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quarta-feira, março 06, 2013

MULHER DE AZUL


 
Natan Altman, Retrato da poetisa Anna Akhmátova, 1914


Não, mulher de azul, o céu
do teu vestido é um corpo, um coro
de anjos te cantaria, e as rosas
ao fundo como células que crescem benignas
em nenhum outro lugar
haverá perfume, mulher de azul
com o sol a descer pelos teus ombros.

24/2/2013
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terça-feira, março 05, 2013

WESTERN


Duas ou três mãos de póquer
sobre a mesa, meia garrafa de whiskey
persegue-se a si própria, desce
uma pálpebra sobre um olho
a chamar a corista, disparam
na rua principal, noutra mesa
os cinco dados rolam
como pequenos cubos de gelo no cristal.

5/3/2013

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quinta-feira, fevereiro 28, 2013

PIQUENIQUE NO ÉDEN




“É inútil a tentativa de um piquenique no Éden."
Elizabeth Bowen 
 


 
 Sentados diante de uma maçã- é costume
dizer-se –
foi o último piquenique no Éden, depois
o chão tremeu, com aquela reverência
quando Deus passa, quando Deus faz o silêncio
com seu olhar telúrico, o lugar
crescia como a sombra do sol inclinado
a desolação
a terra nos lábios que o fruto deixou
o medo entre as palavras.

28/2/2013
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("Adão e Eva no Paraíso", de Paul Rubens e Jan Brueghel, o Jovem)

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

A ÚLTIMA CARTA DA FRENTE DE BATALHA

 
São as tuas palavras, as últimas
que choram nos meus olhos, brilham
e pesam tanto as lágrimas
esperámos-te, capazes da maior ferocidade
contra a morte
mas não haverá regresso, só silêncio
dentro de nós
A tua vida deslizou, quando entre mãos
entre os joelhos
poisei a tua carta, a última
luz escrita a carvão, que lentamente se extinguiu.

13/2/2013
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(B.Nemensky, A Última Carta, Pinturas Soviéticas da II Guerra)

sábado, outubro 20, 2012

O ANJO SENTADO NA CADEIRA DE VAN GOGH





“Uma vez um anjo apaixonou-se por van gogh e veio vê-lo
van gogh pintou-o naquela cadeira”
 
Manuel António Pina (1943-2012)

 Sentado na cadeira de Van Gogh
um anjo calça as botas de camponês
insubstancial, o seu corpo
atravessou o cansaço das galaxias
uma sombra branca, chega
o olhar de Van Gogh para o ver
com as terrenas cores
com que sonhamos, nunca
pinta o anjo mas o silêncio do seu corpo.

20/10/2012
 


terça-feira, outubro 16, 2012

Do outro lado do ribeiro de Cedrom




Preciso das vossas mãos para velarem comigo
porque tenho o peso do mundo
no meu coração, as mãos que trabalharam as redes
as vossas mãos rudes que amaram o mar
para segurarem o cálice, e dos vossos olhos
para desvelarem comigo a cortina da noite
a minha alma está pronta, o corpo
não, é uma rosa triste, madura
uma rosa de terra perante a morte.


12/10/2012

quinta-feira, agosto 23, 2012

As estórias em acrílico de Duy Huynh



Duy Huynh (pronuncia-se Yee Wun) é vietnamita radicado nos Estados Unidos da América desde os anos 80.

A sua pintura em acrílico é poética e contemplativa, assume-se em todos os formatos como a obra pictórica de um contador de estórias. As imagens repetem-se, saem do mundo físico para o onírico. E esta mistura confere beleza – que é a primeira palavra que me ocorre – a quase tudo que o pintor narra nas suas telas.

Não sei, contudo, se Duy Huynh é um seguidor consciente de René Magritte, mas as estórias que conta na sua pintura, suscitam-me esse criador belga.

Pelo onirismo de cada proposta, pela diegese da sua poesia pictórica, pela escrita de uma poesia pura nas formas e cores. É uma pintura que seria quase tangível – pelos materiais que usa, a tinta acrílica é mais rugosa, saliente – não fora tratar-se de Sonho.

