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sexta-feira, junho 02, 2017

UMA ILHA NO TECTO DO MUNDO



Podíamos viver aqui no Paraíso
sem roupas nem utensílios, sob a sombra
da árvore do bem e do mal, sem tentações
nos olhos, nos sabores de todos os frutos
colheríamos o alimento, passaríamos as tardes
a conversar sobre coisas tão belas, como paisagens
azuis e todas as manhãs pintaríamos
o fresco da Natureza, a própria terra sem forma
e vazia de onde saí, e nas correntes dos rios
não ouviríamos duas vezes o mesmo silêncio.

23/5/2017


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segunda-feira, março 20, 2017

BATESEBA

(Francesco Hayez)


Vestida de água, lavavam-lhe o corpo
Com dedos cautelosos, deixou de lado
Um vestido azul, estampado com ouro
De flores amarelas
Bateseba lavava no corpo os recantos
Mais puros de ser mulher, alheia aos dardos
De um lampejo nos olhos de David
Uma pomba
Espreguiçava a sombra e o ócio
Num ramo de acácia.

20-03-2017

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terça-feira, fevereiro 21, 2017

Antigo Cemitério Judeu de Praga


A quantidade de mortos é incerta, camadas

De tumbas sob novos túmulos. Lápides
Cuja eternidade é a pedra nos nomes
E as estrelas de David, o sol
Custa a penetrar para banhar o Não-Ser
Lápides lembram a Arca de Moisés
Mortos com séculos de morte às costas
Reclamam seu espaço sob o silêncio
As próprias árvores se ressentem da vida
As raízes atrapalham a ressurreição.

20-02-2017


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sexta-feira, dezembro 23, 2016

AS VINHAS DA IRA







Esperamos que os nossos anjos
Que o Senhor diz que acampam ao nosso redor
Nos levem de volta a casa, as nossas mãos
Lavradas com o ácido das laranjas
E os nossos olhos
Tão gastos dos cachos de uvas
O nosso coração tão rasteiro nesta estrada de pó
Esperamos que os anjos nos levem a casa
Agora que o fumo do sonhos passou.

19-12-2016

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segunda-feira, novembro 21, 2016

A DESPEDIDA


(Fotografia da Web)


Chegaram à estação, ainda a tempo
De nenhum ruído sobre os carris.
Beijaram-se e o beijo pôs os lábios
Sobre os lábios, e assim o que beijaram?
A carne, o sorriso, a vida
Na respiração ou o silêncio
E a ausência futuros? A única lembrança
Que teriam era o dom do corpo
Que abraçavam e não alma pura.


20-11-2016
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terça-feira, novembro 01, 2016

OUVE-SE UM CHORO EM ALEPO

Um choro se ouve em Alepo
É Raquel chorando os seus filhos
Que não regressarão da escola


O grande pranto triste do fundo dos úteros

Que ficaram órfãos


Ouve-se um choro em Alepo

É Raquel a despedir-se 
De si mesma.

01-11-2016

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segunda-feira, julho 18, 2016

O AMOR



para uma jovem que morreu velha, Amy Winehouse,


Amor é a mão perdida dentro
De um coração, que procura alcançar
A mais dolorosa profundidade, Amor
É um jogo que se perde
Na dependência do outro, perde-se
Em nós entre a alma e os olhos, Amor
Pode ser alguém desaparecer dentro
 De alguém, ao dançar sozinho um tango.

16-7-2016

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sábado, junho 18, 2016

[ Anjos perdidos nas ruas das grandes cidades ]


 Anjos perdidos nas ruas das grandes cidades
Eles caminham para o fundo
Desembarcados dos barcos da fome
Com seus rostos, seus pés rôtos, suas histórias
De uma cor apenas, seus braços
Enrugados com  veias expostas
À tempestade, suas unhas sujas
De procurar comida e alguns
Problemas nas ruas das grandes cidades
As frases que mais conhecem
Em qualquer língua, têm sempre um não.



