In another city 27 years ago / I see your shadow on the wall / you’re sitting in your suspenders on the bed / the shadow hand lifts up a Lysol bottle to your head / your shade falls over on the floor

[Paris, May 1958]

terça-feira, fevereiro 06, 2007

A Bússola

O destino
ao fundo de uma nuvem
Para quem atravessa a névoa e o sol
no deserto, saber o lado
para onde caminhar
o norte
assiste ao arco que descreve o dia
e o sul
ao fundo do vento
sigamos o magnético
atractivo
da pura fantasia boreal.

domingo, fevereiro 04, 2007

Pós-modernidade na rede: a poesia brasileira no século XXI

Texto da poeta Virna Teixeira
(...)
Alguns blogs agregam poetas que escrevem de várias partes do Brasil, com o Algaravária (http://algaravaria.blogspot.com/). Na internet não há distância geográfica e sim afinidades. Há blogs que são escritos em todas as partes do país, por poetas que mantêm freqüentemente intensa atividade fora do local onde vivem, como por exemplo: Douglas Diegues do Portunhol Selvagem http://www.portunholselvagem.blogspot.com/) em Campo Grande, que mantém vários diálogos com outros poetas dentro da América Latina; Poesilha do Marcelo Sahea (http://poesilha.blogspot.com/) e Folhas de Girapemba da Ana Maria Ramiro (http://girapemba.blogspot.com/) em Brasília; Micropolis (http://micropolis.blogspot.com/), de Marília Kubota, em Curitiba; para citar alguns.

Há também interações de blogs brasileiros com blogs portugueses, como o Nocturno com gatos (http://nocturnocomgatos.weblog.com.pt/), de Soledade Santos; Linha de cabotagem (http://linhadecabotagem.blogspot.com/) de Helena F. Monteiro, o Finisterra de Oscar Mourave (http://www.finisterra.blogger.com.br/ ) que escreve sob pseudônimo e mora na Tunísia e os blogs de poesia e tradução Ao longe os barcos de flores (http://barcosflores.blogspot.com/), de Amélia Pais e Poeta salutor (http://www.poetasalutor.blogspot.com/) de J. T. Parreira. A poeta carioca Silvia Chueire, do Eugenia in the meadow (http://eugeniainthemeadow.blogspot.com/), pela proximidade da sua escrita com a dicção portuguesa, publicou seu primeiro e único livro de poesia em Portugal, através da internet.

in Cronópios

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

The Factory


Andy
Wahrol, a poeira caiu no chão
um ataque cardíaco
do tecto perto dos nossos olhos
do céu
cairam as luzes, a tua sombra
também sobre o chão.

domingo, janeiro 28, 2007

A Guitarra

Começa o choro
da guitarra.
Partem-se os cristais
da madrugada.
Começa o choro
da guitarra.
É inútil calá-la.
É impossível
calá-la.
Chora o mesmo tom
como o choro da água,
como o choro do vento
sobre as noites brancas.(*)
É impossível
calá-la.
Chora por coisas
longínquas.
Areia do Sul quente
que pede camélias brancas.
Chora a flecha sem alvo,
a tarde sem manhã,
e o primeiro pássaro morto
sobre os ramos.
Ó, guitarra!
Coração malferido
por cinco espadas.

(Tradução: J.T.Parreira)

(*) Em 1946, Eugénio de Andrade traduziu «la nevada», em Antologia Poética, como «o nevão».
Já em 1968, em Trinta e Seis poemas e uma Aleluia Erótica, o mesmo poeta usou o termo «a nevada».
Atendendo à poeticidade da expresão «noites brancas» usamos aqui a mesma, talvez como um metonímia para falar de queda de neve, e não no sentido do romance de Dostoievski (Noites Brancas, o dia contínuo.)

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Cidade Transparente

No teatro das casas
em Amsterdão, à noite
a vida está aberta
à noite passeamos
no meio de mesas de jantar
salas, quartos de dormir
tudo visível, tudo vida
sem cortinas, uma janela
reflecte a luz
nos vidros de água
dos canais.
Há uma linha num livro
que partilha a poesia
um Van Gogh
que o sol da janela amarelou
todos os dias a única
coisa nova são as nuvens
que mudam de lugar.