Se a poesia é estar dentro da realidade e escrever a imagem, a pintura deste artista vietnamita estrutura-se do mesmo modo: ele pinta a imagem da realidade dentro da realidade.

Tão surrealista quando trata de referentes que poderiam ser dos contos de fadas ou dos mitos, como Magritte. Tão realista quando dá forma onírica ao que nos revela, sendo que pela sua própria natureza, um sonho é íntimo.



terça-feira, agosto 14, 2012

terça-feira, abril 17, 2012

A MULTIDÃO

            


As mãos não tocam no quadro
lançam sinais, roubam
com os olhos a Gioconda
estão a cercá-la de espantos
com os olhos prontos
a levar o sorriso até à fronteira
do mistério
A Gioconda pode repousar
despir-se
do olhar e do sorriso
à noite ficar nua, ninguém
desvenda o segredo atrás do vidro.

17/4/2012

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Ouvir a Grécia


 “Um grego só entre os deuses se há-de achar”
Konstantinos Kaváfis


No meio dos bárbaros da Europa, a voz do teu senado
espera, em silêncio de pedra, a tua voz dos mármores
ouve-se mas é impenetrável
és um texto que teus poetas guardam
sobre a força esbelta das colunas
susténs ainda
nos frisos a sageza dos rostos das mulheres
e a provocação caindo sobre um peito
a alça de um vestido
Tu és Antígona que desautoriza o rei.

21/2/2012
 

segunda-feira, agosto 15, 2011

O Último Cavalete de Rembrandt

Um espelho sem moldura
guarda entre a prata e o vidro
um silêncio

uma cama simples
para começar
as surpresas do sonho

um lugar vazio
de uma cadeira partida, uma mesa
magra, rústica, vítima da fome

o último quadro
de onde os olhos de Rembrandt
jamais regressam.

15/8/2011

quarta-feira, julho 27, 2011

Mulher de Azul lendo uma carta

The painter's vision is not a lens, It trembles to caress the light
Robert Lowell

Diziam
que a visão do pintor
não é uma lente, que tremia
ao roçar pela luz, pelo corpo
vestindo-o
de um céu azul

Vermeer pincelou o sol
na parede, cobriu
os olhos
da sólida mulher
que atravessam para longe
cada palavra que lê.

26/7/2011

quarta-feira, maio 25, 2011

Exposição de Pintura

Um pássaro fractal
sai da parede
um campo de algodão enche
os nossos ouvidos de silêncio
ao lado o rio parte
o estado dos olhos e da alma
do Narciso
a olharem de través
dois olhos num umbigo
e num espelho uma mulher que ocupa
os quatro cantos
Magritte se esfuma num cachimbo
e um trapézio
num corpo de ave.
que esvoaça de fugida.

24/5/2011

Publicado ineditamente em A Ovelha Perdida

sábado, março 19, 2011

Mulher sentada entre flores

Mulher sentada entre flores
O teu rosto entrega-me a paz
redonda doçura entre cabelos
quando cerras os olhos
fico fechado dentro deles
nas tuas mãos
cruzadas mãos trabalhadoras
tropeça a minha ternura
sozinha
tens o sol do teu lado
como um muro de ouro
por onde o sonho se atravessa
e fico em silêncio contigo.

18/3/2011

terça-feira, março 15, 2011

O Pincel de Picasso

Vejo no pincel de Velázquez
a luz branca que penteia
os cabelos das Meninas

como vejo no pincel de Picasso
como vivem
Les Demoiselles d' Avignon

Não como no pincel de Van Gogh
onde nem sempre os amarelos
são alegrias puras

No pincel de Arles vejo
a dança do vento
na anatomia dos trigos

e o sol que se estende
nas pétalas dos girassóis
e a morte que parte o céu

vejo no pincel de Van Gogh
os corvos e auto-retratos
despenteando o silêncio.

15/3/2011

domingo, março 13, 2011

Aquário

Posso ver o silêncio dentro
através do vidro, vai apertando as vozes
até ao murmúrio
no silêncio bóiam dentro da luz
nocturnos rostos
com mais uma noite às costas
eu acho que sei o que é o silêncio
nos olhares à espera do sono
nas mãos que, por vezes, compõem
o sorriso que pende da flor dos lábios.