13-03-2015
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quinta-feira, junho 09, 2016

SAIDA PARA A REALIDADE



para Xisto Rodriguez ("Sugar Man")


Perdi o meu emprego um mês depois do Natal
Ainda não se apagara o perfume
Do nascimento do meu segundo filho e de Jesus
Nem a chuva que bebera no caminho
Para casa como se fosse champanhe
Com poucas pessoas a quem telefonar
A chuva enxugava as minhas lágrimas.


09-06-2016

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domingo, maio 22, 2016

CERTO HOMEM TINHA DOIS FILHOS - POESIA








http://poesiaevanglica.blogspot.pt/2016/05/certo-homem-tinha-dois-filhos-novo-e.html


     Das diversas parábolas relatadas por Jesus, talvez nenhuma outra tenha tido tanta repercussão, e consequentemente sido alvo de mais representações artísticas quanto a Parábola do Filho Pródigo (Lc 15:11-32). E, em apoio à sua singularidade, note-se que, ao contrário de outras parábolas, esta aparece apenas no livro de Lucas. Sua mensagem, por ser perfeitamente evangélica, é de simples, universal compreensão; seu impacto é duradouro. Talvez porque diante de um Deus santo de quem nos afastamos e fomos afastados pelo pecado, sejamos todos pródigos a priori (e tantas e tantas vezes, a rematar nossa rebelião, a posteriori).
       É essa figura arquetípica do pródigo que é o Homem, inserida nesta parábola também arquetípica sobre o incomensurável e incondicional amor do Deus-Pai, que JTP elege para objeto de sua reflexão poética.
       Este pequeno e-book colige textos escritos em períodos diversos, mas que em comum trazem a marca da economia e extrema expressividade, tão características da poesia do autor.

Sammis Reachers 

quarta-feira, maio 04, 2016

TRAVESSIA DO MAR VERMELHO

(Arte: Ivan Aivazovsky)


O  que nos movia para a margem
do mar vermelho, o desejo com asas
tranquilas e os olhos com a doce lágrima
da liberdade,
mesmo sob a febre do deserto?  Movia-nos
uma terra que não conhecíamos, ainda
perto do egipto e com os cascos dos cavalos
egípcios a partirem o silêncio sagrado do chão  
montadas e cavaleiros confiantes
na perseguição. O que movia um povo,
cujo censo estava nas estrelas, multidão escondida
para a margem do mar? A esperança juvenil dos velhos,
o útero das mulheres jovens
para darem à luz no leite e no mel
da terra prometida?

19-04-2016
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quarta-feira, abril 13, 2016

À Mesa com o Pródigo

Murillo



Já estava sentado à mesa, com os olhos
Do meu pai a verterem alegria, o vinho
Dos odres novos a brilhar no banquete
O bezerro a sair do remoinho das chamas
Depois de anos a andar sem sandálias
E com vestes festivas e um vestígio
Real no dedo, apontava a saudade
Do meu coração para a porta, esperava
Que entrasse com o sol crepuscular
O meu irmão, nos meus olhos
Eu dizia palavras de amor, enquanto
O silêncio da porta deixava passar
A lua plena.


13-04-2016


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sábado, fevereiro 27, 2016

ULISSEIA







O Regresso de Ulisses

Regressa Ulisses  
como proa do seu barco, corta
não as águas, mas o voluptuoso mistério
que passa pelo vento, ainda
que as sereias estejam longe


Ulisses está de pé, de costas
para Nausícaa, para o sol lento que soltava
ouro dos cabelos de Nausícaa
Outra mulher o espera
a fiar e a desfiar o tempo.


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quinta-feira, fevereiro 04, 2016

RECUSA, com uma epígrafe de Countee Cullen





RECUSA


 “We shall not always plant while others reap”
Countee Cullen(New York, 1903-1946)


Nem sempre vamos plantar, para outros colherem
Nem sempre deitar árvores abaixo, para outros 
entalharem na madeira as formas
dos deuses ou demónios que trazem nos dedos
Não será para sempre
que vamos levantar do mar as pérolas
para outros costurarem a beleza
Nem sempre ver
como a Esfinge, o que outros não conhecem
Chega de construções para outros fazerem tabula rasa.