21-1-2007

terça-feira, janeiro 23, 2007

Dizer sem dizer: os sons na poesia de Vicente Huidobro

Um prefácio e sete poemas, designados por cantos, constituem o livro torrencial de Vicente Huidobro (1893-1948), poeta chileno, cuja linguagem se desloca do centro da poesia modernista, no conceito da América hispânica da primeira década do século XX, para a busca do vocábulo puramente fonético, aparentemente sem poesia, mas exibindo uma estrutura onomatopeica como significante apenas do próprio som.
Esse livro em que a torrente se deslocaliza da palavra para o puro som é Altazor, uma obra considerada épica. Ela consiste na realização, levada a cabo pelo poeta, do seu credo artístico, da criação e criação literária dentro do próprio poema, do desmontar da linguagem gongorizante e simbolista, do provocar o cataclismo en la gramática, do louvor à individualização da mulher como entidade geradora, das combinações vocabulares curiosas, as palavras circulares, como por exemplo eterfinifrete (Canto IV, pág.66) ou ainda novas formas de dizer " al horizonte en la montaña" assim: al horitaña de la montazonte (pág. 60).
As experiências que esse poeta de Santiago do Chile, amigo de Lorca e influenciador de Gerardo Diego, produz na sua poesia não estarão desligadas da sua avidez literária pelas novidades.
A Vanguarda estética, na arte poética, era o seu terreno e Apollinaire, para nos situarmos só na literatura, foi uma das suas figuras tutelares.
Mas toda a Vanguarda artística da Europa contribuiu para a sua criatividade apaixonada, desde Picasso a Stravinsky.
Se dos pincéis do primeiro nasciam deformidades criadoras da pura ordem pictórica e do segundo uma música cujo algum caos formulava já a beleza harmónica do Pássaro de Fogo , da poética de Huidobro surgia a poesia que não se limitava a interpretar, mas a elaborar a própria criação, que não se circunscrevia apenas aos sentidos mas aos sons vocabulares.
São célebres e aforísticos os dois versos, da sua Arte Poética, em que questiona os poetas que se limitavam a cantar a rosa: Por qué cantáis la rosa, oh Poetas, Hacedla florecer en el poema.
Huidobro reclamava a sua quota parte de pequena divindade, que não só naquele tempo, mas sempre e desde os gregos se costumava atribuir aos poetas ( na poética hebraica e bíblica já não era obviamente assim).
El Poeta es un pequeño Dios , era o desafio final daquele poema de Huidobro.
Mas este poema possui um sentido, não é hermético, a sua gramática é habitável, podemos conviver com ela. É uma arte poética com sentidos que transportam de um lugar a outro, indica todo um programa que a história da literatura Latino Americana classifica como Criacionismo.
Ao contrário é o livro Altazor . Sendo também uma viagem, dir-se-ia que é intergalática. A personagem cai ou vem de uma queda auto-promovida desde um ponto do universo.
O livro apoia-se sobre um mito básico: Altazor é a encarnação do poeta descendo às profundidades, tal qual Dante, Enéas ou Orfeu, com a ajuda de um páraquedas, que a crítica usualmente afirma ser a poesia.
Esta queda, ou melhor descida controlada do poeta, é também um acto de revolta, e esta começa em Altazor com uma linguagem carregada de conteúdos , de informação, de ideologia. Nesta obra de capital importância para a poesia modernista hispânica, a dicotomia de Saussure contribui para a compreensão da sua linguagem: contém o elemento social que é a língua e o elemento individual que é a palavra.
É, porém, no último canto do poema que tudo o que concerne à linguagem - língua e palavra - se transmuta em puro som, apesar de alguns vocábulos que podem ser pronunciados, mas distituídos de qualquer sentido. Criação do próprio som, a emanar do «poema» do criacionista Huidobro? Na mesma direcção programática em que os poetas deveriam, sim, criar a rosa e não cantá-la?
O canto VII é, em todo o caso, o da incompreensibilidade, da fonética pura sem sentidos, da onomatopeica propositadamente identificável. Segundo Octávio Paz, o "dizer sem dizer", sem nenhuma correspondência semântica, no fundo, uma metalinguagem.

Ai aia aiaia ia aia ui Tralalí Lali lalá Aruaru urulario Lalilá Rimbibolam lam lam Uiaya zollonario lalilá Monlutrella monluztrella lalolú Montresol y mandotrina Ai ai Montesur en lasurido Montesol Lusponsedo solinario Aururaro ulisamento lalilá Ylarca murllonía Hormajauma marijauda Mitradente Mitrapausa

sábado, janeiro 20, 2007

Passagem para o efémero

Nalgum lugar onde nunca esteve, ninguém
relembrará quem, o que, onde
e quando, como
as coisas começaram
e porquê o papel durou como invólucro
de rosas.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Um Outro Adeus Português

Blockquote e como um adolescente tropeço de ternura
por ti
Alexandre O Neill


Dentro dos meus olhos uma outra
forma de olhar
suporta a tua dor,

amparo-te na escada fluvial
que te traz ao dia,
no cais onde acostam
tuas sonâmbulas palavras

mais uma puríssima manhã
que deverias tratar
com o leite corporal
róseo da perpétua aurora

não podemos ficar nesta curva
entre sonhos de uma rosa enorme
que deixa o lirismo
a contas, indeciso com o mais
lancinante espinho.

6-1-2007