8/3/2011

Sobre "Nighthawks", de Edward Hopper

domingo, janeiro 23, 2011

Não estou a chorar, Mãe

Não estou a chorar, Mãe
é a minha alma que cai pelas faces
Sabes, Mãe? Os meus olhos são teimosos
não se fecham com facilidade
nem quando gotas salgadas
se desprendem do vento
ou quando as árvores
rompem em gorjeios
As lágrimas, Mãe, não são o que parecem
são o amor da alma por esse corpo
que se limita a morrer
Não, não estou a chorar, Mãe
é o silêncio que se torna sólido
este teimoso silêncio
da lágrima.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Almoço na Relva

Sentados sobre a relva
dependentes do chão, presos
da flor que mal nasce
morre, na brisa das árvores
pousados como pássaros
dádiva do alto cume azul
enchem os olhos da fragrância
de um corpo desnudado
eles discretos senhores
que conversam
e esperam que o crepúsculo caia
como véu da tarde.

18-1-2011

sexta-feira, julho 09, 2010

As paisagens dramáticas de Turner

Uma breve écfrase à poética da sua pintura
***
Diz-se que Turner interpretou na tela todos os temas de uma forma épica. Diz-se que começou como pintor topográfico e pouco a pouco foi se inclinando para as paisagens, principalmente as marinhas. Escreveu-se dom de transfiguração poética, liberdade de composição, violência tonal (nos tons) para a fase final da sua obra, talvez a mais impressionante e universalmente conhecida.

A verdade é que ao transportar para as suas obras toda uma visão épica, uma minúcia dos topoi, e todo o seu ponto de vista sobre as cenas marítimas, Turner usou sobretudo a dramaticidade dos confrontos, da luz / sombras; calmaria / tempestades; céus prontos para acolher anjos ou demónios, consoante o dramatismo ou o lirismo das suas cores.

Não há estados melancólicos nos seus quadros, nem mesmo nos mais figurativos e livres do clima da aspereza e da tormenta. Paisagens carregadas de dramatismo, colorismo dramático, paisagens com um drama romântico que o próprio romantismo literário utilizou na poesia, embora estivesse a surgir o Realismo, a Revolução Industrial e o Romantismo prestes a ser sepultado.

Um realista? Sim, quando nos conduz ao cerne das tempestades marítimas, por exemplo, mas a sua paleta e a textura arrebatadora da conjugação das suas cores, sob a luz e as sombras, já prenunciava o Impressionismo; a fealdade bela de alguns dos seus quadros, porventura leva-nos um pouco mais longe, até ao expressionismo. E a aplicação da luz sobre as coisas, sejam os elementos da natureza, do céu e do mar, dos barcos ao trem a vapor, do Grand Canale calmo às tormentas, e o amálgama que disso tudo fez com a fulguração das suas cores misturadas e já sem formas definidas o colocaram sob a perspectivação do abstraccionismo avant la lettre, que, disseram críticos de arte, veio a surgir nas formas e nas cores fundidas, como nas obras de Kandinsky e de Paul Klee.

Nas telas de Turner, que nos colocam diante da rudeza dos elementos naturais, os seus redemoinhos não são de água, nem de ventos, são de luz, assim toda a teoria anterior da paisagem convencional estava subvertida. Não haveria já lugar para a mimésis aristotélica, mas para a criação pura e simples de algo novo, a que o vocábulo hebraico “bara” serviria, não fosse o exagero do seu uso neste caso. William Turner foi um intérprete das atitudes agónicas, não se pode afirmar que as suas interpretações pictóricas não sofram de passionalidade. Turner pintou a exaltação da natureza, no que ela tem de mais agreste e de mais anti-paixão.

Foi essencialmente um poeta da cor, dos confrontos entre luz e sombras (não trevas), um poeta das tempestades. Não pintava formas, mas estados de cor, atmosferas exteriores da natureza, névoas com conteúdos.


Publicado como inédito em http://ab-integro.blogspot.com/

quinta-feira, abril 22, 2010