04-02-2016
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terça-feira, dezembro 29, 2015

ORAÇÃO FEITA PARA UM ESPELHO






Graças te dou, a Ti, que estás desse lado
porque não sou como os outros, A minha ganância
é comedida,  A minha  justiça é de pedra
Não sou adúltero, A não ser comigo mesmo
e com a minha beleza.  Jejuo
para fazer compreender ao pobre que a fome
nos disciplina o corpo, Dou o dízimo de tudo
dos meus dez dedos, um
é teu e serve para apontar o erro alheio, Dos outros
não há ninguém que não seja publicano.

29-12-2015

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quarta-feira, dezembro 09, 2015

PARIS AT NIGHT, LONELY WOMAN WAITING






Os anjos têm esquinas onde encostam as asas e o silêncio
da sua solidão. São anjos que esperam
 quem possa levar o seu corpo, e o seu coração
sozinho é uma sombra dentro do peito.
Anjos que não recusam as suas asas, o sonho de um dia
que virá e serão alegres como o ser feliz, quem disse
que os anjos não têm esquinas na noite
com a escuridão iluminada.

09-12-2015
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(Arte: Fotografia de Adolfo Kaminsky, 1946)

segunda-feira, dezembro 07, 2015

NOCHEBUENA







Tenho de admitir que as minhas rótulas não suportam
senão penosamente as subidas, o peso da leveza do  meu corpo
nas duas pernas já não se debruça facilmente 
para apanhar o que os dedos não enlaçam,  nem sobe
já aos bancos para colocar cristais na árvore de natal. A última
estrela que pus, perdeu-se no buraco negro dos tectos
das casas que habitei,  mais uma
Noite de Natal com os netos por Continentes divididos.

05-12-2015

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segunda-feira, novembro 23, 2015

SALMO 137 DO SÉCULO PASSADO





Sentávamo-nos junto aos muros do gueto de Varsóvia
e chorávamos com uma estrela ao peito, nas sombras
dos casacos rotos, pensando
que éramos o povo escolhido. Deus
estava em Jerusalém e lá pendurámos nossas preces.
Os que nos tinham feiro prisioneiros pediam-nos
que cantássemos com a nossa boca
cheia de pão negro, aqueles que nos haviam de destruir
queriam a nossa alegria. Mas como era possível
que entoássemos outro cântico senão um kaddish
pelos mortos? O canto do Senhor em terra estranha.
Se tu, Senhor, te esqueceres de nós, seremos harpas
partidas e as nossas cinzas voarão pelos ares
como um silêncio.

10-10-2015

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domingo, outubro 11, 2015

SALMO CENTO E VINTE E SETE






É inútil levantar cedo, desviar
O curso desta morte lúcida
Que é o sono, inútil será contar estrelas
Até que amanheça, ir ao berço dos filhos
Ver se respiram, fazer mais filhos
Para serem frechas na aljava do valente

Se o Senhor não guardar o pão do bolor
O  pão ganho com desalento
Se não guardar da casa a trave-mestra
Nem vigiar nos olhos da sentinela
Tudo será vão como a areia
Que não resiste ao vento

12-09-2015
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segunda-feira, setembro 07, 2015

À ESPERA DOS OUTROS



“Toda a gente deveria ter um lugar para onde pudesse ir”
Ernest Hemingway


Não os esperávamos, os outros
chegam hoje, subiram com a madrugada.
Os sinos das igrejas os altifalantes das mesquitas
concebem apenas o silêncio.

Não estávamos à espera, mas chegam.
Colos de mães aflitas
perderam seus filhos nas praias
a memória guardada nas malas da noite.

Destinos dissolvem-se em comboios
esperança lenta, trazem os pés feridos
de muitas fronteiras, incapazes de erguer as mãos
aos altos muros de pedra. Chegam com o sangue

do coração escrito nos olhos, chegam
contra a apatia dos senados.


06-09-2015
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